Repositório RCAAP
Retornando à casa: o culto aos antepassados okinawanos
Este trabalho analisou o culto aos antepassados okinawanos Sosen Suuhai, procurando compreender seus significados à construção identitária dos okinawanos no Brasil. Para isso, as entrevistas e os dados de campo foram trabalhados sob duas perspectivas: 1. Uma histórica: que analisou as relações entre o governo e a sociedade brasileira, na Era Vargas, especialmente, durante o período do Estado Novo. 2. Uma de análise do culto baseada no animismo e xamanismo, cujos rituais de manipulação do corpo complementam os significados do Sosen Suuhai. Percebeu-se que a simbologia do corpo (sangue e sêmen) mostra-se concatenada à percepção de sagrado e profano no culto, que, por sua vez, repercute na distinção de papéis sociais a partir de dicotomia de gênero. Nesse caso, pode-se dizer que essa simbologia reflete a importância da patrilinearidade na sucessão do butsudan e a importância das mulheres na comunicação, tanto no sentido religioso, quanto na perpetuação da tradição e da memória familiar. Também foi possível notar que o pertencimento okinawano, movido pelo culto, opera a partir de dois pontos de vista: a religiosidade e a história. Em algumas famílias, o butsudan representa a comunicação com os ancestrais e as crenças no poder de influência deles na vida familiar. Em outras famílias, porém, o butsudan seria visto muito mais como um lugar da memória, reverência à historicidade dos ancestrais, o que coloca em evidência as especificidades okinawanas no processo de imigração ao Brasil. Essa forte presença da historicidade nos discursos dos interlocutores relaciona-se à construção de uma identidade okinawana no Brasil que busca exaltar suas características de expansão e alegria em contraposição às características de reserva e frieza dos japoneses. Essas diferenças, construídas no discurso identitário, foram lidas na baila da cultura, em que hábitos e costumes nativos passam a ser acionados como estratégia de afirmação e de reconhecimento do grupo na sociedade
\"Delicada e sensível como bonecas de porcellana\": corpo feminino e ciência nos manuais de ginástica feminina e rítmica
Esta pesquisa teve por objetivo analisar como certas práticas e representações das ciências influenciaram a concepção de corpo feminino presente nos primeiros livros brasileiros de Ginástica Feminina e Rítmica, objeto circunscrito, assim, pelas temáticas de gênero, corpo feminino e história da ciência. A ciência, considerada como elemento cultural na sociedade, tematizando, influenciando e sofrendo influência da cultura, pode tanto agir sobre a concepção de corpo como produzi-la, através de um discurso prescritivo. Antes tratado somente em comparação ao homem, o lugar do corpo feminino pode ser realçado a partir da Ginástica Feminina e Rítmica, prática corporal elaborada originalmente para as mulheres. A análise de cunho histórico dos primeiros manuais da modalidade no Brasil, de meados do século XX, incluindo a investigação de seus enquadramentos contextuais e de elementos das trajetórias de suas autoras, permitiu a compreensão da influência de algumas visões de ciência sobre expectativas a respeito do corpo feminino e das formas de intervenção sobre ele. Além de notar a presença de aspectos relacionados a ideias e conteúdos de determinadas ciências, como noções de evolução e experimentação, mostramos como os manuais analisados partem de uma certa visão de ciência para almejar sistematicidade, estruturar sua argumentação e empregar imagens. Nos manuais, a mulher, seu corpo e o feminino são representados como dotados de uma essência natural, mas que é passível de intervenção e cuidado por meio da Ginástica Feminina e Rítmica
2016
Larissa Corat Fernandes
A presença do compositor brasileiro em recitais de piano na cidade de São Paulo (1925-1965)
A partir da análise comparada do repertório de recitais para piano, apresentados em jornais da cidade de São Paulo nos anos 1925, 1935, 1945, 1955 e 1965, tentamos identificar qual era o gosto musical da época no que concerne ao piano, objetivando também qual era o espaço ocupado pelos compositores nacionais nestes recitais. Em consequência, foi possível perceber a presença de um grupo de compositores e pianistas nacionais nesses recitais tendo Mário de Andrade como mentor intelectual do grupo. Os dados levantados sugerem que a frequência desses compositores não superou em nenhum momento um terço do repertório no período, o que nos leva a conjecturar que o compositor nacional ocupava um lugar marginal na cena musical erudita da época.
2014
Nina Rosa de Almeida Lopes Fernandes
Conselho Nacional de Políticas Culturais: análise de sua efetividade deliberativa
A presente pesquisa busca analisar a efetividade deliberativa no Conselho Nacional de Política Cultural no que condiz ao seu papel de instituição híbrida que contribui para o fortalecimento democrático no Brasil. O atual Conselho Nacional de Política Cultural (CNPC) iniciou sua trajetória em 2007, como instituição deliberativa, consultiva e normativa com o papel de formular, deliberar e exercer controle público acerca das políticas culturais no Brasil, como órgão vinculado ao Ministério da Cultura. Por apresentar caráter deliberativo em suas ações, a análise da atuação desse Conselho incorpora referências à democracia deliberativa em seu percurso, para compreender melhor o papel de seus integrantes da sociedade civil nos processos deliberativos. O decurso da pesquisa apresenta o processo histórico dos Conselhos Nacionais na história recente do país; também um panorama sobre teoria democrática deliberativa pautada em princípios normativos que subsidia a análise empírica do Conselho Nacional de Políticas Culturais, contando com entrevistas com ex- conselheiros para traçar um perfil crítico que acaba por indicar que a efetividade do conselho é parcial e limitada
2016
Daniela Aparecida Fatoreto Assofra
Teatro e transformações sociais: arte e política semeando a cena periférica
A arte é resultado do desenvolvimento histórico-social e sempre esteve ligada às transformações sociais de modo geral. Compreender esse processo de formação e seus desdobramentos é de fundamental importância para entender como e quais os caminhos a arte dramática tem trilhado em cada tempo histórico. E mais, como essas mudanças tem, de certa forma, impulsionado novas formas de expressão em um contexto internacional marcado pelo aprofundamento das políticas neoliberais, os avanços da chamada globalização e a consecutiva disputa por discursos e espaços de representação a partir das periferias. Dentre esses grupos protagonistas que lutam por reconhecimento, o movimento teatral tem se posicionado de maneira contundente na busca por espaços e afirmação das identidades periféricas. No entanto, o teatro em comunidade tem suscitado grandes interesses, em especial, na América Latina onde tem ampliado as perspectivas dos grupos e coletivos teatrais e das comunidades a partir da ideia de empoderamento, da justiça social e do trabalho em rede. É a partir desse universo, do desenvolvimento histórico-social do teatro, suas transformações e a consecutiva apropriação dos grupos das regiões periféricas das cidades diante de uma prática denominada teatro em comunidade que nos debruçamos para tentar explicar o importante caráter desse trabalho realizado nas periferias das cidades da América Latina. Direcionando esse olhar para a periferia da Cidade de São Paulo, no bairro Cidade Tiradentes para o grupo Pombas Urbanas, suas histórias e suas ações, procurou-se apresentar, ao longo desse processo, as transformações significativas que ocorreram na forma-teatro ao longo de sua trajetória, os possíveis desdobramentos na busca por uma concepção estética até o surgimento da prática de Teatro em Comunidade. O contato do Pombas Urbanas com essa prática e os resultados obtidos nos últimos anos, tendo como ponto de partida uma contextualização radical à luz das teorias dos Estudos Culturais e do pensamento crítico latino-americano, buscou-se compreender de que forma a atuação na periferia, a partir da prática de teatro em comunidade, pode operar transformações sociais significativas
A experiência do Cursinho Popular Mirna Elisa Bonazzi, da Rede Emancipa: reflexões em torno da educação popular como pedagogia descolonial
Este projeto de pesquisa tem como objetivo analisar o caso do Cursinho Popular Mirna Elisa Bonazzi (Taboão da Serra, SP, Brasil) que faz parte da Rede Emancipa. Para isso, propõe-se uma experiência em campo de caráter etnográfico e fundamentada na Investigação-ação Participativa e uma análise que se enquadre em, mas não se limite a, o que é denominado perspectiva ou pensamento descolonial. Isto com o fim de abordar a pedagogia descolonial nos processos de educação popular, que permanecem no percurso da proposta de Paulo Freire. O caso particular do cursinho é relevante no contexto onde está localizado, Taboão da Serra, pois ao pertencer a uma organização de caráter nacional, a Rede Emancipa, consegue articular-se com organizações de base nos territórios, trabalhar na formação de lideranças, debater sobre as opressões concretas e subjetivas, assim como conceber projetos de emancipação. Fazer uma análise do caso, a partir de uma revisão teórica e trabalho de campo, permite contribuir ao debate da pedagogia descolonial, com base em uma fundamentação empírica
2018
Julián David Cuaspa Ropaín
Don Juan de Lord Byron: estudo descritivo das traduções, tradução, comentários e notas
Este trabalho de tradução e sobre tradução de Don Juan de lorde Byron pode ser dividido em duas partes: a primeira cuida das especificidades de autor, sua vida, obra, fortuna crítica, assim como o tratamento do mito de Don Juan na obra byroniana, além de um estudo descritivo das traduções de Don Juan de lorde Byron publicadas no Brasil. A segunda, compõe-se de comentários à guisa de introdução à tradução de Don Juan, e da tradução dos Cantos I, II, III e IV para a língua portuguesa, feita em versos, na mesma estrutura estrófica do original, abalizada por uma pletora de notas a respeito do texto e dos vieses tradutórios.
2015
Lucas de Lacerda Zaparolli de Agustini
A recepção da literatura traduzida de ficção científica no Brasil: um recorte dos anos 1950 e 1960
A literatura de Ficção Científica (FC), conhecida por desafiar os limites entre a ficção e a realidade, enfrentou grandes obstáculos para se estabelecer no polissistema literário brasileiro e ser reconhecida como gênero relevante. Buscando entender melhor as circunstâncias que levaram a esse cenário e o impacto de sua classificação como literatura traduzida, este trabalho analisa, sob a ótica das refrações, algumas publicações que podem ter representado o primeiro contato do público brasileiro com esse gênero. Foram determinadas duas frentes investigação: a primeira se dedicou aos elementos paratextuais presentes nas primeiras coletâneas do gênero publicadas no país, Maravilhas da Ficção Cientifica (1958) e Antologia Brasileira de Ficção Científica (1961); e a segunda se concentrou em identificar, coletar e examinar notas jornalísticas que mencionassem os termos ficção científica e science fiction publicadas nas décadas de 1950 e 1960 período no qual o gênero começava a ser registrado pela grande mídia e explorado como proposta comercial. Os resultados encontrados revelam uma relação direta entre a influência estrangeira na formação do polissistema literário brasileiro e a postura das editoras e jornais do país, incentivadas pela ação marcante dos grupos de autores, editores e entusiastas do gênero.
2019
Fernanda Libério Pereira
Para ler Van Gogh: tradução comentada da Carta 179 de Vincent van Gogh a seu irmão Theo
A presente dissertação apresenta a tradução comentada da Carta 179 (de acordo com a numeração do Museu Van Gogh) escrita por Vincent van Gogh a seu irmão Theo. Trata-se de uma tradução por via indireta da versão para o inglês feita pelo Museu. O trabalho baseou-se nas premissas do \"paradigma indiciário\", de Ginzburg (1999) utilizando como recurso complementar a transcrição do manuscrito em holandês para orientar escolhas tradutórias. O conceito de ritmo de Henri Meschonnic (2006) abriu possibilidades e lastreou os arremates. Da mesma forma, a \"letra\" e as tendências de Berman (2013) balizaram o caminho, que também levou em conta as modalidades de tradução de Francis Aubert (1998). Igualmente, busquei lançar alguma luz sobre o fato de que, injustamente, as cartas ainda são tratadas como ferramental para outros campos de estudo, atuando como auxiliares na reconstituição de biografias, na compreensão de momentos históricos ou como apêndice a obras literárias. No campo dos Estudos da Tradução, essa realidade também se reproduz. Neste sentido, esta dissertação objetiva contribuir para o estudo das cartas como o objeto em si. Van Gogh é o autor do texto traduzido, mas não é à sua biografia que esta tradução pretende servir, e sim à sua obra como epistológrafo. Seus comentários são precedidos por uma contextualização da relação intrínseca e milenar existente entre o pensamento sobre a escrita de cartas e o pensamento sobre tradução, no intuito de mostrar a influência que a carta tem na forma mesma de pensar e praticar filosofia, literatura e outras artes.
2020
Naia Veneranda Gomes da Silveira
Será Huckleberry Finn mesmo um romance racista?: uma análise da obra, de algumas de suas traduções e do discurso racial no século XIX em narrativas sobre escravos sob a luz da Linguística de Corpus
Adventures of Huckleberry Finn (1884) de Mark Twain (1835-1910) tem estado de modo frequente na berlinda. Em cada época, desde o seu lançamento, a proibição da obra, nas bibliotecas e escolas, foi motivada pelas temáticas tratadas, pelos dialetos criados ou pela reiteração da palavra nigger(s). No Brasil, as traduções da obra fazem parte do nosso Polissistema Literário de Tradução desde 1934 (Monteiro Lobato). Visto que a obra foi lançada há mais de cem anos, muitos têm se dedicado a ela, a fim de discutir suas principais controvérsias. Esta pesquisa visa a apresentar algo diferente na forma de analisar os dados da obra e de quatro de suas traduções. Para tanto, elegeu-se a Linguística de Corpus (LC) como metodologia e principal abordagem, pois a LC oferece a possibilidade de investigar uma grande quantidade de dados por meio eletrônico (WordSmith Tools, Scott, 2006), assegura precisão na apresentação das informações, e também mostra dados não detectados a olho nu pelo analista. Dessa forma, esta pesquisa apresenta um estudo dirigido pelo corpus embasado na lista de palavras-chave que detectou nigger(s) como a palavra mais relevante. A partir desse dado, delineou-se o objetivo geral do estudo que é verificar a importância que o termo nigger(s) assume na caracterização dos negros em Huckleberry Finn por meio do discurso racial, investigando o campo semântico racismo/escravidão. Para tanto, julgou-se necessário buscar na literatura de língua inglesa obras do século XIX (nove narrativas sobre escravos) que também empregaram o termo nigger(s), a fim de comparar as narrativas e a obra de Twain e verificar (des)semelhanças na construção do discurso racial. Por ser nigger um termo culturalmente marcado e os tradutores brasileiros o traduzirem por um vocábulo neutro (negro ou escravo), decidiu-se investigar obras brasileiras do século XIX (em número de seis) sobre a escravidão, a fim de entender a (não) existência de um vocábulo que se aproxime da carga semântica de nigger, com o intuito de confrontar os termos usados pelos autores brasileiros com aqueles usados pelos tradutores. Assim sendo, a tese a ser demonstrada é que Huckleberry Finn, embora use nigger(s) reiteradamente, caracteriza os negros de forma positiva, subvertendo o discurso racial, e emprega nigger(s) com o fim de mostrar como a sociedade estadunidense do século XIX tratava os negros de forma negativa. As obras brasileiras analisadas revelaram um termo para representar os negros, crioulo, cuja prosódia é negativa; porém os tradutores não fazem uso desse termo, possivelmente pelo fato de as normas do nosso Polissistema Literário, ligadas ao grau de aceitabilidade (TOURY, 1995) da tradução, imporem uma reescritura consoante com o discurso politicamente correto de nossos dias. Esta tese ainda tem o papel de mostrar a contribuição inestimável da LC para os estudos literários, uma vez que foi possível, por meio das linhas de concordância, apresentar análises impraticáveis de serem realizadas sem tal metodologia, em função da exiguidade do tempo da pesquisa (quatro anos), do número de obras analisadas (vinte) e do recorte escolhido, o campo semântico, difícil de ser investigado a olho nu.
O conhecimento do outro por meio da imagem e da tradução
O presente trabalho analisa a formação de identidades culturais a partir da tradução das histórias em quadrinhos. Investigamos como se dá o processo de conhecimento do outro, ou seja, do estrangeiro, no original e na tradução, a partir da relação entre a imagem e o texto presentes na série de quadrinhos francesa Le photographe. A obra, que mescla texto, desenhos e fotografias, foi composta por três autores, a saber: Emmanuel Guibert, quadrinista responsável pelos desenhos, Didier Lefèvre, fotojornalista autor das fotografias, e Frédéric Lemercier, editor encarregado da diagramação das páginas. Dividida em três volumes, a série resulta do trabalho desenvolvido por Lefèvre junto à organização Médicos Sem Fronteiras, que o contratara para cobrir uma missão da instituição no Afeganistão em 1987, durante a guerra desse país contra a U.R.S.S. Publicados na França entre 2003 e 2006 e no Brasil de 2006 a 2010, respectivamente, Le photographe e O fotógrafo constituem um rico material para análise graças à simultaneidade de discursos: o documental e o quadrinístico, tendo em vista a representação da cultura do outro, isto é, do povo afegão, em dois contextos socioculturais distintos: o francês, no original, e o brasileiro, na tradução. Apresentamos algumas características acerca da composição da obra, em que o uso das fotografias em conjunção com os desenhos revela o desenvolvimento de um estilo inovador no contexto da linguagem dos quadrinhos. Isso fica evidente quando analisamos os trabalhos de teóricos que já investigaram a constituição da narrativa quadrinística, como os de Eco ([1965]2008) e McCloud (2005), trabalhos nos quais se destaca a questão da relação de continuidade entre os quadros e as páginas. Nosso trabalho, contudo, expande essas reflexões e propõe uma nova perspectiva de análise da enunciação das histórias em quadrinhos, pois observamos a constituição de uma unidade entre os signos no nível da leitura, que chamamos de unidade plurissemiótica, elemento que influencia o processo de tradução dessa forma de linguagem. Como a representação da cultura do outro se configura a partir da relação de complementaridade entre fotografia, desenho e texto, a análise da tradução dessa obra põe em relevo questões como a alteridade, a identidade, o contraste e a semelhança entre as três culturas envolvidas na criação e leitura da obra: a francesa, a afegã e a brasileira. Nesse sentido, exploramos as contribuições de diversos estudiosos que se dedicaram à investigação da representação cultural na tradução, dentre eles Venuti (1998) e Aubert (2006), para chegarmos à concepção das noções de marcador cultural verbal, icônico e verbo-icônico, tendo em vista a especificidade do processo de tradução dos quadrinhos. As análises realizadas partem da relação de complementaridade entre os códigos verbal e imagético e de como essa relação entre os signos constrói um conhecimento sobre o outro no original, que se transforma na tradução; dessa forma, o desenvolvimento de conceitos específicos relacionados a esse tipo específico de tradução, como a unidade plurissemiótica e os marcadores culturais verbais, icônicos e verboicônicos, coloca em relevo a sua singularidade.
Tradução e videogames: uma perspectiva histórico-descritiva sobre a localização de games no Brasil
Os videogames são hoje uma das formas de entretenimento mais populares em todo o mundo. Muito desse sucesso só foi possível graças à tradução, a qual, por meio de versões localizadas para os mais diversos idiomas, contribuiu decisivamente para que os videogames alcançassem um número cada vez maior de mercados e chegassem a milhões de lares ao redor do planeta. Esta dissertação, de caráter eminentemente historiográfico, tem por objetivo examinar a relação entre a tradução/localização e os videogames desde seu início até os dias de hoje. Além disso, pretende também, por meio da análise de alguns jogos, traçar um panorama acerca de como se dá esta relação sob o contexto brasileiro, abordando as características e especificidades que a localização de games tem apresentado no Brasil ao longo do tempo. A análise desses jogos está fundamentada sob duas perspectivas: a) uma perspectiva histórica, em que se buscará situar as épocas em que foram lançados às etapas de evolução dos videogames e sua relação com a tradução/localização em cada momento; e b) uma perspectiva descritiva, em que se realizará uma análise dos aspectos acerca da tradução/localização observados nesses jogos, fundamentada sob as bases teóricas utilizadas nesta dissertação: o conceito de domesticação/estrangeirização (Venuti, 1995), a teoria funcionalista do Skopos (Vermeer, 1986) e o conceito de Gameplay Experience (Souza, R.V.F., 2014).
2015
Ricardo Vinicius Ferraz de Souza
A tradução na espiral de posições enunciativas em Feux, de Marguerite Yourcenar, e Fires, por Dori Katz
Diferentemente das linhas adotadas por um bom número de trabalhos em Estudos da Tradução que têm por objetivo uma análise crítica de tradução ou uma tradução comentada, nosso projeto busca tratar a tradução, mais especificamente a tradução literária, não como um objeto em si, mas como parte integrante do processo de construção de uma obra. Para tanto, nosso pressuposto é a noção aristotélica de ato e potência. A nosso ver, a gênese da tradução literária, como potência, coincide com o início da escritura da obra, como ato, ou seja, a tradução literária é inerente à obra em estado virtual, como um ser em devir, podendo ou não vir a se materializar como obra traduzida. Sob essa ótica, acreditamos que toda e qualquer análise de tradução literária envolva um mergulho não apenas no contexto de sua produção e em seu produto final, mas também nos elementos que envolvem a produção da obra de partida. Baseando-nos nas noções de Dominique Maingueneu (2001) a respeito do contexto da obra literária e no alicerce linguístico em enunciação oferecido por Émile Benveniste (1976), pudemos associá-los a outras importantes contribuições, como os conceitos de posição tradutória, projeto de tradução e horizonte do tradutor propostos por Antoine Berman (1995) que, se observados relacionalmente dentro de cada espaço de negociação que constitui todo processo tradutório em suas diversas etapas, pressupõem necessariamente uma esfera ética. Ao adotarmos a noção proposta por Maurício Mendonça Cardozo (2007), baseando-se em Henrique C. de Lima Vaz (2015), que traz o conceito da palavra ética originalmente como lugar, podemos entendê-la como sendo a consciência da posição que se ocupa em uma dada relação o lugar de onde se fala e para quem se fala , oferecendo, assim, campo fértil para pensarmos efetivamente a ética da tradução como práxis e projetá-la em termos bermanianos. Sob esse arcabouço teórico, a questão das posições enunciativas emerge de maneira fundamentada para uma análise do caso específico da tradução Fires (1981), por Dori Katz, a partir da obra Feux (1936), de Marguerite Yourcenar, em que diversas são as variáveis, que não a relação isolada entre tradutor e texto de partida. Em Feux-Fires, aquilo que chamaremos de uma espiral de posições enunciativas compõe um quadro bastante particular em tradução literária.
2017
Mônica de Meirelles Kalil Godoi
Uma tradução estrangeirizante comentada dos neologismos de dobretes no Tutunamayanlar de Oğuz Atay vistos sob o ponto de vista da Revolução Linguística Turca
Este trabalho discute os neologismos usados na obra modernista da literatura turca, Tutunamayanlar, de Oğuz Atay (1934-1977). Tais neologismos devem ser entendidos sob o pano de fundo da revolução linguística que teve início na década de 30 na Turquia, e que, em poucos anos, alterou substancialmente a língua turca. O autor faz uma crítica dos excessos dos reformadores turcos através da paródia de neologismos virtuais, não-dicionarizados. Após análise etimológica e morfológica do neologismo, além do cotejo com as duas traduções da obra turca existente, a saber, em holandês e alemão, sugeriremos um neologismo equivalente em português, com base nas técnicas de criação de palavras usadas por tradutores como Haroldo de Campos e Odorico Mendes, além de escritores como Guimarães Rosa. Dentre tais técnicas, demos ênfase à busca da etimologia, preconizada por Campos em suas traduções, como na do Qohélet, e o recurso ao latim e o grego clássico para cunhar palavras, e a diversidade dos neologismos criados por Rosa em suas obras. Os neologismos sugeridos pretendem reproduzir em língua portuguesa um impacto de estranheza semelhante ao causado no leitor turco, ou seja, a força motriz por detrás da criação dos neologismos é o estrangeirismo, que tem como objetivo fazer com que essas palavras atraiam atenção para si.
Direito das mulheres e injustiça dos homens: a tradução utópico-feminista de Nísia Floresta
Nísia Floresta foi a primeira escritora brasileira a dedicar-se aos estudos de gênero no Brasil. Ela publicou seu primeiro livro em 1832, supostamente realizando uma tradução livre de Vindication of the rights of woman (1790), de Mary Wollstonecraft, conforme apontam diversos artigos e livros sobre o assunto, inclusive o próprio livro que ela publicou. Essa informação foi posteriormente dada como errônea ao descobrir-se que ela realizou uma tradução de Woman not inferior to man (1738), de Sophia. Tendo essas questões em foco e por haver pouca literatura voltada às análises das questões de tradução envolvendo essa importante publicação, é que se justifica a realização desta pesquisa. Este trabalho teve como objetivo analisar, por meio das teorizações de análise do discurso de Norman Fairclough (2004) e de tradução de Christiane Nord (2016) a tradução de Nísia Floresta sob a ótica do movimento feminista. Como resultados, tentou-se encontrar justificativas para os fatos anteriormente citados, por meio de levantamento de hipóteses, acerca da publicação de Nísia Floresta, bem como contribuir com os estudos sobre feminismo no Brasil e pesquisas sobre a importância de Nísia Floresta para o referido movimento.
Don Juan de Lord Byron: tradução integral, comentário e notas
Esta tese descreve a experiência da primeira tradução integral poética e anotada de Don Juan de Byron à língua portuguesa ocorrida durante o período de 2009 a 2019. Encontram-se aqui, desse modo, original e tradução de cerca de dezesseis mil versos na mesma estrutura estrófica, e grande quantidade de notas enciclopédicas e tradutórias, o que demandou estudos sistemáticos também apresentados como mapeamento do caminho e procedimento adotados pelo tradutor, dando origem ao projeto tradutório, baseado em teorias de Walter Benjamin e Antoine Berman, de certo modo estrangeirizante e em diálogo com as perspectivas da tradução em contexto pós-colonial, sendo expostas em detalhe as nuances de seu processo, produto e função na cultura de chegada. Para serem estabelecidas tais diretrizes, foi necessário analisar as traduções do corpus efetuadas por outros dez tradutores, que serviram assim como arquétipos e protótipos, exigindo por sua vez um levantamento prévio dos principais aspectos do corpus, do original enquanto obra a ser traduzida, como do mito de Don Juan, das camadas semânticas e formais, da voz narrativa e do gênero da sátira menipeia, porém como o Romantismo testava inclusive os limites entre vida e obra, precisou-se ainda entender exatamente o contexto em que se deu a criação do corpus, bem como mapear com precisão a influência, geralmente através da tradução, da obra e mito byronianos na literatura brasileira.
2020
Lucas de Lacerda Zaparolli de Agustini
\"What mouse, George? I ain\'t got no mouse.\": traduzindo marcas de oralidade em Of Mice and Men de John Steinbeck
A presente dissertação tem como objetivo apresentar uma proposta de tradução em português brasileiro para marcas de oralidade encontradas nas falas das personagens da novela de John Steinbeck Of Mice and Men. O corpus escolhido são as duas primeiras partes e a quarta parte, pois nelas estão as personagens. O aporte teórico está fundamentado na área de Estudos da Tradução, mais precisamente nas discussões propostas por Lawrence Venuti sobre estrangeirização, Antoine Berman sobre deformações e Umberto Eco com perdas e ganhos e negociação, além dos embasamentos de Hudinilson Urbano, Milton Azevedo e Gillian Lane-Mercier sobre socioleto literário e oralidade na literatura. Falas cotidianas das pessoas nas ruas serviram de inspiração para apresentarmos uma tradução de marcas de oralidade que não fosse muito caricata e visualmente poluída com sinais gráficos, e ao mesmo tempo para tentar manter a verossimilhança com o efeito de sentido no leitor ao ler um texto em que se possa reconhecer traços de discurso oral. Para isso recursos gráficos que representasse a fala foram utilizados, assim como outros recursos para tentar transpor o texto oral na forma escrita.
2020
Ana Lúcia da Silva Kfouri
Um Bonde de Sucesso do Palco para a Tela: análise da transposição da peça Um Bonde Chamado Desejo para Filme
Este trabalho apresenta uma análise da transposição da peça Um Bonde Chamado Desejo, de Tennessee Williams, para o filme homônimo dirigido por Elia Kazan em 1951. A pesquisa se baseou na teoria de adaptação apresentada por Linda Hutcheon em seu livro Theory of Adaptation (2006) e também nos conceitos de reescrita e patronagem apresentados por André Lefevere (1945-1996) em sua obra Translation, Rewriting and the Manipulation of Literary Fame (1992) além das diferenças entre cinema e teatro, apresentadas nos livros Film and Theater (1936), de Allardyce Nicoll (1894-1976), e Theater and Cinema (1971), de André Bazin (1918-1958). A comparação não visou encontrar fidelidade com o texto fonte, mas sim identificar equivalentes semióticos cinematográficos usados para transformar em imagens o conteúdo e a expressão do texto escrito, tratando texto e filme como produtos independentes. No fim, os ajustes, as distorções, acréscimos, exclusões resultantes do fenômeno tradutório são apresentados.
2020
Augusto Cezar Alves dos Santos
Uma análise da linguagem da tradução presente em relatórios de sustentabilidade à luz dos estudos da tradução baseados em Corpus
Milhares de empresas ao redor do mundo publicam anualmente relatórios de sustentabilidade, documentos que divulgam o desempenho econômico, ambiental, social e de governança da organização. Segundo dados de 2014, do relatório Spotlight on corporate transparency: Insights from GLOBE 2014, da empresa de auditoria KPMG, mais de 5.000 empresas em 88 países elaboram esses relatórios seguindo as diretrizes GRI Global Reporting Initiative (KPMG, 2014, p. 4). Frequentemente, tais relatórios são elaborados na língua oficial do país em que as empresas estão instaladas (língua de partida) e traduzidos para o inglês (língua de chegada). O objetivo desta pesquisa é analisar a linguagem da tradução presente em relatórios de sustentabilidade que seguem o padrão GRI para identificar os principais traços típicos da tradução, tais como explicitação, simplificação e normalização, seguindo o arcabouço teórico de Baker (1993, 1995, 1996). Como objetivo secundário visamos identificar os principais termos e expressões desse modelo de relatório em português e seus equivalentes em inglês, para a compilação de uma proposta de glossário bilíngue na direção português-inglês. O estudo foi feito principalmente por meio dos Estudos da Tradução Baseados em Corpus e da Linguística de Corpus, utilizando um corpus paralelo, com 10 documentos coletados da internet em português com as respectivas traduções para o inglês, e dois corpora comparáveis bilíngues, com um total de 30 documentos em português e outros 30 escritos em inglês. Em relação ao objetivo principal, notamos que, embora os documentos originais e as traduções do corpus de estudo sejam bastante semelhantes, isto é, apresentem o mesmo número de páginas, o mesmo layout e, aparentemente, o mesmo conteúdo em cada página, foi possível notar traços de explicitação, simplificação e normalização na linguagem traduzida.
Tradução de poesia infantil e sua recepção via Pensar Alto em Grupo: \"As meninas\" e \"O menino (azul)\", de Cecília Meireles
Centrado no campo dos Estudos da Tradução em confluência com o campo da Educação, este trabalho visou investigar, diretamente com as crianças leitoras, a recepção de poemas infantis traduzidos para o inglês, e contrastá-la à recepção dos respectivos poemas fonte, escritos em português, valendo-se, para a geração de dados, da prática de letramento Pensar Alto em Grupo (ZANOTTO, 2014). Os poemas fonte, \"As meninas\" e \"O menino azul\", pertencem à coleção de poemas Ou isto ou aquilo (1964), de Cecília Meireles. As versões para o inglês foram elaboradas pela pesquisadora, e pela poeta e tradutora britânica Sarah Rebecca Kersley, aplicando critérios que privilegiam a correspondência de atributos poéticos entre poema fonte e traduzido (BRITTO, 2002; 2005; 2010). O contraste entre as recepções fez-se com base nas interpretações infantis: cada poema fonte foi \'pensado-alto\' por dois grupos de crianças brasileiras e cada poema traduzido por dois grupos de crianças estrangeiras. Do lado brasileiro, crianças de 9 a 11 anos, matriculadas na EMEF Vera Lúcia Fusco Borba (São Paulo); do lado estrangeiro, crianças da mesma idade, matriculadas no correspondente Y5 das escolas inglesas Thriplow Primary School (Cambridge) e King David Primary School (Birmingham). No que concerne à Educação, este estudo contribuiu para confirmar a aplicabilidade do PAG como instrumento para promover a leitura de poesia no Ensino Fundamental I. No que concerne aos Estudos da Tradução, este estudo permitiu afiançar o PAG como ferramenta de apoio a tradutores e a estudiosos da tradução, em especial aos de literatura infantil e/ou aqueles voltados à recepção. Ao comparar as interpretações, foi possível apontar convergências de leituras entre os diferentes grupos, sugerindo que o horizonte de expectativas das crianças, no que concerne os valores afetivos na esfera doméstico-familiar é muito semelhante dentro de uma mesma cultura e também entre diferentes culturas. Foi possível também apontar divergências entre as interpretações, e distingui-las em pelo menos dois tipos: 1) aquelas motivadas pela ancoragem linguístico-cultural, a saber, os diferentes ambientes histórico-geográficos, em conjunto com a história de vida dos participantes, seu conhecimento de mundo, além do \"horizonte de expectativas\" dos leitores em face de uma nova obra (JAUSS, 1994 [1967]); e 2) aquelas provocadas por interferências na tradução e que, mesmo quando aparentemente inofensivas, podem provocar o popular \"efeito borboleta\" (ASLANOV, 2015) descrito na Teoria do Caos. Assim, no plano específico, a par dos dados gerados pelo PAG, o tradutor pode fazer escolhas mais conscientes e éticas. E num plano mais amplo, o estudioso pode se deparar com resultados que comprovem teorias já existentes ou apontem para novas hipóteses, novos caminhos.