Repositório RCAAP
Fazer uma obra no tempo
Mostramos que uma imagem, a partir do momento em que é captada pelo aparelho psíquico, é sempre tomada em um tempo não cronológico, mas anacrônico, que é a temporalidade própria à memória tal como Freud a definiu. A imagem no tempo psíquico e visual é uma imagem-traço, que drena para si as ínfimas partículas da realidade que servirão de ponto de passagem entre o dentro e o fora. Fazer uma obra é tomar algum tempo e modificá-lo pela forma plástica/estética. Quando o sujeito faz uma obra, ele capta e, ao mesmo tempo, se refaz daquilo que fez traço (no sentido do traço mnésico), ele se apropria pela sensação (estética) dos acontecimentos de sua história. A criação é um processo de tempo, de futuro, logo, de presente. A imagem é projeção para um porvir que traz consigo os traços do passado. Ela faz face a um novo ponto de vista, a novas imagens.
2010
Masson,Céline Czermak,Sabira de Alencar
A caverna: um retrato literário da inserção do sujeito no emergente modelo de produção moderno
O presente texto realiza uma leitura da obra A caverna, de José Saramago, buscando a interface dessa produção com questões concernentes à Psicologia. Mais especificamente, a relação entre o trabalho e sua influência no processo de produção de subjetividades. Com base na realidade literária retratada, o ensaio levanta questões relativas ao advento da Modernidade (período histórico em que a narrativa se passa); a inserção do sujeito nessa nova época, caracterizada pelo modelo industrial de produção; e seu estabelecimento como modo de vida predominante das sociedades modernas. O cenário de transição para uma nova ordem social contextualiza o drama da família Algor. Além disso, aborda as metamorfoses sofridas pelo trabalho e que são impostas ao trabalhador, em virtude da organização sócio-histórica então emergente.
2010
Xavier,Monalisa Pontes Aquino,Cássio Adriano Braz de Miranda,Luciana Lobo
Distinção teórico-clínica entre depressão, luto e melancolia
Este artigo aborda os principais aspectos da depressão, na contemporaneidade, visando distingui-la do luto e da melancolia. Para isso, tomamos como eixo teórico a noção, por nós postulada, de crença narcísica (objeto por excelência do tipo de sintoma depressivo aqui abordado). Procuramos demonstrar que a presença hegemônica da crença narcísica na subjetivação pode levar a uma forma de reação à perda que se distingue tanto do luto quanto da melancolia. Este tipo de depressão apresenta-se como uma das principais formas de sofrimento psíquico que aparecem na clínica psicanalítica contemporânea.
2010
Pinheiro,Maria Teresa da Silveira Quintella,Rogerio Robbe Verztman,Julio Sergio
Voz no amor
O que o amor deve à constituição pulsional? Em especial, o que deve o amor à voz como objeto causa de desejo? A ligação dos objetos pulsionais ao amor é clara. A expressão tão batida "amor à primeira vista", por exemplo, já insinua o vínculo do amor com o olhar. Qual o lugar da voz, como objeto da pulsão invocante, no amor? Se as relações íntimas do amor com as pulsões são inegáveis, elas não deixam de ser complexas como Freud advertiu, mostrando que o amor não se equipara ao campo das pulsões, visto que não compartilha com elas a parcialidade, mas, ao contrário, expressa a aspiração sexual total. A voz, como um objeto que se apresenta desde o início da vida, é central no amor e, como causa de desejo, nele incute a qualidade compulsiva.
2010
Rudge,Ana Maria
Autoestima como expressão de saúde mental e dispositivo de mudanças na cultura organizacional da polícia
O presente artigo focaliza parte de uma pesquisa-ação com policiais civis do Rio de Janeiro. O objetivo foi problematizar como a autoestima e a saúde mental desses profissionais afetam e são afetadas pela cultura organizacional da polícia. Buscou-se demonstrar que o resgate da autoimagem pode agir como ferramenta eficaz de mudanças na vida pessoal e profissional desses profissionais e da própria instituição. Para isto, foram aplicados questionários e técnicas qualitativas em 148 policiais (76 no Grupo Experimental e 72 no Grupo Controle) antes, durante e após a intervenção. Conclui-se que a pesquisa foi uma contribuição importante em nossa realidade, constituindo uma intervenção sistematizada com policiais.
2010
Andrade,Edson Ribeiro de Souza,Edinilsa Ramos de
Juventudes, subjetivações e violências
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2010
Barros,Maria Theresa da Costa Aranha,Stela Luiza de Moura
As mulheres desejam o poder?
A intenção deste ensaio é pensar nas relações entre a mulher e o poder, no Ocidente, indicando a leitura psicanalítica sobre isso, a partir de um comentário inicial sobre a última eleição no Brasil.
2011
Birman,Joel
Afinal, o que querem as mulheres?
No Brasil e no mundo, as mulheres avançaram consideravelmente em vários setores. Este avanço se deu sempre na busca pela igualdade. Entretanto, como sugerem as pesquisas, este avanço não se deu na medida desejada. Ainda que sejam tão empreendedoras quanto os homens (e em algumas modalidades até mais do que eles), possuam uma média de anos de estudo maior, trabalhem mais e estejam com autoestima elevada, as distâncias a serem vencidas ainda são consideráveis. Além disso, elas continuam almejando um ideal romântico de parceiro, casamento para toda a vida, filhos e família. Neste contexto, a pergunta título me parece deslocada, com as dificuldades encontrando-se justamente na resposta, já que os homens não legitimam estes "quereres", e nem se mostram preparados a ponto de escolherem uma parceira que lhes seja igual. Considerando a autonomia de nossos quereres, nascidos de dinâmicas internas ao gênero ao qual pertencemos e condicionados pela sociedade e pelas mudanças que nela ocorrem, talvez a indagação mais adequada seja: "Afinal o que nós, homens e mulheres, queremos hoje?".
2011
Barbosa,Livia
Afinal, o que quer a mulher brasileira?
Neste texto, discuto o papel do corpo como uma importante forma de capital (físico, simbólico e social) na cultura brasileira. Busco revelar os traços distintivos de uma cultura em que o corpo é um elemento crucial na construção de uma identidade nacional. Podese afirmar que, no Brasil, o corpo é um capital, talvez o mais desejado por indivíduos das camadas médias urbanas e também das camadas mais baixas. Isto decorre, provavelmente, da percepção do corpo como um veículo fundamental para a ascensão social, sendo capital relevante nos mercados de trabalho, casamento e erótico.
2011
Goldenberg,Mirian
Mulheres empreendedoras: o desafio da escolha do empreendedorismo e o exercício do poder
Este trabalho pretende fazer uma reflexão sobre a relação das mulheres com o poder. Isto é feito embasado em uma síntese de observações realizadas em diferentes estudos sobre o empreendedorismo feminino. Tendo em vista o desafio da escolha do empreendedorismo, analisa-se as motivações das mulheres para empreender, as consequências e as dificuldades enfrentadas, além das estratégias utilizadas para lidar com as demandas vinculadas à multiplicidade dos papéis femininos. O exame das características de liderança, observadas em empreendedoras, revela que elas tendem a construir redes sociais e a exercer o poder com os outros e não sobre os outros. Além disso, no comando de seus empreendimentos sociais, evidencia-se que as mulheres exercem o poder em prol de mulheres, objetivando empoderá-las e promover sua inclusão profissional e social. Com isto, provocam significativas mudanças sociais, econômicas e culturais.
2011
Jonathan,Eva G.
Pânico, personalidade fóbica, desamparo e masoquismo: articulações psicanalíticas
Neste estudo apresentaremos uma leitura psicanalítica do pânico fundamentada em três operadores conceituais: personalidade fóbica, desamparo e masoquismo. Propostos por autores nacionais que têm prestado importantes contribuições para a compreensão dessa modalidade de sofrimento psíquico, os referidos operadores foram selecionados por se alinharem à perspectiva da dimensão subjetiva. Para isto, empregaremos material clínico de uma paciente que preenchia os critérios diagnósticos para transtorno de pânico. À luz desse material, o pânico será enquadrado entre as psicopatologias da atualidade. Além disso, serão discutidos aspectos psicopatológicos centrais dessa modalidade de sofrimento psíquico, salientando sua natureza multifacetada.
2011
Zanetti,Eloisa Serpa Peres,Rodrigo Sanches
Relacionamento conjugal e transição para a coparentalidade: perspectiva da psicologia positiva
Este ensaio teórico-prático aborda a transição do sistema conjugal para a coparentalidade, além das implicações clínicas para a psicoterapia segundo a Psicologia Positiva. A coparentalidade engloba funções de cada membro do casal que se estendem além do âmbito biológico. Ela constitui-se em um rearranjo psíquico complexo que ocorre internamente e no espaço psicossocial. A transição de papéis é um processo considerado como crise situacional, pelo ajustamento às novas condições, podendo trazer repercussões no relacionamento conjugal. O acompanhamento terapêutico pode ser um auxílio para uma melhor vivência nesta fase de reorganização. Neste contexto, encontra-se a Psicologia Positiva, que enfatiza os recursos e aspectos saudáveis dos que procuram atendimento. Entre os aspectos que podem surgir em terapia estão a mudança de relação com as famílias de origem, o aumento de interesses ou busca de novas possibilidades profissionais dos cônjuges e a coparentalidade em si mesma.
2011
Prati,Laíssa Eschiletti Koller,Sílvia Helena
Os afetos do analista na obra freudiana
Este artigo tem como objetivo discutir a posição de Freud quanto ao lugar dos afetos do analista na clínica psicanalítica. Isto será feito através da verificação de escritos técnicos, nos quais se depreende uma distinção entre atuação da contratransferência e sua elaboração (dois destinos possíveis para o afeto do analista). Além disso, busca-se apresentar uma análise hermenêutica do termo alemão bewältigen. Este é empregado por Freud para se referir, neste contexto particular, à atividade do analista diante da contratransferência. Este termo é traduzido por "sobrepujar" no artigo "As perspectivas futuras da terapêutica psicanalítica". Por fim, hipotetiza-se, com base nessas considerações, que o texto freudiano dá margem a uma perspectiva positiva quanto à afetividade do analista na experiência psicanalítica.
2011
Andrade,Ana Bárbara de Toledo Herzog,Regina
Aspectos relacionais da depressão: o conceito de "honorável fachada" em dois casos clínicos
O presente estudo investigou os aspectos relacionais da depressão através do conceito de "honorável fachada". Participaram do estudo duas famílias, cujas mães apresentavam diagnóstico de depressão pós-parto e foram atendidas em Psicoterapia Breve Pais-Bebê. A análise dos conteúdos manifestos e latentes buscou identificar evidências empíricas do conceito da "honorável fachada" a partir dos eixos parentalidade e conjugalidade. Em relação à parentalidade, as evidências revelaram uma tendência à parentalização dos filhos mais velhos, pelo menos em uma das famílias. Entretanto, não houve relatos de dificuldades no cuidado com o bebê. Quanto à conjugalidade, havia expectativas excessivas em relação ao cônjuge, que funcionava como porta-voz na terapia e, ao contrário do esperado, intensos conflitos conjugais. As evidências encontradas são discutidas examinando-se as vantagens e limitações do uso do conceito da honorável fachada em diferentes transtornos depressivos.
2011
Frizzo,Giana Bitencourt Prado,Luiz Carlos Linares,Juan Luiz Piccinini,Cesar Augusto
A psicanálise aplicada ao sintoma: uma resposta ética aos impasses enfrentados pelos psicanalistas na atualidade
O presente artigo aborda a psicanálise aplicada em uma época de avanço do discurso capitalista, favorecedor da crescente especialização do conhecimento e promotor, no meio clínico, de uma fragmentação das grandes categorias diagnósticas. Disso resulta uma predominância de instituições cada vez mais especializadas e segregativas. Diante da massificação da terapêutica e da crescente burocratização dos procedimentos técnicos colocados em jogo, repletos de medidas avaliativas, os autores propõem a psicanálise aplicada como prática que viabiliza a inserção da psicanálise em instituições de saúde sem dissolvê-la no variado campo das psicoterapias. A formação do analista e o sintoma são considerados eixos articuladores das dimensões epistemológica, ética e política da psicanálise aplicada. Esta é considerada, a partir da orientação lacaniana, uma saída ética para os psicanalistas, confrontados com as novas demandas do mundo contemporâneo.
2011
Cruz,Alexandre Dutra Gomes da Ferrari,Ilka Franco
Laços mal-atados como efeito de funcionamento falso-self em tempos de desconfiança
A contemporaneidade contempla formas de estruturação da subjetividade amplamente perpassadas por condições de existência socioculturais e econômicas. Estas, por sua vez, têm promovido laços intersubjetivos frágeis, cujo funcionamento psíquico pode ter uma organização de base "falso-self". Autores também demonstram que diversas instituições atuais se tornaram "fluidas" na passagem da modernidade para a "modernidade líquida". Isto contribuiu para a perda de referências sólidas que, outrora, davam sentido e direcionamento para o ser humano. Em decorrência há uma interferência direta na construção da "confiança madura", visto que os sinais de angústia da contemporaneidade podem ser um desorganizador do funcionamento psíquico, além de promoverem o isolamento, a desconfiança no ambiente e no outro, laços mal-atados e funcionamentos de base "falso-self".
2011
Zanetti,Sandra Aparecida Serra Gomes,Isabel Cristina
Participação de famílias no Grupo Multifamiliar de adolescentes ofensores sexuais: vergonha e confiança
Trata-se de uma pesquisa qualitativa a respeito da participação de famílias em um Grupo Multifamiliar (GM) com adolescentes ofensores sexuais. A eficácia do GM é reconhecida, pois diminui os índices de reencarceramento e de recidiva de atos infratores. Foram avaliadas sete famílias do GM, através de uma entrevista realizada com as mães ao final da última sessão do GM. A análise de conteúdo das entrevistas configurou três zonas de sentido: (1) a experiência de participar do GM; (2) enfrentamento do tema da violência sexual; (3) as mudanças ocorridas nas interações familiares. A partir desta análise, observamos a ocorrência de mudanças nas relações familiares, apesar da dificuldade e do sofrimento em discutirem esta temática. Por fim, foi verificado que a intervenção em grupo contempla a dimensão do sofrimento de todos. Além disso, favorece a aproximação afetiva, ameniza o contexto de punição ao adolescente, a vergonha e o isolamento da família e do adolescente em relação à comunidade e à família extensa.
2011
Costa,Liana Fortunato
Matrizes clínicas e ética em Freud
O presente estudo hipotetiza que as diferentes matrizes clínicas que Freud encontrava em sua prática, e que lhe possibilitavam acréscimos teóricos, direcionaram seus distintos olhares sobre a cultura, fazendo-o privilegiar alguns elementos éticos em detrimento de outros. Desse modo, indicaremos: (1) como a histeria gerou a questão do conflito entre sexualidade e moral na civilização; (2) como a neurose obsessiva possibilitou a entrada dos temas da agressividade e do ódio como entraves contra os quais a cultura se esforça por lutar, assim como a presença marcante no psiquismo da consciência moral e do sentimento de culpa; (3) por fim, como as ditas afecções narcísicas trouxeram a Freud o papel do egoísmo e da destrutividade como inimigos da cultura. Nesse percurso nos aproximaremos das questões ligadas à problematização ética na "psicologia" freudiana e, a partir daí, do destaque que terá a dimensão moral na concepção freudiana do sujeito.
2011
Vahle,Marina de Andrade Cunha,Eduardo Leal
"A comida como objeto de pesquisa": uma entrevista com Claude Fischler
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2011
Goldenberg,Mirian
Por que "essas mulheres" têm tantos filhos? Um estudo sobre mulher, maternidade e pobreza
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2011
Pinho,Gabriela Salomão Alves