Repositório RCAAP

Tempo dedicado ao trabalho e tempo livre: os processos sócio-históricos de construção do tempo de trabalho

O presente ensaio tem como propósito discutir como o tempo de trabalho ultrapassa o tempo formal da jornada de trabalho a partir das três seguintes categorias de análise: 1. tempo de trabalho socialmente necessário ou simplesmente tempo de trabalho necessário, 2. tempo dedicado ao trabalho ou tempo disponível e 3. tempo livre (que compreende o chamado "tempo socialmente supérfluo", quando se refere ao tempo ocioso,­ e o "tempo socialmente disponível", o qual é mediado pela velocidade decorrente das transformações emergentes no mundo contemporâneo). O conceito de tempo empregado neste ensaio parte de uma concepção que possibilita apreender essa categoria como construção social e histórica, e não como uma categoria abstrata arbitrária. Neste ensaio, serão tratadas as concepções de construção temporal, tempo de trabalho e tempo livre, com o propósito de entender como a fronteira do tempo de trabalho invadiu sutilmente o tempo livre do sujeito trabalhador, tornando esses tempos fluidos, tensos, urgentes e flexíveis. Tempo aprisionado não por um controle minucioso da atividade, para adaptar o corpo ao exercício do trabalho, mas por dispositivos que mobilizam o sujeito a partir de objetivos e projetos, canalizando o conjunto de suas potencialidades para fins do capital. Os argumentos desenvolvidos aqui permitem sugerir que o tempo de trabalho necessário corresponde àquele em que o trabalhador produz o equivalente ao seu próprio valor. Tempo excedente é aquele que extrapola o tempo necessário de trabalho. Dessa forma, o tempo de trabalho necessário não constitui, no sistema de capital, o tempo de trabalho ou tempo disponível de trabalho, pois este engloba igualmente o tempo necessário e o tempo excedente de trabalho.

Ano

2014

Creators

Faria,José Henrique de Ramos,Cinthia Letícia

Uma investigação acerca do fenômeno do turn-away entre os profissionais de tecnologia da informação

Dois problemas extremos têm sido observados com alguma frequência em relação aos profissionais de tecnologia da informação (TI): o turn-over - situação em que o profissional de TI muda de emprego, mas ainda se mantém na mesma área - e o turn-away - situação em que o profissional de TI abandona essa área, assumindo posição em outra área distinta da empresa ou fora dela, muitas vezes evoluindo para uma posição gerencial. O objetivo deste artigo é, portanto, estudar o problema do turn-away. Sobre tal problema, há pouca literatura tanto no Brasil como no exterior. Assim, o objetivo principal deste trabalho é entender como e por que os profissionais de TI mudam de área, de modo a identificar características típicas da transição dessa área para outras. Para tal, com base em referencial teórico sobre avanço de carreira, hipóteses de pesquisa foram geradas para serem analisadas pelos pesquisadores. Um estudo de caso múltiplo com várias unidades de análise foi adotado em duas empresas de grande porte, uma atuando na área de serviços de TI e outra na área de energia. Entrevistas foram conduzidas, entre maio e julho de 2010, com profissionais de TI que haviam migrado para outras áreas dentro das respectivas empresas, os quais foram considerados as unidades de análise dos estudos de caso. Os resultados obtidos evidenciaram que os profissionais de TI precisam de mais oportunidades de crescimento do que as empresas são capazes de oferecer ou do que é possível oferecer dentro da área técnica. Além disso, para as organizações, a pesquisa evidencia também que o desejo dos profissionais de TI de mudar de área não está tanto ligado a uma insatisfação com as suas atividades, mas sim à busca por atividades interessantes e diferentes e por novos desafios e experiências. Dessa forma, empresas interessadas em reter esses profissionais de TI devem proporcionar-lhes esses tipos de oportunidade.

Ano

2014

Creators

Ramos,Eduardo Augusto de Andrade Joia,Luiz Antonio

A produção científica Brasileira sobre a gestão de recursos humanos entre 2001 e 2010

Em 1990, conforme revisão de literatura empreendida na área de gestão de recursos humanos, prevaleciam os estudos de caso como método de pesquisa. Desde então, a exemplo da gestão por competências, novos modelos, sistemas e tecnologias passaram a integrar o rol de prescrições da área. Considerando que o estudo de caso tem reduzido potencial de validade externa, questiona-se até que ponto, mantida a tradição metodológica das pesquisas notada na referida década, há suporte empírico para toda a sorte de normativos que imperam nas vias profissionais, e mesmo acadêmicas, da área de gestão de pessoas. É nesse sentido que o presente estudo caracteriza a produção nacional sobre a gestão de pessoas, entre 2001 e 2010, veiculada em todos os 121 periódicos nacionais, das áreas de administração, ciências contábeis e turismo, classificados entre A1 e B4 pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e cujas linhas editoriais abarcavam temáticas relacionadas direta e indiretamente com o foco proposto. Com a utilização de filtros arbitrados por 18 juízes especialmente treinados para a tarefa, foram analisados 197 artigos cujas temáticas centrais versavam sobre modelos, sistemas, tecnologias e políticas e práticas de recursos humanos. Os resultados evidenciaram um campo marcado por estudos teórico-empíricos que descrevem facetas da gestão de funções de recursos humanos, sobretudo a da avaliação, a partir da percepção de públicos diversos amostrados de modo não probabilístico em uma organização por vez, cujo acesso transversal se deu por levantamentos de opinião e estudos de casos operados por questionários e entrevistas que resultaram no uso prevalente de técnicas estatísticas e de análise de conteúdo. Assim, considera-se que o conhecimento acumulado não permite as devidas generalizações que recorrentemente se constatam nas obras técnico-científicas da área. Observações sobre a metodologia empregada na maioria dos estudos, sobretudo no que se refere ao método de pesquisa e aos procedimentos de amostragem escolhidos, revelam que a produção da área mais serve ao propósito de descrever, ou mesmo explicar, a dinâmica dos temas pesquisados no lócus em que foram aplicados do que gerar ideais normativos.

Ano

2014

Creators

Meneses,Pedro Paulo Murce Coelho Junior,Francisco Antônio Ferreira,Rodrigo Rezende Paschoal,Tatiane Silva Filho,Antônio Isidro da

Fundos multimercados: desempenho, determinantes do desempenho e efeito moderador

O principal objetivo deste trabalho foi analisar o desempenho dos fundos multimercados brasileiros com uma medida alternativa, relacionada ao trabalho de Amin e Kat (2003). Essa medida pode ser considerada como uma alternativa não paramétrica para avaliar a performance de fundos de investimento, especialmente aqueles que têm retornos com distribuição de frequência diferente da normal. Para garantir maior confiabilidade à estimativa da performance dos fundos, foram criados intervalos de confiança para a medida de Amin e Kat (2003) por meio da técnica de bootstrap, o que pode ser considerado uma contribuição metodológica para novas pesquisas a serem desenvolvidas na área. Com dados de 107 fundos, no período de janeiro a agosto de 2011, os principais resultados do estudo mostraram que, para a performance líquida, não há evidência de geração de valor extraordinário pelos fundos, o que é coerente com a hipótese de eficiência de mercado. Já para a performance bruta, ou seja, a performance antes de serem deduzidas as taxas de administração e performance, há indícios de valor extraordinário agregado em cenários econômicos fora de fortes evidências de restrições financeiras. Em outras palavras, a gestão ativa, no Brasil, pode até agregar valor extraordinário, contudo, em linha com Jensen (1978), Fama (1991) e Castro e Minardi (2009), os custos necessários para a obtenção desse retorno comprometem-no, e, com isso, a rentabilidade líquida percebida pelos cotistas fica prejudicada. No estudo, também se evidenciou que períodos de crise impactaram significativamente a performance dos fundos da amostra e moderaram a relação entre a performance e seus determinantes, o que é uma das principais contribuições do trabalho. Esses achados podem significar importantes contribuições para estudos sobre fundos de investimentos, uma vez que resultados similares para o efeito moderador não foram identificados em trabalhos anteriores.

Ano

2014

Creators

Malaquias,Rodrigo Fernandes Eid Junior,William

Custo de liquidez do contrato futuro de boi gordo da BM & FBOVESPA

O custo de liquidez é uma variável que não é diretamente conhecida pelos investidores, sendo tão importante quanto os demais custos de transação envolvidos em mercados futuros. Sua relevância são os fatos de poder resultar na redução do retorno esperado pelos investidores, ocorrer perda de participantes potenciais no mercado, o preço não servir mais como papel de comunicação de informação, ser essencial para a decisão da utilização de um contrato futuro, além de ser uma variável fundamental para o custo de oportunidades de hedgers e especuladores. O propósito deste trabalho foi analisar o custo de liquidez relativo ao contrato futuro de boi gordo da BM&FBovespa, no período de setembro de 2010 a fevereiro de 2013, utilizando dados intradiários, contendo 355.311 registros de negócios efetuados. Para tanto, foram utilizados os modelos de Roll (1984), Chu, Ding e Pyun (1996), Thompson e Waller (1987) e Wang, Yau e Baptiste (1997), todos bastante discutidos na literatura internacional. Os resultados mostram que, embora as metodologias adotadas sejam diferentes, três dos quatro métodos apresentaram correlações elevadas entre eles. Os contratos analisados apresentaram custo de liquidez médio de R$ 0,13 por arroba, sendo relativamente baixo quando comparado ao volume financeiro destinado para cada contrato. Quanto aos determinantes, o tempo de maturidade teve impactos nos resultados, pois os contratos acima de 80 dias úteis até o vencimento e de até cinco dias úteis até o vencimento tiveram custo de liquidez mais elevado. Os contratos que tiveram menores números de negócios efetuados, contratos negociados e volume, foram os que tiveram maiores custo de liquidez. A contribuição deste estudo está na geração de informações fundamentais para profissionais do mercado, produtores e agentes do mercado, que tomam suas decisões em ambientes de incertezas, buscando mensurar o custo de uma variável que não é diretamente apresentada e é tão importante quanto os demais custos envolvidos no contrato futuro.

Ano

2014

Creators

Marquezin,Charles Luan Mattos,Leonardo Bornacki de

Efeito momentum no curto prazo: vale a pena comprar ações vencedoras no Brasil?

Este artigo teve como objetivo básico verificar possível persistência dos resultados de retorno das ações negociadas na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) no curto prazo, sob a hipótese de que ações vencedoras continuam vencendo e perdedoras tendem a manter seus retornos abaixo da média do mercado em um período de seis meses, em uma estratégia baseada no efeito momentum. Essa suposição foi feita com base no comportamento impulsivo dos investidores diante de ações com alta liquidez, está calculada pelo volume em dinheiro e supondo que se trate de uma variável relevante para uma manutenção dos bons resultados de retorno em curtos períodos. Para analisar essa estratégia, formaram-se nove carteiras de ações classificadas por volume nas categorias alto, médio e baixo, e cada uma delas foi subdividida em grupos de vencedoras, médias e perdedoras de acordo com o retorno médio mensal. A formação correspondeu a um período semestral, de outubro de 1994 a março de 2011, e as ações foram classificadas de acordo com as carteiras estabelecidas por volume em dinheiro e pelo retorno médio acumulado. Na análise do comportamento dessas ações nos seis meses posteriores (de abril de 1995 a setembro de 2011), avaliou-se a hipótese de que aquelas com retornos maiores no passado recente continuam proporcionando bons resultados no curto prazo, especialmente em seis meses de formação e análise semestral posterior. Constatou-se, por meio de uma análise de séries temporais, que foi recomendável a manutenção de ações com baixo volume em carteira por, no mínimo, três meses. Os dados em corte transversal levaram a uma versão multifatorial do modelo CAPM que consistiu na incorporação das defasagens dos retornos e do logaritmo natural do volume, sendo posteriormente rodada a regressão com dados em painel. Os resultados corroboraram que ações vencedoras com baixa liquidez e de volume intermediário se apresentaram como as melhores opções de investimentos no Brasil.

Ano

2014

Creators

Silva Neto,Odilon Saturnino Silva,Valéria Louise de Araújo Maranhão Saturnino Raboni,Pierre Lucena Oliveira,Marcos Roberto Gois de

Riscos e incertezas na decisão de inovar das micro e pequenas empresas

A decisão de inovar envolve riscos e incertezas e está entre as difíceis decisões que as empresas precisam tomar em sua trajetória de evolução organizacional. Nesse contexto, as micro e pequenas empresas (MPEs), por deterem limitações financeiras e de sua própria estrutura, frequentemente se veem restringidas em suas ações e se tornam organizações pouco inovadoras. Diante disso, uma das alternativas que se apresentam a essas empresas é o modelo de inovação aberta, pautado na utilização do conhecimento externo como forma de agregar valor à organização, uma vez que o aprendizado e a interação mútua entre uma empresa e seus diversos agentes, propiciados pelo modelo, permitem compartilhar riscos e incertezas e podem conferir as competências necessárias para inovar de maneira dinâmica e contínua. Neste artigo, pretende-se analisar como o uso do modelo de inovação aberta por parte de MPEs pode reduzir os riscos e as incertezas presentes na decisão de inovar, com base na análise dos fatores de risco de Hammond, Keeney e Raiffa (1999) para verificar as incertezas, os resultados, as chances de ocorrência e consequências da decisão tomada. Trata-se de um estudo qualitativo, de caráter exploratório, com uso de entrevistas semiestruturadas e análise bibliográfica. Os resultados apontam que as MPEs, ao passarem por momentos críticos em seu desempenho organizacional, buscam na inovação uma alternativa de sobrevivência ante os novos parâmetros que lhes são impostos. Entretanto, essas empresas apresentam como incertezas associadas à decisão de inovar a falta de know-how e a insuficiência de capital para arcar com o custo da inovação. No intuito de reduzir essas incertezas, buscam, nas fontes externas de conhecimento, o suporte financeiro, tecnológico, de mercado e competitivo que lhes permita inovar e alcançar vantagens competitivas sustentáveis, tendo como resultados desse formato de inovação a superação de suas incertezas, o lançamento de inovações de produto, serviço e processo, a melhoria de seu potencial competitivo e a formação de um processo de inovação. Dessa forma, pode-se afirmar que o uso do modelo de inovação aberta não só reduz os riscos e as incertezas relacionados à inovação, mas também contribui para que essas organizações inovem e melhorem seu desempenho organizacional.

Ano

2014

Creators

Silva,Glessia Dacorso,Antônio Luiz Rocha

Silêncio nas organizações: uma revisão e discussão da literatura

O objetivo deste trabalho é apresentar como o silêncio tem sido estudado por pesquisadores de gestão ou áreas afins (como psicologia ou comunicação organizacionais). Ignorado por longo tempo, o silêncio emerge como uma área frutífera de pesquisa devido a diversas consequências que ele pode causar para os empregados (estresse, angústia, baixa autoestima e dissonância cognitiva), para as organizações (absenteísmo, maior rotatividade, baixa produtividade) e para a sociedade (não denúncia de ilegalidades cometidas pelas organizações). Faz-se um levantamento bibliográfico com base na divisão em três ondas de pesquisa sobre a evolução dos estudos de voz e silêncio nas organizações baseado em Brinsfield, Edwards e Greenberg (2009), com foco no silêncio. Da primeira onda (1970-1980) são apresentados: o conceito de voz e a subsunção do silêncio ao conceito de lealdade; as "espirais de silêncio" e o "efeito mudo" (MUM effect). Da segunda onda (1980-2000): a "denúncia de irregularidades organizacionais" (whistleblowing); a "discordância organizacional baseada em princípios" (principled organizational dissent); a justiça organizacional; a "promoção de questões" (issue selling); a cidadania organizacional; o ostracismo social e a "síndrome do surdo" (deaf-ear syndrome). Da terceira onda (2000 em diante): o silêncio organizacional; o silêncio dos empregados; retirada do trabalho (job withdrawal); aprendizagem organizacional e transferência de conhecimento. Observou-se que as pesquisas, principalmente no caso da terceira onda, têm evoluído de pesquisas conceituais e qualitativas para pesquisas quantitativas, havendo questionamentos de alguns pesquisadores sobre a necessidade de se utilizar outras abordagens teórico-metodológicas além das de inspiração positivista. A pesquisa brasileira sobre silêncio, apesar do pequeno volume, contribui para a compreensão do fenômeno na medida em que se insere na agenda atual, buscando fazer pontes entre o conhecimento obtido no exterior e sua relação com a cultura local (caso do whistleblowing), questionando a unilateralidade das pesquisas em determinado tema (caso do silêncio organizacional) ou buscando entender o silêncio também como espaço de compreensão e aprendizagem. Por fim, sugere-se que sejam feitos estudos sobre silêncio que compreendam outras línguas latinas, como também que as pesquisas brasileiras futuras levem em consideração a cultura e características locais, considerando ainda outras abordagens teórico-metodológicas para a compreensão do fenômeno.

Desenho também é coisa séria: desvelando o "funcionário padrão" da sociedade capitalista moderna no desenho animado bob esponja calça quadrada

Considerando-se as configurações do mundo do trabalho na sociedade capitalista moderna, incluindo sua centralidade na vida do indivíduo como base da formação identitária dos seres humanos, adotou-se uma abordagem qualitativa para desenvolver um estudo observacional de um ambiente social fictício na animação infantil Bob Esponja Calça Quadrada, desvelando como ela pode representar um "modelo ideal/padrão do bom trabalhador" apresentado para o público infanto-juvenil. Os quatro episódios aqui analisados servem de pano de fundo para uma reflexão sobre os relacionamentos organizacionais e as dualidades/contrastes (prazer e sofrimento) de percepções e subjetividades presentes nesse contexto. Observa-se, nos episódios analisados, uma dicotomia entre o "bom e o mau trabalhador". Os episódios retratam o antagonismo na relação com o trabalho do personagem protagonista Bob Esponja (que estabelece uma relação subjetiva positiva e prazerosa com sua atividade de trabalho, mas também alienada) e seu antagonista, Lula Molusco (que representa a esfera do sofrimento e da penosidade no trabalho). Os quatro episódios selecionados apresentam elementos essenciais para a compreensão da importância que o trabalho representa na vida dos indivíduos e como se dá essa dinâmica no atual modelo capitalista contemporâneo, pautado no gerencialismo, que valoriza o alto desempenho e transforma o indivíduo em capital que deve ser produtivo a qualquer custo.

Ano

2014

Creators

Paula,Alessandro Vinicius de Pinto,Lauisa Barbosa Lobato,Christiane Batista de Paulo Mafra,Flávia Luciana Naves

Comprometimento organizacional e regime de remuneração: estudo em uma carreira pública de auditoria fiscal

No contexto da carreira de auditoria da Receita Federal, utilizou-se, por cerca de nove anos, o regime de remuneração variável, vinculado à avaliação do desempenho individual e ao alcance de metas de arrecadação. A partir de 2008, esse sistema remuneratório foi substituído pela modalidade de retribuição pecuniária por subsídio, fixado em parcela única, sem gratificações ou recompensas. O novo modelo marca o fim das metas de desempenho individual e institucional para fins remuneratórios. Dada essa realidade, a pesquisa pretende responder à seguinte questão: Que efeito a mudança do modelo de remuneração variável para remuneração por subsídio causa no comprometimento organizacional no âmbito da carreira de auditoria do fisco federal? O objetivo geral é investigar a relação do comprometimento organizacional com os modelos de remuneração variável e por subsídio. Para isso, são considerados dois momentos distintos de forma de remuneração: sob o regime de pagamento variável, vinculado ao desempenho individual e ao alcance de metas da organização, e no segundo momento sob a forma de remuneração por subsídio, sem qualquer vínculo com as metas organizacionais ou desempenho individual. A pesquisa é de natureza quantitativa e descritiva quanto aos fins, utilizando uma survey como método de coleta de dados, com 142 integrantes da carreira de auditoria da RFB lotados na 3ª Região Fiscal. A análise dos dados coletados foi realizada a partir de estatística inferencial não paramétrica, baseada, sobretudo, em testes de análise univariada de variância. Os resultados indicam um elevado grau de comprometimento organizacional por parte dos pesquisados, ausência de efeito sobre esse comprometimento com a mudança no regime de remuneração que a categoria atravessou e revelam que auditores e analistas possuem preferência pelo modelo fixo de remuneração. Verificou-se, ainda, uma percepção de alteração negativa no trabalho com a mudança na remuneração, indicando, para estudos futuros, a análise de como as variáveis de resistência organizacional intermediam a mudança em sistemas de remuneração.

Ano

2014

Creators

Oliveira,Maria Joselice Lopes de Cabral,Augusto Cézar de Aquino Santos,Sandra Maria dos Pessoa,Maria Naiula Monteiro Roldan,Vivianne Pereira Salas

Características comportamentais empreendedoras em proprietários de mpes longevas do vale do mucuri e Jequitinhonha/MG

As micro e pequenas empresas (MPEs) exercem papel importante para a promoção social, lastro de estabilidade política e força propulsora de desenvolvimento, e destacam-se na geração de empregos e distribuição de renda de um país, logo, deve-se estimular a continuidade dessas empresas. Por essa razão, mostra-se importante conhecer os aspectos que auxiliariam em tal continuidade. A existência de características comportamentais empreendedoras nos proprietários de empresas seria um facilitador da longevidade empresarial. Entretanto, são incipientes trabalhos que revelam a presença dessas características em proprietários de MPEs. Portanto, este artigo teve por objetivo central identificar se a presença de características comportamentais (CCEs) nos proprietários de MPEs do Vale do Mucuri e Jequitinhonha/MG é determinante para a longevidade dessas empresas. O estudo é empírico-descritivo, em que se utilizou questionário estruturado na coleta de dados, obtendo-se o retorno de 283 respondentes, sendo analisados por meio de estatísticas descritivas e análise discriminante. A amostra foi segmentada em três grupos de empreendedores categorizados pela longevidade das empresas, para aferir uma possível diferença quanto à presença das características, de acordo com a idade das empresas. Constatou-se que as únicas características que divergiram na discriminação dos três grupos de longevidade foram "Ser independente/autoconfiança" e "Relacionamento pessoal e liderança". Conclui-se que, a partir da percepção dos empreendedores, a presença da maioria das CCEs não estaria diretamente associada à longevidade das empresas, entretanto, pode colaborar para a longevidade das empresas, caso sejam refletidas nas ações dos seus proprietários. Logo, esta pesquisa fortaleceu os resultados de Petry e Nascimento (2009), uma vez que, tanto aqueles achados quanto as constatações pertinentes às empresas da mesorregião, se alinharam ao retratar que, mesmo as CCEs sendo sugeridas pela teoria como elementos bastante associados à longevidade, esse efeito não foi confirmado pelos testes empíricos. Ainda assim, os gestores devem cultivá-las, pois a literatura sugere que podem contribuir para o aperfeiçoamento das empresas.

Ano

2014

Creators

Oliveira,José Roberto Cajaíba de Silva,Wendel Alex Castro Araújo,Elisson Alberto Tavares

Conformidade do disclosure obrigatório dos ativos intangíveis e práticas de governança corporativa

O estudo objetiva verificar se empresas com maiores proporções de ativos intangíveis no ativo total e melhores práticas de governança corporativa apresentam maior conformidade com o disclosure obrigatório de tais ativos. Pesquisa descritiva, com abordagem quantitativa, foi conduzida por meio de análise documental em uma amostra de 260 empresas de seis setores econômicos da BM&FBovespa. Para cada empresa calculou-se o percentual dos ativos intangíveis em relação ao ativo total. O índice de governança corporativa foi pautado no estudo de Leal e Carvalhal-da-Silva (2007) e o índice de conformidade das informações divulgadas sobre ativos intangíveis foi baseado no CPC 04. Os resultados revelaram representatividade dos intangíveis, que de maneira geral equivalem a 17% do ativo total, mas algumas empresas, principalmente aquelas de setores com maiores proporções, possuem índices mais expressivos. Na qualidade das práticas de governança encontrou-se um índice médio de 55% e no nível de evidenciação de informações sobre intangíveis, um índice médio de 75%. A correlação de Pearson mostrou-se positiva e significativa estatisticamente, corroborando o descrito no objetivo do estudo. Assim, conclui-se que entre empresas de diferentes setores da BM&FBovespa, aquelas com maiores proporções de ativos intangíveis no ativo total e melhores práticas de governança corporativa apresentam maior conformidade com o disclosure obrigatório de tais ativos.

Ano

2014

Creators

Moura,Geovanne Dias de Varela,Patrícia Siqueira Beuren,Ilse Maria

Conversão de veículos flex para o gás natural: problema de escassez e contribuição à sustentabilidade

Dentre as fontes de energia menos poluentes tem-se o gás natural veicular (GNV). Seu uso como fonte de energia no setor de transportes vem crescendo - há projeções de expansão de consumo na ordem de 52% em âmbito mundial entre 2008 e 2035 - e representa uma alternativa para redução do dano ambiental decorrente do uso crescente de fontes energéticas poluentes. Considerando o contexto social, político e econômico, ações sustentáveis são esperadas por parte dos indivíduos e das empresas. Com isso, este estudo objetiva valorar a opção da conversão de veículos leves flex para o gás natural veicular (GNV) tendo a contribuição para a sustentabilidade como principal motivador. A metodologia de opções reais e a simulação de Monte Carlo foram empregadas para modelar a opção europeia, já que a decisão de abastecer com GNV, gasolina ou etanol, a cada período, é totalmente independente da decisão dos períodos anteriores, de acordo com Bastian-Pinto, Brandão e Alves (2010), admitindo a capilaridade dos postos de gasolina como um fator adicional de incerteza. Assim, é calculado o valor da flexibilidade obtida pela conversão, considerando incertezas quanto à evolução dos preços dos combustíveis e à escassez do GNV devido a pouca capilaridade de postos com oferta deste combustível. Os resultados mostram que para uma escassez de 25% - aproximadamente a parcela dos postos do estado do Rio de Janeiro em que há oferta de GNV - é requerido um mínimo de 1.200 quilômetros de distância percorrida por mês para que o valor da opção seja positivo. Além disso, o valor da opção pode chegar a 416,8% de retorno sobre o custo da conversão, ou 31% do valor do veículo, mesmo desconsiderando eventual benefício fiscal dado a esse combustível pelas normas brasileiras. Os resultados evidenciam também que existe ganho incorporado à opção analisada, relacionado à sustentabilidade, dado que o GNV é um tipo de energia mais limpa.

Ano

2014

Creators

Bastos,Sérgio Augusto Pereira Fortunato,Graziela

Bancos versus cooperativas de crédito: um estudo dos índices de eficiência e receita da prestação de serviços entre 2002 e 2012

O presente estudo apresenta caráter descritivo e visa analisar o índice de eficiência e a evolução das receitas de prestação de serviços das cooperativas de crédito em comparação às instituições bancárias privadas e públicas. Segundo dados do Banco Central do Brasil, a relação PIB/crédito situou-se em 55,5% no ano de 2012, entretanto, ainda não se compara a países desenvolvidos, que atinge patamares acima de 100%. A amostra consiste nas maiores instituições bancárias e cooperativistas selecionadas de acordo com o critério "ativo total", totalizando uma média de 69,31% para as instituições bancárias e 61,33% para as cooperativas de crédito. Para análise das variáveis foram empregados índices de eficiência, análise vertical e horizontal das receitas de prestação de serviço no período entre 2002 e 2012. O índice de eficiência é um importante indicador, pois relaciona os insumos aplicados na produção e os produtos obtidos nesse processo. A análise das rendas com prestação de serviços é significativa, pois tem se mostrado cada vez mais relevante no desempenho financeiro das instituições financeiras. Os resultados obtidos demonstraram que os índices de eficiência dos bancos privados apresentaram os maiores níveis entre os segmentos analisados, seguidos pelos bancos públicos e, por fim, pelas cooperativas de crédito. A predominância dos bancos privados não foi abalada nos anos de crise, ao contrário dos bancos públicos, que foram ultrapassados pelo segmento cooperativista de crédito nos anos de 2008-2009 e 2012. Diante das contas que formam o índice, constatou-se que, até 2006, o comprometimento do RBIF com as despesas estruturais nas cooperativas foi semelhante ao verificado nos bancos públicos, porém maior do que o dos bancos privados. Tal comportamento se diferenciou entre os anos de 2007-2010 e 2012, quando esse indicador apresentou queda significativa no segmento cooperativista. Por fim, nas evoluções horizontal e vertical verificou-se que, apesar do crescimento significativo registrado pelas cooperativas de crédito e da convergência no grau de participação entre os segmentos, a participação das receitas de prestação de serviço ainda é maior no segmento bancário do que no cooperativista de crédito. Esse fato pode representar um elemento de potencialidade a ser explorado pelas cooperativas na busca pela eficiência.

Ano

2014

Creators

Matias,Alberto Borges Quaglio,Gislaine de Miranda Lima,João Paulo Resende de Magnani,Vinícius Medeiros

A produção científica em gestão de operações no Brasil: uma análise de temas, autores e instituições de pesquisa no período entre 2001 e 2010

Este artigo analisou a produção científica em gestão de operações no Brasil, procurando identificar as temáticas de maior interesse dos pesquisadores e os grupos de pesquisa mais atuantes a partir de uma amostra de 3.224 artigos publicados em 13 periódicos científicos nacionais, no período de 2001 a 2010. Além da classificação dos artigos conforme suas categorias temáticas, também se identificou a origem dos autores, que foram separados em função da área de atuação (Administração ou Engenharia de Produção) e da instituição de afiliação. De maneira geral, 18,4% de todos os 3.224 artigos publicados nas revistas analisadas se enquadram como pertinentes à área de Gestão de Operações. Os resultados apontam sensível diferença entre os percentuais referentes a revistas com origem na área de Administração, que variaram de 1,7% a 10,9%, e os relacionados às revistas com origem na área da Engenharia de Produção, cujos percentuais variaram de 57,8% a 62,4%. O tema mais abordado de Gestão de Operações foi logística e cadeia de suprimentos, com aproximadamente 20% dos trabalhos publicados. Esse tema tem merecido mais destaque nas revistas de Administração, com 35% do total de trabalhos publicados, do que nas revistas de Engenharia de Produção, em que totaliza 14% dos trabalhos publicados. Os temas operações de serviços e gestão de projetos/ desenvolvimento de produtos ocupam praticamente juntos a mesma posição, em segundo lugar entre os temas de maior interesse, tanto nas revistas de Administração como nas de Engenharia de Produção. Percebe-se também que os assuntos relacionados ao tema ergonomia e organização do trabalho são pouco abordados pelas revistas de Administração, com uma média de 2% dos trabalhos publicados. No entanto, representam 8% dos trabalhos publicados nas revistas de Engenharia de Produção. Acredita-se que a pesquisa tenha sido útil, dentre outros motivos, para que os pesquisadores consigam compreender melhor o espaço editorial que está disponível para a publicação dos seus achados de pesquisa, independentemente de terem sua origem na Administração ou na Engenharia de Produção.

Ano

2014

Creators

Peinado,Jurandir Graeml,Alexandre Reis

INSTITUTIONAL WORK E CONHECIMENTO EM REDES INTERORGANIZACIONAIS: UMA PROPOSTA PARA INVESTIGAR APLs

O presente artigo tem por objetivo apresentar um esquema de análise de arranjos produtivos locais (APLs) pela via das perspectivas institucional e de redes para avaliar a institucionalização do modelo APL em aglomerações de empresas. Ao longo da base teórica do trabalho, é proposto um conjunto de 13 hipóteses que exploram novas relações entre os constructos utilizados na análise. Os argumentos se fundamentam em pressupostos institucionalistas e introduzem a lógica da mudança a partir do institutional work de atores imersos numa rede interorganizacional que trocam conhecimento por meio da relação social. O esquema de análise, definido como microprocedimento da institucionalização, é construído a partir da aceitação, implementação, internalização e difusão de padrões, ações sociais e conhecimentos, levando em conta a influência dos contextos institucional e relacional no nível do campo organizacional. A metodologia para tratamento empírico do modelo propõe iniciar a investigação mediante uma base qualitativa por meio da análise de conteúdo temática das fontes da pesquisa no nível do campo e pelo cruzamento desses dados no nível dos atores imersos com o uso de ferramentas quantitativas. Assim, a pesquisa caracteriza-se como estudo de caso múltiplo comparativo, em que casos individuais são estudados e comparados para manifestar características similares ou contrastantes e alcançar uma melhor compreensão do fenômeno. A utilização do modelo teórico desenvolvido poderá explicar como a institucionalização acontece numa lógica bottom-up em detrimento de uma visão determinista baseada somente no contexto institucional. O esquema de análise revela-se consistente, original e adequado para avaliar a institucionalização em APLs, bem como para testar empiricamente as hipóteses apresentadas. Essa abordagem mais centrada na agência, levando em conta as influências do contexto institucional e o caráter de sua lógica evolucionista, coaduna- se com a sociologia compreensiva weberiana e denota uma coerência com os pressupostos epistemológicos do construtivismo social, resultando na necessária utilização de vários métodos de pesquisa. Na conclusão, além de suas contribuições, o artigo apresenta uma agenda de pesquisa sobre institucionalização

Ano

2014

Creators

JACOMETTI,MÁRCIO GONÇALVES,SANDRO APARECIDO CASTRO,MARCOS DE

A PRODUÇÃO CIENTÍFICA EM GÊNERO NO BRASIL: UM PANORAMA DOS GRUPOS DE PESQUISA DE ADMINISTRAÇÃO

Este artigo tem como objetivo mapear as atividades desenvolvidas pelos grupos de pesquisa sobre gênero na área de administração e procurar compreender as relações entre eles. Identidades de gênero são vistas como importantes categorias sociais para a compreensão de relações de poder e interações humanas nas organizações. Para compreender como se dão tais relações que envolvem tal tema, o aporte metodológico contempla estudos bibliométrico e sociométrico da produção em gênero de líderes de grupos de pesquisa em administração que lidam com a temática, seja em linhas de pesquisa ou em impactos e ações apresentados na descrição do grupo, apoiado por estatística descritiva para facilitar a visualização dos dados. Foram encontrados 32 grupos com tais características, em sua maioria recentes (metade deles com cinco anos de formalização), que têm, ao todo, 42 líderes, os quais produziram, como autores ou coautores, 88 artigos sobre gênero, entre janeiro de 1995 e janeiro de 2014, com concentração em periódicos A2 e B3. O estudo sociométrico revela uma rede de coautorias pouco densa, sem um ator centralizador, caracterizando reduzido número de relações de coautoria e um número reduzido de autores que apresentam publicações pautadas em gênero, o que indica que o tema não é trabalhado por esses autores ou os trabalhos desenvolvidos não são voltados para produções científicas. Também indica a importância das orientações na pós-graduação, para a difusão do tema em diferentes universidades e para a manutenção de relações de coautoria entre pesquisadores, que foram, em determinado momento, orientadores e orientandos. A relevância dos resultados encontra-se na compreensão inicial do campo, a partir dos grupos de pesquisa que constituem um elemento importante para os programas de pós-graduação e para a produção científica. Como limitações, coloca-se a análise parcial dos grupos, apenas da produção científica dos líderes, além da possibilidade de desatualização de dados presentes no Diretório dos Grupos. Apresentam-se como perspectivas de investigação futura: um estudo aprofundado da produção científica analisada por meio da sociometria, o resgate histórico da constituição dos grupos e suas relações com projetos de pesquisa e extensão, financiados por agências de fomento.

Ano

2014

Creators

ANDRADE,LUÍS FERNANDO SILVA MACEDO,ALEX DOS SANTOS OLIVEIRA,MARIA DE LOURDES SOUZA

DE ARTESÃO A EMPREENDEDOR: A RESSIGNIFICAÇÃO DO TRABALHO ARTESANAL COMO ESTRATÉGIA PARA A REPRODUÇÃO DE RELAÇÕES DESIGUAIS DE PODER

No despontar do século XXI, uma atividade tão antiga quanto o artesanato tem sido alvo de incentivos econômicos por parte do Estado e de organizações não governamentais (ONGs) que atuam no Brasil. Intervenções realizadas por organizações como o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) têm por objetivo transformar a produção artesanal brasileira em uma grande geradora de emprego e renda, atrelada aos circuitos de consumo internacional e/ou à atividade turística. No exame das propostas que fundamentam intervenções desse tipo, é notório o discurso da ressignificação do artesanato e da identidade do artesão por meio do enaltecimento da ação empreendedora e da ênfase sobre a gestão e a necessidade premente de impor ao trabalho artesanal os padrões de competitividade inerentes à economia capitalista. Mas os novos empreendedores-artesãos têm, na ressignificação da sua atividade, a aparência de uma inserção social que não chega a se concretizar. Em virtude dos processos de intervenção que têm ressignificado a produção artesanal brasileira, observa-se certo prejuízo das características materiais e dos traços simbólicos que são peculiares ao artesanato, culminando com a naturalização da ideologia gerencialista como modelo para a reconfiguração do artesanato. Nesse quadro, o que ocorre de fato é a incorporação de cada vez mais pessoas no sistema-mundo que alimenta a matriz de poder capitalista moderno/colonial. E tal processo, que privilegia a empresarização do artesanato, tanto banaliza quanto reproduz a ideia de desenvolvimento como sinônimo de ampliação da capacidade de consumo. A lógica subjacente a essa ideologia está na concepção de que a proclamada liberdade que seria inerente à política neoliberal reside no potencial de consumo individual. A comoditização do artesanato fecha um ciclo que acaba por retirar autonomia do artesão, afasta-o de uma perspectiva emancipatória e reproduz uma situação de dependência em que não há perspectivas de transformação. “Inclusão social”, no caso em apreciação, é um eufemismo para a incorporação de novos consumidores no mercado de massa.

Ano

2014

Creators

MARQUESAN,FÁBIO FREITAS SCHILLING FIGUEIREDO,MARINA DANTAS DE

ALBERTO GUERREIRO RAMOS: CONTRIBUIÇÕES DA REDUÇÃO SOCIOLÓGICA PARA O CAMPO CIENTÍFICO DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA NO BRASIL

O ensaio teórico apresenta a proposta de Alberto Guerreiro Ramos sobre redução sociológica, na dimensão de método histórico e atitude parentética, como sugestão de tema aos estudos sobre o campo científico da administração pública no Brasil. Procuramos dialogar com duas questões: “De que modo podemos desenvolver um entendimento mais sistemático da administração pública nacional?” e “O que precisamos (re)conhecer para que o campo da administração pública nacional seja mais responsivo, correspondendo melhor aos anseios públicos locais?”. Seguindo Guerreiro Ramos, sugerimos que o campo estudado lance mão do uso metodológico da história e da ação parentético-substantiva. O primeiro diz respeito à assimilação crítica da produção intelectual estrangeira que permitiria a uma comunidade não se servir exclusivamente de experiências de outras comunidades na realização de seu projeto histórico. O segundo está relacionado com um posicionamento lúcido e ativo dos seres humanos em relação aos fatores que os condicionam, permitindo um ajustamento ativo deles na sociedade e, sobretudo, nas organizações econômicas. Eis as sugestões propostas por este trabalho: reavivar a necessidade de os pesquisadores brasileiros utilizarem conhecimento e produções científicas estrangeiras de maneira subsidiária, uma vez que há intenção primeira de atender às necessidades de uma realidade que, em muitos pontos, se apresenta de modo distinto das realidades em que as teorias/ modelos surgiram; e fomentar a visão parentético-substantiva dos indivíduos para a construção de modelos de organização que, embora não excluam, façam com que modelos econômicos organizacionais dividam espaços com modelos mais voltados a garantir qualidade de vida, autorrealização, interação social primária, satisfações sociais e participação na produção de bens públicos.

Ano

2014

Creators

CAPELARI,MAURO GUILHERME MAIDANA AFONSO,YEDDA BEATRIZ GOMES DE ALMEIDA DYSMAN DA CRUZ SEIXAS SINGER GONÇALVES,ANDRÉA DE OLIVEIRA

MITOS FUNDADORES, TRADIÇÕES INVENTADAS E SENTIDOS DE CIDADE: UMA INCURSÃO PELA VELHA E NOVA CATAGUASES-MG

Este trabalho propõe uma incursão histórica na formação de Cataguases-MG, a fim de compreender como os mitos fundadores e as tradições inventadas imputam sentidos a cidades, objeto cada vez mais presente dentro dos estudos organizacionais. As tradições inventadas e os mitos fundadores constituem um elo indestrutível na medida em que as tradições representam um passado que deve ser preservado como forma de recobrar mudanças significativas na sociedade. Essas tradições demandam necessariamente formas de serem reconhecidas como novo status e se apoiam nos aparatos legal, político, cultural e econômico, sendo mais fortes quando mais coesas e institucionalmente amparadas forem. A construção do trabalho se deu a partir da consulta a acervos públicos municipais e nacionais datados a partir de 1906, bem como da análise de obras reconhecidas como biografias oficiais sobre a cidade. Os dados foram tratados a partir de uma análise marxista do discurso, de forma que este se configure um elemento ideológico de uma superestrutura que mantém relação dialética com a base, com as questões da vida social. Os achados conduzem à existência de três núcleos de mitos fundadores, ligados ao desbravamento, à fundação do município e à vocação econômica e cultural da cidade. A transição entre estes dois últimos mitos fundadores é central neste trabalho, pois diz respeito a uma batalha entre representantes da oligarquia agrária e das indústrias. É nessa transição que se desvelam as tradições inventadas, na medida em que a vocação modernista demarca a passagem de cidade conservadora para a cidade progressista. A tradição modernista imposta à cidade é decorrência de uma disputa pelo controle político da cidade da qual um dos grupos participantes era formado por industriais. Assim, o capital vê na arquitetura moderna não apenas a possibilidade de assumir o controle político, como também de demarcar a fundação de uma nova cidade, distinta daquela herdada de uma economia cafeeira gerida por velhas oligarquias.