Repositório RCAAP

Utopias no universo distópico: a escrita de autoria feminina em Moçambique

No campo dos estudos africanos de língua portuguesa, a crítica literária tem relacionado o conceito da utopia às obras artísticas que discutem os processos históricos de Independências, bem como às formações dos Estados nacionais, no século XX. A distopia, por outro lado, concatena-se aos textos que destoam dessas primeiras perspectivas, como crítica aos agenciamentos independentes, a exemplo das Guerras Civis que se sucederam. Contraditoriamente, os estudos sobre a utopia pouco tem relação com esses pontos de vista, baseando-se apenas na historiografia ocidental (HALL, 1992-1993) como possibilidade conceitual (CLAYES, 2001), a partir de modelos narrativos fixos, nas paradimáticas obras de Thomas More, Utopia (1516) e George Orwell, 1984 (1949). Nesse sentido, propondo um rompimento com o \"conceito de influência\" (LUGARINHO, 2016), a partir do descentramento das relações hierárquicas relacionadas aos cânones, o presente estudo teve como objetivo questionar a fixidez conceitual dessas terminologias, provocando uma reflexão: não seria possível discuti-las através de produções discursivas que não espelhem as realidades dos \"Impérios\" (HARDHT & NEGRI, 2000)? Para refletir sobre essa e outras questões, a escolha do corpus se deu a partir de textos de autoria feminina em Moçambique, como possibilidade de diálogo entre as teorias pós-coloniais e de gênero, justamente observando como essas duas terminologias se desvencilham de modelos fíxos. Logo, o presente estudo propôs, além de uma visão panorâmica da autoria feminina em Moçambique, ao longo do século XX, a análise comparada de dois romances contempoâneos, Ventos do Apocalipse (1999), de Paulina Chiziane e Neighbours (2012), de Lília Momplé, que particularizam a experiência da Guerra Civil (1977-1992) no país, constatando que, paradoxalmente, as obras ambientam uma perspectiva distópica, mas com algumas pulsões utópicas, e essas marcas são encontradas, principalmente, nas trajetórias das personagens femininas.

Ano

2020

Creators

Larissa da Silva Lisbôa Souza

SOBRE LOBOS, MENINAS E FLORESTAS: Literatura infantil/Juvenil e Valores Sociais

Esta pesquisa tem como objetivo primeiro investigar as transformações nos textos literários para crianças e jovens, oriundos de mudanças nas relações sociais, e verificar em que medida a literatura infantil e mesmo a juvenil tem exteriorizado no seu universo textual novas maneiras de percepção sobre as narrativas primordiais ou clássicas, consolidadas como tal a partir do século XVII. Na contemporaneidade, sobretudo a partir da segunda metade do século XX no Brasil da releitura do novo texto infantil, observou-se que tais narrativas e seus valores outrora marcados pela presença de uma pedagogia altamente moralizante e excludente, agora reorganizam as estratégias de captação para retomar não só os clássicos ou histórias que caíram no gosto da criança e do jovem, no passado, mas ainda para atualizar narrativas capazes de fazer parecer serem outras, dado o novo arranjo da vestimenta destas novas histórias que intencionam, de modo significativo, evidenciar uma literatura com mais recursos de visualidade e plasticidade, bem como um modo de ser e de estar dessa nova criança e também do jovem num mundo de valores diversos, cujos reflexos corroboram um universo literário de atualizadas prescrições. Assim, tomou-se como corpora as obras Chapeuzinho Amarelo (2006), de Chico Buarque, ilustração de Ziraldo, Chapeuzinho Vermelho (1996), de Charles Perrault, Chapeuzinho Vermelho, dos Grimm (2009), Sapato de salto (2011), de Lygia Bojunga, Antecedentes de uma famosa história (2010), de Carolina Alonso, ilustração de Mariana Massarani, conto publicado em Não era uma vez: contos clássicos recontados coletânea de autores latino-americanos, A outra história de Chapeuzinho Vermelho (2016), de Jean-Claude R. Alphen, ilustrada pelo próprio autor e as intersecções forjadas no texto Preciosidade (1991), de Clarice Lispector, conto publicado em Laços de família. Para tal investigação, foram utilizados como fundamentação teórica elementos dos Estudos Comparados de Literatura, bem como de outras ciências da linguagem afins, além de estudos sobre a gênese e a História da Literatura Infantil e, posteriormente, a Juvenil. Com base em estudos já desenvolvidos sobre essa modalidade de textos, busca-se adentrar mais um pouco nessa floresta ainda vasta de textos que refletem valores humanos e sociais.

Ano

2019

Creators

Ecila Lira de Lima Mabelini

A mulher e o discurso masculino nos romances de Eça de Queirós

Pretende-se fazer uma análise comparativa dos principais romances de Eça de Queirós (O crime do padre Amaro, O Primo Basílio, Os Maias, A ilustre casa de Ramires e A cidade e as serras), tentando observar como a representação do feminino acontece e como ela é guiada pelo olhar masculino idealizado e socialmente conformado, tanto dos narradores quanto das personagens masculinas. Deseja-se mostrar como esta visão sobre as mulheres se modifica em cada um dos romances representados realisticamente pelo escritor português, resultando em diferentes opiniões, idealizações e conceitos sobre elas. Dessa maneira, desejamos mostrar que Eça, de alguma forma, denuncia a opressão sofrida pelas mulheres no século XIX.

Ano

2019

Creators

Daiane Cristina Pereira

Entre dor e liberdade: um olhar sobre o tema da loucura nos romances de Paulina Chiziane

Na presente tese de doutorado, procuramos construir uma investigação sobre a experiência da loucura a partir das personagens Minosse, Emelina e Maria das Dores presentes em dois romances da moçambicana Paulina Chiziane: Ventos do apocalipse e O alegre canto da perdiz. Além disso, procuramos analisar como a autora, a partir dessas personagens, constrói a experiência do desvario, desvelando também um movimento dialético em que a própria autora, ali revelada, ilumina questões relacionadas às opressões de gênero, raça e classe. Tais questões, parece-nos, lançam as personagens femininas às margens de suas estruturas sociais em que a loucura se manifesta como uma potencial forma de existir e resistir às diversas formas de opressão social. Nesse sentido, os estudos de João Frayze, Michel Foucault e Frantz Fanon foram fundamentais para o desenvolvimento desta análise, bem como os estudos feministas que se organizam a partir das reflexões acerca do tema da interseccionalidade, como são os casos de Bakareé-Yousuf, Patricia McFadden, Amina Mama, bell hooks e Angela Davis. Ao inserir o tema da loucura por meio das personagens femininas de Ventos do apocalipse e O alegre canto da perdiz, notamos que a autora, em sua sistemática escrita engajada, procura trazer para o primeiro plano de sua escrita, experiências de resistência manifestas também pelas minorias historicamente silenciadas.

Ano

2019

Creators

Regina Margaret Pereira

De armas e de palavras: um estudo comparado da temática da guerra em Terra Sonâmbula, de Mia Couto, e Ventos do Apocalipse, de Paulina Chiziane

Esta tese de doutoramento tem por finalidade o estudo comparado das obras de dois escritores do macrossistema de literaturas de língua portuguesa, os moçambicanos, Mia Couto e Paulina Chiziane. Trabalhamos a temática da guerra sob a perspectiva do fantástico clássico (Todorov, 2008) e do fantástico contemporâneo (Sartre, 2006; Bessière, 1974) em dois romances, Terra sonâmbula (Couto,1992) e Ventos do apocalipse (Chiziane, 1999), tomando os mesmos como espaços dialógicos e em transformação, marcados pela História. ( Bakhtin, 1988; Lukács, 2006). O nosso enfoque comparatista buscou atar as questões do alheio ao próprio de forma a propiciar um melhor entendimento da literatura moçambicana e seu contexto, assim como, através dessa possibilidade de maior compreensão, facilitar sua divulgação.

Ano

2011

Creators

Lisângela Daniele Peruzzo

O rap ecoa na literatura infantil  

Em nossa pesquisa intitulada O Rap Ecoa na Literatura Infantil, buscamos investigar diálogos que a literatura infantil e juvenil estabelece com outras formas de comunicação e outras artes, movimento que vem ocorrendo com intensidade e que concorre para modificações nesse universo literário, bem como, na imagem de seu interlocutor. Elaboramos um breve estudo por alguns caminhos percorridos historicamente pelos textos infantis, passamos por uma contextualização sobre a música, e os elementos que compõem a Cultura Hip-Hop e um de seus pilares o rap, posto que, selecionamos para objeto de estudo a obra Um Garoto Chamado Rorbeto, do rapper Gabriel Contino O Pensador. Buscamos evidenciar códigos literários e manifestações da cultura hip-hop compartilhados, as negociações entre os discursos sociais, o de denúncia característico do rap e o do poder instituído fortemente representado na obra; a partir disso, buscamos tangenciar possíveis imagens de criança e de infância que se fazem presentes em nossa contemporaneidade.

Ano

2011

Creators

Edna Alencar da Silva

O intelectual de Edward Said em Memórias do cárcere de Graciliano Ramos

Este trabalho tem por finalidade apresentar os resultados da simetria entre o intelectual exposto por Edward Said na obra Memórias do Cárcere de Graciliano Ramos. O papel do intelectual na sociedade sempre foi alvo de questionamentos e Edward Said apresentou um modelo moderno e engajado dessa classe, que tem como missão principal representar os mais oprimidos. A importância deste trabalho se dá pela tentativa de encontrar e descrever a correspondência que existe entre as ideias de Edward Said e a conduta de Graciliano Ramos no período em que esteve preso e após a prisão também. O objetivo é traçar e entender quem é a figura que Said marca como intelectual engajado e moderno capaz de compreender os problemas sociais e, por meio de suas ideias, tentar amenizá-los, destacando as reais dificuldades que atingem as sociedades carentes. Além disso, por meio do entendimento do indivíduo exposto como intelectual por Said, apresentar os comportamentos de Graciliano Ramos em Memórias do Cárcere que os liga a esse intelectual. A hipótese é que, mesmo em situações diferentes, Edward Said e Graciliano Ramos apresentam pontos em comum e, a partir de suas ideias, conseguem dar voz aos que lhe cercam de alguma forma, mantendo seus princípios e não se deixando influenciar por fatores que não correspondem a seus ideais.

Ano

2015

Creators

Amanda Nascimento Fernandes

De missangas e catanas: a contrução social do sujeito feminino em poemas angolanos, cabo-verdianos, moçambicanos e são-tomenses

As angolanas Alda Lara e Paula Tavares, a cabo-verdiana Vera Duarte, a moçambicana Noémia de Sousa e as são-tomenses Alda Espírito Santo e Conceição Lima são as escritoras que melhor representam a poesia de autoria feminina em seus respectivos países e, embora pertençam a contextos socioeconômicos e culturais bastante diferentes, suas obras se aproximam tanto pela abordagem temática, quanto pela existência de um projeto de construção social do sujeito feminino. Assim, embasamo-nos, teoricamente, nos estudos em especial os de Michel de Certeau (2005) e Maria Odila da Silva Leite Dias (1992; 1994; 1998) em torno da hermenêutica do cotidiano feminino, a fim de demonstrar a importância dos papéis informais, das experiências vividas e da resistência das mulheres no processo de formação de suas subjetividades. Recorremos, ainda, a relatórios baseados em recenseamentos e a diversos documentos elaborados por organismos internacionais, a exemplo da ONU e da UNESCO, para estabelecer os pontos de contato entre a situação das mulheres e os contextos históricos-sociais em que estão elas inscritas, ou seja, Angola, Cabo Verde, Moçambique e São Tomé e Príncipe. Finalmente, aliando os aspectos teóricos e os contextuais, analisamos poemas contidos nas obras iniciais de cada uma das já referidas autoras respectivamente, Poemas (1966), Ritos de passagem (1985), Amanhã amadrugada (1993), Sangue negro (2001), É nosso o solo sagrado da terra (1978) e O útero da casa (2004) e procuramos demonstrar que as mulheres, muitas vezes portadoras de uma voz quase silenciosa e marcada pelas miudezas do cotidiano, inscrevem suas marcas na sociedade e têm o poder de (trans)formá-la e de transformar-se, decorrendo daí o título de nossa tese, De missangas e catanas, alusivo à simbologia da resistência empreendida por elas em favor do afloramento de suas subjetividades e do registro de suas historicidades.

Ano

2010

Creators

Érica Antunes Pereira

Do corpo ao texto: a mulher inscrita/escrita na poesia de Hilda HiIst e Ana Paula Tavares

Tendo como objeto de estudo obras poéticas de Hilda Hilst, brasileira; e Ana Paula Tavares, angolana, esta pesquisa visa a discutir caracteres da construção identitária culturalmente atribuídos à condição feminina, a partir das manifestações eróticas representadas poeticamente na obra dessas autoras. Embora sejam escritoras não diretamente vinculadas a um programa literário feminista, ao representarem poeticamente o erotismo, contribuem para promover a emancipação da mulher. Associam-se, assim, construção erótica e construção da cidadania, analisadas neste projeto de um ângulo simultaneamente literário e sócio-existencial.

Ano

2009

Creators

Mailza Rodrigues Toledo e Souza

A percepção do lugar

Na presente dissertação averigua-se a percepção do lugar em Trajectórias e Clima de Orlando Mendes bem como nos poemas em O Diabo, Mundo literário e Seara nova. Se na enunciação poética se conformam redes de relações, então estamos perante uma poética da relação. Através dos temas, confrontamos sua poesia com O amanuense Belmiro Cyro dos Anjos; Mensagem Fernando Pessoa e Sangue Negro Noémia de Sousa.

Ano

2009

Creators

Elídio Miguel Fernando Nhamona

Ramalho Ortigão e o Brasil

O propósito da presente tese é estudar os vínculos mantidos por Ramalho Ortigão, importante escritor da geração de 70, com o Brasil, notadamente com a imprensa dopaís. As suas conhecidas Cartas Portuguesas, publicadas pela Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro, de 12 de julho de 1877 a 17 de outubro de 1915, num total de mais de 500 colaborações, assim como a temporada de três meses que passou no Brasil, no segundo semestre de 1887, demonstram muito bem o quanto foram estreitos e produtivos estes vínculos. A primeira parte do trabalho, de natureza histórico-analítica, compreende a apresentação e discussão de dados relativos às atividades jornalísticas do escritor, especialmente durante os anos de sua colaboração como correspondente em Lisboa da Gazeta de Noticias. A segunda parte da tese apresenta toda a pesquisa realizada neste jornal, em cujas páginas se fez o levantamento total das matérias firmadas por Ramalho, além de uma amostragem de cartas, não encontradas em livros deste escritor. Ao mapear pioneiramente toda a participação de Ramalho Ortigão na Gazeta de Notícias, a presente tese demonstra e atesta o importante papel por ele desempenhado na imprensa brasileira, sobretudo no último quartel do século XIX.

Ano

2009

Creators

João Carlos Zan

Literatura infantil e cultura hipermidiática: relações sócio-históricas entre suportes textuais, leitura e literatura

Utilizando como quadro teórico-metodológico os Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa, a presente pesquisa estuda a relação entre literatura e sociedade no que concerne à influência das novas mídias (hipermídia) na literatura infantil/juvenil no Brasil. A relação entre práticas textuais, suportes para os textos e práticas de leitura é evidente ao longo da história. Com o advento da computação e da internet, surgem novos suportes com características que têm modificado as práticas textuais e de leitura. Três traços definem a linguagem hipermidiática contemporânea: diálogo intercódigos, hipertextualidade e interatividade. O corpus literário utilizado apresenta uma série de obras com características dessa linguagem, em especial: A interminável Chapeuzinho (Angela Lago), o ciberpoema Chá (Sérgio Capparelli), Princesas esquecidas ou desconhecidas... (Philippe Lechermeier) e Todos contra D@nte (Luís Dill).

Ano

2009

Creators

Jose Augusto de Abreu Nascimento

Vidas secas, do livro ao filme: estudo sobre o processo de adaptação

A dissertação Vidas secas, do livro ao filme se propõe a fazer um estudo da estrutura e da questão narrativa das obras Vidas secas, livro de Graciliano Ramos e do filme homônimo de Nelson Pereira dos Santos, levando-se em consideração as diferenças entre os dois meios, os fenômenos decorrentes da adaptação, as circunstâncias de produção e a distância temporal entre as duas obras. A adaptação é mais uma questão de diálogo e admiração do que de diferenças fundamentais entre os autores. Mais do que ser apenas a adaptação de uma obra-prima da literatura nacional, a leitura cinematográfica que Nelson Pereira dos Santos fez de Vidas secas de Graciliano Ramos quis também ser uma intervenção na conjuntura política contemporânea, nesse caso como parte do debate então vigente sobre a reforma agrária e a estrutura social brasileira na década de 1960. O que pretendemos com esta dissertação é, valendo-se de diversos embasamentos teóricos ligados aos Estudos Comparados e à Literatura Comparada, chegar a uma leitura analítica focada na compreensão da construção das duas formas narrativas de Vidas secas: romance (livro / narrativa original / linguagem literária) e filme (produto final de uma releitura audiovisual / linguagem cinematográfica

Ano

2011

Creators

Julio Cesar Borges Bomfim

Vanguardas poéticas em permanência: a revalidação de Wlademir Dias Pino e Silva Freire

Esta tese apresenta um estudo comparado de poetas brasileiros de vanguarda que trabalharam, em algum momento, com a visualidade na segunda metade do século XX. São enfocados poetas do Intensivismo, realizado em Mato Grosso; Concretismo, a partir de obras fulcrais de Wlademir Dias-Pino, Augusto de Campos, Décio Pignatari, Silva Freire e Haroldo de Campos; Poema-Processo até chegar aos poemas visuais. Considera-se, neste estudo, que a historiografia literária e a crítica literária não deram o enfoque devido a todos esses autores, em face disso questiona-se o cânone centralizado. O estudo dessas vanguardas poéticas costuma ser apresentado de forma fragmentada dentro da Academia. Por isso, conjugando a poética diacrônica com a sincrônica, procurou-se discutir o posicionamento crítico a partir de suas obras e fazer uma abordagem analítica de períodos expressivos desses autores. Os diálogos poéticos se intercalam com os críticos, estes últimos, muitas vezes originam-se dos próprios poetas que realizam o exercício da metacrítica. Trata-se de um estudo, que compara, pela primeira vez, o núcleo do grupo concretista Noigandres com poetas que produziram em Mato Grosso. No bojo deste trabalho, destacam-se a revalidação de Wlademir Dias-Pino e Silva Freire como vanguardas poéticas em permanência.

Ano

2011

Creators

Isaac Newton Almeida Ramos

Cinema e os países africanos de língua oficial portuguesa

Nas últimas décadas, os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) passaram por transformações políticas bastante intensas, das quais o cinema foi um importante participante. A partir de um extenso corpus de filmes, é apresentado um mosaico de histórias que traduzem elementos significativos destas determinadas nações africanas. No período colonial, o cinema significava um forte instrumento de propaganda do regime português; durante a luta pela independência, o cinema foi usado como uma arma que somava esforços aos movimentos nacionalistas; nos anos iniciais das novas nações independentes, as produções cinematográficas fortaleceram os interesses dos novos estados; e, enfim, depois da década de 1990, com a abertura política e o multipartidarismo, começaram a se desenvolver diversos e variados tipos de cinema relacionados com estes cinco países (Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe), alguns mais críticos, outros mais voltados ao entretenimento. Este trabalho é uma visita guiada por esta filmografia, com o objetivo principal de ampliar nosso contato com os cinemas dos PALOP. Os filmes são pouco conhecidos pelo público brasileiro, então o trabalho adquire importância ao proporcionar o acesso aos filmes pelos pesquisadores interessados, das mais diversas áreas. Os filmes são apresentados conforme uma ordem que respeita elementos comparativos e realça aspectos que sinalizam possíveis critérios de estudo destes cinemas.

Ano

2017

Creators

Marina Oliveira Felix de Mello Chaves

A infância revisitada: um estudo sobre o protagonismo infantil na literatura brasileira ao raiar do século XX

O objetivo da presente pesquisa foi estudar as representações da infância na literatura brasileira em uma época marcada por importantes transformações políticas, sociais e econômicas, não somente no Brasil, mas em todo o mundo a primeira metade do século XX. Desse período, compreendido mais especificamente entre 1920 e 1945, elencamos para o estudo quatro textos que apresentam perfis de diferentes protagonistas infantis: o conto Negrinha, de Monteiro Lobato, integrante da coletânea homônima publicada em 1920, e os romances Menino de engenho, de José Lins do Rego (1932), Capitães da Areia, de Jorge Amado (1937) e Infância, de Graciliano Ramos (1945). Enquanto o conto lobatiano precede a eclosão do Modernismo, os três romances analisados fazem parte do chamado movimento regionalista nordestino, que se estabeleceu especialmente durante a década de 1930 e apresentou como principais novidades a liberdade temática e o vigor estilístico na prosa literária. O intervalo de tempo escolhido, localizado entre o prenúncio e o fim do movimento modernista, revelou outra interessante coincidência: ao mesmo tempo que de um lado diferentes autores dedicavam-se a escrever sobre a infância brasileira, de outro se constituía por meio das obras infantis do próprio Monteiro Lobato uma literatura infantil genuinamente brasileira. Tomando os estudos sociológicos de Gilberto Freyre acerca das relações sociais e da constituição da família brasileira nos séculos anteriores ao período estudado, tivemos também como interesse durante a pesquisa buscar nos textos de ficção traços da infância descrita pelo sociólogo e vestígios de uma sociedade patriarcal e escravocrata. E, por fim, a partir de um breve estudo biográfico de cada um dos autores estudados, procuramos estabelecer ainda algumas relações entre infância, juventude, memória e criação. Como resultado de nossa análise, constatamos que, apesar das diferenças entre estilos e contextos que permeiam as quatro narrativas, alguns temas são recorrentes em todas elas, promovendo diálogos possíveis. Vestígios da escravidão, castigos corporais a que as crianças são submetidas, contraposição entre liberdade e sujeição e a despedida da infância são alguns deles. Considerando-se também o cenário sociocultural em que as obras foram concebidas e as histórias de vida de seus autores, é possível concluir que, mais que retratos esparsos de crianças construídas de papel e tinta, os textos, em seu conjunto, trazem-nos importantes reflexões sobre a infância no Brasil nesse período situado na primeira metade do século XX.

Ano

2017

Creators

Laís de Almeida Cardoso

Tradição reinventada: narrativas ilustradas em Contos da Nova Cartilha, de Liev Tolstói

A dissertação tem por objeto de pesquisa as edições de 2005 e de 2013 de Contos da Nova Cartilha, de Liev Tolstói (1828-1920); contêm as narrativas infantis criadas no século XIX pelo autor russo e traduzidas recentemente para o português. A edição de 2013 traz em seu projeto gráfico ilustrações produzidas por crianças russas da Escola de Artes nº 9, de Ijevsk, entre os anos 2011 e 2012, com base nos textos de Tolstói. Por meio de uma abordagem de linha comparativista, foram analisadas as fábulas, os contos maravilhosos e demais gêneros da tradição oral classificados como formas simples (Jolles), selecionados e recontados por Tolstói, como também foram examinados recursos de linguagem, como o efeito de estranhamento (Chklovski), que concorrem na constituição do valor estético das escrituras. Assim, o cotejo entre a matéria verbal e não verbal (ilustrações) suscitou considerações que sinalizam, em relação à recepção da fatura escrita ora a manifestação de redundância, ora de contradição (Barthes, Santaella & Nöth), evidenciando certas particularidades do uso dos meios expressivos na recriação de um sistema de signos em outro.

Ano

2019

Creators

Lívia Galeote

Histórias de guerra: uma leitura de crônicas de António Lobo Antunes e Mia Couto

A proposta desta dissertação é analisar comparativamente a maneira como António Lobo Antunes e Mia Couto retratam a guerra em suas crônicas. Para isso, foram selecionadas narrativas publicadas nos livros: Livro de Crônicas, Segundo Livro de Crônicas e Terceiro Livro de Crônicas, do escritor português, e Cronicando, do escritor moçambicano. Ao abordarem episódios relacionados à guerra propõem também uma releitura do processo histórico de seus países e incitam seus leitores à criticidade em relação aos fatos retratados. A partir da articulação entre História e Ficção, os autores explicitam os mecanismos de sustentação da guerra e particularizam os efeitos do conflito nas relações humanas, dando-lhes perspectivas divergentes, notadamente, utópica e melancólica.

Ano

2009

Creators

Flávia Cristina Bandeca Biazetto

A poética de Gilberto Mendes: texto e música

No ponto de intersecção entre música e literatura na construção da unidade de uma obra musical que faz uso de texto canção, música coral etc. reside um artesanato cuja abordagem do processo criativo é tão antigo quanto a própria expressão verbal da qual podese hipoteticamente afirmar como originária da música quanto arte: observa-se a forte presença da voz na música antiga (ars antiqua, ars nova). Tal aproximação racional com os formantes sígnicos do texto semantizado pela música levou a um senso comum entre os compositores na teoria (ou doutrina) dos afetos em voga desde o período barroco e nos posteriores. A música de Gilberto Mendes em seu itinerário pode nos mostrar como as ferramentas da composição musical podem ir além das configurações elementares da música (melodia, harmonia, ritmo, timbre, dinâmica) como forma de semantizar o texto. Compositor em estreito relacionamento com a literatura, cinema, com a arte de um modo geral, Gilberto Mendes nos oferece uma ampla gama de exemplos que extrapola a uma criação restrita e se abre a uma pluralidade cultural, servindo assim, como reflexo criativo da arte do século XX XXI. Através da análise do texto literário e da análise musical, tanto no seu âmbito formal quanto estética, foi possível detectar os elementos que conjugam a unidade da obra.

Ano

2012

Creators

Eduardo Aparecido de Oliveira

Fabiano e Macabéa: a reinvenção dos sertanejos nordestinos em Vidas Secas e A hora da estrela 

A literatura, como produto artístico que é, pode tanto representar modelos sociais como questionar esses modelos a fim de inquirir sobre determinadas engrenagens, tanto do mundo concreto como no âmbito de suas representações ficcionais. O personagem sertanejo nordestino foi retratado em uma vasta produção literária como um sujeito esvaziado de subjetividade, entregue ao fanatismo religioso e à violência. Embora essa descrição seja observada na literatura, sobretudo do século XIX, ela foi inspirada em muitas crônicas e relatos de viajantes europeus, que escreveram suas primeiras impressões sobre as diferentes regiões do Brasil. Assim, a visão estereotipada a respeito do personagem sertanejo na literatura é fruto desse olhar encontrado nos primeiros relatos que marcaram a diferença entre as regiões do país. Desejamos apontar na literatura nacional duas obras que rompem com essa representação pejorativa do personagem sertanejo nordestino, são elas Vidas secas, de Graciliano Ramos, e A hora da estrela, de Clarice Lispector. Para a análise dessa perspectiva, são basilares para este estudo as contribuições de Benedict Anderson, na obra Comunidades imaginadas, em consonância com o livro A invenção do Nordeste e outras artes, do historiador Durval Muniz de Albuquerque Júnior, assim como as reflexões de Theodor Adorno a respeito do narrador no romance contemporâneo. Acreditamos que o corpus selecionado apresenta personagens que implodem a cristalização de uma representação do sertanejo nordestino observada em obras que tentaram dizer do sertão e dos sertanejos e para isso repetiram um olhar hierarquizado, no qual a representação do sertanejo nordestino era esvaziada de subjetividade e colocada como menor. Acreditamos que, ao se aprofundarem na subjetividade dos personagens de Vidas secas e A hora da estrela, os escritores Graciliano Ramos e Clarice Lispector rompem com essa representação. Essa ruptura é percebida sobretudo no trabalho de composição dos personagens da trama, que são traçados com extrema complexidade subjetiva, como observado ao longo deste estudo.

Ano

2020

Creators

Adilma Secundo Alencar