Repositório RCAAP

Samatradução: a dança num exercício de tradução do gazal de Jalal Uddin Rumi

Apresentamos neste trabalho nove gazais de Jalal Uddin Rumi (1207-1273), fundador da Ordem dos Dervixes Rodopiantes de Konya, na Turquia, traduzidos diretamente do persa para o português a partir de uma perspectiva interdisciplinar que envolve História, Dança, Literatura e Tradutologia. Temas centrais da sua poesia, como raqs (dança) e samá (audição), são tomados pela problemática da fusão de seus significados, realizada pelos estudiosos e tradutores. Retoma-se o contexto histórico peculiar de emergência, reiteração e atualização semântica dos termos, pautado pelo debate islâmico sobre a música e a dança, tanto em âmbito secular como religioso, sobretudo entre os séculos IX e XIV. Os autores envolvidos nesse debate discorreram sobre a diferenciação entre dança e audição mística e, a partir da defesa de Alghazali (1058-1111), um novo sentido foi conferido à dança e pautou a sua licitude até o nosso tempo, embora com retrocessos e restrições que variaram conforme o local e a época. Aqui examinamos a noção e terminologia específica utilizada por Rumi em seu diálogo poético com os autores do debate, propondo uma metodologia tradutória focada na metáfora da dança e sensível ao processo da audição mística.

Ano

2017

Creators

Leandra Elena Yunis

A tradução escrita: sistema estendido de transposição ortográfica do árabe padrão morderno para o português brasileiro

Esta tese trata da transposição ortográfica de elementos morfossintáticos do árabe padrão moderno (APM) para o português brasileiro (PB) e constitui uma continua-ção de nossa dissertação de mestrado (Sano, 2011). Nesse trabalho anterior, trata-mos da transposição ortográfica de consoantes no mesmo sentido (APM PB) e desenvolvemos um sistema de romanização com vistas à transcrição e à translitera-ção do APM, ou seja, uma romanização que permitisse recuperar tanto a fala (os fo-nemas) quanto a escrita (os grafemas) da língua de partida. Nesta etapa atual, utili-zamos esse sistema de romanização para analisarmos dois corpora (a gramática de Cowan e o resumo da referida dissertação), com o intuito de identificar os pontos a serem abordados por um sistema de romanização que trabalhe além do nível da pa-lavra. Após esse levantamento, atualizamos o sistema de romanização anterior-mente desenvolvido, agora com o escopo estendido para o nível frasal, e reescreve-mos ambos os corpora aplicando as modificações propostas.

Ano

2016

Creators

Walter Tsuyoshi Sano

Suhrawardī e a Metafísica das luzes

Šihāb ad-Dīn Abū l-Futūḥ Yaḥyā b. Ḥabaš b. Amīrak as-Suhrawardī (m. 587/ 1191) foi um filósofo oriundo do Curdistão iraniano e ativo em Alepo da Síria durante a regência de Ġiyāṯ ad-Dīn aẓ-Ẓāhir Ġāzī b. Ayyūb. Suhrawardī, sobretudo, é conhecido por seu livro Filosofia da iluminação (Ḥikmat al-išrāq/حكمت الاشراق). O objeto deste trabalho é o que consideramos a contribuição mais original de Suhrawardī, em sua Filosofia da iluminação, à história das ideias: seus argumentos em favor de uma metafísica das luzes. No século VI/XII, a maior parte dos filósofos no mundo islâmicos e dividiu entre os que partilhavam os pontos de vista de Ibn Sīnā (Avicena) no domínio da filosofia e aqueles que discordavam de seu sistema filosófico. Suhrawardī rejeita parte do consenso existente entre os apoiadores de Ibn Sīnā, mas sem ser um antiaviceniano - antes, ele pode ser compreendido como um aviceniano revisionista. Ou seja, mesmo que algumas conclusões de Suhrawardī se afastem de Ibn Sīnā, a filosofia deste último permanece na base da Filosofia da Iluminação. Se Suhrawardī é caracterizado tanto por suas críticas ao peripatetismo aviceniano como por sua apropriação do mesmo, não se trata, pois, de um meio para refutar o peripatetismo ou o avicenismo; antes, trata-se de um esforço em subsumir a filosofia aviceno-peripatética no quadro da metafísica das luzes. O propósito desta tese é compreender o porquê de Suhrawardī ter declinado de parte dos pontos consensuais defendidos por seus predecessores e contemporâneos (os \"peripatéticos e seus seguidores\") e como sua crítica e seus argumentos se relacionam com outras abordagens críticas sobre problemas dificultosos na filosofia pós-aviceniana. Isso será efetuado por meio de uma análise da Filosofia da iluminação. Primeiramente, contextualizamos Suhrawardī e, então, apresentamos a recepção de seu pensamento no meio islâmico e na literatura orientalista. A seguir, propomos nossa própria categorização do corpus de Suhrawardī, formulando a hipótese de a Filosofia da iluminação ser uma obra pedagógica. Em seguida, sublinhamos os conceitos básicos que, na Filosofia da iluminação, informam os argumentos de Suhrawardī contra as fundações da metafísica dos \"peripatéticos\". Entrementes, apontamos as questões que Suhrawardī discorda do procedimento \"dos peripatéticos\". A seguir, apresentamos como, numa estrutura fundacionalista, \"manifestação\" é a fundação de sua metafísica, a ciência das luzes. Ponto crucial, Suhrawardī estabelece \"apreensão da essência\" como a realidade de manifestação em sua perfeição, isto é, como luminosidade pura e despida. Finalmente, a partir dessa fundação, analisamos as doutrinas metafísicas presentes na Filosofia da iluminação, dando atenção às premissas dos argumentos e como eles estão fundamentados nos conceitos básicos e nas ideias sublinhadas ao curso de nossa tese. Deve-se salientar que, ademais, a maioria dos estudos anteriores sobre Suhrawardī não discutiu a Filosofia da iluminação como um todo e uma unidade; eis aí um desiderato abordado na presente tese.

Ano

2020

Creators

Mateus Domingues da Silva

Entre o cânone e o vernáculo: um estudo de caso da diglossia no Líbano

Ferguson descreveu, em 1959, o contexto sociolinguístico do mundo árabe como um quadro clássico de diglossia, onde duas variedades linguísticas geneticamente aparentadas convivem em distribuição complementar dentro de uma comunidade, sendo que uma destas variedades é tida como elevada, culta e proveniente de uma longa tradição gramatical, enquanto a outra é tida como baixa, impura e inapta para exprimir conceitos complexos. O objetivo desta dissertação é responder se ainda nos dias atuais podemos falar de uma variedade dialetal local e uma variedade pan-árabe culta, o Árabe Padrão Moderno (APM), como unidades linguísticas estanques, discretas, incomunicáveis e independentes. Para tal, analisa-se uma entrevista televisiva com o escritor libanês Amin Maalouf feita pela escritora e jornalista libanesa Karen Boustani. Dessa entrevista apreenderam-se trechos que continham traços linguísticos fonético-fonológicos, morfo-sintáticos e léxico-semânticos ora característicos da variedade local libanesa, ora do APM. Em posse desses resultados, pudemos constatar que o corpus constitui um exemplo de texto num registro linguístico intermediário, contendo traços tanto do dialeto libanês quanto do APM e que demonstra um campo de contato entre as variedades tidas como independentes e estanques por Ferguson.

Ano

2016

Creators

Pedro Daibert Machado Tavares

Qaqun: história e exílio de um vilarejo palestino destruído em 1948

Este trabalho investigou o que aconteceu em 1948 na aldeia palestina de Qaqun. Para tanto, apresentou o contexto histórico em que se inseriu a transformação do vilarejo à época, bem como conceitos e documentos que possibilitassem essa compreensão. Recorreu à história do vilarejo e à memória de seus habitantes, além de fotos, mapas, documentos e duas entrevistas, uma delas com Ilan Pappé, um dos denominados novos historiadores israelenses. Com base nas pesquisas, foi possível observar que os habitantes de Qaqun saíram de suas terras e propriedades mediante métodos planejados para forçar sua expulsão. Esses acontecimentos se enquadram em definições sobre limpeza étnica, inclusive à dada pela Organização das Nações Unidas, também apresentada neste trabalho. As pesquisas e estudos realizados apontam a importância do reconhecimento histórico do que aconteceu em Qaqun e em outras aldeias palestinas para que esses acontecimentos não mais se repitam e se alcance uma solução justa para a chamada questão palestina. A pretensão não foi esgotar o tema, mas contribuir nesse sentido, para que mais pesquisas sejam feitas.

Ano

2013

Creators

Soraya Misleh de Matos

Do tempo e do aspecto entre o árabe e o português

Esta tese investiga a expressão do Tempo e do Aspecto nas línguas árabe e portuguesa, a fim de estabelecer uma discussão de como as duas formas que compõem o seu sistema verbal - /almāḍī/ e almuḍāriᶜ/, aqui denominadas perfectivo e imperfectivo, respectivamente -, podem ser representadas no português do Brasil. O método de análise partiu da leitura e tradução do texto tomado como corpus, o conto \"O tapete persa\" de Hanan Aššayḫ, seguidas da identificação das formas verbais a serem analisadas, para lançar uma proposta de tradução de acordo com a divisão temporal do quadro do sistema verbal do português. Foi feita, para cada tempo (ou modo) que traduziu as formas árabes, uma discussão da decisão, levando em conta o contexto, sua interpretação temporal/aspectual, e, também, a Aktionsart de cada item verbal. O que se descobriu nesta pesquisa coincidiu com as conclusões apontadas nos trabalhos discutidos, como Cuvalay-Haak (1997), Holes (2004) e Bahloul (2008), sobre a língua árabe de que o perfectivo é mais comumente empregado na indicação de tempo passado, em ambientes neutros, onde outras interpretações não são possíveis, e, ao mesmo tempo, o aspecto perfectivo. O imperfectivo comporta-se semelhantemente ao tempo flexional presente do português e expressa o tempo simultâneo ao momento da fala, o futuro, o passado ou não apresenta nenhuma ligação com o tempo; pode ainda ser traduzido pelas três formas nominais, quando em perífrase. Na área aspectual, expressa o imperfectivo com verbos durativos ou, com verbos pontuais, o perfectivo ou o iterativo; precedido do verbo ﮐﺍن /kāna/ indica a continuidade do evento no passado, com uma leitura de situação habitual ou iterativa; ocorre, também, com ﻤﺎ ﺯﺍﻝ /mā zāla/ para indicar a continuidade no presente.

Ano

2016

Creators

Suely Ferreira Lima

Pelos caminhos de São Paulo: a trajetória dos sírios e libaneses na cidade

Este estudo trata da mobilidade dos imigrantes sírios, libaneses e descendentes pela cidade de São Paulo. Ao chegarem ao município, a partir do final do século XIX, eles se dirigiram para a rua 25 de Março e adjacências, onde, a princípio, moravam e trabalhavam. À medida que progrediam e com a entrada de mais imigrantes da etnia, iniciou-se uma dispersão para outras áreas da cidade, o que não significou uma saída da 25 de Março e entorno. Esse movimento ocorreu, principalmente, em direção aos bairros do Paraíso, Vila Mariana, Brás e Ipiranga. Para compreender esta dinâmica, fundamentou-se a análise na história de São Paulo e da imigração síria e libanesa, nos conceitos de identidade, cotidiano, memória e no estudo do constante processo de mudanças e permanências ocorridas. Além da pesquisa bibliográfica e documental, realizou-se uma pesquisa participativa que incluiu o levantamento do comércio e das instituições culturais na área da 25 de Março e do Brás; das residências da família Jafet, no Ipiranga; e dos equipamentos culturais, no Paraíso e Vila Mariana. Também foram feitas dezessete entrevistas de história oral temática. A perspectiva de análise utilizada e a realização de uma ampla pesquisa de campo deram uma característica inovadora ao estudo e permitiram a compreensão dos caminhos trilhados pela etnia em São Paulo.

Ano

2013

Creators

Juliana Mouawad Khouri

Entre leões e tigres, entre chacais e raposos: aproximações entre poder e saber em fabulários

A presente dissertação se propôs a analisar quatro fabulários, tendo como fio condutor dessa escolha o Kalla e Dimna, fabulário árabe do século VIII d.C. Partindo desta obra, os estudos se orientaram tanto às suas origens, que remontam à compilação indiana Pañcatantra, datada do século I d.C. e que teve entrada no mundo árabe, bem como aos seus frutos, o Livro do tigre e do raposo e O leão e o chacal Mergulhador, dois fabulários árabes produzidos, respectivamente, nos séculos IX d.C., XI d.C. e XII d.C. e que tiveram, em relação aos anteriores, menor disseminação. Os dois primeiros fabulários tratam de uma série de temas que podem atender às normas mais gerais de decoro na sociedade, sendo que o Pañcatantra chega até mesmo a ser classificado como um tratado sobre a conduta em manuais de literatura sânscrita. Entre esses temas diversos, é notável o espaço privilegiado dado às relações políticas e aos seus trâmites. Os outros dois livros, embora inseridos na mesma tradição, deixam de lado aspectos mais gerais da convivência e passam a se deter apenas nos temas especificamente políticos. No que se refere a esse assunto em comum, é possível perceber uma série de elementos recorrentes nos quatro fabulários, entre eles, o fato de que todos tratam das vicissitudes das relações entre poder e saber, personificada em personagens-tipo que ora se aproximam, ora se afastam, mas que se mantém atrelados a uma estrutura que os molda conforme os resultados que almeja atingir. Além disso, foram estudadas as estruturas que, no caso, se apoiam na maior parte das vezes em narrativas-quadro ou prólogos-moldura a partir dos quais se desenvolvem subnarrativas e outros elementos que nos possibilitaram, ao término do estudo, apontar o que há de particular na universalidade a que se propõem os fabulários.

Ano

2015

Creators

Milena de Mello Cassucci

Se tivéssemos armas: duas estratégias narrativas diante da libertação nacional no Egito

Este trabalho enfoca dois romances egípcios traduzidos para o inglês: City of Love and Ashes, de Yusuf Idris, escrito em 1955 e publicado em 1956, e War in the Land of Egypt, de Yusuf al-Qa\'id, escrito em 1975 e publicado em Beirute em 1978. Ao tematizar a libertação nacional no centro da ação do enredo, ambos veicularam críticas ao regime militar instalado após o golpe de junho de 1952, mas por caminhos distintos. Enquanto a obra de Idris apresenta um enredo otimista que dispensa o exército e assim constitui uma espécie de história alternativa, o texto de al-Qa\'id levanta um ataque frontal às instituições estatais do país, mas termina por reforçar sua presença e mandato. A comparação dos dois romances expõe a complexidade política crescente que a existência prolongada do exército no poder representou para a intelectual crítica egípcia.

Ano

2015

Creators

Luiz Gustavo da Cunha Soares

Trajetórias migratórias e construções identitárias de palestinos em Santa Catarina

A trajetória dos imigrantes palestinos em Santa Catarina esteve marcada por redes sociais de solidariedade étnica e familiar. Dessa forma, em todo seu percurso, as questões identitárias estiveram fortemente presentes nessa imigração caracteristicamente autônoma, sem qualquer auxílio estatal, e urbana. Os vínculos familiares, étnicos e religiosos, forneceram os alicerces para inserção econômica e social, assim como para comunidades locais e associações entre imigrantes. Intimamente associada a este processo, a Questão Palestina se fez presente durante toda trajetória desses palestinos tanto como indivíduos, como parte de uma coletividade ligada a essa questão. Fortemente marcada na memória individual e coletiva, está a expropriação e/ou a ocupação da terra habitada por eles e/ou por seus familiares mais próximos, que os afeta de diversas maneiras (social, cultural, politica e economicamente), particularmente no que se refere às causas da emigração. Associável sempre a todos, entretanto, está o pertencimento a uma coletividade cuja identidade está em questão em muitos lugares do mundo. A busca pela emancipação de seu torrão natal torna-se assim um dos elementos fundamentais de sua identidade, que por sua vez se torna uma ferramenta indispensável para manutenção do direito de retorno daqueles que foram expulsos e de seus descendentes, como também contra a expulsão daqueles que lá permanecem. A inserção numa cultura diferente, bem como em outra realidade socio-política, trouxe mudanças e dilemas em relação aos hábitos e a própria autodefinição. Diante dessa realidade, a etnicidade foi mantida através do vínculo com a causa palestina, a família, a religião e a comunidade de imigrantes. Entretanto, o apego aos costumes e as tradições entre os palestinos em Santa Catarina não os fez menos brasileiros em sua visão, pois ao mesmo tempo incorporaram a nacionalidade brasileira a sua própria maneira.

Ano

2013

Creators

Gabriel Mathias Soares

Elixir dos Gnósticos: a existência da alma humana em Mullā Ṣadrā

Figura-chave da chamada \"Escola de Isfahān\", Mullā Ṣadrā (979 H. / 1571-2 d.C ) ocupou papel de destaque durante a renascença safávida do reinado de Abbās I (d. 1039/1629). Acredita-se ter sido ele o principal responsável por revitalizar a filosofia da iluminação de Sūhrawardi naquele contexto, além de consolidar a junção entre sufismo e neoplatonismo. Foi responsável, ainda, pela elaboração de metodologia própria para a compreensão da realidade, tendo por base fontes filosóficas, teológicas e místicas, além de mesclar raciocínio lógico, inspiração espiritual e meditação profunda. Ṣadrā aplicou tal metodologia às principais obras da tradição xiita duodécima. Do ponto de vista filosófico, Ṣadrā percebe o conceito aristotélico de \"substância\" como processo, em constante mudança; nesse aspecto, o filósofo aproxima-se da leitura de traço neoplatônico, já presente em al-Fārābī e Ibn Sīn&#257. O modo como Ṣadrā relaciona as noções de \"essência\" e \"existência\" deu novas feições à discussão metafísica de tradição árabe-islâmica. Em sua doutrina, Ṣadrā acaba por transformar a metafísica construída a partir da primazia das substâncias, como elemento primordial da existência, em outra, fundada e movida por atos de existência. Apesar de perpassar esses e outros temas, a principal contribuição d\'O Elixir dos Gnósticos diz respeito à ênfase do autor no autoconhecimento. Como Ibn Ἁrab&#299, Ṣadrā acredita que o conhecimento da alma / nafs - ou seja, o conhecimento de si mesmo - e o conhecimento de Deus estão interligados. Por esse motivo, o presente trabalho se preocupou principalmente em analisar a relação entre os existentes, a alma e a inteligência primeira, pois é a partir dessa relação que se tornar possível vislumbrar e compreender as questões fundamentais da origem e do retorno à fonte doadora de existência. Do ponto de vista histórico, vale destacar que à fundação do império safávida acompanhou-se a conversão em massa da população ao xiismo. Para responder à demanda por instrução da multidão de novos convertidos - e igualmente firmar as bases da nova religião oficial -, grande número de religiosos foi trazido de áreas xiitas respeitadas pela doutrina e pela ortodoxia, tais como Líbano e Iraque. Esse clero árabe recém chegado, que teve Ṣadrā como herdeiro, foi responsável por incorporar novos elementos ao pensamento religioso vigente em terras persas e, assim, conformar ambiente propício para o desenvolvimento do pensamento filosófico de Ṣadrā.

Ano

2014

Creators

Nathalia Novaes Alves

Êxtase, poesia e dança em Rumi e Hafiz

O êxtase místico costuma ser estudado a partir da análise de rituais de incorporação, possessão de espiritos, transe de curanderia e outros processos que não raro envolvem música para propiciar estados alterados de consciência. Considerando que os rituais sufis integram música, dança e poesia com propósito extático, este trabalho aborda a relação entre a poesia e a dança mística em Rumi e Hafiz, propondo uma metodologia que utiliza noções de linguagem da dança para a análise de poemas.

Ano

2013

Creators

Leandra Elena Yunis

Almasᶜūdī e o método do Adab histórico-geográfico

Este é um estudo sobre a atividade intelectual do polímata iraquiano Almasᶜūdī, que viveu na primeira metade do século 4 H./10 d.C. Como um autor consagrado da literatura árabe, ele escreveu sobre história, geografia, filosofia, jurisprudência, teologia e muitos outros assuntos. Contudo, apenas duas de suas obras chegaram aos dias atuais: Murūj Aḏḏahab wa Maᶜādin Aljawhar (Pradarias de Ouro e Minas de Pedras Preciosas) e Kitāb Attanbīh wa Al’išrāf (Livro da Advertência e da Revisão). A partir delas, esta pesquisa identifica e descreve as características do pensamento do autor e suas contribuições principais para cada um dos campos de conhecimento que ele explorou - no caso, a historiografia, a geografia e o adab, além de concepções gerais de método e epistemologia. Tais ideias são apresentadas aqui tanto contextualizadas no estado de desenvolvimento em que essas áreas estavam na época, como conforme suas ocorrências na obras remanescentes desse escritor.

Ano

2020

Creators

Pedro Martins Criado

A imaginação no Livro da Alma de Ibn Sin

O presente trabalho tem como objetivo investigar a importância da potência da imaginação no Livro da Alma de Ibn Sin, filósofo e médico persa que escreveu suas obras em língua árabe no séc. XI d.C. Nessa obra Ibn Sin aborda seu entendimento da alma humana e de sua relação com o mundo, compreendendo-a como dotada do que ele nomeou de sentidos internos, potências da alma que completam a percepção. Dentre essas potências, a imaginação se destaca por ser capaz de uma conexão com o mundo invisível, através da qual ela recebe a impressão de formas presentes nas imaginações das esferas celestes. Se trata de uma visão cosmológica na qual a alma humana está integrada a um cosmos de onde deriva suas potências e, por isso, é capaz de conexões com formas de vida que independem de corpos. Graças a essas conexões a imaginação humana pode produzir sonhos que contém presságios e ser capaz de realizar a profecia. Assim, fenômenos aparentemente sobrenaturais ganham uma explicação anímica: sonhar com o futuro e realizar a profecia são possibilidades explicáveis pela própria estrutura da alma humana que são os sentidos internos. O léxico utilizado por Ibn Sin para pensar a potência da imaginação está ligado a um tipo de pensamento que se relaciona com as imagens: tais imagens são símiles das coisas sensíveis impressos na matéria onde a imaginação inere, o cérebro. Por isso, o elemento corporal não é excluído de suas reflexões; pelo contrário, o tipo de imaginação está diretamente relacionado com a constituição física (compleição) do indivíduo que imagina. Assim, a prática médica de Ibn Sin pode ser vista na sua análise das potências humanas, posto que o Livro da Alma é permeado por uma reflexão sobre o papel do corpo no desempenho das potências. A presente dissertação é portanto fruto de leitura e análise do Livro da Alma, especialmente das partes descritas sobre a imaginação, as quais se concentram no Capítulo 4, que trata dos sentidos internos.

Ano

2019

Creators

Marina Diel de Araujo

Pode entrar Meryl Streep! A ética da tradução em um romance de Rachid Daif

Este estudo consiste numa análise da tradução do romance Tistifil Miril Strib, de Rachid Daif, proposta por nós, do árabe ao português brasileiro. Com base no trabalho de Antoine Berman, A Tradução e a Letra, ou o Albergue do Longínquo, selecionaram-se decisões tradutórias que demonstrassem o nosso esforço em realizar uma tradução que levasse em conta o objetivo ético do traduzir, acolhendo o Estrangeiro que reside no texto original. Com essa finalidade, analisou-se a ação de três tendências deformadoras próprias da tradução da prosa literária, que agem sobre os traços mais característicos desse romance; são elas: 1) o empobrecimento quantitativo; 2) a destruição ou a exotização das redes de linguagens vernaculares; e 3) o apagamento das superposições de línguas. Em seguida, avalia-se até que ponto se consegue evitar essas forças deformadoras que afastam a tradução de seu objetivo ético, uma vez que destroem a letra do texto, isto é, a sua forma, em favor da transmissão do sentido. Conclui-se que, embora o tradutor tenha consciência da atuação dessas tendências durante o processo tradutório, esse não consegue se libertar plenamente delas. No entanto, isso não o impede de encontrar soluções que possibilitem a manifestação das estranhezas e das particularidades do texto original na língua de chegada, obedecendo à ética da tradução

Ano

2014

Creators

Felipe Benjamin Francisco

O pensamento histórico de aṭ-Ṭabarī: relatos do califado de al-Ma\'mūn (198-218 a.H.) na História dos Mensageiros e dos Reis

Nesta pesquisa analisamos passagens de A História dos Mensageiros e dos Reis, obra histórica de aṭ-Ṭabarī, estudioso que viveu entre os séculos nono e décimo da era cristã, no Iraque. A análise compreende o período em que governou o califa al-Ma\'mūn (198- 218 a.H./813-833 e.c.) e o momento anterior a isso, quando houve o conflito pelo califado entre esse califa e seu irmão, al-\'Amīn. Investigando premissas de políticas oficiais que favorecem ou desfavorecem a comunidade dos muçulmanos e de paradigmas religiosos que servem de guia para a compreensão da história do islã, corroboramos duas hipóteses acerca do escopo da História dos Mensageiros e dos Reis: a centralidade de sua preocupação com a comunidade dos muçulmanos e a produção de reflexões históricas. Apresentamos, antes da análise, uma breve discussão historiográfica do período de aṭ-Ṭabarī. Durante a análise e nas considerações finais, abordamos as operações narrativas internas de sua crônica histórica.

Ano

2017

Creators

João Paulo Santos Simão

Construtos de gênero no Egito Ptolomaico: uma proposta de leitura das cartas gregas e demóticas

Parte significativa da historiografia sobre o Egito antigo ainda tem usado os termos gênero e mulheres como sinônimos. O estudo das cartas gregas e demóticas foi feito em grande parte com foco nas análises formais dos textos e na filologia. São raros os estudos de epistolografia que privilegiam o aspecto relacional e social das fontes. Se, por um lado, os autores interessados no gênero no Egito usam as cartas como um documento que pode dar acesso às mulheres, a historiografia sobre essas cartas parece negligenciar as mulheres e o gênero como temas relevantes. No período ptolomaico, as relações entre homens e mulheres foram constituídas por processos intrínsecos e específicos que operavam diferentes categorias de gênero simultaneamente, combinando uma multiplicidade de tradições e valores, muito além de nossas percepções do que é masculino e feminino, ou grego e egípcio. A proposta da dissertação é analisar a historiografia sobre gênero no Egito ptolomaico e como ela se apropriou de determinados grupos de papiros, em especial as cartas. A discussão sobre os estudos de gênero com base na epistolografia grega e demótica do Egito ptolomaico articula diferentes disciplinas que expõe os enquadramentos teóricos enviesados de leitura das cartas.

Ano

2013

Creators

Thais Rocha da Silva

Presença do \'adab nas Mil e Uma Noites

\'Adab é considerada uma palavra-chave na cultura islâmica medieval, que reflete o gradual desenvolvimento da civilização árabe e o aumento de seu horizonte cultural. Uma palavra extremamente rica e polissêmica, que remete a um conjunto de noções e conceitos, desenvolvidos nos séculos VII-XV, e, por isso, pode sozinha designar: educação, regras de conduta, cultura, savoir-faire, elegância, belles-lettres. Trata-se de um conceito central na compreensão da literatura árabe, tais características reforçam a importância de estudos sobre o \'adab. Desse modo, esta tese visa contribuir com a pesquisa referente a esse tema, ampliando sua compreensão a partir do contato com outros estudos que vêm sendo realizados. Inspirados nesses estudos, e verificando as possibilidades de cada abordagem, constatamos que ainda não havia sido realizado um trabalho minucioso de busca e análise desse termo em histórias do Livro das Mil e Uma Noites, considerando a amplitude de sentidos do \'adab que as histórias poderiam evocar. Examinando o preâmbulo do Livro das Mil e Uma Noites verifica-se a adoção de um modelo, onde as \"histórias são plenas de \'adab\". Assim, esta tese representa um esforço na observação dessas histórias, que busca tornar possível perceber como o paradigma do \'adab se faz presente no Livro das Mil e Uma Noites.

Ano

2021

Creators

Messiane Brito dos Santos

Fadwa Tuqan: a poetisa palestina

Mulher, poetisa, guerrilheira sem armas, mas com alma feminina, a qual Moshe Dayan, ex-ministro da guerra israelense, disse, referindo a ousadia e a coragem da poetisa no uso das expressões nos seus poemas: \"cada um dos poemas de Fadwa Tuqan faz dez guerrilheiros\". Fadwa Abdel Fattah Agha Tuqan, uma grande poetisa palestina que se destacou e deixou sua marca por diversas gerações através da literatura, das palavras expressas, antecipando por décadas a liberdade de expressão. Tinha coragem e ousadia numa época na qual a tradição era a lei de maior autoridade, na qual o homem era o único dono da verdade e o único digno de liberdade, onde era proibida a pronúncia da palavra amor pelo gênero feminino. A rígida sociedade árabe tem negado a muitas das poetisas e dos poetas árabes revelar suas ricas experiências emocionais, incluindo Fadwa que teve muitas experiências de amor humano, riquíssimas de intensidade, tornou-se a dama da poesia árabe moderna e encantou-nos com as suas melodias poéticas recheadas com muita sensibilidade e fortes expressões. Para Fadwa, o amor representa o vigor máximo da força feminina, e através dele a mulher exerce tudo o que lhe foi negado, tudo sob o nome do amor, por isso o amor é uma tábua de salvação. Casou-se com a poesia, e deu à luz centenas dos seus belos poemas, que foram lançados no livre espaço árabe, mesmo prisioneira de tradição, e da arbitrariedade das relações sociais e familiares do sistema rígido, que não lhe permitiu revelar, em sua autobiografia, quem eram seus amores secretos no mundo árabe, o que a obrigou a ocultá-los totalmente em sua autobiografia. Demonstrou em seus poemas e poesias as tragédias, privações, mortes, separações, raiva e a reprimida revolução silenciosa. Fadwa Tuqan é uma das poucas poetisas árabes que estabeleceu uma ligação entre a poesia antiga com o Movimento de Inovação e Modernidade, saindo dos métodos clássicos da poesia Árabe Antiga, de maneira simples e não artificial, adquirindo pontos importantes em sua força interior, conservando o ritmo musical antigo e o ritmo interno moderno, formulando sua poesia musical. Suas poesias caracterizam-se pela força do vocabulário e pela excelente combinação e forte tendência para a narrativa e para as questões existenciais, baseadas em argumentos prontos, fazendo dos seus poemas diálogos com as idéias, ao invés de uma demonstração dos sentimentos.

Ano

2013

Creators

Norma Ismail Mohamad Abu-Hejleh

O sobrenatural e o mágico nas mil e uma noites

A proposta deste trabalho é analisar os elementos sobrenaturais e mágicos presentes nas narrativas do núcleo fundador das Mil e uma noites e nas histórias inseridas ao livro, no século XVIII, pelo primeiro tradutor dessa obra, o francês Antoine Galland. Ao ter em mãos o manuscrito que, atualmente, é considerado o melhor e o mais antigo das Mil e uma noites, o orientalista francês não somente traduziu o núcleo mais antigo do livro, mas também inseriu novas histórias, algumas das quais, até o momento, não possuem um manuscrito árabe e, por isso, são chamados contos órfãos. Observa-se que tanto nas histórias do núcleo fundador como nas que foram inseridas por Galland os seres sobrenaturais e mágicos apresentam diferentes funções, veiculando valores e concepções socioculturais diferentes. Por isso, propõe-se neste trabalho a identificação, a descrição e a análise da função desses elementos sobrenaturais e mágicos nas narrativas em questão, observando tanto sua importância para o desenvolvimento da intriga como a construção de sentido que tais elementos promovem nos dois ciclos narrativos, elaborados em contextos socioculturais distintos. Com base nas narrativas em que os elementos sobrenaturais e mágicos desempenham um papel preponderante no enredo, delimitou-se para este trabalho um corpus de 23 histórias, o que permitiu observar amplamente as modificações das funções desses elementos nos diferentes textos, bem como os diferentes sentidos que eles constroem nas histórias dos dois ciclos narrativos.

Ano

2017

Creators

Christiane Damien