Repositório RCAAP
Escola e redes sociais: diálogos possíveis, saberes e inversões
O presente estudo teve como objetivo analisar as possibilidades das redes sociais da Internet, a partir dos usos e aplicações feitos por alunos e professores. Partindo da observação e análise das relações e interações, desenvolvidas nos grupos virtuais das redes sociais Facebook e WhatsApp, buscou-se verificar se as redes sociais na Internet possibilitaria uma inversão da hierarquia do saber e, se a presença de professores e alunos nesses grupos possibilitaria aquilo que o educador Paulo Freire denominou de educação dialógica. Ao longo da pesquisa foram observados grupos no Facebook, criados por alunos ou professores. A partir disso, foram observados os diálogos, a quantidade e os tipos de postagens, além da participação dos atores sociais envolvidos. Em seguida, comparou-se os grupos do Facebook, com os usos do aplicativo WhatsApp no qual alunos do ensino médio criaram grupos específicos para elaboração de uma atividade da disciplina de sociologia. A pesquisa concluiu que, não é possível afirmar uma inversão da hierarquia do saber, mas, sobretudo, relações de troca, onde, por meio das interações via grupos do Facebook, alunos e professores compartilhavam, em sua maioria, questões ligadas ao cotidiano vivenciadas no dia a dia. Sobre as possibilidades de uma dialogia no sentido proposto por Paulo Freire, a pesquisa apontou que no caso da utilização do WhatsApp, para elaboração de um trabalho em grupo, algumas práticas se mostraram satisfatórias, apresentando caminhos possíveis, porém, a dialogia presente nas redes sociais da Internet, ainda depende do trabalho desenvolvido em sala de aula no espaço off-line
2015
Alexandre Ramos dos Santos
Caracterizando o imaginário belga acerca da imigração congolesa: uma análise a partir do jornal Le Soir
Fazendo uso da teoria da interseccionalidade, a presente pesquisa objetiva caracterizar, através da interpretação da narrativa construída pelo jornal Le Soir sobre a comunidade congolesa em Bruxelas, o imaginário belga acerca dos fluxos migratórios entre a atual República Democrática do Congo e a Bélgica contemporânea, durante o lapso temporal compreendido entre 1989 e 2000. Neste esforço, dentro do período estabelecido, foi possível identificar as levas migratórias de congoleses e sua relação com os diferentes contextos políticos e econômicos do país africano; ficaram visíveis, também, uma realidade de falta de interseccionalidade nas políticas públicas, de abusos, por parte das autoridades, de insuficiência, por parte das instituições, e de estranhamento e exotização, por parte do belga, de forma geral, ante a comunidade imigrante congolesa e também africana presente no país
2018
Felipe Antonio Honorato
Agora é para alfabetizar, sim ou não? : análise dos discursos especializados sobre a idade certa para iniciar a alfabetização no contexto da ampliação do ensino fundamental para nove anos
Esta pesquisa tem como objetivo efetuar uma análise dos discursos especializados sobre as relações entre a infância e a cultura escolar letrada a partir da perspectiva de Michel Foucault. Mais precisamente, busca-se examinar os discursos sobre a idade mais adequada para o início do processo de alfabetização, que marca a passagem da educação infantil para o ensino fundamental. O interesse pelo tema justifica-se tendo em vista a recente ampliação do ensino fundamental para nove anos, com a antecipação do ingresso no primeiro ano, que passou a ocorrer aos seis anos e não mais aos sete anos de idade. Esse fato gerou uma série de discussões pedagógicas acerca das consequências dessa mudança para as crianças de seis anos, que anteriormente frequentavam a educação infantil e passaram a frequentar o ensino fundamental. A partir do estudo de documentos oficiais e revistas pedagógicas destinados à formação docente, pretende-se identificar os argumentos mobilizados nos discursos para a defesa de uma idade mais indicada para o início do processo de alfabetização. A análise evidenciou que os discursos sobre o tema caracterizam a educação infantil e o ensino fundamental como duas culturas escolares distintas. A educação infantil é concebida como uma etapa da escolarização que tem como propósito favorecer o desenvolvimento infantil espontâneo, de modo que todo aprendizado realizado nessa etapa, inclusive o da leitura e da escrita, deve partir do interesse e da curiosidade das próprias crianças. O ensino fundamental, por sua vez, destina-se à formação do estudante por meio do ensino sistemático das disciplinas escolares definidas no currículo.
2015
Andressa Caroline Francisco Leme
Produção de sentidos na balança: as relações entre ciência, mídia e cotidiano nos discursos de obesidade
A busca pela perfeição, pelo belo, pelo correto, pelo equilíbrio são objetos de desejo há muito perseguidos. Nossa pretensão foi entender como são produzidos os sentidos de obesidade pelas relações discursivas da ciência, da mídia e das conversas do cotidiano. Acreditamos que há uma relevância do debate da dinâmica dos conceitos, entendendo-os como formas simbólicas e seus múltiplos significados históricos. Há uma polissemia no sentido de obesidade e isto cria dispositivos de poder, disciplina e controle que se encarregam de examinar, marcar, corrigir e, eventualmente, punir o sujeito com essa característica, estabelecendo uma definição hegemônica de normalidade para classificação positiva e negativa dos comportamentos. Esse processo cria marcas nas subjetividades uma vez que o sujeito que possui alguma característica considerada anormal deva ser corrigido. Analisamos as práticas de significação que engendram diferentes formas de narração da obesidade. O aporte dos Estudos Culturais contribuiu para enxergarmos o surgimento de uma nova categoria social e uma nova identidade cultural: os obesos. Consideramos que tal grupo é classificado como desviante na dinâmica hegemônica cultural, na qual os discursos científicos e culturais balizam a sua representação social. Investigamos a construção discursiva de obesidade, principalmente, inferindo nas questões e falas recorrentes, argumentos, no dito e não dito, no repetitivo. Afirmamos que existe um discurso disciplinador do corpo na sociedade atual e que várias estratégias são elaboradas para responsabilizar as pessoas sobre seus corpos. Realizamos um estudo em três níveis: primeiro, buscamos entender o discurso científico de obesidade, analisando artigos de revisão em duas bases de publicações científicas, o Scielo BR e o Portal da Capes; em seguida, investigamos o programa televisivo Bem Estar, da Rede Globo; por último, tentamos compreender como são produzidos os discursos no cotidiano, realizando um diário de campo e registrando as conversas espontâneas que presenciamos ao acaso no metro, em restaurantes, na praia e outros locais públicos e privados. Da ciência, podemos inferir que os discursos são construídos a partir de um modelo biomédico cartesiano e determinista construído no século XVIII que acompanha um projeto de formação de crenças e verdades para que a ciência ocupe um papel importante nos discursos de outras áreas como a comunicação, o judiciário e as políticas públicas. A mídia se utiliza dos discursos competentes do modelo biomédico para criar uma representação social polarizada de tipos ideais de obesos: aquele que sofre todas as consequências negativas por ser gordo e aquele que mudou a vida para melhor depois que emagreceu. As conversas do cotidiano contribuíram para entendermos as negociações discursivas existentes na sociedade. Mesmo com as relações de poder e a hegemonia cultural de um grupo, os sujeitos são complexos e seus discursos também refletem tais características: as falas mostram repetições de outros discursos, evidenciam as relações com a individualização da responsabilidade com o corpo, questões morais, preconceito e idealização da beleza, mas também mostram resistências aos discursos hegemônicos, principalmente ao externar que a vida é plástica e que os sujeitos obesos podem construir outros tipos de relações com seu corpo e criar sua própria normalidade.
2014
Fabiano Marçal Estanislau
Desafios e contradições de uma \"boa\" escola de ensino médio na zona leste de São Paulo
A presente dissertação tem como objeto de estudo os dilemas e avanços referentes ao ensino médio brasileiro. Para tanto, tomou-se como base a Escola Estadual Deputado Silva Prado que possui a reputação de uma boa escola em sua região. Construímos este trabalho por meio de: a) informações institucionais (história, índices educacionais e dados oficiais dos governos); b) dados socioeconômicos coletados por meio de questionários aplicados aos alunos e ex-alunos da escola; c) entrevistas realizadas com jovens concluintes do ensino médio.\'\' Como principais resultados obtidos constatou-se que a identificação positiva da escola foi possível graças a alguns fatores que puderam ser identificados, como a permanência longa de gestores e os mecanismos de seleção de alunos empregados e a preservação das características sociais dos estudantes. No atual contexto, porém, essa reputação tem sido objeto de contestação por parte de docentes e educandos
2017
Raimundo Justino da Silva
As representações e o que aprendemos a \"ver\" sobre o ciclo de vida das plantas
Analiso nesta dissertação as representações sobre o ciclo de vida das plantas de onze coleções de livros didáticos de ciências aprovados pelo Programa Nacional de Livros Didático (PNLD) referente ao ano de 2011 para, em um segundo momento, focar nas mensagens visivas das representações de cada uma das divisões de plantas briófitas, pteridófitas, gimnospermas e angiospermas. As mensagens visivas permitir-me-iam caracterizar as transformações ocorridas tanto na forma de representar o ciclo quanto nas linguagens utilizadas nas estruturas representacionais que, na maioria das vezes, não condizem com os títulos empregados para nomeá-las. Lançando mão dos pressupostos da tríade pierciana (ícone-objeto-símbolo) a análise semiótica empreendida forneceu-me subsídios para, em uma terceira etapa da pesquisa, coletar desenhos junto aos sujeitos da pesquisa no que tange ao ciclo de vida das plantas, cujos ícones apresentaram os indícios que caracterizam o objeto, ou seja, o ciclo de vida das plantas - encerrado em simbologias com significados que reverberam em contextos históricos específicos, como uma lei própria das estruturas iconográficas. Nos ciclos de vida das plantas essas simbologias se encerram no círculo, envolvendo a vida das plantas como algo ininterrupto, isto é, a planta germina, cresce, desenvolve-se, reproduz e volta a germinar. Baseada nas premissas piercianas constatei que embora as imagens no ensino de ciências sejam de fundamental importância, elas interferem sobremaneira na aprendizagem dos fenômenos naturais, modificando percepções entre os ícones e o objeto real, fato este evidenciado quando comparei as representações imagéticas dos sujeitos desta pesquisa com as representações dos livros didáticos de ciências nos quais não há indícios da finalização do ciclo vital das plantas: a representação da senescência e da morte das plantas.
2013
Margarete Alves Silva Santana
O som da diáspora : a influência da black music norte-americana na cena black paulistana
. A presente dissertação tem por objetivo observar a influência da black music norte-americana na formação da identidade dos jovens negros que frequentam as festas da cena black paulistana. Para isso, procura-se debruçar sobre os fatores históricos, sociais, culturais e políticos que propiciam essa dinâmica. A motivação para a realização do trabalho nasce da participação em eventos nos dois países em diferentes momentos, onde se fez perceptível certa semelhança no comportamento dos jovens, o que despertou o desejo de investigar quão profundos seriam esses laços entre grupos tão distintos. A partir da perspectiva dos Estudos Culturais intenta-se mostrar como há mais de quatro décadas a black music atua como um elo entre povos da diáspora africana. O embasamento teórico e as entrevistas realizadas permitem contextualizar o fenômeno e trilhar um percurso que demonstra como a partir da escravidão e da forma como o pensamento racial se estruturou, a sociedade brasileira foi gerada de forma excludente deixando o negro sem referenciais positivos para formar sua identidade, o que faz com que as manifestações afro-americanas sirvam de inspiração, ainda que existam diferenças nas relações raciais nos dois países. Essa aproximação se dá principalmente no campo cultural, em especial por meio da música, que se manifesta na diáspora como um memorial à ancestralidade africana. Essa dinâmica tem início ainda na década de 1970 com os grandes bailes blacks, se transforma na década de 1980 com o surgimento do movimento hip hop em São Paulo e chega ao século 21, em uma nova fase de baladas blacks que podem ser vistas como um forte exemplo das mudanças ocorridas no novo milênio a partir do advento da globalização. Utilizo como metodologia a pesquisa bibliográfica, por meio de livros, vídeos e websites além de observações realizadas a partir de experiências pessoais e entrevistas, o que permite uma maior compreensão do fenômeno.
2013
Daniela Fernanda Gomes da Silva
As regras do mercado: dinâmicas e construção do valor no mercado de arte contemporânea
Entre todos os mercados que lidam com bens culturais e artísticos, o mercado de arte contemporânea permanece como um dos mais inacessíveis e desconhecidos. A dificuldade em estabelecer relações objetivas entre arte e economia, típica dos mercados de bens simbólicos, parece atingir seu ápice quando se trata de discutir as artes visuais. Em relação ao mercado de arte, atribui-se com frequência a ideia de um campo sem regras, caracterizado por valores exorbitantes, eventos espetaculares e agentes orientados para a obtenção do máximo lucro. Porém, a partir de uma análise detalhada do campo, é possível identificar uma série de normas e estratégias econômicas e simbólicas que regulam o mercado e sobre as quais se estabelece o preço das obras e o valor artístico. Deste modo, a presente pesquisa busca analisar as leis que operam este mercado, assim como a construção do valor das obras de arte contemporâneas, levando em consideração as especificidades e o lugar que o mercado de arte brasileiro ocupa dentro deste sistema como um todo
2016
Naira Cristina Rodrigues de Assis
A presença da atriz negra na cena teatral paulistana: quatro trajetórias
A partir de um primeiro questionamento sobre onde estavam as atrizes negras de teatro na cidade de São Paulo, desenvolveu-se esta pesquisa que buscou observar e salientar a trajetória, a partir de entrevistas e falas em diferentes momentos de suas carreiras, das atrizes Dirce Thomaz, Cleide Queiroz, Lizette Negreiros e Roberta Nunes que trabalham, vivem nesta cidade e que têm idade acima dos 40 anos. Antes porém, de focar em suas trajetórias, foi necessário uma contextualização de como o teatro brasileiro se fundou e a partir de quais narrativas a presença negra nos palcos aconteceu durante os anos. Muitas vezes, permitidos nos palcos desde que seus rostos e mãos estivessem pintados de branco ou quando atuavam como objeto falante e ou como paisagem que compunha o cenário. Durante muito tempo também, as personagens desempenhadas por negras e negros eram as estereotipadas, como o moleque de recados, a mulata faceira, o Pai João, entre outras. Além dessas formas, havia o blackface que consistia em uma técnica utilizada por atores brancos para interpretar personagens negros. Ao se deparar com essa técnica, Abdias Nascimento teve a ideia de pensar um teatro negro feito por negras e negros. Dessa forma, surge o TEN Teatro Experimental do Negro que rompe com a tradição de se colocar artistas negros sempre em papéis subalternos ou figurativos. No TEN, passam a atuar como protagonistas das histórias. Desde a criação do TEN até os dias de hoje podemos observar que muito foi alcançado no sentido de mudar as perspectivas da atuação negra no teatro, mas há, por outro lado, a insistência ainda em promover a presença negra em papéis estereotipados em que atrizes interpretam empregadas domésticas e babás, e atores negros interpretam seguranças, malandros, motoristas, ladrões. Em contraponto e como exemplo de resistência a essas estereotipias, há também a potência de vida e a beleza da trajetória de artistas negras representadas neste trabalho, por estas quatro mulheres
2019
Eliane Weinfurter dos Santos
A gastronomia e a Feira Kantuta: cultura e identidade de imigrantes bolivianos em São Paulo
Se em tempos idos a alimentação era utilizada para nutrir e saciar o ser humano e relacionava-se apenas à vida doméstica, hoje essa relação ultrapassa esse limite e avança para os restaurantes, praças de alimentação e feiras gastronômicas. Nesse sentido entende-se que os alimentos e consequentemente a gastronomia constituem-se em um processo histórico, carregado de simbolismos e dizem muito da estrutura econômica e social estabelecidas em uma determinada comunidade, a qual encontra em suas expressões culturais uma forma de manutenção de sua identidade. Este é o contexto social em que esta pesquisa se insere. Um mundo aparentemente sem fronteiras, que parece ter-se rendido ao capitalismo e no qual as identidades culturais entre os países vêm-se tornando mais difusas. O desemprego abrange parte significativa da população mundial e a economia informal é responsável por boa parte da produção. Países com economias mais frágeis tornam-se pólos de emigração para países em que, aparentemente, a economia está mais equilibrada. As culturas locais são influenciadas e influenciam as culturas dominantes. Este estudo busca refletir sobre algumas implicações geradas pela utilização da gastronomia enquanto forma de trabalho, cultura e lazer na vida de um grupo de imigrantes bolivianos residentes no Brasil, verificando possíveis reflexos nas vivências associadas ao campo da cultura. Enquanto procedimento metodológico optou-se por uma abordagem qualitativa, combinando os enfoques bibliográfico e de campo. Como objetivo, buscou-se responder à seguinte questão: O que representa, para os integrantes da Associação Gastronômica, Cultural e Folclórica Padre Bento, as atividades gastronômicas desenvolvidas na Feira Kantuta: oportunidade de trabalho, lazer e/ou ambiente para reprodução de sua cultura em terra estrangeira? Elaborou-se algumas hipóteses sobre o problema descrito e considera-se: que a gastronomia é utilizada como forma de renda; que as atividades gastronômicas, para além do trabalho, são percebidas como forma de reprodução de sua cultura e possibilidade de lazer e por último que a Feira possibilita o desenvolvimento de redes de suporte para os imigrantes que chegam. Desenvolveu-se uma coleta de dados por meio de documentação direta, realizando entrevistas através da metodologia/técnica da história oral (entrevistas temáticas) e tendo como recorte os imigrantes bolivianos que residem no Município de São Paulo e trabalham ou visitam a Feira Kantuta. Realizou-se visitas sistemáticas à Feira e desenvolveu-se conversas com seus integrantes e visitantes, posteriormente escolheu-se dez associados e quatro visitantes para as entrevistas. A Feira acontece todos os domingos na Praça Kantuta, localizada no Bairro do Pari no Município de São Paulo. Como principais considerações percebeu-se que os sujeitos entrevistados, num primeiro momento, pouco reconhecem a importância da gastronomia para a preservação de sua cultura e manutenção de suas identidades. A gastronomia aparece como forma de geração de trabalho e renda, entretanto quando indagados sobre sua representação e levados a refletir sobre o seu papel, percebem-na também como uma das formas de expressão cultural, assim como as danças e festividades ali apresentadas. A Feira Kantuta efetivamente serve de rede de apoio aos imigrantes bolivianos, que chegam à Cidade de São Paulo. Conclui-se que a cultura permeia a ação desses imigrantes e que lhes possibilita uma afirmação identitária, entretanto eles não se veem como protagonistas dessa produção cultural
2014
Rosana Fernandes dos Santos
Desafios jurídicos e administrativos da política cultural comunitária: um estudo dos Pontos de Cultura no estado de São Paulo
O programa Cultura Viva, criado pelo Ministério da Cultura em 2004, constituiu-se como uma experiência inovadora na política cultural brasileira ao apoiar segmentos historicamente marginalizados nesse campo. Por meio do financiamento direto de associações culturais da sociedade civil a partir de suas demandas e sem objetos pré-definidos, o fomento aos Pontos de Cultura acabou por tornar-se um paradigma de política cultural comunitária. No entanto, sua implementação encontrou entraves jurídicos e administrativos que acabaram por se refletir na prestação de contas das instituições beneficiadas. Buscando contribuir com a expansão dos Pontos de Cultura e aprimoramento do programa, esta pesquisa realizou um diagnóstico aprofundado destes problemas de implementação. A partir do levantamento das principais dificuldades encontradas pelos Pontos de Cultura na gestão dos recursos públicos e prestação de contas, a hipótese que norteou o desenvolvimento deste trabalho era a de que o repasse no formato de convênios não se adéqua à perspectiva inclusiva do programa, fazendo com que apenas as instituições dotadas de maior estrutura administrativa e experiência prévia na gestão de recursos públicos não apresentassem problemas na prestação de contas. Além disso, uma hipótese adicional era a de que um formato simplificado de repasse e prestação de contas - nos moldes do implementado pela rede estadual paulista de Pontos de Cultura - contribuiria para a diminuição do problema. Por meio da aplicação de um questionário junto aos Pontos de Cultura do estado de São Paulo, verificamos que a estrutura administrativa das instituições e experiência na gestão de recursos públicos não representaram fatores relevantes para a existência ou não de problemas na prestação de contas. Por outro lado, foram definidores destes problemas o formato de repasse e prestação de contas estabelecido pela parceria com o poder público, a capacitação recebida pelos gestores dos Pontos de Cultura e a comunicação com os órgãos gestores da política. Desmistificando o discurso de que o problema da prestação de contas deve ser atribuído à incapacidade administrativa dos Pontos de Cultura, apontamos para a necessidade de revisão dos instrumentos reguladores do programa e, mais amplamente, das políticas assentadas sobre a parceria do Estado com instituições da sociedade civil.
2013
Luciana Piazzon Barbosa Lima
Timbres em trânsito: um estudo sobre identidades, Nordestes e música em São José dos Campos
Este trabalho se desenvolve em torno de dois temas que são eixos centrais para a pesquisa: migração e identidade. Partindo da perspectiva de que vivemos em um contexto pós-moderno, onde os indivíduos mobilizam diversas identidades, o estudo tem o objetivo de entender como musicistas que nasceram em diferentes estados do Nordeste conduziram suas carreiras em São José dos Campos (SP), levando em conta a relação ou não com ritmos nordestinos, suas influências musicais ao longo da trajetória, se uma identidade nordestina é acionada ou não e em quais momentos isso acontece. Diante da imprecisão do conceito de Nordeste cabe a este trabalho reforçar os debates acerca do tema e problematizar questões relevantes ao assunto. A pesquisa propõe também se aprofundar em discussões importantes no campo da música, o cenário musical no âmbito joseense, questões em torno da música como carreira profissional no Brasil e o mercado de trabalho para musicistas. A metodologia da História Oral foi fundamental para a pesquisa, foram entrevistado(a)s nove musicistas e um radialista da cena musical joseense, nordestino(a)s. Da viola à bateria, do trompete ao baixo elétrico, em diferentes sotaques, os entrevistados e entrevistadas apresentam trajetórias diferentes e suas atuações musicais transitam por diversos gêneros reafirmando a heterogeneidade e pluralidade dos Nordestes existentes, contrários aos estereótipos e construções imagético-discursivas sedimentadas sobre a região. O título timbres em trânsito faz referência aos musicistas migrantes que ao migrar transitam entre suas identidades, tal trânsito permeia também a trajetória e o fazer musical dos entrevistados e entrevistadas
2019
Lucas Rabello Trindade Pulice
A visibilidade lésbica nos espetáculos teatrais da cidade de São Paulo/SP entre 2012 e 2018
Com a discussão sobre as pautas LGBT vigentes na sociedade brasileira, no início do século XXI, encontram-se no teatro, diferentes temáticas que abordam aspectos do universo homoafetivo sobre diversas perspectivas. Entretanto, é possível observar que estes espetáculos contemplam identidades gays, trans e queer, enquanto pouco se fala sobre as temáticas lésbicas. Sendo o teatro um espaço simbólico de transformações sociais, a representatividade das pautas lésbicas se torna um assunto primordial a ser pensado e discutido como um meio de construção de memória e visibilidade na Pós-Modernidade, já que dialoga com a sociedade em geral, bem como com os Estudos Culturais. É nesta dimensão que se discute a visibilidade das temáticas lésbicas em contraponto a quantidade de produções de peças que abarcam a representatividade de outras identidades que se enquadram na categoria LGBT. Seguindo a corrente Pós-Estruturalista, a metodologia adotada é o construcionismo, de caráter qualitativo, utilizando da análise de práticas discursivas. Para tanto, adotou-se como procedimento um levantamento de peças com temáticas LGBT, servindo-se do banco de dados OFF Guia de Teatro SP, com a coleta de dados de espetáculos decorrentes do período 2012 a 2018. Foram realizadas também seis entrevistas semiestruturadas com atrizes que atuaram em alguns desses espetáculos catalogados. Como resultado, compreende-se que existe uma visibilidade das temáticas lésbicas no teatro, do ponto de vista da interação e envolvimento do público, capaz de causar transformações sociais, mas que ainda é limitada pela reprodução da heteronormatividade e do machismo estrutural manifestado por meio da hegemonia gay, resultando, principalmente, na falta de incentivo e investimentos por produtores culturais
A experiência artística provinda de um programa sociocultural do Estado de São Paulo: uma análise sobre a construção de sentidos produzida por ex-alunos do Projeto Guri
Esta dissertação tem o objetivo de analisar a experiência artística que ex-alunos do Projeto Guri tiveram após 15 anos desta vivência. A pesquisa foi realizada no pólo de Taubaté, com os alunos que ingressaram no Guri entre os anos de 1999 a 2004, período no qual, a direção deste projeto sociocultural era feita diretamente pela Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. Foram investigados quais os conhecimentos aprendidos mais identificados pelos egressos; analisado se o Projeto Guri colaborou para a inclusão social por meio da música; e verificou-se se há diferença entre as falas de quem permaneceu mais tempo em relação a quem usufruiu menos do programa. A metodologia utilizada foi a pesquisa bibliográfica e documental, seguida de análise do discurso de um grupo focal e de cinco entrevistas individuais. Esta análise foi feita por meio da categorização das falas do ex-alunos do Projeto Guri, ao buscar compreender a construção de sentido que estes egressos formaram para expressar esta experiência. Foi possível notar que os saberes mais identificados pelos egressos referem-se aos conhecimentos transversais à arte, tais como convívio social e relações de amizade. Com isso, o pressuposto norteador do Projeto Guri, no caso, a inclusão social por meio da música, foi atingido. Percebeu-se, no decorrer das entrevistas, que, no período de recorte da pesquisa, os alunos não eram apenas crianças nem adolescentes em situações vulneráveis, visto que a sede do Projeto Guri ficava em uma região nobre de Taubaté. Contudo, observa-se uma alteração do perfil do público do projeto, quando as aulas deixam de ser no centro do município, e passam a ocorrer em uma região mais periférica. A percepção dos ex-alunos que participaram por mais tempo do projeto, em relação aos que ficaram menos tempo, foi notável. Em todas as entrevistas é destacado o acesso à arte, tanto para o individuo beneficiário quanto para a família, mesmo esta sendo público-espectador. Além disso, o sentimento de afeto com o Guri fica muito mais evidente entre os participantes que tiveram mais de 3 anos de participação no projeto. Notou-se que a experiência no Projeto Guri possibilitou a todos um ambiente de convívio social, trocas, aprendizagens e acesso a arte aos alunos e suas famílias. Identificamos que 9 dos 11 participantes desta pesquisa perceberam uma mudança na trajetória de suas vidas, profissionalização na música e definição do curso de graduação. Entende-se que o Projeto Guri teve uma influência significativa na vida dos participantes, mesmo não tendo atuado na área mais vulnerável da cidade, ao ampliar os horizontes de possibilidades de suas vidas
2019
Jéssica da Silva Botossi
Bumba-meu-boi e suas manifestações urbanas: uma análise a partir dos estudos culturais
Uma manifestação da cultura popular Brasileira é a razão de interesse em nossa pesquisa: o Bumba Meu Boi da cidade de São Paulo. Tal folguedo existe no Brasil desde aproximadamente o século XVII, surgindo primeiramente nas regiões do nordeste brasileiro. Hoje é uma das manifestações culturais mais populares entre as existentes em nosso país. Dentre todas as regiões onde o Boi é tematizado, o foco de nosso estudo é o Boi do Grupo Cupuaçu, Boi do Morro do Querosene, localizado na cidade de São Paulo, bairro do Butantã. Região esta que apresenta e comemora o folguedo inspirado no Bumba Meu Boi do Maranhão. Os festejos acerca do Boi que acontecem no Morro do Querosene envolvem não só os brincantes que são integrantes do Boi, como toda a comunidade ali presente: moradores, comerciantes e também o público que participa prestigiando os eventos. Nossa pesquisa teve como objetivo geral compreender a encenação do folguedo do Bumba Meu Boi realizado pelo Grupo Cupuaçu na cidade de São Paulo, como forma de identidade dos brincantes com sua terra natal de onde tal manifestação é oriunda; e como objetivos específicos procuramos a- delimitar a compreensão sobre identidade cultural na ótica dos Estudos Culturais, entendendo que ela não é permanente, e é reconstruída a partir das vivências dos sujeitos em determinado contexto sócio-histórico; b- identificar o processo constituinte do Bumba Meu Boi enquanto manifestação presente no período festivo do ciclo junino no Brasil, atrelado à um conjunto de influencias da miscigenação do povo brasileiro (indígena, africana e portuguesa), e do catolicismo jesuítico. Enquanto metodologia, trata-se de uma pesquisa do tipo qualitativa, num caráter exploratório. Serão utilizados os enfoques bibliográfico e de campo. Para a pesquisa de campo optou-se pela aplicação do estudo de caso, utilizando como instrumento de pesquisa a observação em equipe. Conclui-se que os folguedos do Bumba Meu Boi encenados pelo Grupo Cupuaçu sofrem mudanças em sua concepção, devido ao contexto urbano da cidade de São Paulo, exercendo influência direta em sua produção
Arquivos vivos: repressão ao imigrante em São Paulo - Discurso mítico contra espanhóis e japoneses em 1930 e 1940
As migrações, movimento de grandes grupos humanos, constituem-se ainda tema atual e complexo. Na Europa, na Ásia, na África e mesmo na América, verdadeiras massas populacionais se deslocam de seus locais de origem, procurando melhor condição econômica ou fugindo de perseguições com motivações políticas ou religiosas. A chegada desses imigrantes nem sempre ocorre de forma pacífica. Esse processo acompanha a história conhecida da Humanidade, por fatores semelhantes, guardadas as devidas proporções. Esta foi a motivação para a realização desta pesquisa, na medida em que o Brasil recebeu muitos imigrantes, em diferentes momentos de sua história, desencadeando, por vezes, reações violentas traduzidas em expulsão, como as ocorridas entre as décadas de 1930 e 1940. Os espanhóis foram alvo desse estranhamento, no período de 1935 a 1937, e os japoneses, entre 1945 e 1947. Nesse sentido, o objetivo geral desta pesquisa foi analisar esse cenário xenofóbico com foco em duas nacionalidades: espanhola e japonesa. Como objetivos específicos, estabeleceu-se a identificação de discurso mítico contra espanhóis, representando um perigo vermelho, e contra os japoneses, que se constituiriam como perigo amarelo, a partir de duas problematizações: temia-se que a consolidação do regime republicano levasse a uma experiência semelhante, mas comunista no Brasil? E a Shindô Renmei, sociedade composta por japoneses que não acreditavam na rendição do Japão na II Guerra Mundial (1939-1945), representaria um risco de expansionismo oriental? Como hipótese, estabeleceu-se que a perseguição se aprofundou com a II Guerra Mundial, tendo, entretanto, motivações políticas e raciais. Como metodologia, optou-se pela pesquisa documental, com base em arquivos do Departamento Estadual de Ordem Política e Social de São Paulo (DEOPS/SP) e do Tribunal de Segurança Nacional. No caso da perseguição aos espanhóis, estudou-se o caso da Família Mas Herrera, e a atuação da Shindô Renmei na região Noroeste do Estado de São Paulo quanto aos japoneses. Concluiu-se que, na gênese da repressão, adotou-se o discurso de ameaça às instituições, aos valores e à segurança nacional, diante de um complô comunista internacional, funcional à ditadura de Getúlio Vargas em seu projeto nacionalista e populista, especialmente no Estado Novo (1937-1945)
2016
Solange de Almeida Borges
Retratos do livro digital: crítica, imprensa e novas perspectivas
Esta dissertação tem como objeto o livro digital. Ela apresenta um balanço cronológico da crítica especializada sobre o tema, analisa como o livro digital surgiu e foi abordado na imprensa a partir dos anos 1980, tomando como fonte principal o jornal Folha de São Paulo, e rediscute as questões e impasses observados nas últimas décadas, agora, a partir da visão de dez profissionais brasileiros do livro
2017
Mirna Queiroz dos Santos
Juventude e produção literária: um estudo sobre poesia falada nas periferias paulistanas
Esta pesquisa tem o intuito de abordar um movimento literário e cultural que se expressa pela performance de poesias autorais, chamado de batalha de poesia ou slam de poesia com influência no Poetry Slam e Spoken Words, e que recentemente cresce no Brasil, particularmente na cidade de São Paulo. O objetivo desta pesquisa visa apreender como este movimento relativamente novo no Brasil, se insere no conceito de Literatura Marginal e da ideia de Cultura de Periferia, tanto pelas questões internas ao discursos, das poesias faladas e publicadas, como por questões externas ligadas a ações sociais e conjuntas. Foi utilizada a metodologia de etnografia em campo com visitas ao Slam da Guilhermina, ZAP!Slam e Slam das Minas SP; levantamento das publicações de livros lançados nos slams e mapeamento cartográfico a partir dos locais de realização dos mesmos na cidade e região metropolitana de São Paulo. Como resultado de pesquisa foi possível definir os temas mais recorrentes entre os poemas que concorreram às batalhas e o ano e região de maior concentração dos slams em São Paulo. Podemos concluir com esta pesquisa que todos os livros são do gênero de poemas e foram publicados de forma independente ou a partir de editoras que se definem como independentes; que a maioria dos coletivos de slam nasceram entre 2016 e 2017 com maior concentração na Zona Leste de São Paulo
2018
Julia Figueiredo Murta de Araujo
Governança, políticas públicas de cultura e as realidades locais: o caso VAI-SBC
Trata-se do processo de disseminação ou difusão de políticas públicas de cultura, a partir da análise de implantação do Programa de Valorização de Iniciativas Culturais, VAI-SBC, programa de fomento à produção cultural da prefeitura de São Bernardo do Campo, em relação com o programa homônimo e sua matriz conceitual, o Programa VAI, desenvolvido na cidade de São Paulo. Embora ambos se filiem ao mesmo campo político-ideológico, ao ser adaptado à localidade do Grande ABC, variáveis internas e externas ao programa, tais como a experiência acumulada pelos fazedores de política (policy makers), os constrangimentos impostos pela situação político-administrativa do município e as características de desenvolvimento especificas do campo cultural local influenciaram o modo como ocorreu a escolha do modelo de formulação, agindo decisivamente na construção do seu objeto e de suas diretrizes. O estudo foi realizado a partir de pesquisa de documentos, leis, imprensa comercial e oficial, programas, entrevistas, depoimentos, projetos e ações, considerando aspectos políticos, culturais, artísticos e sociais na realização da política pública de cultura
Sociedade da aprendizagem: uma experiência visual, divertida e fabulada
Analisamos e problematizamos, neste trabalho, a ordem discursiva relativa à sociedade da aprendizagem, que enfatiza a experiência do aprender contínuo como modo de vida dos sujeitos na contemporaneidade. Destacamos o papel dos dispositivos audiovisuais educativos, tais como, o cinema, a TV e as plataformas online, na forja de uma sociedade ancorada na visualidade. Chamamos tais dispositivos de governamentalidade audiovisual educativa. Para tanto, operamos com o arquivo de animações educativas produzido no decorrer dos últimos cinquenta anos pelo Ministério da Educação, abarcando, portanto, desde as produções audiovisuais do Instituto Nacional de Cinema Educativo (INCE) à TV Escola. Nesse percurso, evidenciamos o acontecimento de discursos oficiais que ratificaram a sociedade da aprendizagem, como os trabalhos de Edgard Faure (1973), Aprender a ser: La Educación del futuro e de Jacques Delors (1996), Educação um tesouro a descobrir: Relatório para UNESCO da Comissão Internacional sobre educação para o século XXI. Na esteira do pensamento de Michel Foucault e de Georges Didi-Huberman, traçamos a regularidade das imagens e das enunciações discursivas presente no arquivo supracitado, compreendendo que as sociedades da aprendizagem são forjadas pela experiência da educação animada. Ou seja, nas animações educativas, o conteúdo curricular é adensado em torno da ideia de diversão, descontração e espontaneidade, sendo experimentado em qualquer situação, meio e lugar/ambiência, não necessariamente no espaço institucional da escola