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Anos de chumbo ou anos de ouro?A memória social sobre o governo Médici

Este artigo discute a memória social sobre a ditadura civil-militar brasileira, em particular a memória sobre o governo do presidente Emilio Médici. A partir da discussão da metáfora dos anos de chumbo, bem como da recuperação do período pelo viés dos anos de ouro, pretende-se analisar a complexidade dos comportamentos sociais sob a ditadura, e discutir atitudes como a passividade e a indiferença, que, tanto quanto a colaboração ativa, contribuem para a construção do consenso em torno do regime. Ao mesmo tempo, a ideia é refletir sobre a construção da memória social sobre o período em articulação com o esquecimento e os silêncios.

Memória e ritmos temporais: o pluralismo coerente da duração no interior das dinâmicas da cultura urbano-contemporânea

Nosso objetivo neste artigo é investir no estudo da memória coletiva no mundo urbano como resultado da ação recíproca de indivíduos e de grupos. Destacamos a importância das formas específicas dos arranjos da vida social segundo a complexidade e dinâmica da vida moderna de seus habitantes. Propomos uma etnografia da duração, para tratar do tempo e da memória no âmbito do campo antropológico. Trata-se de aprofundar a compreensão do processo de territorialização/desterritorialização de identidades sociais no mundo contemporâneo. Sugere-se a noção de ritmo como démarche para o conhecimento do movimento da descontinuidade/continuidade como sistema de valores acionados por tais grupos e de suas formas de sociabilidade no contexto citadino.

Year

2009

Creators

Rocha,Ana Luiza Carvalho da Eckert,Cornelia

O passado como negócio: o tempo revolucionário (1930)

A memória histórica é o resultado de uma lenta negociação em que as disputas políticas se apresentam como parte do processo de ordenação do passado. A memória e a história - em perspectivas diversas - elaboram narrativas capazes de conferir sentido às mudanças operadas no mundo social. O presente trabalho avalia as interpretações sobre o processo revolucionário ocorrido em outubro de 1930, enfatizando as distinções reveladoras do tempo e do lugar dos intérpretes em seu compromisso de explicar o passado.

O Sphan e a cultura museológica no Brasil

Os estudos sobre o processo de institucionalização de uma política preservacionista no Brasil têm privilegiado a análise do discurso sobre o patrimônio, formulado no âmbito do Sphan ou o exame das medidas de proteção do acervo arquitetônico, cerne da ação governamental. Poucos mencionam as iniciativas no campo dos museus, sendo este o objetivo principal do artigo, que discute a proposta de criação de museus regionais, tendo como recorte o estado de Minas Gerais, nos anos 1950.

Memória poética do espaço: Ouro Preto por Murilo Mendes

O artigo visa a apontar a importância de Ouro Preto (Minas Gerais) no projeto modernista brasileiro. Essa cidade era considerada pelos modernistas um símbolo da nacionalidade. O artigo oferece algumas referências sobre esse lugar histórico e em seguida analisa a visão poética de Murilo Mendes sobre a cidade no poema "Flores de Ouro Preto", do livro Contemplação de Ouro Preto, mostrando a recuperação literária do espaço e sua resistência frente ao processo de modernização no Brasil.

Memórias cartaginesas: modernismo, Antiguidade clássica e a historiografia da Independência do Brasil na Amazônia, 1823-1923

Este artigo analisa os debates historiográficos travados em 1923 por ocasião das comemorações da adesão do Pará à Independência do Brasil. Para isso, retoma os usos, pela intelectualidade paraense da época, dos mitos políticos da Antiguidade clássica, como as Guerras Púnicas, e de uma série de conceitos veiculados internacionalmente nos anos de 1910 e 1920, em obras políticas e literárias: "paz cartaginesa" em Keynes (1919), "terra desolada" em Elliot (1922) e ainda as imagens de Cartago na obra de Flaubert (1862). Mais do que um exercício de erudição, esse repertório analítico significou um longo e atribulado processo de construção da "moderna" identidade nacional na Amazônia.

Sobre alguns usos emergentes da história oral nos Estados Unidos: o caso do furacão Katrina

O artigo discute algumas implicações políticas de novos usos e apropriações da metodologia da história oral, possibilitados pela disseminação das mídias digitais. A partir da análise de projetos centrados em testemunhos das vítimas da devastação causada pelo furacão Katrina, desenvolvidos em grandes universidades norte-americanas, o artigo elabora dois aspectos da produção e disseminação destes testemunhos: primeiro, as apropriações contemporâneas da história oral para a construção política de memórias deliberadamente produzidas tendo em vista a consolidação de narrativas hegemônicas futuras; segundo, como a própria proliferação destas iniciativas vem gerando, simultaneamente, a multiplicação de vítimas, e a fragmentação e dispersão de seus testemunhos.

Origens do Brasil meridional: dimensões da imigração polonesa no Paraná, 1871-1914

O artigo discute as origens do "Brasil meridional" a partir do caso da imigração polonesa para o estado do Paraná (Brasil), ocorrida entre 1870 e 1920. Inicialmente, apresenta-se uma discussão sobre modelos explicativos das causas da imigração para o Brasil. Em seguida é apresentada, em linhas gerais, a história da imigração polonesa. Neste histórico, é trabalhado o contexto sociopolítico nas regiões de que partiram os imigrantes, o impacto das políticas federais e estaduais sobre a imigração e a função que os imigrantes deveriam desempenhar no desenvolvimento do estado do Paraná. Após 1890, analisa-se ainda a forma como os emigrantes foram descritos nos territórios poloneses ocupados e o papel que foram chamados a desempenhar no processo de reconquista da independência da Polônia. Uma breve discussão sobre a distância que separa o imigrante do emigrante no interior da história social brasileira fecha este trabalho.

Entre lembranças e silêncios: reflexões sobre uma autobiografia feminina

A partir do crescente interesse da história pela "escrita de si", este artigo toma como base a autobiografia da nadadora Maria Lenk, com o objetivo de explorar as relações existentes entre memória, identidade, esquecimento e silêncio. Nessa perspectiva, o trabalho examina as estratégias de comunicação e representação empregadas na narrativa, bem como os "ditos" e os "não-ditos" do testemunho de Maria Lenk concernentes às recordações da sua participação nas Olimpíadas de 1932. Assim, algumas questões presentes nos relatos de histórias de vida são discutidas para compreender a lógica que envolve a construção desta ambígua memória feminina.

Conflitos de memória e de identidades no cenário rural: ritualizações e representações de colonos assentados no norte do RS

O texto analisa aspectos do uso da memória coletiva por grupos sociais (no caso assentados, oriundos dos acampamentos da Encruzilhada Natalino e da Fazenda Annoni, na região centro-norte do estado do Rio Grande do Sul) para redefinir e/ou fortalecer sua identidade de sem-terra e enfrentar desafios e conflitos do tempo presente. Objetiva mostrar processos de construção/reconstrução de memórias coletivas através de rituais mediados por várias instituições, os quais buscam fortalecer identidades de pertencimento, manter a mística e os processos de luta de sem-terra ainda que os sujeitos envolvidos não o sejam mais. Centraliza-se na discussão e análise do papel da memória coletiva, das representações sociais, cultura de pertencimento, rituais agregadores, processos de socialização e temporalidades que se cruzam.

O Brasil e a ideia de "América Latina" em perspectiva histórica

Este ensaio sobre a história das ideias e a história das relações internacionais examina as origens do conceito de "América Latina" e discute o fato de que nem os intelectuais hispano-americanos e brasileiros, nem os governos hispano-americanos e brasileiros consideravam o Brasil parte da "América Latina" - expressão que se referia somente à América Espanhola - pelo menos até a segunda metade do século XX, quando os Estados Unidos e o resto do mundo exterior começaram a pensar o Brasil como parte integrante de uma região chamada "Latin America". Mesmo agora, os governos brasileiros e os intelectuais brasileiros, exceto talvez da esquerda, continuam sem convicção profunda de que o Brasil é parte da América Latina.

Movimentos sociais na América Latina: elementos para uma abordagem comparada

A análise das mobilizações a partir da categoria "novos movimentos sociais", construída na Europa, continua sendo dominante na abordagem dos movimentos latino-americanos. Este artigo lembra, na sua primeira parte, as especificidades dos movimentos "de base" nascidos durante os anos 1970 na América Latina. Em seguida, mostra as diferenças entre os debates e as abordagens das mobilizações, de um continente para o outro. Quando, sobre a América Latina, se insistiu muito sobre os valores, as mudanças culturais e as identidades, nos Estados Unidos o enfoque foi para a análise das organizações, das estratégias e das práticas. A terceira parte do artigo mostra as consequências dessa divergência científica para a observação dos processos de institucionalização dos movimentos sociais, assim como para a análise da contestação na América Latina nos anos 2000.

Relações Brasil-Argentina: a cooperação cultural como instrumento de integração regional

Este estudo desenvolve uma nova perspectiva das relações Brasil-Argentina a partir da análise de sua dimensão cultural entre os anos 1930-1954. Trata-se de mostrar como uma aproximação entre esses dois países foi incentivada através de projetos de cooperação intelectual, científica e artística, com o objetivo de desfazer imagens negativas e criar um sentimento de fraternidade entre brasileiros e argentinos. Com base na ideia de que uma maior cooperação contribuiria para o fortalecimento da região, e com o objetivo de alcançar uma futura integração econômica, essa prática também foi estimulada entre os demais países da América do Sul.

Representações regionais em Carlos Gardel e Carmen Miranda

No presente artigo, propõe-se uma análise das representações de identidades regionais presentes nas músicas e na imagem de Carlos Gardel e Carmen Miranda. Parte-se da hipótese de que esses dois artistas foram importantes no processo de negociação e construção das identidades nacionais brasileira e argentina. Em suas músicas, imagem e performance havia, também, representações de identidades regionais, algumas das quais foram afirmadas como nacionais.

Vargas, Perón e o esporte: propaganda política e a imagem da nação

Durante a primeira Era Vargas no Brasil (1930-1945), e durante os dois primeiros mandatos de Perón (1946-1952 e 1952-1955) na Argentina, o esporte foi um importante instrumento político. O controle estatal sobre o esporte e sua utilização pelos meios de propaganda política visavam a criar um elo de identificação nacional entre esporte e governo. Por esta razão, este artigo estabelece uma relação entre o esporte e a política nos dois governos estudados, comparando manifestações públicas - eventos esportivos, comemorações cívicas -, a produção dos principais órgãos da imprensa esportiva especializada e produções culturais do Estado, que envolvem o esporte e a ideologia oficial dos regimes.

Pelas letras do vazio: as categorias de desaparecidos e ausentes na Argentina dos anos 1970

Este trabalho visa a analisar as categorias de desaparecidos e ausentes, na Argentina, durante os anos de 1975 e 1976, que se materializam em comunicados da época. Procura identificar a formação dos sentidos desses signos e as disputas por sua homogeneização, antes de sua consolidação sob a perspectiva dos organismos de direitos humanos. Fundamenta-se em marcos da teoria bakhtiniana da linguagem e na idéia de ação comunicativa em periódicos elaborada por Eliseo Verón. Busca entender a ligação desses termos entre o público e a publicação, assim como demonstrar a procura por convencer leitores através dessas categorias, dentro de perspectivas ideológicas.

Experiências de liberdade em tempos de guerra: escravos e libertos nas Guerras Cisplatinas (1811-1828)

Este artigo trata do impacto das Guerras Cisplatinas (1811-1828) nas experiências de escravos e libertos na fronteira do Brasil com a região platina. Analisa sua participação no exército luso-brasileiro e nas tropas comandadas pelo general José Artigas. Sugere que a conjuntura das Guerras Cisplatinas, associada aos movimentos de independência na região do Prata e no Brasil, inaugura um processo de reestruturação da escravidão no Rio Grande do Sul, trazendo consigo implicações complexas para a inserção social de escravos e libertos.

O maior "pelego" do mundo? Fidel Velázquez e o sindicalismo oficial no México pós-revolucionário

Tomando como objeto a trajetória de Fidel Velázquez Sanchez, líder supremo da Confederación de Trabajadores de México (CTM) por quase 60 anos, o artigo examina os modos como o foco em história oral, livros de memórias, biografias, assim como em discursos e declarações de sindicalistas, contribui para tornar possível um novo olhar sobre a experiência dos trabalhadores sob regimes políticos latino-americanos tradicionalmente denominados "populistas".

"Nicarágua na encruzilhada": Cortázar, Vargas Llosa e a experiência sandinista

No final dos anos 1970 e início dos 80, Julio Cortázar e Mario Vargas Llosa compararam a Nicarágua sandinista com a Cuba de Fidel Castro, colocando em dia o debate sobre a revolução e o socialismo na América Latina. O presente trabalho analisa os artigos de Cortázar e Vargas Llosa para mostrar como eles compreenderam e traduziram a experiência sandinista. Em fins dos anos 1970, muitos intelectuais passaram a defender a Revolução Sandinista, como a possível revolução ideal ou uma nova chance para a experiência socialista na América Latina, como foi o caso de Cortázar. Vargas Llosa, desencantado com as esquerdas, apontava os "erros" do regime que poderiam levar a experiência sandinista a transformar o país centro-americano em uma "nova Cuba".