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O golpe de 1964 e a instauração da ditadura civil-militar no Pará: apoios e resistências

Este artigo, inserido nos debates historiográficos sobre a ditadura civil-militar no Brasil (1964-1985), pretende contribuir para o conhecimento da história política do estado do Pará antes, durante e após o golpe de estado de 1964. Examinamos preferencialmente a participação dos militares e o apoio de setores da sociedade civil ao golpe militar, e a repressão que sofreram os estudantes e organizações de esquerda e políticos "populistas". Na perspectiva metodológica dos estudos de história local e regional, as principais fontes utilizadas foram os jornais de Belém, livros de memórias, trabalhos acadêmicos e fontes orais.

Por um cristianismo social: a proposta dos cristãos - o semanário Brasil, Urgente (1963- 1964)

Com base na análise de editoriais do semanário Brasil, Urgente (1963-1964), o presente artigo ensaia algumas interpretações acerca do conteúdo veiculado por esse hebdomadário de inspiração cristã. Com o objetivo de se legitimar perante os movimentos sociais que também defendiam os direitos da pessoa humana, o jornal lançou mão de recursos variados e inconstantes. Desse modo, o pluralismo de ideias, presentes nas páginas combativas de Brasil, Urgente, variava de uma postura defensora da terceira via até uma opção de fé reorientada pela racionalidade da práxis social.

Debates sobre educação feminina no século XIX: Nísia Floresta e Maria Amália Vaz de Carvalho

O presente artigo problematiza a estrutura discursiva de duas obras que consideramos vozes femininas na defesa da educação e do trabalho para mulheres com alguma repercussão no Brasil no século XIX: Opúsculo humanitário (1853), da brasileira Nísia Floresta (1809 ou 1810-1885) e Mulheres e crianças (1880), da portuguesa Maria Amália Vaz de Carvalho (1847-1921). Procuramos identificar a quem se dirigiam os textos e como justificavam a autoria e a erudição femininas em um momento em que a tradicional interdição da palavra pública e da imprensa às mulheres começava a ser questionada.

A luta pela descolonização e as experiências de alfabetização na Guiné-Bissau: Amilcar Cabral e Paulo Freire

O objetivo deste artigo é apresentar aspectos da trajetória política de Amilcar Cabral no contexto da luta pelar libertação da Guiné-Bissau entre as décadas de 1950 e 1970, para então analisar como o educador Paulo Freire, a partir de sua experiência de alfabetização na Guiné Bissau em 1974, se inspirou na ação política e na produção teórica de Cabral. Através dessa reconstrução histórica pretendemos promover reflexões sobre o colonialismo e, como diria Amilcar Cabral, sobre a "luta de libertação como um fator de cultura".

Year

2012

Creators

Pereira,Amilcar Araujo Vittoria,Paolo

Disciplinar o "indígena" com pena de trabalho: políticas coloniais portuguesas em Moçambique

O domínio colonial português em Moçambique criou novas identidades para os africanos. Entre estas, a categoria "indígena" definia determinados africanos como primitivos com aversão ao trabalho. Através desse discurso, os agentes coloniais buscaram justificar a exploração da mão de obra dos "indígenas". Um dos instrumentos de seu domínio foi a aplicação de penas de trabalho como forma de disciplinar os povos colonizados. Diante disso, este artigo analisa a forma como os discursos e as práticas da administração colonial foram usados para definir o trabalho como pena aplicável exclusivamente aos "indígenas" entre o final do século XIX e o início do XX.

Reflexões sobre as roças em São Tomé e Príncipe

O artigo tem como objetivo apresentar elementos constitutivos da história de São Tomé e Príncipe, segundo menor país do continente africano, que tem como língua oficial o português. Diversas leituras e dados coligidos auxiliaram na redação do texto, que define e contextualiza o universo do sistema latifundiário colonial construído nas duas ilhas e apresenta escolhas políticas e sociais realizadas em função desse sistema ao longo de sua história.

Escravos bem falantes e nacionalização linguística no Brasil: uma perspectiva histórica

Este artigo propõe articular aspectos históricos da nacionalização linguística do Brasil à escravidão de africanos e descendentes no período de formação do Estado nacional (c. 1822-1870). Além da discussão de alguns paradigmas intelectuais, a análise de anúncios de jornal relativos a fugas de escravos evidenciará a dimensão linguística das relações entre os grupos sociais envolvidos.

Minas e a aclamação de D. João VI no limiar da formação do Estado-Nação brasileiro: memórias, conflitos e sedições

Neste artigo pretendemos estudar as cerimônias de aclamação do rei D. João VI ocorridas em Tejuco em 1818. A decodificação do rico arsenal de figurações estéticas encontradas naquelas celebrações pode se constituir em estratégia privilegiada para o entendimento da criação, naquele momento, de mitos que dariam sustentação e direção aos objetivos de afirmação do prestígio político do rei e de consolidação de seu domínio sobre aquela região e sobre todo o território brasileiro. Exploraremos aqui sobretudo o conflito de memórias entre os significados simbólicos das celebrações ocorridas em Minas e a revolta da população contra a exploração colonial portuguesa ocorrida cerca de três décadas antes na região.

A questão agrária na literatura neorrealista portuguesa

Os temas desenvolvidos pelos investigadores científicos e pelos políticos que se dedicaram à questão agrária portuguesa ao longo dos séculos estão presentes de forma clara na literatura sobre o mundo rural. No século XX a corrente que mais fortemente expressou as preocupações sociais da ruralidade foi o Neorrealismo, e esta incursão pelo seu universo de autores e temas teve como objetivo a síntese das imagens que se construíram sobre o Alentejo e que muito contribuíram para lançar as bases do movimento da reforma agrária que se realizou em 1975.

Year

2012

Creators

Almeida,Maria Antónia Pires de

A influência do gosto da cozinha portuguesa na História da alimentação no Brasil de Câmara Cascudo

O presente artigo tem como proposta articular experiências individuais na interpretação da cultura coletiva, focalizando a influência de sabores experimentados por Câmara Cascudo em sua viagem a Portugal de 1947 na escrita de sua obra História da alimentação no Brasil, publicada em 1967. Para tanto, parte-se da noção de que o gosto alimentar congrega tanto influências culturais e históricas como experiências individuais. Nessa perspectiva, apresentam-se fragmentos da memória pessoal de Cascudo e argumentos através dos quais ele defende uma cozinha tradicional brasileira, no sentido de identificar influências de experiências gustativas individuais em sua narrativa histórica alimentar.

Pequenas-grandes representações do Império Português: a série postal "Modalidades Desportivas"(1962)

Em 1962, o governo português lançou a série postal "Modalidades Desportivas": 48 selos, seis para cada província (Angola, Cabo Verde, Estado da Índia, Guiné Portuguesa, Macau, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Timor), com distintos esportes representados. Este estudo objetiva analisar a emissão desse conjunto de estampilhas, com o intuito de discutir a presença da prática esportiva no âmbito da política colonial portuguesa da década de 1960. Trabalhamos a hipótese de que, por meio dos selos, o esporte foi mobilizado como estratégia para conformar uma representação de império harmônico e multirracial que respondia a pressões que pendiam sobre o colonialismo português.

O caminho das imagens: três histórias de filmagens na primavera-verão de 1944

Este texto reconstrói três histórias de filmagens realizadas na primavera-verão de 1944, na Paris insurgente e nos campos de trânsito de Terezín, na Tchecoslováquia, e de Westerbork, na Holanda. A volta ao ponto de origem das imagens permite entrever o universo mental daqueles que as filmaram e interrogar suas escolhas. Ela revela seu imaginário a respeito do evento, sua vontade de conformá-lo à ideia que fazem dele, às vezes suas dificuldades de entender o que se passa. Esses planos recolhem também o impensado de uma época, a parte incompreensível da história para os contemporâneos. Eles conservam o que escapou ao olhar do cameraman na gravação mecânica de uma fatia do real. Os planos analisados abrem assim o caminho, até mesmo em sua fragilidade e em suas lacunas, para uma história do sensível próxima daqueles que fizeram o evento ou foram suas vítimas. Eles incitam questões tais como o lugar da arte no coração da barbárie, as ambivalências do "colaboracionismo artístico", a capacidade do cinema de se tornar um instrumento de liberação ou de resistência.

A Revolução Cubana nos documentários de Chris Marker

Nos anos 1960 a Revolução Cubana ocupou o centro do debate entre os intelectuais de esquerda na França. Por outro lado, o governo revolucionário convidou europeus para colaborar com o desenvolvimento de novas instituições, caso do ICAIC. Chris Marker, um dos convidados desse instituto, estabeleceu trocas com realizadores cubanos e montou dois documentários analisados neste artigo: Cuba si (1961) e La bataille des dix millions (1970). O primeiro visava a combater as críticas da imprensa conservadora a Fidel, enquanto o segundo se voltou para a própria esquerda que abandonava Cuba como um modelo.

O monumental e o íntimo: dimensões da memória da resistência no documentário brasileiro recente

Propõe-se um exercício acerca da memória da resistência à ditadura no documentarismo brasileiro contemporâneo. Monumentalização e intimidade são as noções guias das análises de Hércules 56 (Silvio Da-Rin, 2006) e Diário de uma busca (Flavia Castro, 2010). No caso do primeiro filme, sugere-se que os cânones do documentário de entrevista, primando pela coesão, estabelecem uma memória monumental e conciliadora. Quanto ao segundo filme, sustenta-se que a perspectiva íntima, plena de hesitações, pode sinalizar a permanência de lacunas na conciliação democrática brasileira. O contraste entre memória celebrativa e memória introspectiva ressalta a necessidade de crítica da impunidade presente.

Uma construção luminosa: o cinema e a Exposição Internacional de 1937

O artigo examina a presença do cinema na Exposition Internationale des Arts et des Techniques (Paris, 1937), discutindo as imbricações entre a cultura da modernidade e as contendas políticas e ideológicas no período entre guerras. Marcada pelo confronto arquitetônico, expressão simbólica de um conflito iminente, a exposição tem no cinema um participante ativo do embate. Com estatuto inédito, considerado expressão do pensamento e "potência ditatorial da época", ele é utilizado para marcar a perspectiva de cada país a respeito do seu lugar no mundo.