Repositório RCAAP
Tecnotopia versus tecnofobia : o mal-estar no século xxi
Atualmente, a tecnologia apresenta-se claramente como a ponta final da pesquisa científica, aquela parte materializada do conhecimento de alta complexidade que chega ao mercado para a consideração do cidadão-consumidor. Ao mesmo tempo, defrontamo-nos com uma relação hiper-complexa com a tecnologia. Agora o corpo pode ser engenheirado, reconstruído, reformatado, reconfigurado. Sonhos de felicidade instantânea, vida eterna, convivem com temores de perda da memória, identidade, integridade, agência e poder. A fascinação ambivalente da tecnologia revela-se inteiramente. Por um lado, o desejo de transcendência. Por outro, o medo da subjugação, da desumanização. A dupla face utópica (paradisíaca) e distópica (apocalíptica) da tecnologia é central para entendermos os dilemas que cada vez mais enfrentaremos. Por um lado, encontramos formulações utópicas apoiadas na maravilha que se levanta da ampliação das qualidades e ações humanas. A tecnotopia, caudatária da ideologia do progresso e de uma visão evolutiva da história da tecnologia (especialmente a partir da Revolução Industrial), é hegemônica e, neste momento de crises de utopias, é, em larga medida, o grande metarrelato salvífico do mundo contemporâneo. Por outro lado, estão discursos distópicos apoiados no terror às forças destrutoras desencadeadas por diversas invenções (controladas por grupos específicos) ou no temor à punição provocada pela manipulação radical da natureza. A tecnofobia, marcada pela desigualdade da distribuição sócio-política-econômica do acesso à tecnologia e por um imaginário onde cohabitam discursos alternativos ou cosmologias mágico-religiosas com seus demiurgos, é, em geral, relegada a um segundo plano, mas, ocasionalmente, sobretudo quando o homem parece querer brincar de Deus, reúne energias com poder normativo e regulatório. Para entendermos as características da tensão entre tecnotopia (a promessa salvífica utópica) e tecnofobia (o temor escatológico distópico) temos que montar um quadro mais amplo.
Do nacional ao global : uma trajetória
Descrevo como a partir de um interesse inicial em questões locais e nacionais terminei estudando a globalização em uma perspectiva antropológica. A comparação da construção de Brasília com a construção de outros grandes projetos, como a Hidroelétrica de Yacyretá, levou-me ao estudo de formas de produção, elites, ideologias e discursos vinculados à expansão global do capitalismo. Após oferecer duas definições de trabalho de globalização, apresento cinco noções que julgo cruciais para qualquer análise da globalização: sistema mundial, compressão do espaço-tempo, níveis de integração, panoramas e segmentação étnica do mercado de trabalho. Considero, então, três dimensões interligadas da globalização - a circulação de pessoas, mercadorias e informação – por meio de diferentes estudos antropológicos que realizei durante minha carreira acadêmica. _______________________________________________________________________________ ABSTRACT
Uma crítica da (des)razão indigenista
O artigo trata de um aspecto pouco abordado nas análises de Estado e poder: o voluntarismo de agentes de Estado e sua influência no estabelecimento de normas e resoluções que podem afetar povos inteiros. O caso empírico escolhido para demonstrá-lo é o dos Panará e sua saga pelo Parque Xingu sob o comando de Orlando Villas-Bôas nos anos 70. Como estratégia de demonstração, utiliza-se a proposta de Edward Said sobre a importância que o início de uma narrativa tem para o seu desfecho. Portanto, dependendo de onde comecemos a analisar um evento, este pode revelar ou mesmo ocultar contornos relevantes para a sua conclusão. _______________________________________________________________________________ ABSTRACT
Ambientalismo e desenvolvimento sustentado: nova ideologia/utopia do desenvolvimento
Este texto é francamente polêmico. Numa época onde "crise de paradigmas", "orfandade", "perplexidade", "ausência de interpretações totalizantes", tornaram-se expressões e sensações recorrentes entre a intelectualidade e políticos, a necessidade de estabelecer debates e encarar a controvérsia se impõe por si mesma. Não se trata de oportunisticamente tomar partido das mudanças políticas e econômicas em curso no mundo contemporâneo. Tanto porque qualquer prognóstico fechado, diante da fluidez e incerteza que as próprias mudanças instalam, carrega consigo uma alta probabilidade de fracasso. Trata-se sim de, a partir de uma situação instigante, procurar contribuir para que nos situemos no fluxo dos acontecimentos, visando compreender alternativas interpretativas que provarão ser mais ou menos adequadas de acordo com o desdobramento dos fatos. Com as idas e vindas que acompanham a chegada dos limites do "socialismo real", as discussões positiva ou negativamente vinculadas à pós-modernidade ou ao ambientalismo têm atraído boa parte da imaginação daqueles que se preocupam com uma possível solução para os dilemas atuais. Entendê-las como parte de uma luta por hegemonia interpretativa não as desqualifica, como grosseiramente poder-se-ia crer, enquanto alternativas que venham a se estabelecer ou a se esvanecer no horizonte.
Ser e não ser : explorando fragmentos e paradoxos das fronteiras da cultura
Meu trabalho e experiência na Argentina (Ribeiro 1991) permitem uma via de entrada a temas que sempre fascinaram os antropólogos assim como à complexa questão das fronteiras da cultura. Na Argentina pude ter não apenas uma experiência de estranhamento, como também me inserir na realidade de um outro país latino-americano, o que leva a repensar o nosso próprio a partir de uma perspectiva regional. Isto é especial ainda mais no caso de se tratar de um país vizinho com o qual o Brasil tem uma longa história de relações. Ademais, grande parte da minha pesquisa desenrolou-se em uma fronteira, a da Argentina com o Paraguai, na hidrelétrica de Yaciretá, no rio Paraná, cerca de 400Kms abaixo de Itaipú.
A antropologia da globalização. Circulação de pessoas, mercadorias e informações
Esse texto discute uma abordagem para a compreensão da globalização, delineando algumas das ferramentas teóricas e metodológicas mais efetivas relativas a esse campo de pesquisa. Também apresenta vários exemplos de como a pesquisa antropológica pode ser útil para analisar o aumento da circulação de pessoas, mercadorias e informação em uma escala global. _______________________________________________________________________________ ABSTRACT
O que faz o Brasil, Brazil : jogos identitários em San Francisco
Neste artigo privilegio a questão da(s) identidade(s) brasileira(s) em San Francisco pois ela condensa um grande número de dinâmicas e aponta para distintos percursos e indagações que podem estimular a imaginação de outros cientistas sociais. Baseio-me em pesquisa de campo, observação direta, participação em eventos e rituais, entrevistas, e em análise de material escrito, como notícias de jornais, panfletos e outros1. Os imigrantes brasileiros em São Francisco são uma abstração. Na verdade trata-se de uma população diferenciada por classe social, status, gênero, origem regional (uma nítida maioria de goianos, por exemplo) e raça. No entanto, novas populações de migrantes em contextos interétnicos onde as marcações de diferenças sócio-políticas e econômicas são altamente informadas por ideologias étnicas e raciais, como é notadamente o caso norte-americano, tendem a ser percebidas e representadas de maneira homogeneizante.
O mestiço no armário e o triângulo negro no atlântico : para um multiculturalismo híbrido
Motivado pelo instigante artigo de Marcos Chor Maio e Ricardo Ventura Santos, farei considerações sobre algumas questões suscitadas pela discussão sobre cotas, com um interesse especial sobre seus efeitos na antropologia e nas ideologias sobre interetnicidade brasileiras. O primeiro e mais visível dos efeitos da discussão sobre cotas refere-se à ausência de consenso sobre este assunto entre os antropólogos brasileiros. São várias as posições. Tentarei caracterizar apenas os dois campos mais evidentes, ainda que correndo o evidente risco de simplificá-los. Ambos coincidem em que há que combater o racismo no Brasil e têm argumentos antropologicamente relevantes. Também reconhecem que a escravidão foi um crime terrível que estruturou a relação entre negros e brancos no Brasil.
Diversidade cultural como discurso global
Neste trabalho concebo a “diversidade cultural” como um discurso global de elites envolvidas na cooperação internacional e na governança global. Primeiro, discuto as relações entre diversidade e globalização. Depois, exploro a tensão particular/universal para oferecer a noção de cosmopolítica como um tipo diferenciado de discurso global. Cosmopolítica permite ir além da tensão particular/universal. Antes de considerar os limites das pretensões à universalidade de discursos globais contemporâneos como direitos humanos e desenvolvimento, discuto “diversidade cultural” no contexto dos “discursos fraternos globais”. Este exercício serve de ponte para explorar as relações entre diversidade cultural e outro discurso global, o do Patrimônio Cultural da Humanidade. A definição de Patrimônio Cultural da Humanidade depende do que se entenda por “valor universal excepcional”. “Valor universal excepcional” define o quê (na verdade quem) é universal e merece ser parte do patrimônio mundial, isto é, o quê/quem transcende os confins de uma localidade e é capaz de ser admirado por outros em uma economia simbólica global. VUE mostra a força ilocucionária de alguns discursos. Cria reconhecimento em uma época na qual abundam demandas por reconhecimento. As discussões sobre VUE não podem ser reduzidas à luta para controlar uma definição abstrata, sem impacto, de universalidade. Ao contrário, VUE tornou-se uma questão a ser debatida graças à sua força ilocucionária. VUE é um artefato taxonômico e artefatos taxonômicos em geral provocam efeitos de poder que estruturam relações entre distintos atores coletivos. VUE é também um significante flutuante. Como não pode ser definido, sua força ilocucionária torna-se mais importante do que o seu significado. A noção de VUE congrega elites profissionais e políticas, nacionais e transnacionais, ao redor de discursos sobre que símbolos de identidades coletivas são mais legítimos para serem disseminados em fluxos simbólicos nacionais e globais nos quais abundam discursos globais sobre diversidade cultural.
Avaliação do potencial energético de Eucalyptus spp. em gaseificador do tipo contracorrente
Dissertação (mestrado)—Universidade de Brasília, Faculdade de Tecnologia, Departamento de Engenharia Mecânica, 2014.
Complexos acamados da Serra da Onça e Serra do Puma : geologia e petrologia de duas intrusões máfico-ultramáficas com sequencia de cristalização distinta na Província Arqueana de Carajás, Brasil
Dissertação (mestrado)—Universidade de Brasília, Instituto de Geociências, 2014.
Incorporção do saber de parteiras e benzedeiras às práticas de saúde
Introdução: O presente artigo discute os resultados de uma pesquisa que visou explicitar a base epistemológica que ancora o cuidado das parteiras e benzedeiras, à luz da teoria crítica pós-moderna de oposição, de Boaventura de Sousa Santos. Para melhor compreensão do assunto, apresenta-se uma breve revisão acerca do pensamento do autor, da sociologia das ausências, da sociologia das Emergências e do trabalho de tradução. Método: A pesquisa de campo foi viabilizada por meio de estudo exploratório de abordagem qualitativa realizado no Distrito Federal e região de entorno. Utilizou-se a técnica de entrevista guiada com roteiro semiestruturado. Resultados: A apresentação dos resultados da pesquisa visa credibilizar o saber/fazer dos sujeitos do estudo como uma contribuição ao estudo das monoculturas do saber e do tempo. Conclusão: Considera-se que a diversidade e flexibilidade epistemológica no campo da saúde podem ampliar as redes de cuidado, favorecendo uma epistemologia de conhecimento solidário. _________________________________________________________________________________ ABSTRACT
A gestão da educação básica em Valparaíso de Goiás : os sentidos da descentralização
Dissertação (mestrado)—Universidade de Brasília, Faculdade de Educação, Programa de Pós-Graduação em Educação, 2014.
Prevalência e fatores de risco da tuberculose bovina no estado de Santa Catarina
Dissertação (mestrado)—Universidade de Brasília, Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária, Programa de Pós-Graduação em Saúde Animal, 2014.
2015
Veloso, Flávio Pereira
UNISUS : do projeto político à política do processo
Dissertação (mestrado)—Universidade de Brasília, Instituto de Ciências Sociais, Departamento de Antropologia, Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, 2014.
2015
Baseggio, Igor D´Ávila
Sistema de gestão de conhecimento aplicado ao processo de desenvolvimento de produtos mecatrônicas : um estudo de caso em uma empresa de base tecnológica
Dissertação (mestrado)—Universidade de Brasília, Faculdade de Tecnologia, Departamento de Engenharia Mecânica, 2014.
2015
Corrêa, André Luiz Pereira
A formação continuada de professores : estudo de suas implicações ideo-políticas através da apropriação de suas bases teóricas e de pesquisa de campo em Goiânia, primeiras aproximações às suas especificidades no âmbito da educação física
Dissertação (mestrado)—Universidade de Brasília, Faculdade de Educação Física, Programa de Pós-Graduação Strictu Senso em Educação Física, 2014.
2015
Santos, Willian Batista dos
Diretório dos grupos de pesquisa do CNPq - como ferramenta de análise de redes : um estudo de caso do CDS/UnB
Dissertação (mestrado)—Universidade de Brasília, Centro de Desenvolvimento Sustentável, Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Sustentável, 2014.
2015
Alvarenga, Gisele Carneiro de Lemos Palmeirão
Da família à creche : narrativas de mães sobre processos de transição de seus bebês
Dissertação (mestrado)—Universidade de Brasília, Programa de Pós-Graduação em Educação, 2014.
2015
Fernandes, Marina Ribeiro da Cunha
Expressão de certeza e dúvida na gagueira : estudo dos aspectos temporais da fala
OBJETIVO: examinar o papel da organização temporal do discurso na expressão das atitudes de certeza e dúvida em grupo de adultos com gagueira, comparando-a em um grupo de adultos fluentes. MÉTODO: participaram desta pesquisa 24 indivíduos, sendo 12 com gagueira (GE1 e GE2) e 12 sem gagueira (GC). Foram coletadas amostras que teve como base um corpus de 10 frases chave que foram produzidas nas formas neutra, de dúvida e de certeza, totalizando 840 enunciados. A análise acústica foi realizada por meio do programa Praat e os seguintes parâmetros foram analisados: tempos e taxas de elocução e articulação, ocorrência e duração de pausas e disfluências, duração das vogais tônica e pré-tônica e ocorrência da vogal pós-tônica. A análise estatística foi realizada por meio dos testes Kruskall Wallis e qui-quadrado, com índice de significância de 95%. RESULTADOS: a expressão da dúvida apresenta taxa de articulação mais baixa no grupo controle, seguida da forma neutra e de certeza, com diferenças estatisticamente significantes. Ainda no grupo controle, foi observado presença de pausas e disfluências somente na expressão de dúvida. No grupo experimental, a maior diferença encontrada foi na duração da vogal da sílaba tônica. CONCLUSÃO: de uma forma geral, o GC variou mais sua organização temporal a fim de expressar as atitudes. No entanto, é possível observar também uma tendência semelhante no grupo de pessoas com gagueira. Quanto à velocidade de fala, ao retirar as pausas e as disfluências, vemos que tanto GE1 quanto GE2 diferenciam a certeza, articulando cada sílaba de forma mais rápida. ________________________________________________________________________________ ABSTRACT
2015
Celeste, Letícia Corrêa Reis, César