Repositório RCAAP
Desabrigo-mundo - narrativa século XXI
Este trabalho consiste na investigação dos aspectos de uma literatura-mundo produzida no Brasil face ao século XXI. A partir de uma breve incursão na problemática situada por Maurice Blanchot na última parte de O livro por vir, Para onde vai a literatura?, na qual é realizada uma releitura dos autores aí abordados, são desenvolvidas análises do projeto narrativo de três autores brasileiros: Mauricio Salles Vasconcelos, Fausto Fawcett e Botika. A proposta é sondar de que maneira a aqui denominada narrativa século XXI se difere do paideuma da narrativa moderna, modernista, pós-moderna, e como a problematicidade do mundo, ao menos desde a segunda metade do século XX, exige um redimensionamento, uma transição da crítica para pensar as heterocronias e heterotopias abertas pela literatura feita sob o signo da transversalização dos saberes no mondo tecno.
2019
Tiago da Cunha Fernandes
Maria Gabriela Llansol: o \'acto de ler tão perigoso\'
Não é estranha à textualidade da escrevente portuguesa Maria Gabriela Llansol certa preocupação com uma (des)pedagogia da leitura do texto literário. Nesse sentido, (per)sigo, neste trabalho, o exercício desta (des)pedagogia na obra de Gabriela, observando aí, mais diretamente, a presença de exercícios críticos e metalinguísticos que, ao atravessarem o tecido narrativo e com ele constituírem uma única paisagem textual, ao mesmo tempo exigem e afirmam outras formas de ler o literário.
2019
Arnaldo Delgado Sobrinho
Fala Natureza! Teu intérprete te escuta! (Literatura e meio ambiente em Guimarães Rosa)
A crise ambiental é a crise de nosso tempo reconhece Enrique Leff, para quem a construção de um saber ambiental deve estar centrada no pensamento e no ser, no encontro de racionalidades e identidades, na abertura do saber à diversidade, no questionamento da historicidade da verdade, na utopia e na articulação das ciências com as diferentes significações culturais designadas à natureza. Diante desse propósito, a literatura se apresenta como instrumento para se pensar a complexidade ambiental. Nas fronteiras fluídas do ético e do estético, do espaço privado e do público, da arte e das ciências, do ficcional e do real, o texto literário evidencia a relação da sociedade com seu meio ambiente. É o que se constata na produção literária de João Guimarães Rosa, escritor mineiro, para o qual escrever sobre a natureza tem o sentido de missão, de vocação superior (virtude atribuída por Antonio Candido aos poetas). Sendo um autor que tinha consciência das grandes responsabilidades que um escritor assume, através da imaginação, do resgate da história, da pesquisa e da indagação, Rosa encontra na natureza do sertão a inspiração que vai permitir fluir em sua obra as leis da natureza e dos homens, o saber popular e o erudito, o mitopoético e o prático, o passado e o presente, a ciência e a arte. Uma complexidade que emerge como resposta da própria natureza frente à sua degradação. Dentro dessa perspectiva, propomos percorrer o itinerário de Guimarães Rosa em seu trabalho missionário de intérprete da natureza e de reler seu discurso à luz do pensamento de Leff sobre a complexidade ambiental. Nesse trajeto se delineiam os traços do poeta que apreende, compreende e internaliza as questões ambientais e se reconhece a sua obra, como precursora do discurso ambientalista e referência literária para a construção dos pilares da nova racionalidade ambiental.
2010
Teresinha Gema Lins Brandão Chaves
Ordo Amoris: inventários das quatro estações em Caio Fernando Abreu e Renato Russo
Esta pesquisa, que é também uma ode em suas múltiplas expressões, se ergue no rastro dos afetos, do caos e do lirismo desmedido encontrados nos discursos poéticos de Caio Fernando Abreu e Renato Russo (o primeiro nos domínios da ficção literária e o segundo nos da canção de rock); constrói-se, também, com vistas às inquietações atravessadas pela busca do lugar da poesia no cenário da prosa e da letra de música, aqui recortadas, atendo-se ao modo como essas vozes se mantêm ressonantes e esteticamente significativas no contexto atual. Na procura por legitimar o protagonismo de Eros e seus pares dentro do universo contemporâneo e impetuoso de um mundo híbrido e desconexo, a ordo amoris, como linguagem coletiva e universal na erótica social, foi um modo de operacionalizar as questões centrais e organizar esses inventários (forjados a partir das metáforas do livro de contos Inventário do ir-remediável e do disco As quatro estações), transferindo, refletindo e redesenhando os espaços de criação, recepção e estética em literatura, que nessa dissertação borra fronteiras. A cultura de afetos, a filosofia existencialista e as contribuições sobre sujeito, coletividade, erotismo e subjetividade(s) reinventam e sustentam os debates que se edificam em espaços plurais de atuação, no desenho cartográfico que se vai formando a partir da poética de Caio e Renato e seus discursos à flor da pele. As quatro estações potencializam e iluminam os passos das divindades míticas e dos sujeitos líricos que se cruzam nessa pesquisa, são as vias férteis que acenam para a presentificação do agora, quando há trocas necessárias de papéis em que o eu se dissolve e se derrama no outro, na busca por essa alma coletiva da humanidade (quase) perdida e da celebração. São, principalmente, os pressupostos teóricos de Michel Maffesoli (2014a) e Giorgio Agamben (2013) que fundamentam e iluminam esse barco solto na correnteza.
2017
Adriane Figueira Batista
Escritores e intelectuais no contexto literário: o engajamento de Marcelino Freire
O presente trabalho tem por objetivo refletir acerca dos papéis de intelectual e escritor engajado desempenhados pelo autor pernambucano radicado em São Paulo Marcelino Freire. Para tanto, fez-se, num primeiro momento, um percurso por algumas definições de intelectual, com o propósito de compreender a função desse sujeito na contemporaneidade, e procurou-se verificar e exemplificar como ocorre o engajamento de intelectuais na literatura. Em seguida, discutiu-se o agenciamento de Freire tanto na cena cultural como curador, palestrante, colunista, por exemplo quanto literária. Por último, a fim de diagnosticar como ocorre o engajamento mais especificamente na escrita ficcional freiriana, analisamos cinco contos do autor cuja temática central é o racismo ainda presente na sociedade brasileira e, ao mesmo tempo, a resistência do povo negro, a saber: Faz de conta que não foi. Nada. (Angu de sangue), Trabalhadores do Brasil, Solar dos Príncipes e Curso superior (Contos negreiros) e Favela Fênix (Amar é crime).
2017
Tatiane Pereira de Santana Ivo
No fogo das três pedras: leitura comparada das poéticas de Corsino Fortes, Arménio Vieira e Filinto Elísio
Inserida num contexto de globalização, a literatura cabo-verdiana parece impactada pelos influxos de modernidade e pós-modernidade. E colocar as poéticas de Corsino Fortes, Arménio Vieira e Filinto Elísio em comparação fornece índices desses impactos, sobretudo no que se refere às formas. As concepções do tempo e do espaço interferem nas escolhas estéticas e temáticas dos poetas, determinando trânsitos e permanências. Propõe-se, pois, sob essa perspectiva, a leitura das obras A cabeça calva de Deus (2010) e Sinos de Silêncio: canções e haikais (2015), de Corsino Fortes; O Brumário (2013), Derivações do Brumário (2013), Sequelas do Brumário (2014) e Fantasmas e fantasias do Brumário (2015), de Arménio Vieira; e Do lado de cá da rosa (1995), Li Cores e Ad Vinhos (2009), Me_xendo no baú. Vasculhando o U (2011), Zen limites (2016), de Filinto Elísio. A obra de Corsino Fortes volta-se para o futuro como um valor a ser perseguido e uma dimensão a ser construída a partir das percepções do passado e do trabalho no presente. Desse modo, o poeta insere-se na episteme da modernidade, compreendendo o trabalho com a palavra como fundamental não somente para a expressão de uma convicção ideológica e política como também estética. Com isso, um espaço bem delimitado, ao qual adere e no qual enraíza seus versos, desenha-se: Cabo Verde em sua multiplicidade étnica e cultural. A obra de Arménio Vieira parece marcada pelo desencanto e pelo esgotamento; nesse sentido, o olhar para o futuro revela apenas o nada, o vazio. O poeta centra-se na própria palavra que se manifesta no presente da escrita e se coloca em diálogo com autores da literatura mundial. O espaço que se revela não é físico ou geográfico, mas literário e de dimensões internacionais. A poética de Filinto Elísio, por sua vez, parece manter-se em trânsito constante, razão pela qual inscreve-se de maneira mais incisiva sob o signo do excesso; parece expressar uma temporalidade múltipla que, contudo, tem como foco irradiador o presente. O espaço apresenta-se na obra de Elísio também marcado pela pluralidade indiciada na referência explícita à viagem e a espaços geográficos diversos. Tanto Arménio Vieira quanto Filinto Elísio, pelo que apresentam de excessivo em seu fazer poético, remetem a características distintas das apresentadas pela poética de Fortes, principalmente no que se refere ao descentramento que as inscreve na episteme contemporânea de uma outra modernidade, cujas pluralidade e complexidade admitem variadas e, por vezes, controversas denominações como pós-modernidade, supermodernidade ou modernidade reflexiva.
2017
Raquel Aparecida Dal Cortivo
A contramão da realidade: ideologia e vida social em \'O ataque\' e em \'Frontal com fanta\'
O presente trabalho tem como objetivo analisar a trajetória dos protagonistas dos contos O ataque, de Luiz Ruffato; e Frontal com Fanta de Jorge Furtado. As personagens principais do conto, ao vivenciarem uma experiência com o insólito, veem-se obrigadas a lidar com os mais variados julgamentos por parte da sociedade, os quais não parecem, precisamente, contemplar a verdadeira realidade vivida por elas. Diante disso, à luz da crítica materialista e das teorias do fantástico, este trabalho procura investigar como o percurso desses protagonistas denuncia mecanismos ideológicos que não necessariamente determinam uma verdade coletiva, mas regulam e fazem prevalecer os valores sociais dominantes em cada um dos contextos abordados. Com base nessa análise literária, a pesquisa ainda avança sobre a hipótese da literatura fantástica não estar desvinculada do diálogo com a realidade e com as representações da vida em sociedade.
2017
Emily Cristina dos Ouros
A gravitação das formas: gêneros literários e vida social em Moçambique (1977-1987)
A crítica consagrou formas de observar a prática de gêneros literários no surgimento e desenvolvimento da literatura moçambicana: se, por um lado, tornou-se comum a percepção de que, durante o período colonial, esta literatura se consolida por meio de textos poéticos, por outro lado, tornou-se assente que, com a independência do país em 1975, a prosa passa a ser predominante, ao menos após a opção de expedientes romanescos no final da década de 1980. Esta tese se debruça a investigar porque a emancipação política e construção do Estado independente é um catalisador do fenômeno literário e em que medida a prática da poesia e a adoção de expedientes romanescos se relacionam com dinâmicas históricas e sociais que propiciam a emergência das articulações estéticas facultadas por essas opções genéricas. Tal dinâmica pode ser observada por meio da análise e interpretação histórica dos textos literários das coletâneas Poesia de combate (1977, 1979 e 1983) e da obra Ualalapi (1987), de Ungulani Ba Ka Khosa.
2019
Ubiratã Roberto Bueno de Souza
Especulações em Sérgio Sant\'Anna: relações dialógicas com a filosofia nietzscheana
Essa pesquisa tem por objetivo verificar na obra de Sérgio SantAnna uma possível ruptura com a tradição literária que chegou ao seu tempo, a década de 1970. Observamos que nesse período havia uma forte tendência a uma literatura de reportagem, aos relatos de costumes, apontando diversas formas de violência na sociedade e as crises familiares. Essa é a literatura que chegou com a herança do Realismo, que exercia essas práticas na ficção, e, agora, na literatura contemporânea, podemos encontrá-las nos textos de Dalton Trevisan e José Louzeiro, por exemplo. Mas Sérgio SantAnna demonstra enveredar por outros caminhos, os das especulações. Ao invés de produzir essa literatura mais interessada no reflexo do social, com ação narrativa, SantAnna parte para os palcos interiores, realizando uma literatura mais cerebral, que questiona ainda, sim, os valores instituídos no social, mas o faz explorando estilos de escrita, flutuando pelos gêneros de discursos tornando-os literários, expondo as engrenagens do narrar. Com esse panorama, podemos pensar à luz de Nietzsche, filósofo que rompeu com a tradição filosófica que chegou ao seu tempo, e pensava a arte como forma de transvalorar os padrões estabelecidos, os valores estipulados, e via na arte uma nova possibilidade de estilo de vida. Assim, aprofundamos com Deleuze e Foucault o conceito nietzscheano de Vontade de Potência enquanto Arte, para estabelecermos um diálogo entre a literatura e a filosofia. Onde encontramos Sérgio SantAnna: um escritor conceitual.
2011
André Luis de Paula Arneiro
A literatura infantil além do livro: as contribuições do jornal português O senhor e da revista brasileira O Tico-Tico
Há vários estudos sobre as relações entre Literatura e Imprensa, livros e periódicos, suas confluências e divergências, seus produtores e seus leitores. Quando o assunto é a literatura destinada ao público infantil, esses estudos tornam-se bastante reduzidos. Este trabalho tem como seu principal objetivo preencher essa lacuna, demonstrando a importante contribuição do jornal português O senhor doutor e da revista brasileira O Tico-Tico para a formação de leitores, assim como para a educação informal e a história da Literatura Infantil. . Verificamos, em uma perspectiva histórica e comparatista, como a literatura infantil foi construída além do suporte livro, levando em conta diferentes concepções de infância, tendências pedagógicas e a própria materialidade dos textos, além das diferentes práticas de leitura suscitadas. A partir desse pressuposto, levamos em conta a estrutura dos periódicos, a periodicidade dos gêneros, o contexto de produção e como a literatura infantil e seus leitores formaram-se além dos livros. É importante ressaltar que a forma como os textos literários para as crianças eram apresentados nos jornais, revistas e almanaques, no início do século XX, imprime-lhes uma legibilidade específica, própria da literatura infantil contemporânea. Essa especificidade confirma tais textos como fontes essenciais para a história dessa literatura, tanto no Brasil quanto em Portugal. Consideramos, portanto, que um estudo mais aprofundado sobre as produções literárias para crianças em periódicos torna-se necessário e justificável Acreditamos também que nossa pesquisa possa contribuir com uma visão mais ampla e consistente do processo de formação da literatura infantil em Língua Portuguesa, assim como sua contemporaneidade e perspectivas futuras.
2012
Ligia Regina Maximo Cavalari Menna
História em quadrinhos: gênese, estrutura e sociedade
A presente dissertação está inserida na área de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa em razão de dialogar com a produção artística de várias culturas e tem o objetivo de analisar a manifestação cultural, histórica e comunicativa, chamada de História em Quadrinhos (HQ), principalmente no que concerne a leitura da imagem e sua relação com diferentes sociedades. Para tanto, realizou-se um levantamento em diferentes linhas de pesquisa das diversas concepções a respeito da História em Quadrinhos, suas distintas nomenclaturas em cada país, bem como de seus limiares e estruturas heterogêneos. A HQ se utiliza tanto de ícones figurativos quanto linguísticos para transmissão de ideias, pensamentos e sentimentos, que pode ocorrer entre uma ou mais pessoas, e utilizar-se de uma ou mais imagens em vários suportes, temáticas e estéticas, na forma de texto para uma ampla gama de intencionalidades. Para um objeto de estudo tão atual e peculiar permitiu-se que ele próprio, o objeto, fosse apontando a metodologia para a pesquisa. A princípio, foi elaborado um perfil espaço-temporal para ressaltar que os fatores que consolidaram os elementos da HQ (como sua linguagem e temática, por exemplo) em dado contexto se deveu mais a fatores externos, mercadológicos ou censores, do que a limitações linguísticas, estéticas ou relativas a necessidade de suportes específicos. Acompanhando a história da História em Quadrinhos é possível perceber sua elasticidade, pois suas relações fundamentais foram construídas de formas tão diversas que poderiam parecer antagônicas. Isso nos levou à segunda parte, um estudo da estrutura da História em Quadrinhos em suas aplicações práticas. Com base em teóricos que estudaram as características da linguagem dos quadrinhos, empregamos suas concepções nas diversas manifestações encontradas, sem traçar fronteiras restritivas nas potencialidades do meio.
2018
Marcia de Souza Ravaglio
Identidade, memória e gênero nas obras literárias de Orlanda Amarílis e Clarice Lispector
Esta Dissertação insere-se na área de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa e tem por objetivo estabelecer uma analogia entre as narrativas de duas escritoras que viveram na diáspora. Para tanto, examinaremos Desencanto e Cais-do- Sodré, do livro Cais-do-Sodré te Salamansa1, e Thonon-les-Bains, do livro Ilhéu dos Pássaros2, ambos de Orlanda Amarílis, e A Hora da Estrela3, de Clarice Lispector. Partindo dessas obras literárias, pretendemos mostrar como a realidade da mulher migrante encontra pontos comuns mesmo em países tão distantes como Brasil e Cabo Verde, e, ainda, sempre sob a ótica de gênero, as múltiplas identidades que se estabelecem quando se está em situação de diáspora. Destacar-se-á de cada conto de Orlanda Amarílis apenas um núcleo temático (diáspora e identidade cultural, memória na diáspora e gênero, respectivamente), que será trabalhado comparativamente à narrativa de Clarice Lispector, A hora da estrela, evitando-se, dessa forma, que haja redundância ou repetições de temas.
A consciência da subalternidade: trajetória da personagem Rami em Niketche de Paulina Chiziane
O nosso projeto de Mestrado em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa, com ênfase na literatura moçambicana, surgiu de uma constatação do quotidiano de mulheres africanas em geral. Decidimos trabalhar, no caso da nossa dissertação, a questão da trajetória da personagem Rami no romance Niketche: uma história de poligamia, para encarar o feminismo fora das bandeiras ocidentais tal como o conhecemos e dar ao termo uma conotação africana, destacando de fato certa singularidade na(s) ideologia(s) feminista(s): a consciência da subalternidade. Esta singularidade naquela(s) ideologia(s) vem se afastando da política que radicaliza o debate e o orienta na direção da negação do homem. O nosso crescente interesse pela escrita feminina nasceu do fato de, em quase todos os romances africanos, de autoria feminina, lidos, termos descoberto uma certa convergência na abordagem relativa à questão do estatuto das mulheres dentro das sociedades africanas. Neste contexto, a autora Paulina Chiziane, de Moçambique, evidencia bem, com o seu romance Niketche, uma história de poligamia, esse questionamento ao estatuto das mulheres, construindo personagens que vão, no decorrer da narrativa, realçar o contexto ideológico do feminismo africano. Três críticos nos ajudarão, com suas reflexões, para a aproximação da trajetória da personagem com a ideologia feminista africana. São eles: Pierrette Herzberger-Fofana (2000) para a questão do feminismo africano, Antonio Candido (1963) e Roland Bourneuf (1976) para tratar das personagens.
Eça de Queirós e os brasileiros
Este trabalho analisa o delineamento da imagem do escritor português José Maria Eça de Queirós (1845-1900) no Brasil, tomando como base a crítica seminal queirosiana brasileira e verificando como se dá o diálogo entre ela e outras leituras críticas sobre o autor até o final do século passado. Para a realização deste estudo, dividiu-se a crítica queirosiana produzida no Brasil em três momentos: o primeiro, que remonta à primeira crítica de peso sobre Eça, escrita por Machado de Assis, em 1878 até 1942, último livro sobre o escritor que antecede as comemorações da primeira efeméride em 1945, conjunto de textos aqui definido como crítica seminal; o segundo, que apresenta as publicações baseadas no modelo dessa crítica seminal, realizando releituras dos textos fundadores entre as duas grandes efemérides, de 1945 e de 2000; e finalmente o terceiro, que apresenta as publicações não seguidoras da crítica seminal, inaugurando novas abordagens à respeito da vida e da obra de Eça, perfazendo o mesmo período entre 1945 e 2000. Resta, então, demonstrar como a crítica seminal permanece, ainda hoje, como fundamento da imagem vulgarizada do escritor no Brasil.
2010
Cristiane Navarrete Tolomei
Figurações da homossexualidade e da homoafetividade em King & King e Orações para Bobby
O presente trabalho estuda as figurações da homossexualidade e da homoafetividade no livro King & King, de Linda de Haan e Stern Nijland, e no filme Orações para Bobby, de Russel Mulcahy. Dialogamos com as duas e apontamos para as suas diferenças e complementaridades. Nossa análise está centrada nas relações de poder e afetividade presentes em seus processos discursivos. Nossa pesquisa fundamenta-se, primordialmente, em dois fecundos teóricos da modernidade, Michel Foucault e Judith Butler, e visa a compreender o exercício disciplinador na construção e manutenção das ordens regulatórias da homossexualidade e da homoafetividade.
2016
Itamar Onório dos Santos
A busca da adequação entre formas literárias e momento histórico: um estudo comparativo entre O Guarani de José de Alencar e O Escravo de José Evaristo de Almeida
A dissertação de mestrado intitulada A busca da adequação entre formas literárias e momento histórico: um estudo comparativo entre O guarani de José de Alencar e O escravo de José Evaristo de Almeida tem o objetivo de fazer um estudo comparativo dos romances em questão, apontando os elementos do gênero épico presentes em O guarani, e os elementos do gênero trágico presentes em O escravo. Para tanto, reportaremos o leitor ao momento histórico pelo qual passava o Brasil e Cabo Verde, porque a representação da realidade política e social desses países demandava um diálogo com esses gêneros clássicos, os quais, sem dúvida, deram uma maior legitimidade e verossimilhança aos romances.
2008
Fabrizia de Souza Carrijo
A leitura escolar revisada: de um projeto de leitura a leituras em projeto
O estudo comparado da linguagem estruturada no e pelo diálogo intercódigos, que caracteriza os cinco livros da literatura infantil brasileira e portuguesa analisados na pesquisa, pretende examinar como e por que esse suporte de leitura pode produzir no leitor tanto associações perceptivas mecânicas, pragmáticas, como também associações perceptivas termodinâmicas, mais estéticas. A análise das associações perceptivas resultantes de estratégias de leitura, propostas em uma prática de leitura escolar revisada o projeto Viagem Nestlé pela Literatura pretende também examinar como o exercício do olhar crítico sobre a linguagem intercódigos do livro de literatura infantil pode auxiliar o professor no seu papel de mediador de leituras e de leitores.
2007
Vera Lucia de Carvalho Marchezi
Alicerce e revestimento: tradição e modernidade em A emparedada da Rua Nova, de Carneiro Vilela
A presente dissertação propõe uma análise do romance A emparedada da Rua Nova, de Carneiro Vilela, com o objetivo de investigar de que forma os conceitos de modernidade e tradição se articulam com aspectos sociais da obra e do contexto em que ela foi escrita. A pesquisa investiga de que maneira a estrutura formal do romance-folhetim de Vilela uma narrativa de cunho policial está relacionada com a dinâmica das questões de classes, raças e gênero que compunham a sociedade recifense na segunda metade do século XIX. Verificou-se, por fim, a hipótese de que o princípio estrutural da obra formalizaria o deslocamento entre ideias liberais e prática brasileira, revelando uma relação de aparência e essência no seio de uma sociedade cuja modernização não passaria de um revestimento sobre os fortes alicerces de uma formação escravocrata e patriarcalista.
Nações em trânsito em A árvore das palavras e A candidata: Moçambique - Cabo Verde
Esta dissertação analisa a categoria espaço nos romances A árvore das palavras (1997), de Teolinda Gersão, e A candidata (2003), de Vera Duarte, com o objetivo de demonstrar como Cabo Verde e Moçambique, países pertencentes ao macrossistema de língua portuguesa, foram mapeados pelas narrativas, que acompanham a formação identitária das protagonistas e de suas respectivas nações. Diante disso, centramos as análises nas personagens femininas protagonistas das narrativas, Gita e Marina, por considerá-las sujeitos históricos imbricados no jogo de relações sociais e culturais, cuja interação se revela nas identidades constitutivas dessas nações. A investigação desenvolveu-se a partir da apresentação de dados biográficos, produção literária e algumas estratégias discursivas das autoras analisadas, para posteriormente pautar-se em categorias glissantianas como rizoma, acumulação, paisagem e poética da relação. Discutimos, também, a intersecção entre espaço e memória, com apoio de Halbwachs. Ressaltamos que, quando abordamos o percurso da protagonista Marina, optamos por fazêlo nos espaços que compõem o mundo caboverdiano: o arquipélago e a diáspora. Buscamos demonstrar, em nossa pesquisa, com a escritura de Teolinda Gersão e Vera Duarte, a partir de pontos de convergência e dissonância, contribuir para a apreensão dos espaços moçambicano e caboverdiano, em interface com o espaço cultural e político português, que opera ora como pólo de confronto (colonizador), ora como pólo de mediação (diáspora).
2010
Aparecida de Fátima Bosco Benevenuto
Leitura e escrita em espaços de guerra: resgatando identidades em Terra Sonâmbula, de Mia Couto
O presente trabalho tem por objetivo descrever como os processos de escrita e leitura são capazes de suscitar transformações nas identidades e subjetividades das personagens de Terra sonâmbula, romance de Mia Couto. Ainda, buscar-se-á demonstrar como a leitura pode tornar-se fundamental na promoção de significativas mudanças na vida de leitores que habitam espaços dilacerados pela guerra, como ocorre, por exemplo, com Muidinga, uma das personagens da obra que será analisada.
2017
Maria Paula de Jesus Correa