Repositório RCAAP

O tempo: fator de identidade nas obras de Florbela Espanca e de Cecília Meireles

Neste trabalho, cotejamos diferentes concepções contextuais relativas à visão de mundo, à busca de identidade, à efemeridade e à transitoriedade do ser humano, articuladas na linguagem poética de Florbela Espanca e Cecília Meireles, muitas vezes em tempos da memória e do sonho. Selecionou-se, da obra de Florbela Espanca, os sonetos retirados dos seus três primeiros livros, escolhidos pela própria autora, sendo os dois primeiros publicados em vida: Livro de Mágoas (1919); Livro de Sóror Saudade (1923) e Charneca em Flor (1931), póstumo. Os textos de Cecília Meireles foram retirados de suas obras poéticas, reunidas, principalmente, em Cecília Meireles - Poesia Completa, obra organizada por Antonio Carlos Cecchin. Esta pesquisa ressalta um rico manancial teóricocrítico na tentativa de resposta aos questionamentos sobre uma possível compreensão dos universos complexos do transitório e do efêmero marcados no tempo, como provável recurso comparativo entre as obras de Florbela Espanca e Cecília Meireles, pois, no paralelo traçado, constata-se a existência de uma ponte entre as imagens construídas e organizadas em torno do fluir do tempo, da solidão do homem, do caos existencial, e do universo de sonhos. O intuito desta tese é, portanto, desenvolver um estudo sobre o tempo, a transitoriedade e a efemeridade nos poemas de Florbela Espanca e Cecília Meireles que apontam para um novo ponto de apoio que a modernidade, face a um descentramento generalizado, empenha-se em descobrir.

Ano

2008

Creators

Elizete Dall' Comune Hunhoff

A literatura infantil e o autoritarismo no século XX: um estudo comparativo entre Ruth Rocha e José Cardoso Pires

Este trabalho realiza um diálogo entre as obras dos autores Ruth Rocha, escritora brasileira, e José Cardoso Pires, escritor português. De Ruth Rocha utilizamos: O reizinho mandão, O sapo-vira-rei-vira-sapo, O rei que não sabia de nada, O que os olhos não vêem; e de Cardoso Pires: Dinossauro excelentíssimo. Ao trabalhar com esses livros, pretendemos mostrar a relação da ficção com a realidade dos países envolvidos. Partimos da hipótese de que essas obras, escritas durante o período militar brasileiro e o Salazarismo, colaboraram para o reconhecimento da importância de um regime político democrático para trazer a liberdade às nações brasileira e portuguesa. Nosso objetivo é também demonstrar como os autores denunciaram as situações históricas dos dois países, por meio da paródia, da alegoria e da carnavalização. As obras analisadas são destinadas tanto aos leitores mirins como aos adultos. Nossa pesquisa ampara-se em obras de Literatura Comparada, Literatura Infantil e Juvenil, História Política e Social do Brasil e de Portugal.

Ano

2012

Creators

Juliana Camargo Mariano

A experiência do tempo em dois romances africanos: Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra e Mãe, materno mar

Nossa pesquisa teve como objeto de estudo os romances Mãe, materno mar (2001), do angolano Boaventura Cardoso (1944-), e Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra (2003), do moçambicano Mia Couto (António Emílio Leite Couto [1955-]). O estudo centrou-se na análise comparativa dos dois romances, procurando desvendar, através da forma, as estratégias empregadas na construção temporal de suas narrativas, e a capacidade de as mesmas refletirem e iluminarem o conflito modernidade versus tradição na experiência social onde as obras se produziram. E, conseqüentemente, apontar o quanto tais estratégias revelam das peculiaridades do gênero romanesco em sua versão africana. Para embasar a hipótese do tempo como elemento-chave em nosso estudo, elegemos alguns recursos teóricos e interpretativos de Norbert Elias, Paul Ricoeur e Leda Martins, além das contribuições gerais da crítica literária africana e africanista.

Ano

2008

Creators

Sueli da Silva Saraiva

Navegar é preciso: o leitor contemporâneo e os desafios da leitura hipertextual em Abrindo caminho e A maior flor do mundo

Esta dissertação, sob os princípios renovados da Literatura Comparada, estuda Abrindo caminho, de Ana Maria Machado, e A maior flor do mundo, de José Saramago, visando discorrer sobre os desafios do leitor contemporâneo que navega pelas vias da rede textual, uma vez que as obras contemporâneas de literatura para infância e juventude supracitadas configuram-se como hipertextos em língua portuguesa, em virtude de suas arquiteturas labirínticas.

Ano

2011

Creators

Juliana Pádua Silva Medeiros

A literatura em face da alteridade na obra de Fernando Namora: ficção e não-ficção nas narrativas sobre a saúde

Esta pesquisa se articula em caráter interdisciplinar entre a literatura e a medicina na medida da perspectiva das relações e inter-relações do recorte proposto. O conceito de alteridade - segundo a concepção de ética da alteridade, onde se vê explícita a questão da responsabilidade individual, defendida pelo filósofo contemporâneo Emmanuel Lévinas (1906-1995) - é a chave interpretativa para investigação que transcorre nas linhas da escrita ficcional e não-ficcional do médico e escritor português Fernando Namora. Centrada nas narrativas literárias da sua obra referencial intitulada Retalhos da vida de um médico e em publicações factuais que constam de o Jornal do Médico. O objetivo da presente pesquisa é pensar nas narrativas jornalísticas sobre a saúde humana a partir do corpus das obras referidas, tomados por base os estudos da teoria literária (em limite da crítica e gêneros literários) como princípios de análise, partindo do pressuposto de que as relações éticas, mediante as questões de alteridade, se sustentam de maneira efetiva no face-a-face (ou em face) com o outro.

O fardo do passado e a imobilidade no presente: possibilidades realistas em Angústia e Uma abelha na chuva

O objetivo desta tese é realizar uma análise comparativa de Angústia, de Graciliano Ramos, e Uma abelha na chuva, de Carlos de Oliveira tomando como aspecto central a paralisia no presente dos protagonistas e das relações entre as diferentes classes sociais no interior das narrativas. Os autores procuram figurar os destinos humanos de setores das classes dominantes de cada um dos países que, sem serem protagonistas do processo de modernização capitalista, buscam ou retomar a posição de dominação ou impedir qualquer mudança; com isso procuramos demonstrar a possibilidade de figuração das forças sociais em luta na realidade. É parte do nosso problema também a estruturação das obras a partir de técnicas como o monólogo interior, no caso do romance brasileiro, e da adoção dos pontos de vista dos diferentes personagens por parte do narrador da narrativa portuguesa. Nossa comparação consiste, então, em compreender como apesar das inovações formais mencionadas eles não eternizam as angústias vividas pelos personagens, antes as enraízam nas relações sociais estabelecidas por eles dentro da dinâmica do romance; estas por sua vez remetem à realidade histórica da produção das obras. Tomamos como ponto de partida, aqui, a teoria do realismo tal como desenvolvida por G. Lukács, com a ressalva de que a compreendemos como um método e não um modelo, ou seja, uma atitude diante do real e não um conjunto de normas de composição.

Ano

2018

Creators

Miguel Makoto Cavalcanti Yoshida

Da partilha do sensível no Brasil: uma leitura de \'A hora e a vez de Augusto Matraga\' e \'Buriti\'

Este trabalho propõe uma leitura dos aspectos estruturais de narração, construção de personagens e enredo a partir de uma perspectiva que os considera como dados essenciais para aquilo que Rancière (2004) chamou de política da literatura. Os textos escolhidos, A hora e a vez de Augusto Matraga, de Sagarana, e Buriti, de Corpo de baile, foram considerados dentro de uma tradição brasileira da fala sobre um outro cultural, presente desde os românticos até os modernos. Tentou-se compreender como as inovações estruturais principalmente a reformulação do discurso indireto livre podem ser lidas como mais ou menos democráticas, a partir de uma reflexão sobre a partilha do sensível (Rancière, 2005) e a letra muda (Rancière, 2004).

Ano

2015

Creators

Thaís Travassos

O querer, o sentir e o pensar de Rudolf Steiner na literatura para crianças e jovens: os atos da vontade

Rudolf Steiner (1861-1925) foi um filósofo, jornalista e educador. Atualmente seu nome está associado ao movimento Camphill de educação curativa, sua arquitetura, vários estudos sobre religião, à agricultura biodinâmica, à medicina antroposófica e à pedagogia Waldorf. O objetivo principal desta pesquisa é investigar a contribuição e validade das concepções sobre o querer, o sentir e o pensar de Rudolf Steiner para os estudos literários. Espera-se contribuir para a ressignificação do papel da literatura como força impulsora na mediação entre o sentimento e a razão para o desenvolvimento e constituição do pensar conceitual e formação do ser harmônico e integral. Esta tese contém uma introdução e seis capítulos. O capítulo 1 dá uma ideia geral do contexto de Rudolf Steiner e trata de sua formação, carreira, interesses profissionais, bem como sobre algumas possíveis influências sobre seu pensamento. O capítulo 2 apresenta as concepções do homem, do querer, do sentir e do pensar que aparecem na obra Filosofia da Liberdade e suas relações com outros estudos do autor. Discute também a importância da arte e das narrativas para a formação do ser humano integral, harmônico e espiritualmente livre. O capítulo 3 compara as ideias de Steiner acerca do pensar, da criança, das narrativas com as concepções de Edgar Morin e Walter Benjamin. Também apresenta indicações de narrativas propostas por seguidores de Steiner. O capítulo 4 apresenta a metodologia e as obras utilizadas na experiência estética de recepção de leitura desenvolvida com ex-alunos formados pela pedagogia Waldorf e ex-alunos formados por outras pedagogias. O capítulo 5 discute os resultados da pesquisa. O capítulo 6 apresenta algumas considerações finais sobre o assunto.

Ano

2014

Creators

Sandra Regina Kuka Mutarelli

Vozes subterrâneas: embates discursivos em Angústia, de Graciliano Ramos, e Voz de prisão, de Manuel Ferreira

Este trabalho visa explorar as relações entre duas obras produzidas em língua portuguesa e de algum modo vinculadas à tendência engajada da literatura modernista: Angústia, de Graciliano Ramos, e Voz de prisão, de Manuel Ferreira. Entre os nexos comparativos estão a hipótese de que, nos dois livros, são expostas e exploradas as tensões existentes entre discursos hegemônicos e discurso subterrâneos. Esse embate discursivo cultural, estético, ideológico será pensado como fatura romanesca e também a partir da participação e/ou intermediação da figura do intelectual, a qual, de modos diferentes, tem relevância nas obras em questão.

Ano

2015

Creators

Adriano Guilherme de Almeida

Identidade social e literatura: As duas sombras do rio e As visitas do Dr. Valdez

Esta dissertação propõe uma interpretação das obras As Duas Sombras do Rio, de 2003 e As Visitas do Dr. Valdez, de 2004 de João Paulo Borges Coelho, a fim de analisar como esses romances trazem à tona a questão da formação da identidade moçambicana. Para tanto, enfrenta-se os romances a partir dos seguintes aspectos: as relações de influência suscitadas pelo período de 1974-1985, abarcado pelos dois romances; o espaço e o tempo como estruturas decisivas na configuração das relações sociais representadas pelas narrativas. Nesse sentido, interessa observar como esses aspectos articulam-se à formação identitária no bojo de um processo de transição da situação colonial para a independência, seguida da eclosão da guerra civil e como eles exercem função estruturante das narrativas. Discute-se, ainda, em que medida o autor moçambicano articula o espaço e o tempo com o intuito de transgredir a narrativa oficial difundida em torno da ideia de nação.

Ano

2017

Creators

Laurinda Aparecida Maiorquim Gomes da Silva

Visões do (des)encanto: um estudo sobre o feminino transgressor em Clarice Lispector e Maria Judite de Carvalho

A pesquisa de Doutorado intitulada Visões do (des)encanto: um estudo sobre o feminino transgressor em Clarice Lispector e Maria Judite de Carvalho tem por objetivo estudar as personagens femininas das escritoras nas obras Laços de família (1960) e Flores ao telefone (1968), tendo como ponto de partida a relação existente entre a criação das personagens e o papel social vivido pela mulher em tal época. O projeto literário das duas autoras caminha atento às mudanças sociais e a transformações ocorridas no universo feminino, surgindo então a necessidade de dar voz às mulheres através de suas figuras ficcionais. A oposição entre destino/liberdade é questionada no cotidiano de personagens femininas de classe média acostumadas a viver à sombra do masculino, sem criar um lugar para si no mundo. As autoras lançam um olhar profundo sobre a sociedade, este se reflete nas angústias e malogros de suas personagens que precisam tantas vezes romper com a conduta social para serem livres. Tal processo de transgressão das personagens no universo das duas autoras é estudado tendo como base teórica o estudo sobre os vários aspectos do feminino em O segundo sexo, de Simone de Beauvoir.

Ano

2011

Creators

Jane Pinheiro de Freitas

De armas na mão: personagens-guerrilheiros em romances de Antonio Callado, Pepetela e Luandino Vieira

Estudo sobre a representação literária da figura do guerrilheiro em romances do brasileiro Antonio Callado (1917-1997) e dos angolanos Pepetela (1941-) e José Luandino Vieira (1935-). Considerando que os autores recriam ficcionalmente realidades muito diferenciadas, em países e continentes distintos, num momento histórico que só as aproxima pelo contexto da Guerra Fria, mas compartilham personagens envolvidos na contestação armada do poder, queremos examinar como essas figuras são construídas, como se aproximam ou se distanciam, e de que maneira se transformam à medida que os textos produzidos se afastam do momento histórico que lhes serve de tema. Um capítulo inicial descreve o panorama geral das lutas políticas no século XX, o fim dos grandes impérios coloniais, o contexto da Guerra Fria, e traça um paralelo minucioso entre a resistência armada à ditadura brasileira e a luta guerrilheira contra o colonialismo português, situando os autores nesse contexto. Depois há uma discussão sobre a figura do guerrilheiro como motivo literário, exemplificado em Che Guevara, um levantamento de questões teóricas sobre o personagem literário e a apresentação e discussão do corpus: Quarup (1967), Bar Don Juan (1971), Reflexos do baile (1977), Sempreviva (1981), de Callado; As aventuras de Ngunga (1973), Mayombe (1980), A geração da utopia (1992), O planalto e a estepe (2009), de Pepetela; O livro dos rios (2006), O livro dos guerrilheiros (2009), de Luandino Vieira. Seguem-se perfis analíticos-interpretativos, feitos a partir da leitura cerrada, de 28 personagens de Callado, 18 personagens de Pepetela e oito personagens de Luandino Vieira, e as conclusões que essas cinquenta figuras nos sugeriram.

Ano

2015

Creators

Luiz Maria Veiga

Entre dois mundos: a loucura feminina nos romances A Louca de Serrano, de Dina Salústio, e O alegre canto da perdiz, de Paulina Chiziane

A literatura de autoria feminina nas sociedades pós-coloniais é considerada por Gayatri C. Spivak um processo metonímico da saga das mulheres usado como ferramenta de denúncia, que possibilita a quebra de mitos e preconceitos há muito reforçados pelo discurso patriarcal. Dentre as mulheres que encontraram sua voz e se fizeram ouvir, deixando de ser consideradas apenas informantes nativas das histórias orais de sua cultura, merecem destaque as cabo-verdianas Dina Salústio, Vera Duarte, Fátima Bettencourt, Orlanda Amarílis e Dulce Almada Duarte, e as moçambicanas Paulina Chiziane e Lília Momplé. O objetivo desta tese é investigar nos romances A Louca de Serrano e O alegre canto da perdiz, de Dina Salústio e Paulina Chiziane, respectivamente, como se constrói a temática da loucura, representada pelas mulheres africanas (e personagens) Louca de Serrano e Maria das Dores (louca do rio), que pode ser compreendida como uma voz carregada de solidão, dor, negação, rebeldia e inconformismo e como marca de resistência à marginalização feminina nas e pelas práticas sociais hegemônicas.

Ano

2013

Creators

Juliana Primi Braga

Fragmento, escrita do desastre e testemunhos da desrazão

Esta pesquisa pretende colocar em diálogo, em um movimento de mútua iluminação, parte dos conceitos expostos no livro L\'Écriture du Désastrede Maurice Blanchot e da produção de um grupo de escritores brasileiros, reunidos aqui na forma de uma dita comunidade da desrazão. Partiremos inicialmente dos estímulos em Blanchot para a práticade uma escrita fragmentária que se fará posteriormente presente no desastre e nos testemunhos da desrazão. Estas referências se baseiam, sobretudo, nos pensamentos de dois filósofos alemães: F. Schlegel e F. Nietzsche. Após a visitação da potência do fragmento na escrita iremos diretamente ao levantamento de uma espécie de composição alquímica que parece haver no desastre blanchotiano. Isto será feito na identificação de alguns conceitos que pairam sobre ele, na formação de um corpo, molecularização e substancialização do desastre. Como forma de exemplificação para esta corporificação utilizaremos o filme Hiroshima mon amourde Alain Resnais, marcador de uma fissura no século XX através do acontecimento da barbárie atômica. Reuniremos então, por meio do conceito de comunidadetal qual colocado pelo filósofo francês Jean-Luc Nancy, autores da literatura brasileira que produziram escritos provenientes de estados de desatino, tendo mesmo parte de seus testemunhos registrados durante ou após períodos de internações psiquiátricas. Estes autores serão: Lima Barreto, Maura Lopes Cançado, Torquato Neto, Renato Pompeu e Rodrigo de Souza Leão. Por conta da carga confessional que muitos destes textos apresentam, nos apoiaremos ainda para uma análise mais profunda narelação entre a ficção e o real no pensamento quanto ao testemunho proposto por Jacques Derrida. Buscaremos também vislumbrar como os elementos da alquimia do desastre pairam e operam nestes escritos. Finalmente, veicularemos textualmente o trabalho poético-performático por nós realizado Fukushima mon amour, expositor das diferenças e transmutações dos tempos através da mediação do desastre e da desrazão na arte produzida a partir dos perigos e fantasmas provenientes do acidente nuclear.

Ano

2015

Creators

Ciro Martins Lubliner

A glória e a queda: construção e desagregação do romance na periferia do capitalismo

O presente trabalho visa explorar a forma do romance na periferia do capitalismo no século XX e XXI, tendo como paradigmas dois de seus mais destacados escritores, Alejo Carpentier e Mia Couto. Para tanto, analisa-se aqui as obras Los Pasos Perdidos (Carpentier) e O Outro Pé da Sereia (Couto) à luz da teoria do realismo de György Lukács. O que se deseja demonstrar é: visto que o romance é a epopéia do mundo burguês, autores como Carpentier se valeram do período de desenvolvimentismo industrial no continente latino-americano inserido no crescimento mundial do capitalismo pós-Segunda Guerra (1945-1975) para lançar o conflito entre a afirmação definitiva da modernidade e seu universo pré-moderno: a isto muitos deram o nome de realismo maravilhoso. Por sua vez, em Moçambique, o histórico colonial e a independência tardia na época da crise estrutural do capital (a partir de 1975) determinaram uma frágil afirmação dos padrões sociais burgueses. Tal condição tem conseqüências na produção romanesca de autores como Mia Couto. Entre elas: o maravilhoso aparece como princípio formal, elidindo tensões necessárias ao romance e restringindo assim o alcance de sua ficção.

Ano

2013

Creators

Fabio Salem Daie

A questão do Sagrado ou uma forma de pensar o romance \"A varanda do Frangipani\", de Mia Couto

O presente trabalho tece uma análise do romance A varanda do frangipani, do escritor moçambicano Mia Couto, a fim de iluminar as reinvenções operadas pelo autor de aspectos do Sagrado ligado às crenças tradicionais de Moçambique. Apropriando-se e subvertendo o padrão do romance policial clássico símbolo da exaltação da racionalidade europeia , o autor reinventa no âmbito literário animais sagrados, rituais de iniciação e de adivinhação, espíritos de falecidos que convivem com viventes, assim como árvores divinizadas e mostra ao leitor uma visão de mundo e uma forma de existência diversas da eurocêntrica. Com isso, há a iluminação de questões culturais e sociais do país de onde fala Mia Couto, onde a tentativa de esmagamento cultural foi operada por anos de dominação e guerras. Para a realização desta pesquisa, embasamo-nos em autores como Mircea Eliade, Carlos Serrano, José Luís Cabaço, Omar Ribeiro Thomaz, entre outros, com o objetivo de obtermos a consistência teórica necessária a cerca do conceito de Sagrado e de questões sócio-culturais relacionadas a Moçambique e a outros países africanos; apoiamo-nos ainda em autores como Tzvetan Todorov e Ernest Mandel para percebermos o padrão estrutural e um pouco da ideologia ligada ao romance policial clássico e, assim, verificarmos a reinvenção dessa forma em solo moçambicano.

Ano

2013

Creators

Regina Margaret Pereira

O jogo entre as efabulações fradiquianas

O trabalho proposto tem por objetivo estabelecer e evidenciar as pontes que unem as efabulações fradiquianas, tendo como base as obras Os Mistérios da Estrada de SintraeA Correspondência de Fradique Mendes, de Eça de Queiroz;O Único Filho de Fradique Mendes, de Frederico de Sá Perry Vidal;Nação Crioula, de José Eduardo Agualusa eEsquemas de Fradique, de Fernando Venâncio, procurando comprovarque as efabulações são partes de um todo maior e continuo e que revelam a tentativa de, durante mais de um século, formular possíveis bibliografias para a personagem, Fradique Mendes. Pretende-se, ainda, demonstrar quais são os elementos narrativos que ligam as obras em questão, considerando para isso as intencionalidades autorais e as coerências na constituição dopersonagem.

Ano

2013

Creators

Eduardo Gonzales Moreira

João Cabral e José Caveirinha: literatura contra a desumanização

Esta tese faz uma análise comparativa entre parte da obra de João Cabral de Melo Neto e João José Craveirinha levando em consideração aspectos como a recorrência da morte, da desumanização, dos discursos irônicos e, por fim, a defesa de territórios - para efeitos deste estudo, também chamada de resistência. São analisados os livros de João Cabral de Melo Neto: Dois parlamentos, Auto do Frade e um trecho do poema Morte e vida severina. Quanto à obra de José Craverinha, analisa-se Babalaze das hienas, Cela 1 e trechos da Ode a uma carga perdida em um barco incendiado chamado Save, do livro Xigubo.

Ano

2017

Creators

Maria Nilda de Carvalho Mota

Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra e Antes de nascer o mundo: uma leitura da experiência da vida nos percursos de Marianinho e Mwanito

Esta dissertação realiza uma leitura em perspectiva comparatista entre os romances do autor moçambicano Mia Couto Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra e Antes de nascer o mundo. A partir das oscilações espaciais das personagens centrais Marianinho e Mwanito, que transitam entre campo e cidade, realiza-se uma leitura de tais espaços considerando as imbricações entre a ficção de Mia Couto e a realidade moçambicana. Para este estudo, apoiamo-nos em vários autores, como José Luís Cabaço, que nos abriu o horizonte a respeito dos processos sócio-históricos que envolvem a realidade moçambicana atual, Mikhail Bakhtin, Georg Lukács, Walter Benjamin e Theodor Adorno, que nos embasaram crítica e teoricamente e Antonio Candido, que norteou as reflexões acerca dos aspectos sociais que envolvem a literatura. O trabalho aborda ainda a maneira como os jovens Marianinho e Mwanito podem representar a constituição de uma nova identidade moçambicana, permeada pelas tensões entre colonizado e colonizador, tradição e modernidade, campo e cidade, entre outros pares dicotômicos.

Ano

2013

Creators

Leticia de Souza Goes

Figurações da Lunda: experiência histórica e formas literárias - Um estudo sobre ethnografia e história tradicional dos povos da Lunda (expedição portuguesa ao Muantiânvua, 1884-1888), de Henrique de Carvalho, Lueji e Ilunga na terra da amizade , de Castro Soromenho e Lueji- o nascimento dum império, de Perpetela.

A perspectiva deste trabalho será a de que as diferentes experiências históricas de Henrique de Carvalho (Expedição Portugueza ao Muantiânvua: Ethnographia e história tradicional dos povos da Lunda- 1884-1888) (1890), Castro Soromenho (Lueji Ilunga na terra da amizade) (1945) e Pepetela (Lueji: o nascimento dum império) (1989) definem a forma literária, respectivamente, literatura de viagem, um conto tensionado e um romance. Três formas literárias distintas que mantêm o elo com o texto historiográfico, pois Castro Soromenho e Pepetela se apropriam do texto de Henrique de Carvalho para elaborarem seus enredos centrais que giram em torno do espaço Lunda. Tendo em vista que tal espaço potencializa as três narrativas, levaremos em conta que \"A forma não pode ser compreendida independentemente do conteúdo, mas ela não é tampouco independente da natureza do material e dos procedimentos que este condiciona. A forma depende, de um lado, do conteúdo e, do outro, das particularidades do material e da elaboração que este implica.\" (Bakhtin, M. 1992, p. 206)