Repositório RCAAP

A sintaxe dos corpos compósitos: agência e transformação na iconografia das tangas cerâmicas marajoara

Resumo Este artigo explora certos aspectos estilísticos e iconográficos das tangas cerâmicas marajoara, adentrando na seara da corporalidade, especialmente nas noções de composição, transformação e fabricação corporal. O recorte da categoria ‘tanga’ visa a destrinchar alguns dos aspectos relativos ao regime de figuração marajoara, sobretudo no que diz respeito às formas de materialização de princípios cosmológicos relacionados à fabricação, à composição e à transformabilidade dos corpos. Neste sentido, a iconografia destes objetos mostra corpos compósitos elaborados por meio da integração de uma miríade de seres e de suas partes anatômicas, assim como pelo uso de recursos gráficos que, possivelmente, indicam transformações corpóreas. Essa sintaxe dos corpos compósitos, desse modo, pode ser um ponto crucial para se pensar o papel das tangas e, com isso, sugere-se que elas fabricavam corpos e pessoas multicompostos.

Os discos perfurados do período Tapajônico: análise tecnológica e questões contextuais

Resumo Objetos únicos na arqueologia amazônica, os discos perfurados da região do atual município de Santarém, Pará, foram confeccionados em matérias-primas variadas, porém os mais elaborados foram produzidos a partir de óxidos de ferro de granulação muito fina e homogênea. Tidos a priori como rodas de fusos, estes artefatos são comumente encontrados fragmentados nos sítios arqueológicos do período Tapajônico, iniciado por volta do século X até o presente. Decorados com traços muito finos, apresentam motivos gráficos não registrados nas cerâmicas tapajônicas. Debruçamo-nos sobre contextos arqueológicos de sítios estudados no município de Santarém, a partir do estudo de uma rica coleção de artefatos depositada na reserva técnica do Laboratório de Arqueologia da UFOPA (Coleção Juma Janaína), além de peças provenientes de outras coleções e publicações. Tendo como base a noção de cadeia operatória, a análise foca nos discos, nos processos envolvidos na aquisição da matéria-prima, na confecção, no uso, no descarte e na reciclagem desse material. Ao final, será demonstrado que ir além de estudos tipológicos permite avançar em dados tecnológicos, discutir questões contextuais, propor alternativas e revisões para interpretações embasadas em ideias pré-concebidas sobre o conhecimento tecnológico dos povos amazônicos do passado.

Ano

2020

Creators

Lima,Anderson Márcio Amaral Moraes,Claide de Paula Sá,Mayara dos Santos Ramos de

Revisitando os alter egos: figuras sobrepostas na iconografia Konduri e sua relação com o xamanismo

Resumo A noção de alter ego tem sido utilizada desde o começo do século passado para descrever um motivo caracterizado por uma figura sendo sobreposta por outra nas iconografias pré-coloniais do norte da América do Sul. Esse termo se refere também à sua interpretação baseada em analogias etnográficas de conceitos ameríndios. Este artigo rediscute os supostos alter egos a partir da análise iconográfica do estilo cerâmico Konduri (c. 1250-1650 AD). O estudo sistemático de um corpus com milhares de fragmentos e algumas vasilhas inteiras permitiu identificar três conjuntos com aves, cabeças de aves ou quadrúpedes sobre a cabeça de um antropomorfo ou zooantropomorfo. Sugere-se, a partir dos relatos etno-históricos e de informações etnográficas, que essas figuras podem ter agenciado observadores, conteúdos e contextos em rituais coletivos ou práticas xamânicas. Comparativamente, essas figuras exibem posturas e adornos similares aos relacionados ao tema visual dos antropomorfos sentados encontrados em vários outros estilos cerâmicos amazônicos, aludindo provavelmente a personagens-xamãs.

Corpo de barro, corpo de gente: metáforas na iconografia das urnas funerárias polícromas

Abstract Nos últimos anos, a Etnologia amazônica tem consolidado uma teoria do corpo que propõe uma concepção deste, entre os ameríndios, como uma matriz de relações e transformações entre seres e perspectivas distintas. Esta concepção é tida como um dos pilares da organização cosmopolítica destes povos e perpassa a produção de diferentes linguagens estéticas entre imagens, ritos, cantos, danças e artefatos. Com base nestas proposições, faremos um diálogo entre Arqueologia e Etnologia, analisando a linguagem iconográfica das urnas funerárias da Tradição Polícroma da Amazônia, no baixo e médio Solimões. Tais artefatos podem ser interpretados como corpos, compostos de referenciais humanos e animais bi e tridimensionais e cobertos de grafismos elaborados. Nossa proposta, neste artigo, é interpretar a iconografia destes objetos com base em seus elementos corporais, entre forma e ‘decoração’, discutindo como esses elementos podem trazer noções relativas à produção e à constituição de corpos e agentes sociais.

Entre naturalismos y metáforas: el código icónico en la pintura corporal de las urnas funerarias de la fase Napo

Abstract En el presente artículo se expone un estudio iconográfico sobre los motivos figurativos que forman parte de la decoración pictórica de las urnas funerarias de la fase Napo (1118-1480 d.C.) perteneciente a la Tradición Polícroma Amazónica (TPA). Se propone que estos motivos se expresan mediante distintos niveles de ejecución artística, desde formas estilizadas hasta llegar a abstracciones metafóricas y sinecdóquicas respondiendo a distintos procesos de cognición. Estas imágenes han podido ser identificadas mediante el concepto de código icónico, que, a su vez, permite otorgar ciertas inferencias sobre su sistema ontológico, basado en una estética de seres metafóricos e híbridos en contraposición a figuraciones naturalistas, en las cuales resalta el ícono de la serpiente. Formas similares de representación artística, también se encuentran en sociedades amazónicas ecuatorianas del presente; por lo que, una perspectiva etnoarqueológica puede otorgar ciertas pautas interpretativas para una re-significación de estas figuraciones pictóricas intrínsecas a la fase Napo.

A paisagem e as cerâmicas arqueológicas na bacia Trombetas: uma discussão da Arqueologia Karaiwa e Wai Wai

Resumo Através da paisagem, dos sítios arqueológicos, das aldeias antigas, dos lugares com histórias do passado e da cerâmica arqueológica da bacia do rio Trombetas (Pará, Brasil), iniciamos uma discussão a partir de pontos de vista das arqueologias tradicional e indígena. Essa região é habitada por diversos povos indígenas, a maioria de origem Karib, tal como Wai Wai e Katxuyana. Tanto os objetos cerâmicos, em especial, os apliques zoomorfos Konduri, quanto os sítios, com grafismos rupestres e terra preta têm relação com histórias antigas, seja dos indígenas, seja de espíritos da natureza. A Arqueologia tradicional tende a lidar com a cultura material a partir de seus atributos formais e simbólicos, assim como sua referência cronológica, para reconstruir modos de vida de povos do passado. Já para os anciões indígenas, quando ouvidos, esses objetos e lugares trazem para superfície e para o presente aquilo que já foi ‘esquecido’ e ‘enterrado’ no passado.

Ano

2020

Creators

Jácome,Camila Wai,Jaime Xamen Wai

Pulupulu e warayumia: história e imagética do trocano do alto Xingu

Resumo Este artigo analisa as transformações históricas, visuais e cosmológicas de um raro ‘instrumento musical’ amazônico: o trocano, conhecido, respectivamente, como pulupulu e warayumia pelos Wauja e Kamayurá do alto Xingu. Historicamente produzido como um corpo artefatual da anaconda, esse ‘instrumento musical’ é central para a criação e a manutenção de um domínio de continuidade espaço-temporal entre o mundo dos espíritos aquáticos e a casa cerimonial da aldeia. Ausente da vida ritual xinguana por um período de 42 anos, o trocano foi feito, em 1998, pelos Kamayurá. Os Wauja, porém, não o fazem desde 1947. Embora entusiasmados com o retorno do trocano, os Wauja preferiram não incentivar a ideia de produzir, em sua própria aldeia, um objeto ritual tão poderoso e perigoso como esse. Pesava, então, sobre essa decisão o receio de não conseguirem alimentá-lo suficientemente. Esses fatos indicam duas coisas: que o trocano é, de fato, um objeto de ciclo ritual bastante longo e que modos mais sutis de embodiment dos poderes xamânicos da anaconda prevalecem no sistema de cultura material wauja. A principal hipótese desenvolvida neste artigo é que o trocano incorpora, por excelência, qualidades dos sistemas musical e gráfico, resultando, assim, em um hipercorpo de expressões sensoriais.

Sobre urnas, lugares, seres e pessoas: materialidade e substâncias na constituição de um poço funerário Aristé

Resumo Na última década, uma série de escavações arqueológicas sistemáticas foi realizada pela equipe do Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá, produzindo um acervo muito rico e diversificado, que tem sido estudado e discutido por várias pessoas da equipe. Neste artigo, vou tomar como foco uma estrutura funerária que contém um conjunto de cerâmicas indígenas, algumas antropomorfas, oriundas de contextos arqueológicos cuidadosamente registrados, buscando explorar suas capacidades agentivas, e articulando suas propriedades materiais, aspectos estéticos e os próprios contextos de deposição. Partindo de uma perspectiva alimentada pela etnologia indígena da Amazônia, que tem salientado a potência da materialidade na relação com diversas gentes, procuro tecer narrativas que evidenciam o lugar do cuidado estético na produção destas peças para atrair olhares e produzir relações com quem as encontra. Para além da beleza, no entanto, minha proposta é explorar de que modos estas vasilhas e os demais materiais com os quais se conectam podem nos apontar uma série de relações que as pessoas que as produziram e utilizaram estavam criando e como as estavam usando entre outras pessoas, lugares e seres.

Do teso marajoara ao sambódromo: agência e resistência de objetos arqueológicos da Amazônia

Resumo Este artigo trata de objetos arqueológicos da Amazônia para além de seus contextos originais e, partindo de uma análise de seus atributos agentivos, introduz o conceito de objeto resistente. Considerando a agência de objetos e imagens marajoaras, procura entender quais são os atributos materiais e visuais que os tornam passíveis de ressignificação, através dos tempos e culturas, em variadas narrativas de construção de identidades. Entre aquilo que distinguimos como ‘tecnologias de encantamento’, destacamos a complexidade da organização de campos decorativos e motivos gráficos, assim como maneiras particulares de representar seres e seus corpos, tecnologias estas reaproveitadas e readaptadas em contextos ocidentais históricos e contemporâneos. Argumentamos que este exercício é necessário enquanto prática arqueológica, para melhor nos instrumentalizarmos no entendimento de onde reside a agência e resistência de certos artefatos arqueológicos e devolver o protagonismo às artes indígenas do passado que foram e continuam sendo reapropriadas ao longo do tempo, tanto em narrativas colonialistas como de resistência ou decoloniais.

A urna bordada: artesanato e arqueologia na Amazônia contemporânea

Resumo Este artigo considera o artesanato produzido a partir da cultura material arqueológica, especialmente as categorias que compõem essa produção: réplicas, híbridos e objetos derivados. Com base nos objetos artesanais que reproduzem a iconografia da cerâmica Marajoara, reflito sobre o seu papel no estabelecimento de diálogo com o passado. Concluo que as inconsistências criativas do artesanato não deslegitimam a relação com a materialidade arqueológica e com o passado.

O simbolismo marajoara nos cuidados com o corpo

Resumo O simbolismo da cerâmica arqueológica marajoara foi escolhido como emblema de identidade nacional brasileira em fins do século XIX tendo em vista os projetos políticos de Estado. Para isso, o Estado se utilizou dos primeiros estudos arqueológicos que foram feitos no Museu Nacional do Rio de Janeiro, a fim de consolidar sua escolha por esses objetos como emblema dessa alentada identidade. Destarte, da ciência de fins do Oitocentos, esse simbolismo foi para a arte, a arquitetura, a moda, as cédulas, o carnaval, os espaços público e privado, sendo usado até a contemporaneidade. Entretanto, chama atenção o uso desse simbolismo com os cuidados do corpo, tendo em vista roupas, perfumes, acessórios, entre outros, com a ‘marca marajoara’. É sobre essa ressignificação para os cuidados com o corpo a partir do uso de objetos ‘marajoara’ que se propõe este artigo.

Marcos de referencia en toba del oeste de Formosa (Guaycurú, Argentina)

Resumen En este trabajo se analiza el subdominio espacial de la estasis angular o los marcos de referencia en toba del oeste de Formosa (guaycurú, Argentina), desde la perspectiva de la tipología semántica. El corpus está compuesto por datos recolectados, a partir del estímulo visual ‘Men and Tree Photo Matching’ (Levinson et al., 1992), en la comunidad de Vaca Perdida (Formosa, Argentina). Los marcos de referencia detectados son de tipo absoluto, centrado-en-el-objeto y directo. Los dos primeros codifican información posicional y de orientación, mientras que el marco de referencia directo solo expresa la orientación del hombre respecto del centro deíctico. El uso del sistema de coordenadas absoluto y la codificación de información acerca de la orientación del hombre son preponderantes en el corpus analizado. La aplicación del mismo estímulo visual para el análisis de los marcos de referencia en otras lenguas del Gran Chaco sudamericano permitirá contar con un corpus de datos comparable regionalmente, y así contribuir al avance del conocimiento de la estructura del dominio semántico del espacio.

Por dentro da rede: a circulação de conhecimentos e práticas de saúde no baixo Amazonas

Resumo Este artigo aborda as práticas de saúde realizadas em duas casas reconhecidas como alternativas, situadas na região do baixo Amazonas, no Pará. Formadas na década de 1990 e compostas majoritariamente por mulheres desde sua criação, em cooperação com a Igreja Católica, tais casas oferecem atendimentos de saúde altamente diversificados, dirigidos aos planos físico, psicológico e espiritual. Seu repertório inclui tratamentos baseados em conhecimentos tradicionais associados a plantas nativas, terapias bioenergéticas, florais e medicamentosas, estas últimas desenvolvidas em contatos recentes com instituições do meio científico. A observação etnográfica de atividades regulares das casas, incluindo a participação voluntária em trabalhos esporádicos em uma delas, além de entrevistas efetuadas com suas colaboradoras, indicou que a tradição, fortemente associada aos tratamentos à base de plantas no contexto regional, tem sido reinterpretada sob a noção de alternativa e conciliada com sucessivas inovações. A articulação entre tradição e inovação, então, é autorizada de acordo com a concepção de saúde global valorizada pelas casas. Suas práticas tradicionais e alternativas em saúde são, portanto, capazes de agregar diferentes sistemas de conhecimento segundo uma lógica que valoriza a hibridez.

Ano

2021

Creators

Fidelis,Juliana Cardoso Carvalho,Luciana Gonçalves de

Em busca de outros passados museológicos: considerações sobre a constituição do campo museal no Maranhão (século XIX e início do século XX)

Resumo O artigo analisa a constituição do campo museal no Maranhão no século XIX e início do século XX, tendo como referências os impactos do Gabinete de História Natural da Província do Maranhão (1844) e do Museu do Instituto de História e Geografia do Maranhão (1925). Essas experiências demonstram a existência de outros passados museológicos no Brasil e consistem em exemplos de coleções nômades que se desmembraram para formar museus e instituíram uma cultura do patrimônio no Maranhão. As fontes mobilizadas mediante pesquisa bibliográfica e documental consistiram em indícios importantes que rompem com a zona de silêncio existente na história dos museus e contribuem para enriquecer as narrativas sobre o panorama museológico brasileiro.

Ano

2021

Creators

Britto,Clovis Carvalho Prado,Paulo Brito do Souza,Jean Costa

Visibilidade, comunicação e movimento entre os cerriteiros na paisagem aquática da laguna dos Patos, Sul do Brasil

Resumo Neste artigo, realizei uma análise espacial gerada em ambiente de Sistema de Informação Geográfico (SIG) sobre o cenário de ocupação dos grupos construtores de cerritos no estuário da laguna dos Patos, extremo Sul do Brasil. Busquei analisar a intervisibilidade entre os distintos complexos de sítios arqueológicos da região, assim como a visibilidade a partir dos sítios em relação a uma rota de mobilidade aquática publicada em trabalho anterior. Com base nos dados analíticos, nas informações etnohistóricas sobre comunicação com uso de tecnologia de fogo e fumaça de grupos indígenas do Pampa e nas evidências arqueológicas que denotam a agência do mundo aquático no contexto dos cerritos, sugeri que o estuário da laguna dos Patos seria o foco de controle visual dos cerriteiros. O mundo aquático, em suas implicações econômicas e ideológicas, condicionaria a comunicação, o movimento de pessoas e o fluxo de coisas e ideias na paisagem lagunar.

A teoria contemporânea do restauro e as cerâmicas arqueológicas da Amazônia

Resumo Este artigo apresenta uma discussão acerca das intervenções de conservação e restauro realizadas em cerâmicas arqueológicas, com ênfase no acervo do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), localizado em Belém, Pará, região Norte do Brasil. A pesquisa tem como principal objetivo a identificação dos tipos de restauro encontrados na reserva técnica do MPEG e a aplicabilidade da teoria contemporânea do restauro na intervenção da cerâmica arqueológica. Para o desenvolvimento da pesquisa, foram analisadas as principais teorias de restauro e políticas preservacionistas do Brasil. Em seguida, reconheceu-se os valores culturais das cerâmicas arqueológicas e seu significado para a sociedade civil. Por fim, foram analisadas as intervenções restaurativas identificadas no acervo do MPEG, de modo a discutir sua trajetória ao longo do tempo. Ademais, debate-se sobre as reflexões pré-intervenções necessárias, de modo a determinar a intenção da restauração e as técnicas ideais para a salvaguarda do bem cultural.

Ano

2021

Creators

Maia,Lorena Porto Sanjad,Thais Alessandra Bastos Caminha Lima,Helena Pinto

Relações de objeto em Canela

Resumo O Canela é a língua falada pelos povos Canela Apa?niekrá e Canela Ramkokamekrá (cerca de três mil indivíduos) que habitam duas terras indígenas (Área Indígena Porquinhos e Área Indígena Kanela, respectivamente), localizadas no estado do Maranhão. Neste artigo, distingo inicialmente os sintagmas posposicionais que são (semanticamente) argumentos e os que são adjuntos em Canela (família Jê, tronco Macro-Jê). A seguir, identifico os argumentos definidos como o paciente (P), o tema (T) e o recipiente (R), e apresento suas respectivas propriedades gramaticais (codificação, comportamento e controle). A conclusão é de que P e T são o objeto direto, enquanto R (de verbos como ‘dar’, ‘contar’ e ‘mostrar’), lexicalmente especificado, é o objeto indireto.

Pão-de-índio e massas vegetais: elos entre passado e presente na Amazônia indígena

Resumo A elaboração de tecnologia de armazenamento de alimentos pelos povos indígenas da Amazônia é um tema descrito desde os relatos dos primeiros cronistas europeus na região. Frequentemente são encontrados, de maneira fortuita ou em sítios arqueológicos, artefatos culturais denominados ‘pães-de-índio’, presentes em diversos ambientes e bacias hidrográficas e relatados pelos moradores locais como um composto de plantas processadas e enterradas, comestíveis mesmo depois de anos enterrados. A partir da década de 1980, porém, uma série de trabalhos botânicos e micológicos vem classificando estes supostos pães como um fungo do gênero Pachyma Fr., Polyporus indigenus. Este artigo apresenta evidências arqueológicas, microbotânicas e etnográficas que mostram que pães-de-índio foram compostos preparados pelo processamento de espécies frutíferas e tuberosas, amplamente descritas pelos povos indígenas. Apresentamos os resultados da primeira tentativa de extrair grãos de amido de dois desses artefatos, os quais testaram positivamente para grãos de amido de milho, pimenta, batata-mairá e outras espécies de vegetais. Este texto dedica-se a demonstrar, ainda, que pães-de-índio são o testemunho do manejo e do uso da diversidade de plantas da floresta e do emprego de um conjunto de instrumentos e técnicas de produção com fins ao armazenamento de alimento.

Ano

2021

Creators

Santos,Gilton Mendes dos Cangussu,Daniel Furquim,Laura Pereira Watling,Jennifer Neves,Eduardo Góes

Experimentação tafonômica em contextos de enterramento na Amazônia

Resumo Desde o início dos estudos sobre a formação do registro arqueológico, vem se buscando ferramentas para acessar os processos de deposição e de transformação desses locais ao longo do tempo. A experimentação com o objetivo de reproduzir contextos arqueológicos, apesar de amplamente utilizada em algumas regiões, ainda foi pouco explorada em contextos amazônicos, que possuem processos tafonômicos específicos. Este trabalho visa, através da experimentação, testar algumas das variáveis estabelecidas em regiões temperadas para movimentação e preservação de material ósseo, buscando entender tanto suas validades para a Amazônia quanto as dinâmicas específicas dos microcontextos. Foram utilizados galinhas e materiais de acompanhamento para estruturar os ensaios, enterrados e deixados em superfície. Os resultados apontam para fatores extrínsecos conhecidos, como a presença de raízes de plantas, o contato direto ou não com o solo e outros, mas cujas dinâmicas em contexto amazônico parecem amplificadas. Ao final, propomos que as observações obtidas podem ser significativas para a arqueologia amazônica como um todo.

Ano

2021

Creators

Santos,Suiane de Sousa Pinto,Alba Pereira Py-Daniel,Anne Rapp

Paleogenômica e Museologia: os museus e o paradoxo do Antropoceno

Resumo As pesquisas em Paleogenômica têm encontrado nos acervos de Antropologia e História uma riquíssima fonte de material para análise do genoma de organismos que já não existem mais. Com objetos de museus, essa nova área científica tem conseguido interpretar as relações entre espécies extintas e atuais e dar evidências à ação antrópica em processos de extinção. Ao reforçar o paradoxo do Antropoceno – uma nova época geológica em que se destrói para prosperar –, os museus se inserem na discussão sobre correr riscos de danificar ou perder acervos museológicos em prol do desenvolvimento científico. Assim, este artigo visa contribuir com o debate sob a perspectiva museológica, analisando aspectos relacionados à responsabilidade e ao compromisso com a preservação e a pesquisa nos museus, com atenção especial à ‘aura’ do objeto. Para a construção dos argumentos, enfoca-se o caso de uma das maiores coleções de cornos adornados do mundo, do Museu Nacional da Dinamarca, útil para a interpretação do processo de extinção dos auroques. Ao final, reconhecendo os museus como aliados ao paradoxo do Antropoceno, considera-se a Museologia a área mais afetada pelo dilema e recomenda-se atenção a oito conjuntos de perguntas que surgem sempre que a questão se estabelecer em um museu.

Ano

2021

Creators

Kunzler,Josiane Oliveira,Vânia Dolores de