Repositório RCAAP
The Iron Heel de Jack London: consciência do presente e profecia do fascismo
A presente dissertação tem como objetivo a análise detalhada do romance The Iron Heel, de Jack London, buscando compreender sua relação com os processos históricos contemporâneos e sua capacidade preditiva em relação a desenvolvimentos futuros. Para isso, a dissertação se detém inicialmente nos aspectos formais do romance, tratando de seu mecanismo de dupla narração e discutindo de que forma tal expediente afeta os conteúdos tratados. Ainda nesse primeiro capítulo, discute-se a construção do protagonista enquanto \"profeta\" e a forma do desenvolvimento ficcional, que mantém diálogo intenso com fatos históricos contemporâneos. No segundo capítulo da dissertação, são debatidos, sempre a partir da leitura do romance, as principais tendências econômicas, sociais, políticas e ideológicas do início do século XX, e a forma como elas se apresentam na obra. Por fim, o terceiro capítulo busca estabelecer comparações entre o regime autoritário ficcional que ascende no desenvolvimento do romance, e os regimes fascistas que ascenderam no século XX, a partir da teorização de Leon Trotsky.
Versões do feminino: Virginia Woolf e a estética feminista.
Esta dissertação tem como objetivo analisar as condições e possibilidades do feminismo de Virginia Woolf à luz do momento sócio-econômico e cultural em que viveu e do qual foi um dos ícones. Por causa de sua formação e do panorama histórico da época, suas posições assumem um caráter extremamente ambíguo. Este estudo mostra que a autora oscila entre ser ícone de toda uma geração e outsider, romancista e crítica literária, intelectual e leitora comum, senhora das letras e feminista, crítica do gosto e proponente de uma nova estética literária, vitoriana esnobe e modernista. Tanto sua natureza criativa quanto os elementos propostos em sua estética literária resultam de sua visão de mundo e de sua relação ambígua com a realidade.
2001
Monica Hermini de Camargo
Materialismo cultural
O materialismo cultural de Raymond Williams, como formulação de uma nova teoria da cultura inscrita no materialismo histórico, centra-se em um dos debates mais polêmicos e fecundos da tradição marxista - a questão da determinação econômica da cultura e da arte. O presente trabalho visa a uma leitura crítica do livro Marxismo e Literatura, no qual Williams expõe sua teoria de forma abrangente. Por tratar-se de um livro expositivo, sua discussão será acompanhada de diversas análises culturais e literárias do crítico, trazendo à tona seu método teórico-prático as análises criando a teoria, que reorganiza, por sua vez, as formas de entendimento da realidade.
Análise espacial da mortalidade por homicídios na Região Metropolitana de São Paulo no período de 2007 a 2013
Introdução: A violência no Brasil é um importante problema social. A mortalidade por homicídios tem elevadas taxas na população de homens jovens adultos. O uso de ferramentas de análise espacial pode contribuir para mensurar possíveis efeitos espaciais que atuam sobre eventos de interesse em saúde pública. Objetivos: Descrever e comparar o perfil epidemiológico da mortalidade por homicídios na Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) de 2007 a 2013, a partir de uma abordagem espacial evidenciando-se o local de residência das vitimas dos que sofreram homicídio, e relacionar a mortalidade com a raça/cor e demais variáveis socioeconômicas e demográficas. Métodos: Foi realizado um estudo ecológico, descritivo, a partir da análise espacial da mortalidade por homicídios de residentes de 15 anos de idade e mais, tendo como unidades de análise as áreas de ponderação da RMSP, no período de 2007 a 2013. Foram utilizados dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) e do Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística . Foram utilizadas estatísticas de varredura para a detecção de aglomerados de alto risco puramente espaciais, espaço-temporais e de variação espacial das tendências temporais, e Sistemas de Informação Geográfica para a elaboração dos mapas para a representação dos dados resultantes das análises e da geocodificação. Resultados: Identificou-se tendência de redução da mortalidade total de 15 anos e mais (-3,3% ao ano) . Um total de 90% dos casos ocorreu no sexo masculino, entre 15 a e 39 anos. As taxas de mortalidade foram mais elevadas na população masculina (40,1 óbitos por 100 mil habitantes), homens negros (48,2) e jovens de 15 a 24 anos (69,4) e diminuíram com o aumento da idade. Foram geocodificados 22.376 óbitos (93%) e detectados nove aglomerados puramente espaciais, nove espaço-temporais e três de variação espacial das tendências temporais de alto risco para a mortalidade por homicídios, distribuídos nas periferias da Capital paulista e em diversos municípios da RMSP. A análise dos indicadores socioeconômicos e do Índice Paulista de Vulnerabilidade Social desses aglomerados mostrou regiões com pior situação socioeconômica para renda, educação, ocupação e moradia, acima da média da RMSP. Conclusões: Os homicídios ocorrem de forma desigual no espaço urbano. Os homicídios têm cara e cor pré-definidas, conforme observados nos aglomerados de brancos e negros em áreas territoriais já conhecidas pelas autoridades de segurança pública, retratados no presente estudo. Os aglomerados estão localizados na periferia da capital e nos diversos municípios ao seu redor, em regiões periféricas e carentes, onde os jovens, homens e mulheres, são mais vulneráveis e mais suscetíveis ao homicídio. A utilização de ferramentas de análises e técnicas espaciais possibilita melhor compreensão dos fatos e contribui para melhores decisões nas políticas públicas.
2021
Aparecido Batista de Almeida
Consumo de ácidos graxos e álcool e sua relação com subfrações lipídicas quantificadas por ultracentrifugação vertical
Nesta tese, determinou-se o consumo alimentar e consumo de álcool de 2972 participantes de pesquisa do Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto (ELSA-Brasil). Posteriormente foi identificada a relação da dieta e álcool com as subfrações de colesterol medidas por ultracentrifugação vertical, denominada Vertical Auto Profile (VAP). Foi identificada baixa associação dos ácidos graxos dietéticos e as subfrações de colesterol. Quanto ao consumo de álcool, independentemente do tipo de bebida alcóolica consumida, o álcool resultou em melhor perfil lipídico, com níveis significativamente maiores de HDL-colesterol, HDL2-colesterol e HDL3-colesterol, tanto em homens quanto mulheres. Também foi discutida a parte ética de pesquisas com seres humanos, contextualizando o caso do ELSA-Brasil.
Tuberculose e migrações interna e internacional no estado de São Paulo: semelhanças e contrastes
Objetivos: Descrever o comportamento da tuberculose (TB) entre migrantes internos e internacionais, investigar fatores associados à perda de seguimento do tratamento e caracterizar os municípios com maior proporção de migrantes doentes de TB. Métodos: Estudo de coorte retrospectiva descritivo e analítico realizado com doentes de TB residentes no estado de São Paulo (ESP) notificados ao Programa Estadual de Controle da TB (PCT-ESP) entre 2014 e 2017. Para o componente descritivo e caracterização dos municípios foram incluídos todos os casos de TB. Para o componente analítico foram incluídos os casos novos pulmonares com idade >=15 anos sem resistência às drogas antituberculose. A principal fonte de informação foi o sistema de notificação de casos de TB do PCT-ESP (TB-WEB). As variáveis de estudo foram: características demográficas, socioeconômicas, clínicas, de diagnóstico e tratamento da TB e indicadores municipais. Comparou-se o comportamento da TB entre migrantes internos e internacionais com não migrantes através dos testes qui-quadrado de Pearson ou Exato de Fisher, t de Student ou Mann-Whitney. Foi utilizada regressão logística para investigar os fatores associados à perda de seguimento. Resultados: Foram incluídos 62.840 doentes de TB com naturalidade conhecida, notificados no período do estudo. Foram analisados 4.597 migrantes internos (15,8%) e 668 migrantes internacionais (2,3%) de 2014 a 2015 e 511 migrantes internacionais (1,5%) de 2016 a 2017. Em relação aos não migrantes, os migrantes internos possuem maior mediana de idade (45,0 vs. 37,0; p<0,05), maior proporção de HIV positivo (12,3% vs. 11,0%; p=0,023) e maior taxa de óbito por TB (4,2% vs. 3,2%; p<0,001). Ser migrante interno não foi um fator associado à perda de seguimento (ORajust=0,87; IC95% 0,73-1,04). Fatores como o uso de drogas ilícitas (ORajust=3,27; IC95%=2,29-4,68) e não possuir residência fixa (ORajust=3,19; IC95%=1,92-5,30) se associaram à perda de seguimento tanto entre migrantes internos quanto entre o total de doentes de TB no ESP. Os migrantes internacionais, em que 76,3% são sul-americanos, possuem menor mediana de idade (27,0 vs. 37,0; p<0,05), menor proporção de HIV positivo (6,6% vs. 11,0%; p<0,001) e maior taxa de perda de seguimento (18,5% vs. 13,5%; p=0,003) quando comparados aos não migrantes com TB. Ser migrante internacional foi um fator associado à perda de seguimento (ORajust=1,87; IC95%=1,41-2,47) e entre eles o HIV positivo associou-se com este desfecho de tratamento (ORajust=4,23; IC95%=1,78-10,06). Os municípios com maior proporção de casos de TB entre migrantes internos e com presença de migrantes internacionais possuem maiores: porte populacional, riqueza e proporção de pessoas em vulnerabilidade social. Conclusões: os migrantes internos e internacionais doentes de TB apresentam perfil diferente dos não migrantes com a doença. Para migrantes internos e para a população total de doentes de TB no ESP, os fatores que aumentam a probabilidade de perder o seguimento no tratamento são as condições sociais mais frágeis que devem, portanto, ser enfrentadas para controlar a doença. Como é mais provável que um migrante internacional não complete o tratamento de TB, este grupo deve receber políticas específicas que respeitem suas particularidades culturais, visando aumentar a adesão e conclusão da terapia medicamentosa entre eles.
2020
Priscila Fernanda Porto Scaff Pinto
Comparação da performance de algoritmos de machine learning para a análise preditiva em saúde pública e medicina
Modelos preditivos estimam o risco de eventos ou agravos relacionados à saúde e podem ser utilizados como ferramenta auxiliar em tomadas de decisão por gestores e profissionais de saúde. Algoritmos de machine learning (ML), por sua vez, apresentam potencial para identificar relações complexas e não-lineares presentes nos dados, com consequências positivas na performance preditiva desses modelos. A presente pesquisa objetivou aplicar técnicas supervisionadas de ML e comparar sua performance em problemas de classificação e de regressão para predizer respostas de interesse para a saúde pública e a medicina. Os resultados e discussão estão organizados em três artigos científicos. O primeiro apresenta um tutorial para o uso de ML em pesquisas de saúde, utilizando como exemplo a predição do risco de óbito em até 5 anos (frequência do desfecho 15%; n=395) para idosos do estudo \"Saúde, Bem-estar e Envelhecimento\" (n=2.677), segundo variáveis relacionadas ao seu perfil demográfico, socioeconômico e de saúde. Na etapa de aprendizado, cinco algoritmos foram aplicados: regressão logística com e sem penalização, redes neurais, gradient boosted trees e random forest, cujos hiperparâmetros foram otimizados por validação cruzada (VC) 10-fold. Todos os modelos apresentaram área abaixo da curva (AUC) ROC (Receiver Operating Characteristic) maior que 0,70. Para aqueles com maior AUC ROC (redes neurais e regressão logística com e sem penalização) medidas de qualidade da probabilidade predita foram avaliadas e evidenciaram baixa calibração. O segundo artigo objetivou predizer o risco de tempo de vida ajustado pela qualidade de vida de até 30 dias (frequência do desfecho 44,7%; n=347) em pacientes com câncer admitidos em Unidade de Terapia Intensiva (UTI) (n=777), mediante características obtidas na admissão do paciente à UTI. Seis algoritmos (regressão logística com e sem penalização, redes neurais, árvore simples, gradient boosted trees e random forest) foram utilizados em conjunto com VC aninhada para estimar hiperparâmetros e avaliar performance preditiva. Todos os algoritmos, exceto a árvore simples, apresentaram discriminação (AUC ROC > 0,80) e calibração satisfatórias. Para o terceiro artigo, características socioeconômicas e demográficas foram utilizadas para predizer a expectativa de vida ao nascer de municípios brasileiros com mais de 10.000 habitantes (n=3.052). Para o ajuste do modelo preditivo, empregou-se VC aninhada e o algoritmo Super Learner (SL), e para a avaliação de performance, o erro quadrático médio (EQM). O SL apresentou desempenho satisfatório (EQM=0,17) e seu vetor de valores preditos foi utilizado para a identificação de overachievers (municípios com expectativa de vida superior à predita) e underachievers (município com expectativa de vida inferior à predita), para os quais características de saúde foram comparadas, revelando melhor desempenho em indicadores de atenção primária para os overachievers e em indicadores de atenção secundária para os underachievers. Técnicas para a construção e avaliação de modelos preditivos estão em constante evolução e há poucas justificativas teóricas para se preferir um algoritmo em lugar de outro. Na presente tese, não foram observadas diferenças substanciais no desempenho preditivo dos algoritmos aplicados aos problemas de classificação e de regressão analisados. Espera-se que a maior disponibilidade de dados estimule a utilização de algoritmos de ML mais flexíveis em pesquisas de saúde futuras.
2018
Hellen Geremias dos Santos
Impacto do encarceramento na incidência da tuberculose
Objetivo: A presente tese é apresentada no formato de três artigos que se articulam através do objetivo geral que foi estudar a associação entre o encarceramento e o risco de tuberculose ativa (TB) no Brasil. Os objetivos específicos dos artigos foram: (artigo-1) identificar um conjunto de macrodeterminantes socioeconômicos associados à incidência da TB, dentre eles, a proporção da população privada de liberdade (PPL) na população do município; (artigo-2) quantificar a importância relativa da exposição às prisões na incidência de TB e avaliar sua interação com a desigualdade da distribuição de renda; (artigo-3) estimar o efeito dos fatores ambientais dos presídios no tempo até o diagnóstico de TB. Métodos: Foram realizados dois estudos ecológicos (artigos-1 e 2) e um estudo de coorte retrospectiva (artigo-3). No artigo-1, relacionamos as taxas de incidência de TB (2010) dos 5565 municípios aos indicadores socioeconômicos e de saúde e à proporção de PPL. No artigo-2, as taxas de incidência de TB das populações prisional e não prisional dos 954 municípios com pelo menos uma unidade prisional (2014), foram relacionadas às variáveis contextuais dos municípios. Avaliamos também a interação da desigualdade da distribuição de renda nesta associação; e estimamos a fração atribuível à população (FAP). No artigo-3, analisamos os casos de TB na PPL do estado de São Paulo (2014 e 2015) segundo o tempo entre o encarceramento e o diagnóstico de TB. O efeito total das condições ambientais foi analisado por modelos de riscos de Cox. Todas as análises foram orientadas por diagramas causais para a seleção de variáveis de ajuste. Resultados: No artigo-1, após o ajuste por fatores individuais e região geográfica, esteve associada positivamente à incidência da TB, a proporção de PPL (razão de taxas de incidência [RTI]: 1,11; intervalo com 95% de confiança [IC95%]: 1,09-1,14), e fatores socioeconômicos e de saúde. No artigo-2, comparada com a população não prisional, a PPL apresentou (RTI) 22,07 vezes (IC95%: 20,38-23,89) o risco de TB em municípios com coeficiente de Gini <0,60; e 14,96 vezes (IC95%: 11,00-18,92) este risco onde o Gini foi >=0,60. A FAP foi gradativamente menor em municípios com maior desigualdade da distribuição de renda. No artigo-3, estimou-se que a cada aumento de 50% na taxa de ocupação carcerária, houve um aumento na velocidade de ocorrência da TB de 16% (IC95%: 8%-25%) nos modelos até dois anos. Um aumento de uma unidade do logaritmo da área da cela por pessoa resultou em uma redução na velocidade até o diagnóstico de TB de 13% (IC95%: 2%-23%) nos modelos até dois anos. Conclusão: Evidenciou-se a importância da PPL na ocorrência da TB nos municípios brasileiros; o potencial impacto que teriam intervenções para reduzir a exposição aos presídios, o qual varia segundo as condições socioeconômicas; e o efeito das condições ambientais dos presídios na velocidade do tempo até o diagnóstico de TB. Intervenções nas prisões como a redução drástica das condições de superlotação e o aumento do espaço físico, teriam elevado impacto na incidência de TB na população gerla, principalmente em municípios com menor coeficiente de Gini.
Análise da modulação autonômica cardíaca e função pulmonar em crianças que vivem em áreas expostas à poluição atmosférica
Introdução: A exposição à poluição do ar é descrita como prejudicial à saúde, dentre seus efeitos deletérios estão a disfunção autonômica cardíaca e a disfunção pulmonar. A associação da poluição do ar com morbimortalidade por doenças cardiorrespiratórias em centros urbanos tem se destacado como problema de saúde pública. Objetivo: Avaliar a modulação autonômica do ritmo cardíaco e a função pulmonar de escolares que vivem em área exposta à poluição atmosférica Método: Estudo transversal realizado com 143 escolares com idade variando de 8 a 11 anos divididos em dois grupos: (1) escolares residentes em ambiente com alta exposição à poluição atmosférica (n=77) e (2) escolares residentes em ambiente com baixa exposição (n=66). Foram coletados os dados de variabilidade da frequência cardíaca em repouso e em seguida foi realizado o teste de espirometria. Foi realizada análise descritiva e inferencial mediante pressupostos estatísticos e o programa estatístico utilizado foi o Stata versão 12.0. Resultados: Os escolares de Cubatão expostos às altas concentrações de poluição atmosférica apresentaram medianas significantemente menores para os índices da Variabilidade da Frequência Cardíaca que representa o sistema nervoso parassimpático: RMSSD: 33,4 (IC95%: 29,9 - 35,9) vs 35,0 (IC95%: 32,4; 40,8) , p=0,021; HF(ms²): 515 (IC95%: 398,3 - 730,6) vs 692 (IC95%: 548,5; 847,7) , p=0,020 e SD1: 23,6 (IC95%: 21,2 - 25,4) vs 24,8 (IC95%: 22,9; 28,9), p=0,023 quando comparadas com o grupo com baixa exposição da cidade de Peruíbe. Em relação à função pulmonar, foram verificados valores menores para a porcentagem do previsto dos índices entre os escolares expostos a altas concentrações (Cubatão) de poluição atmosférica: CVF: 86 (IC95%: 83,00 - 89,62) vs 92,50 (IC95%: 89,00; 95,00), p=0,005; VEF1: 85 (IC95%: 82,00 - 88,62) vs 90,50 (87,60; 95,00), p=0,004; FEF25-75: 90 (IC95%: 82,37 - 93,00) vs 97,00 (IC95%: 91,00; 101,00), p=0,008 em comparação àqueles dos escolares com baixa exposição (Peruíbe). Além disso, houve associação significante entre os níveis de poluentes com a VFC: valores diários de O3 com SDNN 0,25 (IC95%: 0,02; 0,47); SO2 com LF (u.n) 0,68 (IC95%: 0,10; 1,27) ; HF (u.n) -0,68 (-1,27; -0,11); para a média móvel de 2 dias de MP10 com SDNN -0,59 (IC95%: -1,10; -0,07) ; SO2 com LF (u.n) 0,67 (IC95%: 0,07; 1,26), HF (u.n) -0,67 (IC95%: -1,26; -0,07) e LF/HF 0,08 (IC95%: 0,02; 0,14) e a média móvel de 3 dias de MP10 com SDNN -0,94 (IC95%: -1,72; -0,15), SO2 com LF (u.n) 1,29 (IC95%: 0,38; 2,21) HF (u.n) -1,29 (IC95%: -2,21; -0,38) e LF/HF 0,15 (IC95%: 0,06; 0,25) e O3 com LF/HF 0,03 (IC95%: 0,004; 0,06) e relação significante dos níveis de poluentes com índices espirométricos: valores diários de NO2 com VEF1 -0,23 (IC95%: -0,43; -0,03)e FEF25%-75% -0,30 (IC95%: -0,58; -0,03) e valores de média móvel de 2 dias de O3 com FEF25%-75% 0,57 (IC95%: 0,06; 1,08). Conclusão: Os escolares residentes no ambiente de alta exposição à poluição atmosférica apresentaram menor variabilidade da frequência cardíaca e valores percentuais da função pulmonar quando comparados com os escolares residentes em ambiente de baixa exposição à poluição.
Trajetória da mortalidade por doenças infecciosas em menores de cinco anos no estado de São Paulo 1980 - 2016
Introdução: A análise da mortalidade na infância tem relevância para a definição de ações preventivas mais efetivas. Entre os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável temos a eliminação das mortes evitáveis na infância. Objetivos: 1) Analisar a mortalidade por causas infecciosas para <5 anos, no estado de São Paulo (ESP), em 1980, 1990, 2000, 2010 e 2016; 2) Analisar a mortalidade por causas infecciosas no universo da coorte de nascidos vivos, em 2010, e seguida até 59 meses e 29 dias de idade, segundo características das crianças e das mães; 3) Descrever espacialmente os óbitos por causas infecciosas, segundo características do local de residência; 4) Investigar fatores associados à sobrevida na coorte de nascidos. Método: Tratase de dois estudos, um deles de corte transversal descritivo, relativo aos anos de 1980, 1990, 2000, 2010 e 2016, e um estudo longitudinal do universo da coorte de nascidos vivos de 2010, no ESP, totalizando 601.604 crianças, acompanhadas até os 59 meses e 29 dias de idade. As fontes de informação são as bases de óbitos e nascidos vivos do Registro Civil da Fundação SEADE. O estudo de corte transversal analisou as causas básicas de óbito, segundo a nona e décima versão da Classificação Internacional de Doenças (OMS, CID-9, CID-10). As causas de morte referentes à CID-9 foram compatibilizadas com às da CID-10. Para o estudo longitudinal da coorte de nascidos, a base de dados foi criada aplicando-se a metodologia de vinculação determinística, entre a base de nascidos vivos de 2010 e as bases de óbitos de 2010 a 2015. As variáveis de interesse foram as características relativas à mãe, ao parto e à criança. Para análise do tempo até o óbito por causa infecciosa utilizou-se o estimador produto limite de Kaplan-Meier e o modelo de riscos proporcionais de Cox. Para investigar os fatores associados à sobrevida, tomamos o óbito por causa infecciosa como desfecho e as exposições de interesse como variáveis independentes. As estimativas das razões de riscos (HR), com respectivos intervalos de confiança de 95% (IC=95%), foram obtidas em modelo de riscos proporcionais de Cox. Resultados: As taxas de mortalidade de < 5 anos declinaram de 56,9 para 12,6 óbitos/1.000 NV (77,8%) entre 1980 e 2016, enquanto que, para causas infecciosas de 27,0 para 2,6 (90,4%). No início do período, a proporção de causas infecciosas situava-se em 47,0% dos óbitos, enquanto que, no final 20,6%; as diarreias, as pneumonias/broncopneumonias, as septicemias e as doenças imunopreveníveis apresentaram maior declínio, respectivamente, 99,1%, 95,4%, 84,7% e 98,9%. Na coorte de nascidos identificaram-se as seguintes exposições como independentemente associadas à sobrevida entre as crianças da coorte: mãe com < 7 anos de estudo (HRajustados=1,6); mãe com 4 ou + filhos (HRajustados=1,4); gestação de 32 a 36 semanas (HRajustados=1,8); gestação de < de 27 semanas (HRajustados=14,2); < 7 consultas de pré-natal (HRajustados=1,2); residir em município com elevada vulnerabilidade (HRajustados=1,4); peso ao nascer < de 1.500 gramas (HRajustados=13,9); malformação congênita (HRajustados=5,2); nascer no domicílio (HRajustados=3,2); apgar menor de 7 no primeiro minuto (HRajustados=2,3). Conclusões: O ESP apresentou expressivo declínio na mortalidade na infância, nas últimas décadas, especialmente, por causas infecciosas, no entanto, causas infecciosas e não infecciosas relacionadas à qualidade da assistência materno infantil persistem. Os estudos apresentam resultados que podem subsidiar estratégias com foco na diminuição da mortalidade na infância no ESP.
2020
Mônica La Porte Teixeira
Fatores associados à mortalidade por câncer de mama e do colo do útero no município de São Paulo: uma análise comparativa ecológica
Objetivos: Identificar a variabilidade espacial intraurbana da mortalidade por câncer de mama e câncer do colo do útero e possíveis fatores associados. Analisar padrões temporais de tendência e sazonalidade na realização dos exames de rastreamento para câncer do colo do útero e mama, segundo faixa etária, gestão administrativa, e nos estabelecimentos municipais, nível de Atenção à Saúde. Métodos: Entre 2009 e 2016 foram registrados 10.124 óbitos por câncer de mama e 2.116 óbitos por câncer do colo do útero em mulheres com 20 anos e mais residentes no município de São Paulo. Os registros foram geocodificados por endereço de residência e agregados segundo Áreas de Abrangência das UBS do município. Foram realizadas modelagens espaciais em um contexto Bayesiano, utilizando-se a abordagem INLA (Integrated Nested Laplace Approximations) para verificar a associação dos óbitos pelos dois cânceres com indicadores sociais, demográficos, econômicos, educacionais e assistenciais. Desenvolveu-se análise de séries temporais dos exames citopatológico cérvico-vaginal / microflora e mamografia bilateral para rastreamento realizados em mulheres com 20 anos e mais residentes no município de São Paulo entre 2010 e 2019. Foram ajustados modelos lineares generalizados, com resposta binomial negativa, da razão de procedimentos em função do mês de referência, ano, faixa etária. Para o cálculo do risco relativo (RR) e da variação percentual (%) em relação a Outubro (VPM) e anual (VPA) foram utilizadas técnicas de regressão segmentada e variáveis indicadoras para o período. Resultados: A taxa geral de geocodificação foi 99,4%. As mortalidades por câncer de mama e por câncer do colo do útero apresentaram padrões espaciais inversos no município de São Paulo. Algumas variáveis estiveram associadas à mortalidade por câncer de mama: tempo de deslocamento entre uma e duas horas para o trabalho (RR 0,97; IC95% 0,93:1,00); proporção de mulheres responsáveis pelo domicílio (RR 0,97; IC95% 0,94:0,99) e proporção de óbitos por câncer de mama ocorridos em estabelecimentos privados (RR 1,04; IC95% 1,00:1,07). À mortalidade por câncer do colo do útero, estiveram associados: tempo de deslocamento para o trabalho entre meia e uma hora (RR 0,92; IC95% 0,87:0,98); rendimento domiciliar per capita até 3,0 salários mínimos (RR 1,27; IC95% 1,18:1,37) e razão de menores de um ano em relação à população feminina de 15 a 49 anos (RR 1,09; IC95% 1,01:1,18). A razão de exames citopatológico cérvico-vaginal / microflora estimada na população sem plano de saúde é elevada, com queda a partir de 2013. Observou-se aumento no rastreamento por mamografia na faixa etária preconizada; porém, é alta a proporção deste procedimento em mulheres abaixo de 50 anos. O rastreamento para câncer do colo do útero e mama não apresentou sazonalidade em relação ao mês de Outubro. Conclusão: Este estudo permitiu testar a associação entre diferentes indicadores nas áreas de abrangência da Atenção Primária à Saúde e a variabilidade espacial intraurbana da mortalidade por câncer de mama e do colo do útero no município de São Paulo. Além de analisar a tendência temporal e a sazonalidade relacionada a Outubro do rastreamento para câncer do colo do útero e mama, bem como evidenciar as diferenças na solicitação destes exames segundo gestão administrativa e nível de Atenção à Saúde, no sentido de colaborar com a prevenção destes cânceres.
Marcadores da desigualdade na autoavaliação da saúde geral e da saúde bucal de adultos no Brasil em 2013
O objetivo do estudo foi analisar a relação dos marcadores de desigualdade em saúde, com destaque para a posição socioeconômica, com a autoavaliação da saúde bucal e da saúde geral da população adulta brasileira em 2013. Estudaram-se 59.758 indivíduos com 18 anos ou mais de idade, que participaram da Pesquisa Nacional de Saúde 2013, um inquérito domiciliar de base populacional. As variáveis dependentes do estudo foram a autoavaliação da saúde bucal (dentes e gengivas) e autoavaliação da saúde geral, sendo ambas analisadas como positiva, regular e negativa. As variáveis independentes foram os marcadores de desigualdade em saúde (cor ou raça, região de residência, nível de escolaridade completo, renda domiciliar per capita e classe social). Odds ratios (OR) brutos e ajustados e intervalos de confiança de 95% (IC 95%) foram calculados usando modelos de regressão logística multinomial. Os resultados referentes à autoavaliação da saúde geral foram estratificados segundo o sexo. A prevalência da autoavaliação de saúde bucal positiva foi 67,4%, 26,7% para regular e 5,9% para negativa, enquanto para a saúde geral foram 66,2%, 28,0% e 5,8%, respectivamente. As mulheres avaliam pior sua saúde geral do que os homens. Após ajuste pelas variáveis de controle, as chances de autoavaliar a saúde bucal como negativa foi significativamente mais elevadas entre os indivíduos com renda domiciliar per capita de até um salário mínimo (OR=4,71; IC95%: 2,84-7,83), sem escolaridade (OR=3,28; IC95%: 2,34-4,61), da classe social destituídos de ativos (OR=3,03; IC95%: 2,12-4,32) e residentes da região nordeste (OR=1,50; IC95%: 1,19-1,89). Em relação à autoavaliação da saúde geral nos homens, as chances de avaliar pior foram significativamente mais elevadas entre os indivíduos de menor renda domiciliar per capita, com pior nível de escolaridade, pessoas fora da força de trabalho, moradores das regiões Nordeste e Norte e que se declararam pardos e pretos. Enquanto nas mulheres, as chances de avaliar pior seu estado de saúde geral foram maiores entre as de pior nível de escolaridade, menor renda domiciliar per capita, que se encontravam fora da força de trabalho, que se declararam não brancas e moradoras das regiões Nordeste e Norte do país. A tipologia de classe social utilizada neste estudo foi válida para capturar desigualdades na autopercepção da saúde bucal e da saúde geral de adultos, à semelhança da renda domiciliar per capita e da escolaridade, com diferenciais apenas na força de associação, a depender do desfecho e do sexo. A compreensão da relação dos marcadores de desigualdade da autoavaliação da saúde bucal e da saúde geral pode levar ao melhor direcionamento de políticas públicas para grupos sociais mais vulneráveis, contribuindo para a redução das iniquidades em saúde que persistem no Brasil.
Fatores associados à cárie dentária e impacto das condições de saúde bucal nas atividades da vida diária em adolescentes de 15 a 19 anos de idade, Estado de São Paulo, 2015
dentária e ao impacto das condições de saúde bucal nas atividades de vida diária, podem instruir o planejamento de serviços odontológicos voltados aos adolescentes, além de ampliar as medidas de prevenção existentes. Objetivos: No primeiro artigo , o objetivo foi verificar a associação entre prevalência e severidade da cárie dentária e variáveis demográficas, socioeconômicas, comportamental e de condições de saúde bucal. No segundo artigo, foi verificada a a associação entre a percepção da saúde bucal e variáveis sociodemográficas e parâmetros bucais em adolescentes entre 15 a 19 anos de idade no Estado de São Paulo. Métodos: Foi realizado estudo transversal com dados da \"Pesquisa Estadual de Saúde Bucal de São Paulo - SB\", realizada em 2015. No estudo da cárie dentária, foram analisados os dados de 5558 adolescentes entre 15 a 19 anos de idade, para o estudo do impacto participaram 5409 adolescentes. Como desfecho do primeiro estudo, a cárie dentária foi avaliada pela prevalência e severidade medidas pelo índice CPOD. As variáveis independentes foram: idade, sexo, cor da pele, aglomeração domiciliar, renda mensal, atraso escolar, número de bens no domicílio, presença de sangramento gengival, presença de cálculo dentário e acesso à água fluoretada. A associação entre as variáveis e cárie dentária foi verificada através do modelo de regressão binomial negativa inflado de zeros. No segundo estudo, a percepção de saúde bucal foi avaliada pelo índice de impacto das condições de saúde bucal nas atividades de vida diária (OIDP), em termos de prevalência (presença ou ausência de impacto) e severidade do impacto (escores do OIDP). Como fatores da análise, foram consideradas condições demográficas (idade, sexo, cor da pele), socioeconômicas (renda familiar, aglomeração domiciliar, número de bens no domicílio), comportamentais (atraso escolar) e de condições de saúde bucal (cárie não tratada, sangramento gengival, cálculo dentário). Para o estudo de associação entre o OIDP e as variáveis de interesse utilizou-se o modelo de regressão binomial negativa inflado de zeros, considerando a amostragem complexa e os pesos amostrais. Foram calculadas as razões de prevalências (RP), identificando as variáveis associadas à manifestação do agravo, e as razões de médias (RM), indicando os fatores associados com o número de dentes afetados por cárie ou com o número de impactos das condições de saúde bucal nas atividades de vida diária e seus respetivos intervalos de confiança (IC). Resultados: Os resultados encontrados mostraram índice CPOD = 3,76, enquanto que a prevalência da cárie dentária foi de 71,7% . Verificou-se que sexo feminino (RP=1,09 e IC95%=1,04-1,15), atraso escolar (RP=1,11 e IC95%=1,03-1,18), apresentar cálculo dentário (RP=1,10 e IC95%=1,01-1,20) e não ter acesso à água fluoretada (RP=1,21 e IC95%=1,01-1,45) foram fatores associados com maior prevalência da cárie dentária, possuir 9 ou mais bens no domicílio foi associado com menor prevalência da doença (RP=0,94 e IC95%=0,88-0,99) Verificou-se também que apresentar sangramento gengival (RM=1,15 e IC95%=1,02-1,30) e não ter acesso à água fluoretada (RM=1,81 e IC95%=1,56-2,09) foram fatores associados com maior severidade da doença, a renda entre maior que R$1500,00 foi associada com menor severidade da cárie dentária. A prevalência de impacto nas atividades de vida diária foi de 37,4%. Após o ajuste do modelo, pode-se observar que o gênero feminino permaneceu com maior prevalência (RP=1,58 e IC95%=1,35-1,86) e severidade do impacto (RM= 1,45 e IC95%=1,22 - 1,73). Nas características socioeconômicas, a renda familiar maior que R$2501,00 foi associada com menor severidade do impacto (RM=0,81 e IC95%=0,67-0,98). Nas condições de saúde bucal, verificou-se que a cárie não tratada permaneceu associada com maior prevalência do impacto (RP=1,55 e IC95%=1,31-1,84), enquanto sangramento gengival e cálculo dentário não foram associados ao impacto . Conclusão: Portanto, os fatores estudados: gênero, idade, renda familiar, número de bens, atraso escolar, sangramento gengival, cálculo dentário e acesso à água fluoretada foram associados à cárie dentária, enquanto que ser do gênero feminino e possuir cárie não tratada foram associados ao maior impacto enquanto que possuir renda familiar maior que R$ 2.500,00 foi associada ao menor impacto nas atividades de vida diária em adolescentes do Estado de São Paulo.
2019
Lívia Litsue Gushi Corrêa
Análise longitudinal das condições de vida e saúde de idosos com histórico de câncer: Estudo Saúde, Bem-Estar e Envelhecimento
O uso de dados autorrelatados para estimar o câncer na população, bem como para o conhecimento de seus determinantes, tem se mostrado útil em estudos epidemiológicos. Em acréscimo, o uso de dados genéticos em pesquisas sobre câncer e envelhecimento tem se mostrado promissor. No entanto, são escassos os estudos longitudinais sobre envelhecimento que analisaram tanto a validade do autorrelato de câncer como a prevalência do histórico da doença, acrescido da análise das condições de vida e saúde, e da presença de variantes patogênicas associadas ao câncer hereditário. Esta tese apresenta-se sob a forma de dois manuscritos. O primeiro manuscrito verificou a validade do autorrelato do histórico de câncer e descreveu a prevalência da doença, antes e após o linkage, entre a base de dados do Estudo Saúde, Bem-Estar e Envelhecimento (SABE) com a base de dados do Registro de Câncer de Base Populacional de São Paulo (RCBP-SP). O segundo manuscrito analisou as mudanças nas condições de vida e saúde de idosos com histórico de câncer ao longo de cinco anos, identificou os fatores associados em dois momentos distintos, e descreveu a presença de mutações patogênicas associadas ao câncer hereditário. O câncer autorreferido apresentou acurácia de 98,5%, sensibilidade de 82,1% (IC5%:74,7-89,4), especificidade de 95,6% (IC55%:94,2-97,0), valor preditivo positivo de 59,6% (IC95%:50,6-68,6) e valor preditivo negativo de 98,6% (IC95%:97,8-99,3). A prevalência de câncer após o linkage foi 8,8% (IC95%:7,4-10,3) na linha de base e 12,8% (IC95%:10,5-15,0) no seguimento. Não foi observado mudanças nas características comportamentais e de saúde nos idosos com histórico de câncer durante o período estudado. Por outro lado, observaram-se diferenças nos fatores associados entre o primeiro e o segundo momento. Na linha de base, foram associados ao histórico da doença possuir serviço privado de saúde (OR: 1,56; IC95%: 1,11-2,20) e perda de apetite (OR: 2,50; IC95%: 1,28-4,88). No seguimento, permaneceu associado a perda de apetite (OR: 2,43; IC95%: 1,43-4,13), acrescido de depressão (OR: 1,80; IC95%:1,06-3,05) e cor de pele branca (OR: 1,65; IC95%: 1,07-2,54). Por sua vez, foram identificados 28 idosos com pelo menos uma das 14 mutações patogênicas associadas ao câncer hereditário detectadas pelo sequenciamento completo do genoma, mas nenhuma mutação mostrou-se compatível ao seu respectivo fenótipo. O câncer autorrelatado mostrou-se válido para o uso em estudos longitudinais sobre envelhecimento. Em cinco anos de seguimento, verificou-se aumento da prevalência de câncer e variações nos fatores associados ao histórico da doença. Tais achados são importantes para a formulação de ações de prevenção e cuidado personalizado, bem como para o planejamento dos serviços de saúde e do seu acesso.
2021
Tatiana Eustáquia Magalhães de Pinho Melo
Multimorbidade em adultos e idosos do Município de São Paulo: inquérito ISA-capital, 2003, 2008 e 2015
Introdução. A multimorbidade é a presença de duas ou mais doenças crônicas. Acomete mais as pessoas idosas e do sexo feminino, mas nos últimos anos tem se observado aumento da prevalência também entre os mais jovens e sexo masculino. Atualmente é um problema de saúde pública, pois é difícil o gerenciamento de diversas condições crônicas. Os maiores desafios são: conhecer a prevalência de multimorbidade em adultos, a prevalência ao longo do tempo e outros fatores além da idade e do sexo feminino. Objetivos. Conhecer a prevalência da multimorbidade, verificar se existem associações entre multimorbidade e fatores socioeconômicos, de estilo de vida e de uso de serviços de saúde. Métodos. Estudo transversal de base populacional ISA-Capital envolvendo 1.667 participantes acima de 20 anos de idade em 2003, 2.086 em 2008 e 3.184 em 2015. A variável dependente foi a presença de duas ou mais doenças crônicas separadas por faixa etária e sexo. As características demográficas, socioeconômicas, estilo de vida e uso de serviços de saúde foram consideradas variáveis independentes. Foram realizadas análises descritivas e regressão de Poisson para se obter as razões de prevalência. Resultados. A prevalência de multimorbidade foi de 40,25% em 2003 e alcançou 52,85% da população adulta paulistana em 2015. Foi 47% maior entre as mulheres e 74% maior entre os idosos. As principais doenças crônicas entre os mais jovens com multimorbidade foram rinite e sinusite e entre os idosos foram hipertensão arterial e colesterol elevado. A multimorbidade esteve associada com estilo de vida entre os mais jovens e com fatores socioeconômicos entre os idosos. Em ambos os sexos e faixas etárias, o uso de medicamentos esteve associado como consequência da multimorbidade. Conclusões. O presente trabalho contribuiu para diminuir as principais lacunas no conhecimento sobre a multimorbidade que atualmente são conhecer a prevalência ao longo do tempo, apontar as doenças crônicas mais prevalentes e os determinantes mais comuns além de sexo e faixa etária, principalmente aqueles relacionados com condições socioeconômicas e de estilo de vida.
2021
Andrea Cristina Alpoim Botelho
Infecção vertical pelo vírus Zika e suas repercussões feto-maternais: achados de uma coorte de gestantes em Jundiaí, São Paulo
Not available
Prevalência e fatores associados ao estado de portador de Neisseria spp. em núcleos familiares: estudo de base populacional
Introdução - O estado de portador assintomático ocorre quando o hospedeiro alberga o agente etiológico sem apresentar doença. Os fatores associados ao estado de portador de Neisseria não patogênica (NNP) e Neisseria meningitidis (Nm) diferem entre si, no entanto, as características epidemiológicas de ambas ainda são pouco exploradas. Objetivos - Estimar a prevalência, analisar possíveis diferenças em distintos estratos sociais, identificar o genótipo das cepas isoladas, assim como, investigar fatores associados ao estado de portador de Nm e de NNP em núcleos familiares residentes em Cuiabá-MT. Método - Estudo transversal de base populacional, desenvolvido de 07/2016 a 07/2017, incluindo todos os moradores de uma amostra probabilística estratificada composta de 243 núcleos familiares (domicílios) de área urbana, em bairros de alta e baixa renda do município de Cuiabá. Foram incluídos os domicílios com ao menos uma criança de 12 e 60 meses de idade. Todos os residentes nos domicílios selecionados foram submetidos a coleta de swab de orofaringe para o isolamento de Neisseria spp. Para a comparação de proporções utilizou-se o teste do qui-quadrado. Foram estimadas as razões de prevalências (RP) com seus respectivos intervalos de confiança 95% (IC95%) e para a investigação de fatores associados ao estado de portador de Nm e de NNP foram utilizados modelos de regressão de Poisson. O ajuste das variáveis no modelo final foi avaliado pelo teste de Hosmer e Lemeshow. Resultados: Foram estudados 1.050 indivíduos residentes em 233 núcleos familiares. A prevalência de portadores de Neisseria spp. foi de 10,6% (111/1.050), a de Nm de 2,4% (25/1.050) e de NNP de 8,2% (86/1.050). Dentre 111 portadores, 62 (56,0%) foram por N. lactamica, 25 (22,0%) por Nm, 21 (19,0%) por N. subflava., duas (2,0%) por N. mucosa e uma (1,0%) por N. polysaccharea. Das Nm, 76% (19/25) eram não grupáveis, 16% (4/25) eram do sorogrupo B, 4% (1/25) do sorogrupo C e 4% (1/25) do sorogrupo W. A prevalência de Nm em bairros de baixa renda foi de 2,8% (23/816) e nos de alta renda de 0,8% (2/234) (p=0,058), com uma razão de prevalência (RP) de 3,3 (IC95%:0,8-13,9). A prevalência de NNP em bairros de baixa renda foi de 8,2% (67/816) e em bairros de alta renda de 8,1% (19/234), com uma RP de 1,0 (IC95%:0,6-1,6). Permaneceram independentemente associados ao estado de portador de Nm após ajuste para conviver com tabagista no domicílio e por número de pessoas por dormitório: i) residir em bairro de baixa renda (RPajustada=2,6); ii) faixa etária de 5 a 14 anos (RPajustada=2,7); iii) faixa etária de 15 a 29 anos (RPajustada=2,4) e faixa etária de 30 e anos e mais (RPajustada=1,4). Após o ajuste para a infecção respiratória nos últimos cinco dias, apresentar asma, três ou mais pessoas por dormitório e sexo masculino, mostraram-se independentemente associados ao estado de portador de NNP: i) pertencer a faixa etária de cinco a 14 anos de idade (RPajustada=2,8) e de menores de cinco anos de idade (RPajustada=7,2); ii) residir em casa precária/quitinete (RPajustada=2,1). Conclusões - O contexto social influencia o estado de portador de Nm e NNP. As vacinas conjugadas meningocócicas podem prevenir doenças direta e indiretamente e tais resultados podem subsidiar a elaboração de estratégias de intervenção, especialmente para a identificação de grupos alvo de programas de vacinação.
Envelhecimento e funcionalidade: uma análise de trajetórias
O envelhecimento é um processo heterogêneo e dinâmico, influenciado por características biológicas, psicológicas, hábitos de vida, características socioeconômicas e ambientais, às quais os indivíduos são expostos ao longo da vida. A partir da combinação de tais características podem ocorrer diferentes trajetórias de envelhecimento no que se refere ao comprometimento funcional. A funcionalidade física da pessoa idosa pode ser avaliada segundo sua condição de mobilidade e a capacidade de desempenhar atividades de vida. Objetivo: Avaliar a existência de múltiplas trajetórias de funcionalidade de pessoas idosas e verificar se os determinantes sociais de saúde estão associados com às trajetórias identificadas. Método: Esta tese é dividida em três estudos longitudinais que utilizam dados dos estudos Saúde, Bem-estar e Envelhecimento do Brasil e Chile e do Estudio Mexicano de Envejecimiento y Salud. Utilizou-se como base três desfechos de condição funcional: (i) atividades básicas de vida diária que são relacionadas ao autocuidado (alimentar-se, tomar banho, vestir-se, deitar e levantar da cama, usar o vaso sanitário e caminhar dentro de casa); (ii) atividades instrumentais de vida diária, associadas à vida em comunidade (utilizar meios de transporte, manejar o próprio dinheiro, preparar refeições, usar o telefone, lavar roupa, cuidar dos afazeres domésticos e controlar a própria medicação); e (iii) mobilidade. Enquanto exposições de interesse, os estudos que formam a tese avaliam o impacto dos determinantes sociais de saúde nas trajetórias de funcionalidade de idosos. Modelos de trajetória determinístico e probabilístico foram adotados para avaliar a evolução funcional dos participantes dos estudos. Após a definição ou extração dos grupos distintos de trajetórias modelos de regressão logística e regressão multinomial foram aplicados para avaliar os fatores associados ao pertencimento de cada trajetória. Resultados: O estudo 1 observou que indivíduos com menos de 4 anos de educação formal apresentaram 2,7 vezes a chance de vivenciar piores trajetórias de envelhecimento funcional em comparação com idosos com pelo menos oito anos de escolaridade. Foi observada ainda diferenças entre os países estudados, sendo que idosos residentes em São Paulo apresentaram maior probabilidade de pertencer a piores trajetórias funcionais em relação a idosos vivendo em Santiago (Odds Ratio (OR) 6,10, Intervalo de Confiança de 95% (IC95%) 3,55;10,49). O estudo 2 evidenciou seis trajetórias de funcionalidade. Idosos pretos e pardos apresentaram maior probabilidade de pertencer a uma trajetória com característica de acelerado processo de perda funcional em comparação com idosos brancos (OR 1,60; IC95% 1,14; 2,26). Mulheres apresentavam maior chance de fazer parte das trajetórias 3 (Traj 3 OR 1,82; IC95% 1,33;248), 4 (Traj 4 OR 2,14; IC95%1,59;2,88) ou 5 (Traj 5 OR 1,95; IC95% 1,41;2,69) em relação à trajetória 2 quando comparadas com homens. Já o terceiro estudo que compõe a tese evidenciou a associação entre classes de condição socioeconômica e trajetórias de envelhecimento, sendo que quanto pior a condição social ao longo da vida maior a chance de fazer parte de piores trajetórias na velhice (p<0,001). Em todos os estudos apresentados, quanto maior a faixa etária maior a chance de fazer parte de piores trajetórias de funcionalidade. Conclusão: Os resultados apresentados evidenciam a heterogeneidade no processo de envelhecimento e sua relação com desigualdades sociais avaliadas por diferentes perspectivas. Ainda que guiado pela idade, o processo de envelhecimento em piores condições funcionais também pode ser explicado por baixo nível de escolaridade, pelo fato de ser mulher, ser preto ou pardo e por outras características socioeconômicas que posicionam a pessoa idosa em situação de desvantagem durante o processo de envelhecimento. Os presentes achados reforçam a discussão das desigualdades sociais e o envelhecimento em si dentro de uma perspectiva de curso de vida.
2020
Etienne Larissa Duim Negrini
A ocorrência, os fatores associados, e o absenteísmo por distúrbios musculoesqueléticos em trabalhadores do estado de São Paulo entre 2008 a 2016. 2018
As lesões por esforços repetitivos/distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho (LER/DORT) afetam os trabalhadores em todo o mundo, uma vez que causam sofrimento e limitação tanto em atividades cotidianas como no trabalho. Este agravo ainda tem como principais consequências a incapacidade temporária ou permanente para as atividades laborais, o afastamento do trabalho, por conseguinte, os prejuízos socioeconômicos gerados à sociedade pela redução da produtividade. Há, ainda, a necessidade de avaliar a ocorrência, as associações e o afastamento do trabalho por LER/DORT nos mais diversos grupos ocupacionais. Considerando as possíveis diferenças entre os sexos para LER/DORT, deve-se considerar a estratificação das análises por sexo. No capítulo I, foi realizado um estudo com dados retrospectivos de LER/DORT do Sinan e dos microdados do Censo de 2010 do IBGE. Foram analisadas variáveis sociodemográficas, trabalhistas, das cargas e ambiente de trabalho e os desfechos de interesse, com frequências absolutas e relativas, medidas de tendências centrais e dispersão, taxas do agravo, testes de hipóteses e modelos de regressão. Foram estimadas como medidas de efeitos a razão de prevalência e a razão de taxas. Para as ocorrências, o absenteísmo e os fatores associados a LER/DORT, destacaram-se idade a partir dos 30 anos, ocupações braçais, ambiente estressante e transtornos mentais. Quanto à tendência, trabalhadores a partir de 50 anos de idade e trabalhadores industriais e químicos foram fortemente associados de forma crescente na série temporal. O sítio anatômico de maior ocorrência foram os ombros. No capítulo II, foi feita uma revisão sistemática (RS) sobre distúrbios musculoesqueléticos (DME) de ombros em trabalhadores, para descrever a prevalência do agravo neste sítio anatômico. Foram incluídos 10 estudos de base populacional; a prevalência de DME de ombros variou de 7,1% a 29,3%, no sexo feminino de 6% a 31,1%, no sexo masculino de 9% a 14,4%, trabalhadores \"braçais\" e com idade a partir de 50 anos foram mais acometidos. Por fim, houve comparação entre os dois capítulos desta tese e os resultados assemelharam-se. Sugere-se, a partir destes achados, a reavaliação do processo de trabalho para indivíduos de idade intermediária a avançada, aqueles com transtornos mentais e no que tange o estresse laboral. Ainda sugere-se um sistema de notificação digital para melhoria e otimização dos sistemas de informação em agravos ocupacionais.