Repositório RCAAP

Verdade, interpretação e justiça segundo Nietzsche,

Resumo: Se Nietzsche critica o próprio conceito de verdade (Wahrheit), ele emprega, no entanto, com muita regularidade essa expressão, como em Ecce homo e em O Anticristo. Apontar essa tensão é insuficiente: há uma contradição ou antes uma polissemia? Este estudo, que distingue o perspectivismo (Perspektivismus) e o relativismo (Relativismus), examina os diferentes sentidos de “verdade” na obra de Nietzsche a fim de construir uma resposta a essa questão. Ela mostra que a verdade depende da interpretação (Auslegung, Ausdeutung, Interpretation) em busca de justiça, ainda que essa orientação continue problemática.

Nietzsche e a prerrogativa da ciência como forma de inverdade: visão de mundo científica versus visão de mundo cristã

Resumo: Partindo da análise de O Anticristo, investigamos a função que Nietzsche atribui à ciência, entendida como forma de inverdade, em relação a outras formas de inverdade, como o cristianismo. Primeiro, buscamos mostrar que, nesse escrito, o autor estabelece a incompatibilidade entre ciência e cristianismo atribuindo-lhes características específicas e inconciliáveis (como a probidade intelectual, própria da ciência, e a exigência de fé, típica do cristianismo). Depois, evidenciamos que qualificativos como “falsa”, “errônea”, “fictícia” e “mentirosa”, aplicados em tom pejorativo à concepção religiosa de mundo em O Anticristo, determinam igualmente, em outros escritos, o conhecimento científico. Ora, se as concepções de mundo cristã e científica têm características semelhantes, por que Nietzsche recorre à ciência para rejeitar o cristianismo?

Os Kollegnachschriften de Nietzsche. Considerações sobre uma lacuna das obras completas

Resumo: Não obstante as reconhecidas virtudes da edição crítica - Kritische Gesamtausgabe (KGW) -, há o entendimento de que as duas primeiras seções dessa edição, que abrangem os escritos de juventude e filológicos, possuem lacunas. Uma dessas lacunas, contida na seção I, decorre da problemática decisão de não incorporar, em sua totalidade, os registros de aulas realizados por Nietzsche no período universitário, os Kollegnachschriften, valiosos tanto para estudos genéticos e de contextualização, como também para estudos de fontes. Muito embora o surgimento da Digitale Faksimile Gesamtausgabe (DFGA) tenha dado início a um reparo dessa falha ao publicar todos os cadernos universitários de Nietzsche em formato fac-símile, os problemas de acesso a esses documentos não foram ainda completamente superados.

A noção de valores biológicos em Nietzsche

Resumo: Este artigo visa a esclarecer o uso concreto que Nietzsche faz do vocabulário biológico em sua obra. Em vez de conceber a biologia como a soma indiferenciada das ciências da vida, o que é um anacronismo em vista da situação fragmentada dessas ciências na segunda metade do século XIX, levo em consideração o trabalho de Lynn Nyhart sobre a ascensão da perspectiva biológica na Alemanha, para evidenciar o sentido mais estreito no qual Nietzsche fala de “biologia”. A primeira parte do artigo identifica os interlocutores que Nietzsche caracteriza explicitamente como “biólogos”. Depois, tento determinar o tipo de biologia evolucionária que está em jogo, para poder, num último momento, explorar as ramificações epistemológicas e estéticas do discurso biológico nietzschiano.

Ano

2022-12-06T13:20:35Z

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Salanskis,Emmanuel

Notas sobre a ideia de improvisação musical em Nietzsche

Resumo: O propósito geral do presente texto consiste em introduzir o sentido e o alcance que noção de improvisação musical pode adquirir no filosofar nietzschiano, e, em especial, no assim chamado período de maturidade de seu itinerário intelectual. Tenciona-se indicar que tal ideia assume uma função reguladora em seu pensamento, possibilitando lançar uma intensiva luz sobre o seu legado e enfatizar, sobretudo, o caráter pluralista e dinâmico deste último.

Ano

2022-12-06T13:20:35Z

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Barros,Fernando R. de Moraes

Recepção da filosofia de Nietzsche na obra de Celso Furtado

Resumo: Tendo em conta que 2020 foi o ano de celebração do centenário de nascimento de Celso Furtado, como singela homenagem, neste artigo procuramos oferecer uma introdução preliminar sobre a recepção da filosofia de Nietzsche na obra do economista brasileiro. Celso Furtado é um dos pensadores mais influentes no campo da economia-política na América Latina. Mas ninguém ainda pesquisou a dimensão filosófica de seu pensamento. Não obstante, é possível discorrer que ele pensou a economia sob um ponto de vista crítico-filosófico. Para comprovar essa hipótese, pretendemos evidenciar três aspectos conceituais por ele apropriados da filosofia de Nietzsche. São eles: a criatividade e/ou criação (Schaffung), para pensar o seu papel como agente motor de desenvolvimento da civilização industrial; a transvaloração de todos os valores (Umwerthung aller Werthe), para pensar a relevância dos valores morais para os centros de decisões dos meios e dos fins da produção e distribuição do capital; e o perspectivismo (Perspektivismus), para pensar a economia como uma totalidade composta por múltiplas perspectivas estruturais.

Notas sobre a construção de uma “química social” em Humano, demasiado humano: o papel da ciência, da filosofia e do filosofar histórico

Resumo: Tendo como foco principal o primeiro volume de Humano, demasiado humano, e em particular o primeiro capítulo desta obra, este texto visa, esquematicamente, a apontar o objetivo central da formulação do livro, que, ao nosso ver - e esta é a ideia aqui defendida - é de ordem política. Para tanto, num primeiro momento, procuramos expor o problema sócio-político em questão para Nietzsche, de forma que, num segundo, possamos esboçar a solução epistêmica, para, por fim, abordarmos as dificuldades dela decorrentes.

Ano

2022-12-06T13:20:35Z

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Silva Júnior,Ivo da

Nietzsche, o último filósofo metafísico? (um diálogo acerca da interpretação heideggeriana)

Resumo: Este artigo possui o propósito de colocar à prova a interpretação heideggeriana acerca das noções nietzschianas de vontade de potência e eterno retorno do mesmo. Para levar a cabo o referido objetivo, de início, apresentaremos o argumento desenvolvido por Heidegger nas suas preleções e textos sobre Nietzsche, editadas e publicadas em dois volumes, no ano de 1961. Num segundo momento, examinaremos, em Nietzsche: sua filosofia dos antagonismos e os antagonismos de sua filosofia, a resposta que Müller-Lauter ofereceu à crítica de Heidegger. Por ocasião deste exame, tentaremos salientar que haveria certa insuficiência na réplica deste comentador. Por fim, iremos recorrer aos textos do próprio Nietzsche para tentar promover uma confrontação com a interpretação do Filósofo da Floresta Negra.

Ano

2022-12-06T13:20:35Z

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Melo Neto,João Evangelista Tude de

Nietzsche, Debussy e o sul da música: esboços de uma cartossonografia

Resumo: o artigo apresenta de forma seminal a noção de cartossonografia, um modo de considerar a música por suas regiões sonoras. Para tanto, tenta estabelecer uma relação de proximidade entre Nietzsche e Debussy. Do filósofo, procura compreender a ideia de um Sul da música, enquanto do compositor se investiga as formas pelas quais ele estabeleceu um novo caminho para a música numa busca por sonoridades francesas. Além disso, ambos têm em comum um percurso que vai da adesão ao rompimento com Wagner.

Ano

2022-12-06T13:20:35Z

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Lima,Márcio José Silveira

De precursor a grande ocultador: Nietzsche sobre Spinoza

Resumo: Para além da triangulação Nietzsche-Kuno Fischer-Spinoza, a proposta do texto é perscrutar as peculiaridades da relação entre Nietzsche e Spinoza, partindo não de uma conexão biunívoca e restrita a Nietzsche e Spinoza, mas de menções compartilhadas, em que outros filósofos e pensadores são mencionados. A partir daí se pretende evidenciar traços de uma relação que é de admiração pelo “profundo ocultador”, mas também de crítica pelas instâncias que tal ocultador mascarou e que acabaram por consumi-lo.

A interpretação nietzschiana de Pierre Hadot

Resumo: Com a própria concepção de “filosofia como modo de viver”, Pierre Hadot inaugurou uma das mudanças de paradigmas exegéticos mais significativas do período recente. Elaborada a partir de autores antigos, as características e as razões interpretativas desse novo paradigma tornam a proposta de Hadot capaz de abarcar outras épocas e autores diversos. Dentre eles, um papel de destaque é confiado a Friedrich Nietzsche, sobre o qual Hadot detém-se com regularidade e insistência em muitas de suas obras. O presente artigo oferece uma reconstrução do percurso teórico-filosófico que levou o estudioso francês a elaborar a própria concepção interpretativa e pretende mostrar a leitura que, no interior dele, faz-se das especificidades filosóficas nietzschianas. Sua concepção se mostra como uma abordagem diferenciada das páginas de Nietzsche e apresenta elementos de grande originalidade com uma visão que convida a ser refletida e aprofundada.

Ano

2022-12-06T13:20:35Z

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Busellato,Stefano

A presença e a ausência do costume na moralidade: uma leitura da Antígona de Sóflocles e da República de Platão a partir de Nietzsche

Resumo: Neste artigo, partindo do conceito nietzschiano de eticidade do costume, apresentaremos duas visões de ética na antiguidade grega, quais sejam, a que prescreve o respeito à tradição, em que vige a incondicionalidade da obediência e a que se segue e suplanta a anterior mediante a transposição do valor ao plano imaginário. Surge, então, a incondicionalidade da norma.

Ano

2022-12-06T13:20:35Z

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Azeredo,Vânia Dutra de

Nietzsche contra Haeckel

Resumo: Nas poucas referências explícitas de Nietzsche ao biólogo alemão Ernst Haeckel, há uma clara rejeição de seu pensamento biológico e cultural. O objetivo deste artigo é propor que, apesar da pequena quantidade de citações diretas, os ataques de Nietzsche a Haeckel constituem um intenso antagonismo entre eles e inserem-se no contexto das críticas nietzschianas contra a formação (Bildung) e a cultura (Kultur) alemãs e contra a condição metafísica da ciência. O texto apresenta quatro aspectos do antagonismo entre Nietzsche e Haeckel: das Darwinismus de Haeckel; a influência de Haeckel sobre David Strauss; a inclusão do evolucionismo científico no currículo na Alemanha; e o conflito entre Ludwig Rütimeyer e Haeckel.

Ano

2022-12-06T13:20:35Z

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Frezzatti Jr.,Wilson Antonio

Os quatro momentos da leitura nietzschiana de Afrikan Spir,

Resumo: A obra de Afrikan Spir é uma importante fonte para entender a discussão de Nietzsche com a filosofia crítica. Ele procura superar a crítica transcendental através de uma investigação genética sobre a origem dos conceitos; ao mesmo tempo, tenta revelar os preconceitos e as idiossincrasias que se ocultam por detrás da vontade de manter a cisão entre mundo fenomenal e mundo numenal. A aversão pela mudança, pelo vir-a-ser, pelo testemunho dos sentidos, a predileção por verdades lógicas e conceitos contraditórios constituem, segundo Nietzsche, a forma específica de superstição dos filósofos críticos, dos quais a filosofia de Spir é o exemplo mais consequente.

Ano

2022-12-06T13:20:35Z

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D’Iorio,Paolo

Nietzsche e a Boa Espiritualidade Europeia

Resumo: O artigo tem como objetivo refletir sobre o ideal antropológico delineado por Nietzsche em seu último período. O modo como Nietzsche trata de conceitos tais como os de “alemão”, “bom europeu”, e “espírito livre” nas seções de Crepúsculo dos ídolos dedicadas a Goethe, será abordado de maneira especial. Finalmente, argumentar-se-á que o Renascimento desempenha também um papel importante no projeto antropológico de Nietzsche, uma vez que contribui para definir a força espiritual que caracteriza o tipo de homem saudável ao qual Nietzsche destina a sua sabedoria filosófica e gaia ciência.

Edward W. Said leitor de Nietzsche,

Resumo: Não obstante a filosofia de Nietzsche tenha exercido uma grande influência no pensamento de Said, essa influência ainda tem recebido pouca atenção crítica. O objetivo deste artigo é remediar essa lacuna incidindo particularmente nas diversas analogias que ligam o perspectivismo de Nietzsche à concepção de Said, presente em seu notório livro Orientalismo, segundo a qual não é possível haver representação verdadeira, uma vez que toda representação implica uma interpretação, que é ela mesma uma reconstrução do objeto de interpretação. A última parte do artigo busca mostrar que, embora ambos compreendam o conhecimento humano como perspectivo, nem Nietzsche, nem Said defendem um relativismo epistemológico radical.

Nas origens da vontade de potência: Anaxágoras

Resumo: O presente artigo estuda a interpretação nietzschiana de um pré-socrático pouco considerado pela literatura secundária: Anáxagoras de Clazômenas. São evidenciados alguns elementos da completa originalidade interpretativa de Nietzsche com relação à tradicional exegese do filósofo grego, como, por exemplo, a leitura do Nous em termos materialistas, a explicação do nascimento das qualidades de disposições quantitativas ou interpretar as homeomerias anaxagorianas como pontos de força. Dessas e de outras características da leitura nietzschiana de Anaxágoras emergem aspectos específicos que se encontrarão adiante na teoria da Vontade de potência, teoria, portanto, que possui, na interpretação de Anaxágoras, a primeira elaboração teórica.

Ano

2022-12-06T13:20:35Z

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Busellato,Stefano

O lugar da potência e a potência do lugar. Nietzsche e a arquitetura como eloquência da Wille zur Macht

Resumo: Com o presente artigo, pretende-se investigar a compreensão de Nietzsche acerca da arquitetura, a partir de uma análise da formulação: “a arquitetura é uma espécie de eloquência do poder em formas”, contida no aforismo 11, capítulo IX de Crepúsculo dos ídolos. Dada a relação aí contida, entre aquela arte e a doutrina da vontade de potência, procura-se compreender os termos dessa aproximação - inclusive, aqueles que o distanciam da estética schopenhaueriana - e em que medida reverberariam, para além das diversas manifestações estilísticas a ela pertinentes, em uma possível teoria da arquitetura como potência de ocupação.

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2022-12-06T13:20:35Z

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Costa,Gustavo Bezerra do Nascimento

Da estética romântica à arte do estilo: conexões do jovem Nietzsche com August Koberstein

Resumo: O objetivo deste artigo é investigar o lugar cada vez mais destacado que a questão da forma de expressão passa a ocupar nos escritos de Nietzsche no período entre o fim dos estudos escolares e os primeiros anos dos estudos universitários. Pretendo elucidar a análise desenvolvida por Koberstein, em sua obra Compêndio de história da literatura nacional alemã, sobre a questão da forma de expressão no movimento romântico, para em seguida mostrar como o crescente interesse de Nietzsche pelo emprego de recursos expressivos nos antigos poemas desdobra-se, no período universitário, na busca de uma arte estilística entendida como elo entre arte e ciência.

Ano

2022-12-06T13:20:35Z

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Cavalcanti,Anna Hartmann

Algumas considerações sobre o lugar da filosofia nietzschiana em O homem sem qualidades de Robert Musil

Resumo: O presente artigo propõe desenvolver uma análise da influência da filosofia de Nietzsche no âmbito da obra literária de Robert Musil, especialmente em O homem sem qualidadades (Der Mann ohne Eigenshcaften). É nosso propósito compreender a relevância da filosofia nietzschiana no âmbito da maturidade de Musil, refutando, assim, a conclusão avançada por Jacques Bouveresse relativamente à filosofia nietzschiana como uma mera (e infecunda) paixão de juventude do escritor austríaco. Neste sentido, a análise da importância da vivissecção, enquanto tarefa filosófico-psicológica proclamada por Nietzsche (em Além do bem e do mal) no âmbito do romance de Musil - Musil enquanto vivisecteur e psicólogo - forma o núcleo deste artigo.