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Os encantos da Veneza Americana e da propaganda pelo cinema: os filmes financiados pelo governo Sergio Loreto em Pernambuco (1922-1926)

Este artigo aborda a produção cinematográfica financiada pelo governo Sergio Loreto em Pernambuco (1922-1926). Por meio de textos históricos, pesquisa em periódicos e análise fílmica, pretendemos destacar a relevância do estímulo oficial ao incipiente meio cinematográfico local e analisar como se constroem, nos filmes, as relações entre estratégias de propaganda e procedimentos estéticos e narrativos.

Da geração de eletricidade aos divertimentos elétricos: a trajetória empresarial de Alberto Byington Jr. antes da produção de filmes

Este artigo aborda a trajetória de Alberto Byington Júnior e da empresa criada por seu pai antes do início de sua carreira como produtor cinematográfico na década de 1930. As atividades da Byington & Cia em geração de eletricidade, engenharia elétrica e importação de equipamentos elétricos precederam o investimento da empresa na indústria cultural. A atuação na indústria fonográfica e radiofônica, em particular, antecipou as ações da empresa no cinema brasileiro após o advento do filme sonoro. Da fabricação de equipamentos de projeção sonora, a Byington & Cia passou a investir na produção de filmes, revelando uma articulada estratégia empresarial.

Suicidas e foliões: chanchada, carnavalização e realismo no filme Tudo azul, de Moacyr Fenelon (1951)

O filme Tudo azul (1951), dirigido por Moacyr Fenelon, foi um dos momentos do projeto de um cinema nacional-popular, apoiado por realizadores de esquerda, na tentativa de articular crítica social e diversão. Ao narrar a angústia do "pequeno funcionário" Ananias, compositor inédito e pai de vários filhos que trabalha em uma companhia de seguros mas sonha em ser compositor famoso, Tudo azul representa uma tentativa em conciliar elementos da chanchada carnavalesca e do melodrama com a perspectiva realista.

Governo Lacerda versus Cinema Novo: a grande cidade como arena de debates simbólicos

A proposta do artigo é evidenciar o embate entre o Cinema Novo e o governo de Carlos Lacerda (1960-1965) em torno da representação cinematográfica do Rio de Janeiro. Recorre-se à análise de A grande cidade (Cacá Diegues, 1966) para, através dela, evidenciar a disputa entre a representação crítica da modernidade - pautada pelos pressupostos do cinema político - e a defesa de uma imagem urbana utópica, baseada na noção de capitalidade e levada a cabo por processos de modernização.

O conceito de "novidade" no projeto do Nuevo Cine Latinoamericano

Este artigo aborda o projeto de desenvolvimento cinematográfico conhecido como Nuevo Cine Latinoamericano a partir de uma análise do conceito de "novidade". Ele está centrado nas razões que levaram alguns cineastas, no final dos anos 1960, a considerar que seus filmes eram "novos". Analisa assim suas particularidades em relação aos novos cinemas europeus, com foco no viés revolucionário que adquire o termo "novo" na América Latina. Por fim, o conceito é estudado utilizando como fonte as declarações e os debates públicos dos festivais do Sodre, em Montevidéu (1958), Sestri Levante (1962 e 1963) e Viña del Mar (1967).

A Nouvelle Vague sob o ponto de vista do jornal O Metropolitano

Este artigo toma como objeto de reflexão os textos da coluna de cinema de O Metropolitano, órgão oficial da União Metropolitana dos Estudantes, sobre o movimento cinematográfico francês Nouvelle Vague à luz das posições políticas e ideológicas do jornal. Concentramos nossa análise nas críticas escritas principalmente por Cacá Diegues, David Neves e Sérgio Augusto no período que se estende de 1959, quando as primeiras notícias sobre a Nouvelle Vague começaram a despontar no Brasil, até o ano de 1962, quando o Cinema Novo se firmou como movimento.

Charles Boxer (contra Gilberto Freyre): raça e racismo no Império Português ou a erudição histórica contra o regime salazarista

O objetivo deste artigo é discutir a emergência da "questão racial" na leitura que Charles Boxer fez do Império Português. O livro Race relations in the Portuguese Colonial Empire, 1415-1825 (1963) é o marco dessa nova perspectiva agregada à obra do historiador britânico. Essa interpretação foi construída contra as ideias de Gilberto Freyre e de intelectuais próximos ao salazarismo, como Armando Cortesão. Interessa ao artigo investigar e mapear as polêmicas entre esses intelectuais - à luz das grandes questões da época, como a descolonização africana -, que contribuíram para alçar a "raça" ao centro do debate político da década de 1960, repercutindo sobre (e alterando) o entendimento do Império Português da Era Moderna.

Mestiçagem e perversão sexual em Gilberto Freyre e Arthur de Gobineau

Casa-grande & senzala, de Gilberto Freyre, consolidou na cultura nacional a valorização da mestiçagem racial como um dos mais sólidos fundamentos da sociedade brasileira. Este artigo empreende uma releitura da tese freyreana da miscigenação, identificando-a como resultado de uma relação erotizada marcada pelo sadismo dos brancos e pelo masoquismo dos negros. Essa noção será comparada com as teses lançadas por Arthur de Gobineau em seu Ensaio sobre a desigualdade das raças humanas (1853-1855), evidenciando os afastamentos e semelhanças que unem a obra freyreana a um importante representante do pensamento racialista.

A redenção cósmica do mestiço: inversão semântica do conceito de raça na Raza cósmica de José Vasconcelos

Partindo da constatação de que, no início do século XX, operou-se uma modificação na forma de se conceber a mestiçagem no México, o presente artigo pretende investigar como essa modificação se relacionou ao conceito de raça. Analisa-se especificamente o ensaio La raza cósmica (1925), de José Vasconcelos, que defende que na América Latina se formaria uma nova raça, em um processo de mestiçagem sobretudo espiritual. Através de uma inversão semântica no conceito de raça, o autor apresenta uma nova proposta de identidade latino-americana, com o fim político de legitimar as nações do continente e de se opor ao imperialismo estadunidense.

Year

2013

Creators

Ascenso,João Gabriel da Silva

Do (in)visível ao risível: o negro e a "raça nacional" na criação caricatural da Primeira República

A partir de caricaturas e de textos de humor publicados nas revistas ilustradas cariocas na Primeira República - sobretudo entre 1898 e 1918 -, o artigo analisa o lugar do negro e a reatualização da ideia de "raça nacional". Discute-se em que medida o humor é capaz de evidenciar mecanismos pouco visíveis, repercutindo o preconceito racial da época e revelando ao mesmo tempo a emergência de novas tradições culturais de origem africana e estratégias de resistência. À luz da historiografia recente sobre o período, demonstra-se como também no universo caricatural se tecia uma imagem da "raça brasileira" apoiada na mestiçagem. Essa busca de uma identidade brasileira mestiça é renovada no contexto da Primeira Guerra Mundial, quando os caricaturistas insistem na representação da decadência dos países tidos como civilizados e se interrogam sobre o lugar do Brasil no mundo.

Year

2013

Creators

Almeida,Silvia Capanema Silva,Rogério Sousa

Raça, medicina tropical e colonialismo no Terceiro Reich: a expedição de Giemsa e Nauck ao Espírito Santo em 1936

O artigo trata da expedição que os pesquisadores do Instituto de Medicina Tropical de Hamburgo, Gustav Giemsa e Ernst Nauck, fizeram à região de colonização alemã no Espírito Santo em 1936 a fim de investigar se aquela população poderia ser considerada aclimatada ao ambiente tropical. O debate sobre aclimatação ganhou força no Terceiro Reich, impulsionado pelas ambições coloniais nazistas e influenciado pela higiene racial e pelas disputas institucionais e teóricas no campo da medicina tropical. Apesar do quadro favorável encontrado no Espírito Santo, Giemsa e Nauck adequaram suas observações às diretrizes da política colonial nazista no final dos anos 1930.

Frantz Fanon e o ativismo político-cultural negro no Brasil: 1960/1980

O artigo pretende contribuir para o debate sobre a recepção do pensamento do intelectual e ativista Frantz Fanon (1925-1961) no Brasil. Neste sentido, busca acrescentar subsídios a discussões anteriores e confirmar algumas de suas hipóteses, demonstrando que na década de 1980 existiu um momento de aproximação e uso de algumas ideias daquele pensador no ativismo político e cultural negro brasileiro, notadamente entre intelectuais do coletivo Quilombhoje Literatura.

Year

2013

Creators

Silva,Mário Augusto Medeiros da

A abordagem interdisciplinar no estudo do Homo brasilis: a genética em acordo e desacordo com a história

Neste artigo, temos o objetivo de confrontar os registros históricos e interpretações historiográficas referentes às ancestralidades indígena e judaica na formação populacional da região Sudeste brasileira com os resultados obtidos pelo geneticista Sérgio Pena em suas pesquisas sobre a origem filogenética do segmento da população brasileira autoclassificada como "branca". Nosso trabalho compara os resultados apresentados por Pena na obra Homo brasilis com dados históricos originados não só de fontes bibliográficas, mas também de fontes documentais. Concluímos que os dados filogenéticos para a ancestralidade matrilinear apresentados por Pena coincidem com os dados históricos, havendo, porém, discrepância quanto à ancestralidade patrilinear.

Ser "moreno", ser "negro": memórias de experiências de racialização no litoral norte do Rio Grande do Sul no século XX

O artigo estuda a passagem da designação racial de "moreno" para "negro" no litoral norte do Rio Grande do Sul, entre a geração de netos e bisnetos de escravos, isto é, entre meados do século XX e início do século XXI. A historicização, através da memória, das categorias de identificação racial permite desnaturalizar a categoria "negro" como a única expressão de uma identidade étnica e, pelo contrário, reconhece o valor das percepções dos idosos acerca de seu pertencimento racial.

Segredos de penteadeira: conversas transnacionais sobre raça, beleza e cidadania na imprensa negra pós-abolição do Brasil e dos EUA

O objetivo deste artigo é discutir as relações que homens e mulheres de cor, ativistas e empresários, estabeleceram entre raça, beleza e cidadania no Brasil e nos EUA do pós-abolição. Por meio de propagandas que circulavam em jornais e revistas da imprensa negra dos dois países, apresento três possibilidades de construção de histórias transnacionais que tenham relações raciais, de gênero e a cosmética como foco. Para isso, apostando na interseccionalidade entre gênero, raça e classe, proponho que a "beleza negra" seja tratada não apenas como objeto de estudo, mas como conceito dentro do que denomino história social da beleza negra.

Análise sobre a (não) caracterização do crime de racismo no Tribunal de Justiça de São Paulo

No presente artigo trazemos à tona por meio da análise discursiva os principais argumentos que levam os discursos jurídicos do TJSP a (não) criminalizar como racismo condutas ofensivas aos(às) negros(as). Para que haja crime de racismo, a estratégia do discurso jurídico é de desvincular a honra individual da coletiva, tornando condenáveis aqueles que insultam a raça negra como um todo, e não um sujeito negro. Além desta estratégia, a coerência da concretude probatória dos xingamentos e a intenção dos ofensores são destacadas como imprescindíveis à caracterização do crime de racismo.

Year

2013

Creators

Becker,Simone Oliveira,Deborah Guimarães

Controle de vida, interseccionalidade e política de empoderamento: as organizações políticas das trabalhadoras domésticas no Brasil

Motivado pelas recentes discussões legais em torno do trabalho doméstico no Brasil, este artigo propõe-se destacar o protagonismo das organizações políticas das trabalhadoras domésticas na conquista dos direitos da categoria profissional. Baseado em entrevistas realizadas com trabalhadoras domésticas sindicalizadas em diversas cidades brasileiras, o artigo estrutura seu argumento a partir do conceito de interseccionalidade, demonstrando como, ao longo dos últimos 80 anos, as organizações políticas dessas trabalhadoras têm se articulado com o movimento classista-sindical, negro e feminista, o que tem sido fundamental para desenvolver uma política de empoderamento e de autocontrole da vida.