Repositório RCAAP
Ferramentas cognitivas nas escolas de escribas da Antiga Babilônia
A partir de uma avaliação crítica de propostas teóricas voltadas ao estudo histórico da cognição como as apresentadas por Jack Goody e Reviel Netz , este trabalho desenvolve uma possível aproximação entre novos modelos produzidos no campo das ciências cognitivas, em especial modelos de cognição corporalizada (embodied cognition), e as atuais interpretações dos textos matemáticos babilônicos. Propõe possíveis desenvolvimentos dessas interpretações através da identificação de um sistema cognitivo estendido específico da cultura escribal babilônica, fundado no uso de ferramentas cognitivas: as formas de produção da escrita cuneiforme, o repertório textual preservado pela tradição escribal e a própria instituição social escolar da eduba. Neste quadro, os conceitos matemáticos, as formas de percepção e ordenação da realidade material e a cognição escribal sobre o conceito de tempo se revelam dependentes da agência material dos tabletes cuneiformes, das práticas ligadas a eles e da posição social do escriba.
Imagens do povo no vídeo: Estado, lutas sociais e produção cultural das décadas de 1980 e 2000
Trata-se do novo cenário da produção e difusão de vídeo popular, tendo em vista o contexto das transformações na cultura brasileira, com foco nas ações e realizações da Associação Brasileira de Vídeo Popular - ABVP dos anos 1980 e do Coletivo de Vídeo Popular de São Paulo dos anos 2000, levando em consideração rupturas e continuidades nas formas organizativas dessa produção. Para tanto, olhamos para o passado recente da cultura brasileira para entender as influências e o lugar atual da produção cultural na realização de vídeo popular. Dois eixos básicos são apresentados para explorar a relação entre contexto social, produção cultural e vídeo popular. Na primeira vertente, analisa-se os mecanismos de produção dos realizadores ligados à ABVP, próxima aos movimentos sociais e populares da época, traçando como se comporta esse grupo de produtores, a partir da análise do vídeo Há lugar, de 1987. A segunda vertente, mais atual, insere os vídeos no contexto mais amplo da produção cultural, delineando as determinantes sociais e culturais de seu mecanismo de produção. Percebe-se hoje que o audiovisual não está restrito ao dito cinema de mercado e à indústria cultural, mas que se desenha também como instrumento no interior de ações culturais e sociais. Neste contexto vamos analisar o vídeo Qual Centro?, de 2010. Pretende-se investigar, através do apontamento histórico das mudanças institucionais e legais ocorridas no âmbito federal, estadual e municipal no que tange à política cultural para o audiovisual e para a \"diversidade\", alguns pontos da relação entre a produção cultural, as mudanças na concepção de cultura e de Estado, as mudanças na situação político-econômica e a produção de vídeo popular do passado e do presente
2016
Wilq Vicente dos Santos
Francis Bacon e O progresso do conhecimento no início do século XVII
Neste trabalho, trazemos uma análise da obra O Progresso do Conhecimento, publicada em 1605, pelo filósofo e político Francis Bacon (1561-1626). Nosso objetivo é explorar as ideias contidas nesse importante livro de Bacon a fim de relacioná-las com intenções mais gerais desse pensador, no plano de um projeto para a ciência, e com o momento histórico em que ele viveu, em especial a Reforma Protestante e suas consequências para o Estado inglês. Para atingir nosso objetivo, fizemos inicialmente um levantamento dos modos como a historiografia da ciência tem tratado sua vida e sua obra e como a historiografia geral tem abordado a questão da Reforma Protestante na Inglaterra. A análise do livro de Bacon, ao mesmo tempo em que segue linearmente as partes da obra, priorizou algumas dimensões teóricas: o projeto de Bacon de classificação das partes do conhecimento, a questão da separação entre o conhecimento humano e divino, o problema dos sujeitos da ciência e a dignidade do conhecimento e as vantagens do conhecimento. O resultado da análise é que as ideias de Bacon sobre a ciência são também ideias e propostas sobre o funcionamento do Estado e sobre os modos de ser dos sujeitos que os possibilitariam se relacionar com essa ciência e esse Estado. Assim, sugerimos que, para Bacon, Estado, sujeitos e ciência são elementos inter-relacionados e indissociáveis
2016
Cristiane de Melo Shirayama
Entre a fralda e a lousa: um estudo sobre identidades docentes em berçários
Neste trabalho, apresento uma pesquisa sobre identidades docentes em berçários desenvolvida em um Centro de Educação Infantil (CEI) na cidade de São Paulo. Inspirada em abordagens biográficas e num enfoque qualitativo, realizei um estudo empírico por meio de entrevistas, do qual participaram sete professoras e um professor de educação infantil, que atuavam com crianças de 0 a 2 anos de idade. Com base no histórico da instituição nas últimas décadas, destacando-se a passagem das creches (hoje CEIs) do âmbito de órgãos assistenciais para a Secretaria Municipal de Educação em 2001, e a partir da análise das narrativas das docentes e do docente, procurei identificar aspectos relevantes para a compreensão do processo de constituição de suas identidades profissionais diante das demandas do trabalho específico com bebês no contexto de uma rede pública de ensino. Buscando aproximar a abordagem dos estudos culturais ao campo da educação infantil, a investigação teve como pressupostos teóricos algumas concepções de Stuart Hall, Nestor Canclini, Michel Foucault, entre outros, para tecer relações entre identidade, cultura, gênero e poder, em um enfoque interdisciplinar. Os dados obtidos apontaram a existência de especificidades na prática docente em berçários, sobretudo as atividades envolvendo os cuidados dos bebês, que foram naturalizados como atributos femininos e que, hoje, não são valorizados em contextos escolares. Tendo em vista a divisão entre trabalho intelectual e trabalho manual que permeia a carreira do magistério e a sociedade de um modo geral, verifiquei que esse mesmo antagonismo se expressava nos embates sobre o enunciado cuidar e educar, um dos atuais paradigmas da educação infantil, e também nas relações de poder no âmbito da instituição. Assim, para justificar a sua permanência como docentes em berçários ou valorizar a sua profissão, os sujeitos encontravam diferentes estratégias identitárias, buscando ajustar a sua atividade concreta com os bebês às suas representações de um modelo ideal de docência. As análises indicaram também que o atendimento de bebês demandava a articulação de múltiplos aspectos (saberes passados de geração em geração, crenças, conhecimentos científicos, diretrizes pedagógicas etc.), evidenciando que as práticas nos berçários se desenvolviam a partir de um processo de hibridação de culturas, embora os discursos dos sujeitos assumissem formas binárias ao procurar ajustar as suas experiências ao enunciado cuidar e educar, numa oposição em que o cuidar associava-se a práticas do passado e o educar ao novo ideal de seu papel como docentes. Desse modo, a aproximação entre os estudos culturais e o campo da educação infantil contribuiu para que se evidenciassem os entre-lugares em que tais identidades docentes se constituíam, mostrando-se como um caminho a ser percorrido em futuras pesquisas sobre esse campo de atuação profissional.
2013
Rosmari Pereira de Oliveira
Condições para a aquisição do capital cultural no ensino médio
Esta pesquisa analisou as dinâmicas internas em torno do ingresso em uma ETEC (Escola Técnica Estadual) bem conceituada no município de Franco da Rocha na periferia da região metropolitana de São Paulo. A partir de uma análise que buscou compreender a cultura escolar desta instituição por meio de um estudo sobre características sócio-demográficas dos estudantes e de observações de caráter etnográfico do contexto escolar. A expansão do acesso ao ensino superior, o aumento da concorrência nos vestibulares, juntamente com a baixa qualidade das escolas públicas do Ensino Médio, criaram novas tendências nas estratégias de entrada dos alunos nas grandes universidades paulistas. Entre elas, estas escolas públicas diferenciadas que oferecem o curso de ensino médio, configuram-se como uma alternativa de ensino público secundário que possui as maiores notas nos exames de qualidade no ensino (ENEM) e bons resultados na aprovação de seus estudantes nos vestibulares como a FUVEST. A partir da experiência como professor de uma ETEC, esta pesquisa busca compreender as dinâmicas e os dispositivos mobilizados para o ingresso em uma destas instituições na periferia da Grande São Paulo, destacando e acompanhando as iniciativas de engajamento de professores e alunos em um cursinho pré-ETEC que acontece em uma escola pública, de maneira voluntária e acompanhando as dinâmicas desta ETEC. Nesta pesquisa podemos perceber o resultado destas iniciativas em torno do ensino médio e seu impacto social nestes grupos analisando suas trajetórias e sua dinâmica cultural interna
Políticas públicas para a cultura do campo no Brasil
A pesquisa partiu da seguinte pergunta matriz: Existem políticas públicas para a cultura do campo no Brasil? O trabalho exigiu um entendimento de natureza teórico-conceitual sobre as políticas culturais e a cultura do campo, partindo de referenciais dispersos que possibilitariam um olhar crítico para o que pudesse ser encontrado em um trabalho empírico. Os referenciais utilizados foram articulados na perspectiva de uma consciência das relações de poder e dominação que influenciam e desafiam a realidade analisada. Por sua vez, o trabalho empírico procurou levantar e discutir as ações culturais do Estado brasileiro que abrangem ou estão voltadas para as populações rurais. A pesquisa verificou que não há no país nenhuma política sistemática pensada especificamente para a cultura do campo. O que existe são ações e programas com objetivos de outra natureza que acabam abrangendo o desenvolvimento cultural das populações campesinas. Considerando que cerca de 30 milhões de pessoas vivem no campo, pode-se afirmar que: i) os apoios existentes às práticas culturais rurais são escassos perto da demanda existente e enfrentam inúmeras dificuldades para se desenvolver; ii) as políticas culturais predominantes em geral as leis de incentivo à cultura são distantes da realidade das populações rurais; iii) há caminhos consistentes para o desenvolvimento da dimensão cultural do campo, que precisam ser crescentemente e continuamente aprofundados na perspectiva de promover mudanças culturais com capacidade de transformar as estruturas de dominação e exploração da realidade brasileira
2015
Viviane Cristina Pinto
Desigualdades educativas no acesso ao ensino superior: um estudo de caso sobre a democratização entre os campi da Unifesp
A presente dissertação tem como objeto de estudo a democratização do ensino superior federal decorrente de programas governamentais que visaram à ampliação da oferta de vagas (expansão) e, por conseguinte, a diversificação do perfil do estudante de graduação (redução das desigualdades educativas). Para tanto, tomou-se como base o caso da Universidade Federal de São Paulo, por meio de: a) informações institucionais (história, infraestrutura); b) dados sociodemográficos dos estudantes coletados por meio de questionário aplicado com os ingressantes; c) bem como de entrevistas realizadas com discentes de dois dos cinco campi de expansão desta universidade. Como principais resultados obtidos constatou-se que uma democratização uniforme ou segregativa (identificada por meio dos dados de 2011) que mantem as desigualdades entre os grupos sociais está dando lugar a uma democratização equalizadora (identificada pelos dados de 2014) que reduz as desigualdades somente após a implantação da lei de cotas, mesmo que ainda parcialmente instalada, na Unifesp. Apesar de promissor, os dados das entrevistas e observações desvelam um panorama de conflitos entre os estudantes de grupos que historicamente foram segregados do ensino superior e a instituição universitária que fora erigida tendo em vista outro público estudantil
2015
Taline de Lima e Costa
Séries televisivas como porta de entrada para o diálogo sobre relações de gênero com pré-adolescentes: o caso do grupo de intervenção \"E.M.M.A.\"
Gênero é um conceito que se apresenta como fruto de discussões políticas e ideológicas, diversas autoras e autores já problematizaram este conceito que é tão importante dentro das discussões feministas e queer e que, atualmente, gera acaloradas discussões sobre seu uso na escola. As relações de gênero permeiam o campo das artes e diversas representações das feminilidades e masculinidades estão presentes em produtos midiáticos, que dominam grande parte do tempo de uma considerável parcela dos indivíduos. Há aqueles que defendem que as mídias possuem apenas impactos negativos em nossas vidas, mas há também outros tantos que acreditam no seu caráter cultural e pedagógico. Nesta pesquisa, nós refletimos sobre a utilização de um produto midiático específico, as séries televisivas norte-americanas, como porta de entrada para o diálogo sobre relações de gênero com pré-adolescentes. Durante um ano, além de reflexões teóricas, nós realizamos intervenções em uma escola municipal de ensino fundamental localizada na zona leste de São Paulo. As intervenções foram formuladas e realizadas pelo grupo de trabalho E.M.M.A. (Estudos sobre a Mulher e as Minorias na Arte-Ciência), na modalidade A.L.I.C.E. (Arte e Lúdico na Investigação em Ciências na Escola) do projeto Banca da Ciência. Após reflexões teóricas e intervenções, pudemos concluir que, é possível utilizar as séries televisivas como porta de entrada para o diálogo sobre relações de gênero com pré-adolescentes e que, a partir das representações das identidades femininas que estão presentes nessas séries, é possível discutir diversos temas relacionados à questão do sexo, do gênero, da orientação sexual e das identidades de forma eficaz. Assim, nosso objetivo foi apresentar nossas reflexões teóricas e alguns exemplos das atividades realizadas e, acima de tudo, manter um registro histórico do trabalhado já realizado
2016
Tuany de Menezes Oliveira
A literatura fora do lugar: a constituição de poetas e escritores nos saraus das periferias de São Paulo
A presente dissertação de mestrado apresenta a investigação de processos que estão na origem do envolvimento de sujeitos de grupos culturais de literatura nas periferias da cidade de São Paulo. A pesquisa se concentra nos estudos sobre cultura sob a perspectiva de Pierre Bourdieu, sobretudo no que se refere à aquisição de capital cultural, com ênfase na origem social e trajetória educacional. Entre os anos 90 e início de 2000, surgiu um movimento literário específico, constituído por escritores de regiões periféricas das grandes cidades do Brasil. E a partir dos anos 2000, disseminou-se a realização de saraus em bairros periféricos de São Paulo, sendo eventos nos quais são declamadas poesias, apresentações de cenas dramáticas, grupos musicais, além de críticas sociais e manifestações políticas.O estudo de campo foi realizado em quatro saraus de diferentes regiões da cidade. Foram realizadas análises sociodemográficas dos bairros onde acontecem, considerando índices de escolaridade, renda per capita, espaços culturais etc. Por meio de questionários foi realizado um perfil do público destes eventos. E foram realizadas entrevistas com poetas/escritores, dando importância, sobretudo, às disposições que, em suas trajetórias, influenciaram suas práticas.A recente mobilização de poetas/ escritores nas periferias, historicamente excluídos por condições objetivas e subjetivas do campus literário, cultural e politicamente constituído no Brasil, resulta de um capital cultural específico, estimulado por aumento do nível de escolaridade, dentre outros processos, constituindo uma nova fração de classes que se singulariza pelo engajamento em atividades historicamente não identificadas como pertencentes ao habitus das classes populares e operárias
Confissão e simulacro na literatura contemporânea: análise do romance Divórcio de Ricardo Lísias
A inserção de dados autobiográficos nas narrativas é uma característica muito forte da literatura produzida nas últimas décadas. Esta dissertação tem por objetivo discutir o romance Divórcio de Ricardo Lísias, que se enquadra na premissa aqui apontada, na medida em que os narradores/personagens do livro comungam do nome do autor e apresentam características biográficas que podem ser associadas à vida deste. O objetivo principal é questionar como se dá a transfiguração da matéria vivida em matéria ficcional no texto aqui escolhido. Buscar-seá analisar a sua construção narrativa, as suas relações com um tipo muito característico de romance que se difunde no pós-guerra, no momento em que acontece o que Beatriz Sarlo chama de guinada subjetiva, e a problematização das implicações teóricas da sua produção
A representação da cidade de São Paulo no Festival Lollapalooza 2018 por meio das ativações dos patrocinadores
A cidade de São Paulo é uma capital cultural efervescente que, além da sua rede de equipamentos culturais públicos e privados, conta com eventos especiais e festivais que compõem a oferta cultural de forma mais ampla, que são realizados com apoios de empresas patrocinadoras. Estes apoios sempre ocorreram e, em outras épocas, a exposição da marca ou logomarca da patrocinadora era considerada contrapartida suficiente. Desde a década de 1990, esta relação mudou e vem evoluindo, tornando estes ambientes de festivais um espaço para estabelecer uma relação com seus consumidores diretos ou potenciais por meio de estratégias como Marketing de Relacionamento, de Experiência e One-to-one. Nessa perspectiva, o objetivo geral deste estudo é investigar como a cidade de São Paulo, com uma faceta e um apelo cultural relevantes, está inserida nas ativações de marcas desenvolvidas na edição 2018 do festival Lollapalooza. Como procedimentos metodológicos, foram adotadas pesquisas bibliográficas, pesquisa documental e condução de entrevistas de tipo semiestruturada com pessoas envolvidas na organização do festival, que é o maior na atualidade na cidade de São Paulo. Como resultado principal, a pesquisa conclui que as marcas patrocinadoras e apoiadoras ainda não incorporam de forma efetiva a cidade de São Paulo em suas ativações com referências diretas, mas transmitem, por meio de ações de marketing de experiência, valores possíveis de serem associados à cidade como dinamismo, agilidade e criatividade
Mesmo céu, mesmo CEP: produção literária na periferia de São Paulo
Esta dissertação se propõe a fazer um balanço da produção editorial de literatura existente na periferia paulistana a partir de um estudo crítico de 39 obras, entre romances, contos, crônicas e poesias, publicadas no período de 1988 a 2012. Agrupadas em duas vertentes, 19 obras pertencem ao segmento denominado Literatura Hip Hop, todos em prosa escritos por seis autores com destaque para Ferréz, Alessandro Buzo e Sacolinha. Já os 20 títulos vinculados à corrente da Literatura Periférica são todos de poesia e os autores e autoras são, ou foram vinculados aos dois saraus literários mais antigos Da periferia de São Paulo: Cooperifa e Binho, ambos da da zona sul da capital. A obra de Sergio Vaz mereceu destaque neste segmento. Procurei, dessa forma, refletir sobre uma ampla produção e não sobre uma obra especificamente, ou um determinado autor, ou, ainda, um pequeno grupo de obras ou autores, como até então as pesquisas acadêmicas sobre o tema têm feito. Orientado pelos conceitos de estrutura de sentimento e cultura emergente, de Raymond Williams, analisei as obras a partir de seus aspectos internos, ressaltando suas características mais gerais em função das quais se estabeleceram as segmentações acima mencionadas. Levantei aspectos relacionados às temáticas, aos gêneros e subgêneros, às experimentações estéticas e ao padrão editorial. O resultado é um trabalho híbrido entre a historiografia e os estudos literários, orientado pela perspectiva dos Estudos Culturais e que oferece uma apreciação estética da literatura produzida na periferia da Região Metropolitana de São Paulo.
2014
Antonio Eleilson Leite
Corpos dançantes: experiências e memórias em dois grupos de dança de periferias brasileiras
A presente dissertação apresenta resultados da pesquisa Corpos dançantes: experiências e memórias em dois grupos de dança de periferias brasileiras, sob orientação da Profª. Drª. Régia Cristina Oliveira, no contexto do mestrado acadêmico em Estudos Culturais, na Escola de Artes, Ciências e Humanidades, da Universidade de São Paulo, entre os anos 2016 e 2018. Tendo dois grupos de dança contemporânea (Centro de Experimentações em Movimento e Núcleo de Dança Pélagos) como objeto de pesquisa, o objetivo deste trabalho foi apreender das experiências e memórias de indivíduos de classes populares de São Paulo e Fortaleza, ex-integrantes dos grupos, como a dança transformou o percurso profissional e pessoal de cada um(a) deles. No âmbito teórico-metodológico, trabalhou-se fundamentalmente com os seguintes conceitos e autores(as): corpo e simbolismos (Le Breton), conatus/afetos/afetações (Espinosa), corpo-mente (Espinosa), corpo-rascunho (Le Breton), corpo político, dança contemporânea (Louppe, Primo, Faro e etc), memória (Bosi), descolonização (Fanon), hibridez (Bhabha), racismo estrutural (Almeida), interseccionalidade (Crenshaw), culturas e empoderamento (Berth). Partindo da consideração do corpo como produção social e cultural, buscamos discuti-lo no contexto da dança, das potências e limites apresentados nas experiências dos sujeitos. A abordagem metodológica foi qualitativa, com técnicas de pesquisa. Trabalhamos com entrevista etnobiográfica, história de vida, levantamento de dados documentais (notícias de jornal e fotos de arquivo pessoal dos entrevistados) coleta de dados na internet, em acervos pessoais e registro de trabalho de campo. Concluímos que ocorreram transformações profundas na subjetividade, na vida dos sujeitos, em suas relações e na forma como passaram a lidar com as próprias emoções. Verificamos que as afetações exerceram papel crucial nessas transformações. Ao mesmo tempo, os sujeitos ainda enfrentam limites socioeconômicos, políticos e culturais provenientes da desigualdade social, individual e coletiva em que vivem, em suas respectivas cidades. São problemas decorrentes do racismo, machismo, da misoginia, da negação do Direito à cidade, à moradia e a tantas outras questões que encontram pelo caminho. Contudo, lutam e atuam em iniciativas de resistência cultural e política onde residem, impactando a realidade da qual são parte ativa nos processos, pressionando gestões culturais e influenciando políticas públicas de cultura locais e também nacionais, além de contribuírem em espaços formativos e criativos para as juventudes de periferias paulistanas e cearenses, experiências artísticas afetivas e transformadoras como foram o CEM e o Pélagos, no passado
2018
Yasmim Nóbrega de Alencar
Leituras libertárias: cultura anarquista na São Paulo dos anos 1930
Este trabalho é um estudo da circulação de livros e práticas de leitura entre anarquistas atuantes na cidade de São Paulo na década de 1930. Foi analisada a formação e o desenvolvimento do acervo da biblioteca do Centro de Cultura Social (CCS). Organizado por anarquistas em 1933 e fechado em 1937 com o Golpe do Estado Novo, encerrando sua primeira fase. Sua biblioteca, neste período foi constituída por livros, jornais e documentos de militantes anarco-sindicalistas e tinha como função servir de subsídio para as atividades deste centro de cultura, como leituras comentadas, palestras, cursos e atividades teatrais. Além desta fonte de pesquisa foram usados também resenhas e anúncios de venda de livros publicados nos jornais A Lanterna e A Plebe, entre 1933 e 1935 e documentos do DEOPS/SP, tais como autos de busca e apreensão de bibliotecas particulares de anarquistas e relatórios de investigação que tratavam de circulação de livros e jornais libertários. As pesquisas sobre história dos livros e práticas de leitura de Robert Darnton foram usadas como referencial teórico. Entre os autores dos livros da antiga biblioteca do Centro de Cultura Social e das bibliotecas particulares apreendidas chamam a atenção clássicos do anarquismo como Malatesta, Proudhon, Kropotkin, Elisée Reclus, mas também autores como Marx e Trotsky. Quanto aos gêneros literários foram encontrados ensaios, crônicas, romances e poesias. No que se refere à circulação dos livros verificou-se que eram vendidos em algumas livrarias na cidade de São Paulo, através dos jornais libertários e pelos próprios militantes. Entre os anarquistas eram frequentes tanto as práticas de leituras comentadas em espaços como centros de cultura e bibliotecas populares quanto às leituras individuais de obras adquiridas através de compra e guardadas em pequenos acervos particulares
O caminho das letras: um estudo das trajetórias de Milton Hatoum e Chico Buarque
Esta dissertação prevê, num primeiro momento, o estudo da trajetória de dois escritores brasileiros, Milton Hatoum e Chico Buarque. Num segundo momento, investigam-se os pontos de contato entre as posições e as tomadas de posição no campo literário. Parte-se do pressuposto de que a compreensão da formação e dos investimentos desses autores pode ajudar a compreender tanto as suas obras quanto a recepção crítica positiva que ambos obtiveram e continuam obtendo. A hipótese é a de que modos particulares de aquisição de capital cultural, além de uma nova configuração do campo literário brasileiro, contribuíram para que ambos os autores produzissem obras de qualidade e galgassem posições nesse campo.
2013
Jane Gabriele de Sousa Abreu
Banheiros públicos como demarcação de fronteiras identitárias: experiências de mulheres lésbicas em São Paulo
A presente dissertação apresenta a pesquisa Banheiros públicos como demarcação de fronteiras identitárias: experiências de mulheres lésbicas em São Paulo, investigação que traz uma análise crítica sobre as experiências de mulheres lésbicas nos banheiros públicos em São Paulo. No seu objetivo geral, propôs-se identificar as desigualdades em termos de gênero e sexualidade, enquanto marcadores sociais da diferença, que operam nos banheiros públicos, fazendo uso de uma abordagem interdisciplinar entre os Estudos Culturais, as teorias Feministas, Pós-estruturalistas e Queer. Enquanto objetivo específico, buscou-se aprofundar na análise dos sentidos que as entrevistadas produziam ao narrarem suas experiências, analisando assim categorias conceituais e empíricas como mulher, homem, masculinidade, feminilidade, lésbica expressão de gênero e performance de gênero. A abordagem desses temas se contrapõe à concepção idealizada culturalmente dos banheiros como espaço neutro, no qual sua divisão se acredita dar de forma natural. Argumenta-se, por meio das experiências das entrevistadas, como este espaço opera como um dispositivo protocolar do gênero, em termos de indicar os limites e as fronteiras dos processos identitários entre os sujeitos. Desta forma, a não adequação dos sujeitos aos padrões de homem / mulher gera uma ruptura no sistema heteronormativo, no sentido das expectativas e demandas sociais, e aciona diversas técnicas de poder e controle, tornando o banheiro em mais um cenário normativo de afirmação da diferença sexual. O banheiro público é o local por meio do qual, a diferença sexual vai se afirmar e sustentar, já seja no sentido simbólico (os signos, figuras, representações do masculino e do feminino) ou literal (dispositivos de vigilância e controle que estão dispersos no meio social que instituem modelos de corpos-homem e corpos-mulher). Assim, o banheiro público representa, na sociedade paulista contemporânea, o último bastião do sistema heteronormativo e patriarcal
2019
Josefina Raquel Cicconetti
A cultura da estiva no Porto de Santos: análise comparativa de duas gerações de trabalhadores
Este projeto objetiva discutir as experiências na estiva de duas gerações de trabalhadores do Porto de Santos, localizado no litoral sul do Estado de São Paulo, a partir das mudanças na cultura e na organização do trabalho decorrentes da introdução dos contêineres, na década de 1960, e da promulgação da Lei de Modernização dos Portos, em 1993. O trabalho pretende analisar este processo por meio de uma investigação empírica com pais e filhos estivadores, a fim de identificar as diferentes percepções das mudanças no setor portuário. O objetivo é o de descrever como cada geração vivenciou as transformações impostas pelo novo cenário de produção e de que forma realizou-se o processo de herança e de transmissão da cultura da estiva. Por meio de um estudo empírico com estivadores de duas gerações espera-se identificar as diferentes práticas vividas no âmbito do trabalho e na esfera social. A história oral é o principal aporte metodológico para captar a experiência e buscar a memória dos estivadores. Desta forma, a pesquisa debate sobre a herança da cultura da estiva entre pais e filhos e as permanências e as rupturas na transmissão geracional
2015
Alexandre Pacheco Raith
Lá fora também se aprende: um estudo sobre o programa Cultura é Currículo sob a ótica dos estudos culturais
A pesquisa tem como objetivo geral analisar em que condições a inserção do projeto Lugares de aprender: a escola sai da escola contribui com a democratização da cultura na formação escolar dos estudantes, a partir da abordagem dos estudos culturais. Partindo dos objetivos específicos que pretendem apresentar e caracterizar os estudos culturais como campo teórico e político, que trata das relações na sociedade, e situar o programa Cultura é Currículo nas políticas contemporâneas de educação, a indagação a ser respondida por esse estudo é: em que condições a inserção do projeto Lugares de Aprender: a escola sai da escola contribui com a democratização cultural na formação dos estudantes? Em nossa hipótese preliminar supomos que a inserção do turismo no currículo escolar permite a aproximação dos estudantes a diferentes espaços culturais, ampliando e diversificando as referências culturais em sua formação. Como metodologia, realizamos pesquisa teórica recorrendo a fontes bibliográficas e documentais, e pesquisa de campo. Nesta, utilizamos o método observacional com o enfoque preponderantemente qualitativo, e técnicas de observação direta, entrevista e questionário. Os dados obtidos foram categorizados para análise dos conteúdos. Os resultados alcançados representam a complexidade apreendida nas diversas relações entre os participantes e planejadores do projeto.
2014
Janaina Carrasco Castilho
A Banca da Ciência e a pessoa com deficiência visual: um estudo sobre a acessibilidade atitudinal na difusão científica
A Banca da Ciência é um projeto interdisciplinar da Universidade de São Paulo de intervenções não-formais de difusão dialógica crítica da Ciência para pessoas de todas as faixas etárias. Contudo, seus mediadores, estudantes de diferentes cursos de graduação, carecem de formação acadêmica na área de acessibilidade e inclusão para pessoas com deficiência. Nesse âmbito, surgem as seguintes questões: há barreiras atitudinais por parte dos/as mediadores/as da Banca da Ciência na difusão científica para os/as idosos/as com deficiência visual? Qual a percepção que esses/as mediadores/as têm sobre as pessoas com deficiência visual? Colocando-os frente à uma situação concreta envolvendo pessoas cegas, suas percepções mudam de alguma maneira? Para responder estas questões, esta pesquisa objetivou analisar as intervenções da Banca da Ciência quanto à acessibilidade atitudinal de seus/as mediadores/as para idosos/as com deficiência visual em espaço não-escolar, uma vez que o processo de envelhecimento da população brasileira vem sendo enfatizado e a igualdade de oportunidade não pode ser confundida com a igualdade de tratamento. Desse modo, temos como objetivos específicos: 1. Entender a percepção dos/as mediadores/as da Banca da Ciência sobre acessibilidade, inclusão e multissensorialidade para pessoas com deficiência visual; 2. Analisar como os/as mediadores/as formulam suas intervenções acessíveis para os/as idosos/as cegos/as ou com baixa visão; 3. Averiguar como os/as mediadores se portam perante aos/às idosos/as com deficiência visual; e, 4. Constatar se depois das intervenções, as percepções dos/as mediadores/as sobre as pessoas com deficiência visual se modificam. Temos três hipóteses acerca dos/os mediadores/as: i. mesmo demonstrando interesse na inclusão das pessoas com deficiência visual, permanecem com atitudes preconceituosas e estereotipadas; ii. eles/as reduzem a deficiência à questão do sentido; e, iii. a percepção deles/as muda depois do contato com as pessoas com deficiência visual. A reprodução desta pesquisa se caracterizou sob a linha pesquisa participante e a análise da linguagem dos/as mediadores/as ocorreu com referência no Construcionismo Social e na Análise do Discurso francesa. Constatamos que por mais que alguns/as mediadores/as apresentaram atitudes estereotipadas, discriminatórias e de medo, há tentativa de aproximação com os/as idosos/as cegos ou com baixa visão. Verificamos que todos/as mediadores/as definiram a deficiência visual pelo modelo médico, reduzindo a deficiência à questão do sentido e alguns/as possuem percepção fundamentada em modelo mítico sobre a deficiência visual, isto é, uma percepção histórica cultural muito sólida em deficiência como algo que limita e impossibilita as pessoas cegas de se locomoverem, de estudarem e/ou participarem ativamente de pesquisas acadêmicas. Alguns/as mediadores/as têm noção superficial sobre acessibilidade, inclusão e multissensorialidade para pessoas com deficiência visual. Depois das intervenções, foi possível constatar que os/as mediadores/as continuaram reduzindo a deficiência visual à questão do sentido, contudo, eles passaram a se perceberem como seres tateante, ouvinte, degustante e olfativo. Consideramos necessária uma qualificação de seus/as mediadores/as continuamente e uma multissensorialidade de seus produtos culturais em suas intervenções para quando se deparar com as pessoas com deficiência visual
Da \"bela velhice\" às \"velhinhas de bengala\": narrativas sobre envelhecimento, corpo, gênero e menopausa
Este trabalho analisa, a partir de abordagem qualitativa e perspectiva interdisciplinar, os sentidos atribuídos ao envelhecimento e à velhice por mulheres pertencentes às camadas médias populacionais, moradoras da Região Metropolitana de São Paulo. São discutidos esses sentidos e suas proximidades e distanciamentos em relação aos discursos hegemônicos, sobretudo àqueles associados ao \"envelhecimento ativo\", nos quais envelhecer aparece como algo que pode ser adiado através da adoção de determinados cuidados que visam à administração de corpos e identidades. Foram realizadas entrevistas em profundidade, individuais e semiestruturadas com dez mulheres que possuíam entre 50 e 71 anos. A discussão está organizada em quatro eixos: as percepções acerca da velhice e do processo de envelhecimento, as transformações corporais relacionadas a esses fenômenos, as especificidades do envelhecimento feminino e a relação entre menopausa e envelhecimento. As narrativas das mulheres entrevistadas apresentam dois grandes grupos de sentidos que coexistem e se interseccionam: a \"bela velhice\" e as \"velhinhas de bengala\". Os discursos hegemônicos apontam para a responsabilização dos indivíduos acerca de sua saúde e a moralização daqueles que não seguem o estilo de vida considerado adequado. Tais discursos, juntamente a determinadas mudanças socio-históricas nas construções de gênero, possibilitam uma vivência do envelhecimento perpassada pela atividade, autonomia e independência. No entanto, ao mesmo tempo em que trazem benefícios e revisam estereótipos negativos, constroem normas que implicam na abjeção e apagamento de outras experiências. Pretendese, então, contribuir para a análise do envelhecimento feminino, refletindo sobre a interlocução entre discursos, práticas sociais e subjetividades, evidenciando também os modos através dos quais as mulheres estão vivenciando esse fenômeno na contemporaneidade
2018
Aline Ângela Victoria Ribeiro