Repositório RCAAP
Sabedoria na Bíblia hebraica: uma breve introdução ao gênero literário sapiencial
O conceito de sabedoria bíblica como corpus, tema ou estilo costuma ser aplicado livremente à leitura da Bíblia Hebraica. Ao mesmo tempo, estudiosos admitem a falta de precisão para a eleição daquilo que deveria ou não compor um tema ou estilo sapiencial, tanto para a análise do texto bíblico quanto para os estudos comparados. Este trabalho apresenta uma breve introdução às abordagens acadêmicas que pretenderam reconhecer a sabedoria bíblica como um gênero literário, enfatizando suas peculiaridades em termos de forma e conteúdo a fim de distingui-la de outros discursos encontrados na Bíblia Hebraica. Além disso, a pesquisa também expõe como os estudos comparados aplicaram os conceitos elaborados por biblistas para a compreensão da sabedoria no Antigo Oriente Médio.
Judaísmo messiânico no Brasil e seus instrumentos de legitimação: e reinvenção do judaísmo ou uma nova religião?
Essa tese teve como objetivo estudar o judaísmo messiânico no Brasil, abordando seu histórico desde o seu surgimento na Inglaterra até a sua chegada ao Brasil em meados do século XX, além das suas estratégias de legitimação através de seus rituais e da sua interpretação da Bíblia Cristã, particularmente das Cartas de Paulo de Tarso. Foram pesquisadas as diversas sinagogas judaico-messiânicas brasileiras, assim como as suas associações representativas. O questionamento essencial desse trabalho é procurar compreender o lugar do judaísmo messiânico dentro do atual panorama religioso brasileiro
2014
Deborah Hornblas Travassos
Kaminos de Leche i Miel: um olhar sobre os modos, os costumes e a memória de mulheres da comunidade sefaradita de São Paulo
O presente estudo descreve o relato de mulheres da comunidade sefaradita de São Paulo a respeito de sua trajetória familiar, memória e prática do idioma judeu-espanhol e da cultura em seu entorno. Herança de uma tradição milenar cujas origens remontam à presença judaica na Península Ibérica sob o Império Islâmico, foi um dos poucos elementos carregados na bagagem após a expulsão dos judeus sefaraditas pelos Reis Católicos em 1492. Esta cultura se solidificou na nova pátria sob o Império Otomano na região dos Bálcãs e Turquia e foi transmitida através das gerações predominantemente no ambiente doméstico, guardando forte relação com o universo feminino, que distante da prática religiosa formal em hebraico criou seu próprio sistema de ritos na língua vernácula judaica. Enfrentando uma segunda diáspora após a derrocada do Império e principalmente após a Segunda Guerra Mundial, uma parte desta população estabeleceu-se na cidade de São Paulo, constituindo uma minoria dentre a comunidade judaica local. A fim de praticar o idioma e os costumes de seus antecessores, um grupo de mulheres se reuniu mensalmente entre os anos de 1992 e 2013, mantendo viva esta memória e preservando seu legado para as novas gerações
O marranismo e a poesia de João Pinto Delgado, autor de \'À saída de Lisboa\'
O presente trabalho configura uma abordagem de um subtipo do corpus da literatura da diáspora sefaradita ocidental. Trata-se de obras escritas em espanhol e português por autores de origem judia, mas que viveram como cristãos nominais por duas ou mais gerações, em função da perseguição inquisitorial. Uma vez reinseridos no judaísmo, teria sido imperativo aos ditos conversos ressignificar sua identidade. Para o fazerem, estes se serviram, entre outros instrumentos, da literatura. Neste sentido, o poema A La Salida de Lisboa, escrito em espanhol na Holanda do século XVII pelo português João Pinto Delgado, teria constituído uma ferramenta na busca pela reconstrução da identidade judaica do autor, como de seus pares. Tal reconstrução não se daria sem que fossem eliciados elementos próprios à cultura ibérica inquisitorial, incluindo as noções de nobreza e pureza de sangue, identificáveis na obra.
A serpente na narrativa de Gênesis 3: interpretações e tradições judaicas na Antiguidade
Na Bíblia Hebraica, a narrativa de Gênesis 3 apresenta a queda da humanidade por intermédio da tentação da serpente. A pesquisa tem como objetivo o aprofundamento do estudo do papel da serpente em um episódio que representa, segundo a Bíblia, o início da história humana. Nossa análise foi conduzida levando em conta a literatura judaica da Antiguidade, por meio dos documentos não rabínicos. Estudamos, então, a figura da serpente e a narrativa da \"Queda\" presente no livro pseudoepígrafo de Jubileus, no livro deuterocanônico de Sabedoria, nas obras do filósofo Fìlon e do historiador Josefo, além dos livros da literatura apocalíptica Apocalipse de Abraão, 2 Henoc e 3 Baruc, e das recensões de Vida de Adão e Eva. Assim, apresentamos um conjunto de interpretações judaicas sobre a serpente de Gn 3, para uma melhor compreensão dos fundamentos das tradições correlatas à essa figura que permeia o imaginário da humanidade até os dias atuais. A figura da serpente foi interpretada de diversas maneiras ao longo do tempo, ora como animal e ora como o próprio Satan, o Adversário de Deus. Mapeamos essas diferentes perspectivas e apresentamos algumas considerações gerais sobre o contexto na qual foram tecidas.
2021
Christiane Tavares Ferreira da Silva
Próximos e distantes: um estudo sobre as percepções e atitudes da comunidade judaica paulista em relação ao Estado de Israel (2006-2010)
Contradizendo os pressupostos iniciais do sionismo, após pouco mais de 60 anos da fundação do Estado de Israel, a vida judaica na diáspora não findou, e foram desenvolvidos novos padrões de relacionamento entre as comunidades judaicas e o Estado de Israel. O presente trabalho analisa percepções e atitudes da comunidade judaica de São Paulo. Buscou-se verificar o modo como esta comunidade elabora, confere significado simbólico e prático e mantém o vínculo à distância com Israel por meio de suas principais instituições. Para isso, foram analisadas notícias, editoriais e artigos do jornal Tribuna Judaica ao logo de um período de cinco anos de janeiro de 2006 a dezembro de 2010. Também foram realizadas entrevistas semiestruturadas com dirigentes das entidades judaicas mais importantes e com representantes do Estado de Israel. Verificamos que os vínculos entre a comunidade judaica de São Paulo e o Estado de Israel são organizados e mantidos por um núcleo institucional relativamente pequeno, e reforçados por representantes do governo israelense que, periodicamente, visitam o Brasil. Para a comunidade judaica de São Paulo, viagens a Israel de curta ou longa duração também são importantes na aproximação com o país. Constatamos ainda que o vínculo com o Estado de Israel tornou-se parte indissociável da identidade da maioria dos judeus. Porém, verificamos que a percepção comunitária sobre o Estado de Israel é marcadamente idealizada, mítica, e anacrônica. Idealizada e mítica, pois está distante da realidade empírica apresentada em pesquisas desenvolvidas por historiadores, sociólogos, antropólogos, cientistas políticos e jornalistas daquele país. Anacrônico, pois a sociedade israelense é concebida como aquela de outrora, pré-quebra de consensos do sionismo hegemônico, formulado e cristalizado pelas elites ashkenazitas até a década de 1990. Disputas e conflitos internos, notadamente étnicos e religiosos, cada vez mais acirrados, são minimizados, assim como a herança dos judeus de origem oriental, de outros imigrantes judeus e não judeus e da população árabe nativa na formação da identidade israelense atual. Podemos destacar também que, apesar de o Brasil não apresentar tradição antissemita, o fato de grande parte dos membros da comunidade judaica brasileira atual serem refugiados ou descendentes de refugiados, isto é, marcados por memórias de perseguição e fuga no passado, como o é também a própria história judaica, faz com que o presente seja encarado com desconfiança e incerteza. O Estado de Israel é visto como um porto seguro contra o antissemitismo e, portanto, sua defesa nos fóruns políticos e diplomáticos locais adquire contornos de uma luta pela sobrevivência individual (de cada judeu) e coletiva (do povo judeu), não importando se os judeus estão na diáspora ou no Estado de Israel. Finalmente, percebemos que se, por um lado, a comunidade judaica possui laços fraternos com o Estado de Israel, por outro, não deixa de desenvolver sentimentos nacionalistas em relação ao Brasil ou de se integrar no sistema de poder local.
O processo de canonização da Bíblia Hebraica: sua história, critérios e consequências
O presente trabalho pretende traçar o percurso diacrônico da formação e da fixação do cânon da Bíblia Hebraica, dando especial atenção às teorias e hipóteses que, no passado, foram aventadas e, modernamente, rechaçadas e substituídas por outras. A hipótese tradicional acerca da formação do cânon da Bíblia Hebraica de acordo com a qual três estágios diferentes poderiam ser destacados ao longo do processo que culminou na formação da antologia sagrada dos judeus, de forma que cada um deles equivaleria ao momento de canonização de uma das três seções em que se divide a Bíblia Hebraica (Lei, Profetas e Escritos) será apresentada, assim como as críticas modernas que diversos pesquisadores têm dirigido contra ela, propondo novas formas de entendermos a gênese do cânon bíblico. Esta dissertação trata, pois, dos escritos que viriam a compor o corpo canônico de textos que ficaria conhecido, na tradição judaica, como Tanakh ou, na cristã, como Antigo (Primeiro) Testamento. Não faz parte de nosso escopo o estudo de outros cânones sagrados, mesmo aqueles que, de maneira evidente, tenham se originado a partir do cânon judaico. O processo através do qual certos livros, em detrimento de outros, foram incorporados à compilação de escritos sagrados será evidenciado, e a existência de variações entre os cânones de diferentes grupos religiosos não será discutida, embora a sua menção seja necessária. Dado o crescente desenvolvimento dos estudos bíblicos, faz-se necessário que, de maneira semelhante, os estudos de base adolesçam, isto é, que também se desenvolvam os metaestudos da Bíblia, cujo objetivo precípuo não é lê-la ou interpretá-la, mas se debruçar sobre a sua forma final e explicitar os processos e os mecanismos que a fizeram ter a configuração com que chegou a nós. Por fim, as consequências hermenêuticas advindas do fechamento do cânon da Bíblia Hebraica serão apresentadas.
Os Entes Silenciosos da sociedade israelita segundo o Deuteronômio
Esta pesquisa tem como objeto Os Entes Silenciosos da Sociedade Israelita segundo o Deuteronômio. E com quê esse objeto tem a ver? A pesquisa será desenvolvida a partir do livro de Deuteronômio e mirará àqueles que estão em silêncio dentro do livro. São eles: o pobre, a viúva, o órfão, o estrangeiro, o levita, o escravo e a escrava. No desenvolvimento da pesquisa, notou-se que todos eles poderiam ser colocados sob a nomenclatura de pobre. E, de fato, todos eles são pobres. Mas o redator emprega as palavras para pobre para designar um homem que, mesmo que estando em situação econômica degradada, ele ainda é livre, e, em determinado momento de sua vida, pode até optar por se tornar um escravo de um irmão. Também, percebeu-se que há quatro personagens que, quase sempre, aparecem juntos. Esses são aqueles que são chamados pelas palavras: viúva, órfão, estrangeiro e levita. Diante disso, a pesquisa foi desenvolvida da seguinte forma: o capítulo inicial, onde se faz o levantamento das palavras que ocorrem dentro do Deuteronômio, e no qual se faz algumas observações iniciais. O segundo capítulo buscará entender as palavras para pobre que ocorrem dentro do Deuteronômio. Notar-se-á aqui que elas apontam para um irmão israelita e que legislação será feita para que o tu/vós, a quem se dirige o redator do livro, aja em obediência a fala de seu Deus e seja benigno com o seu irmão empobrecido. O capítulo termina com um tratamento de Moisés como um personagem que foi identificado com os Entes Silenciosos do Israel antigo. O terceiro capítulo será desenvolvido com os Entes Silenciosos que aparecem, comumente, juntos. Eles são considerados estrangeiros por sua condição de desarraigamento. Eles não possuem propriedade. Mas existem dentro da propriedade do tu/vós. A pesquisa também desenvolverá um entendimento do dízimo do terceiro ano. O quarto capítulo trata dos escravos e escravas. A legislação deuteronômica fará uma distinção entre os escravos e escravas que são de Israel e os que não o são. O ano da libertação dos empobrecidos e dos escravizados será tratado, em sua segunda parte, pois, a primeira fora tratada no capítulo 2.
2015
Pedro Evaristo Conceição Santos
O holocausto como tema nos livros didáticos brasileiros: realidades e alternativas
O Holocausto como Tema nos Livros Didáticos Brasileiros. Realidades e alternativas, orienta-se, em sua totalidade, para dois momentos: o da análise e o da proposta. No primeiro momento, o da análise, o estudo buscou definir, em primeiro lugar, de que maneira os livros didáticos abordam o tema, principalmente no que se refere ao protagonismo dos judeus como alvo de um genocídio sem precedentes na história da humanidade. Ao mesmo tempo, a atenção concentrou-se na presença de elementos que, muitas vezes, com o intuito de descomplicar, facilitar ou popularizar o ensino do Holocausto, resultam em sua banalização. Por último, a análise apontou a verificar a existência de elementos de instrumentalização no contexto do discurso do antissemitismo contemporâneo ou antissionismo. No segundo momento, o da proposta, apresentamos um projeto-piloto para o desenvolvimento de materiais através dos quais a história do Holocausto é contada com base no testemunho de um sobrevivente radicado no Brasil. Para tal fim, utilizamos entrevistas feitas no âmbito do Projeto Vozes do Holocausto, do Núcleo de Estudos Arqshoah/LEER/USP. Com base nos testemunhos, buscamos estabelecer a simbiose com fatos, documentos, personagens e lugares históricos. Dessa maneira, aos dizeres das testemunhas, enlaçaram-se os saberes da historiografia de modo a estabelecer um diálogo que tenta devolver às vozes dos sobreviventes ao menos parte do protagonismo que, como pudemos detectar na fase de análise, encontra-se ausente nos livros didáticos.
A lente judaica de Saul Bellow em Herzog
Esta pesquisa de mestrado tem como o objetivo analisar os aspectos judaicos do romance Herzog, de Saul Bellow (1915-2005), buscando compreender a função de tais elementos na obra. Por elementos judaicos, entende-se não apenas a citação de elementos religiosos, históricos, costumes e personagens judeus como a presença de um pensamento embasado na tradução judaica. Parte-se da hipótese de que, não sendo um romance centrado na discussão do judaísmo em si, Herzog tem o judaísmo como uma lente através da qual Moses, protagonista do romance, enxerga o mundo e o analisa. O ponto de partida para a análise dessa lente judaica é a noção judaica de temporalidade, em que o indivíduo absorve em sua identidade o passado de seu povo, no caso dos judeus desde os remotos tempos bíblicos até os eventos do século XX, aliada ao constante sentimento de exílio, que coloca Moses na eterna posição de não-pertencimento. Dessa forma, Saul Bellow constrói, ao mesmo tempo, um romance enraizado na tradição judaica, mas que consegue dialogar com a sociedade mais ampla e com o seu tempo, na medida que Moses Herzog, em seu momento de crise e reflexão profunda, confronta não apenas seu histórico e sua identidade, mas principalmente o mundo à sua volta e suas bases intelectuais, ou seja, o círculo acadêmico e a vida nas metrópoles norte-americanas.
Um nome que faz toda diferença: análise literária de Gênesis 32,23-33
Esta tese tem por objetivo analisar a perícope de Gênesis 32,23-33 que constitui um dos elementos estruturantes do conhecido ciclo de Jacó que integra a história dos patriarcas de Israel na Bíblia Hebraica. Jacó é tomado como um dos principais ancestrais do povo judeu, não obstante sua tradição, em alguns períodos da história, ter ficado em plano inferior àquela de Moisés, por exemplo. Em Jacó convergem as esperanças de uma parte da nação que não se vê contemplada pela religião oficial que administra um culto a YHWH distante da realidade vivida pelas famílias tribais, que habitam no interior, em pequenos vilarejos e no campo. O nome dado a Jacó, em meio a uma luta, é significativo e revelador. Afinal, ele não é, nem de longe, a figura perfeita, ideal que as tradições religiosas dominantes exigiam para alguém ser considerado um verdadeiro israelita temente ao Senhor. Sua liderança e dignidade chegam, mesmo, a ser questionadas pelo profetismo. Não obstante tudo isso, é sua pessoa que encarnará, através de um nome recebido do próprio ser divino, os destinos de Israel. Personagem e indivíduo se mesclam propositalmente, a fim de revelar a verdadeira vocação daquele povo.
2017
Telmo José Amaral de Figueiredo
Uma introdução geral à poesia hebraica bíblica
Ao lidar com uma parte considerável da Bíblia Hebraica, o leitor precisa estar a par do que é Poesia Hebraica Bíblica, suas características, peculiaridades e nuances a fim de entender e apreciar o texto. Mas como os Hebreus não deixaram nenhum manual de poética, o debate sobre a poesia da Bíblia Hebraica envolve desde sua presença no texto até suas características gerais e específicas. No presente trabalho, apresenta-se uma breve discussão sobre a Poesia Hebraica Bíblica no cenário acadêmico atual. Também são expostas as características dessa poesia, com ênfase no paralelismo.
2012
Edson Magalhães Nunes Júnior
\'À semelhança de homem e mulher\': um estudo sobre a representação humana em Dura Europos à luz do interdito bíblico
Este trabalho apresenta as conclusões de nosso estudo sobre a representação humana nos afrescos da sinagoga de Dura Europos, datada do século III EC, na Síria, à luz do interdito bíblico do Decálogo (Ex 20, 4-5; Dt 5, 8-9) onde se estabelece que os israelitas não devem fazer para si imagem de escultura, e reiterado pelo versículo Dt 4,16, onde se afirma que os israelitas não devem fazer alguma imagem esculpida na forma de ídolo, semelhança de homem e mulher. Inicia-se explicando o significado desse interdito e como ele se apresenta nos livros da Bíblia Hebraica que abordam a questão da confecção de imagens e idolatria. A análise dos textos bíblicos e da bibliografia de referência sobre o tema possibilita inferir que o interdito não proibia a confecção de todo tipo de representação humana, mas somente aquelas fabricadas para adoração. Segue-se a essa análise uma contextualização da representação humana pelos israelitas na Antiguidade, desde o período pré-monárquico até o século III EC, o século em que a sinagoga de Dura Europos é construída e adornada com afrescos representando cenas bíblicas. O objetivo é criar uma conexão entre o interdito da Bíblia Hebraica e a história judaica, que levou ao desenvolvimento de um conjunto de sinagogas no final desse período, no qual Dura Europos está inserida, nas quais encontramos a representação humana na forma de afrescos em paredes ou pisos mosaicos. A pesquisa bibliográfica sobre os vestígios arqueológicos do período demonstra que os israelitas produziram tanto as imagens permitidas como aquelas consideradas interditas e sofreram influências externas que levaram à concepção da sinagoga de Dura Europos. Por último, formulamos uma apresentação dos afrescos dessa sinagoga e procuramos verificar qual o significado que os estudiosos atribuíram a eles. A partir dessa análise foi possível concluir que a representação humana nos afrescos da sinagoga de Dura Europos não contrariava o interdito bíblico, pois não tinha propósito de adoração, e sim uma finalidade didática. A intenção era transmitir um ensinamento e reforçar a identidade da comunidade judaica a partir da reprodução de cenas que retratavam a história da salvação israelita. A rememoração dos momentos gloriosos do passado visava criar expectativas positivas sobre o futuro, mediante uma situação presente preocupante em relação à sobrevivência da comunidade judaica de Dura Europos e do judaísmo em si.
2015
Karina Santos de Oliveira
Mashal rabínico ou parabol? Parábolas dos Evangelhos à luz dos trabalhos de Paul Ricoeur e Yonah Fraenkel
Nesta tese, as parábolas dos Evangelhos são analisadas segundo o método de Yonah Fraenkel desenvolvido para os meshalim rabínicos. Esse método é baseado na teoria de Paul Ricoeur sobre a metáfora viva, que leva a considerar a parábola como uma narrativa metafórica e hermenêutica. Para a análise das quatro parábolas escolhidas, considera-se primeiro o texto aramaico dos evangelhos na Peshitá, a fim de evidenciar o arraigamento da parábola no seu contexto judaico. A análise prossegue com vários passos metodológicos: modelo de base, trama narrativa, relação mashal-nimshal, torsão da realidade, desvelamentos. Esses passos evidenciam a estrutura literária da parábola e a sua função hermenêutica. Ressonâncias com parábolas rabínicas da literatura talmúdica e midráshica são apontadas. Verifica-se assim a aplicabilidade do método de Fraenkel para as parábolas evangélicas. Percebe-se a necessidade de determinar um corpus de narrativas segundo vários critérios tais como relação à Escritura, narratividade, presença de elementos extravagantes. Um ponto principal diferencia o mashal rabínico da parábola evangélica: a possível presença de traços alegóricos nessa última. Esse dado é devido à diferença de contexto sócioreligioso e do processo na transmissão da parábola até ser posta por escrito. As grandes similitudes superam porém essas diferenças. A parábola hermenêutica dos evangelhos é de fato uma parábola rabínica.
2018
Pascal Jean André Roger Peuzé
Ideologia e gerações em Aharon Megued: estudo sobre a personagem do imigrante judeu e o nativo de Israel no início do estado
O conto Yad Vashem, do escritor israelense Aharon Megued, publicado em 1955, narra a história do avô Ziskind, originário da Ucrânia, que residia em Israel. Quando Ziskind soube que sua neta Raia estava grávida, pediu que ela desse para o filho que ia nascer o nome de Mêndele, caso fosse homem. A partir daí começa a discussão sobre a escolha de um nome típico da tradição europeia, defendido pelo avô, que se apresenta como um estranho para a família, ou um nome israelense, próprio de uma ideologia sionista, exigido pela neta. Esse conflito geracional revela uma crise de identidade profunda entre o imigrante e seus descendentes que se resume no choque entre o antigo e o novo, retratando as diferentes ideologias de um povo.
Itaboca, rua de triste memória: imigrantes judeus no bairro do Bom Retiro e o confinamento da zona do meretrício (1940 a 1953)
O Bom Retiro, conhecido como bairro judaico, tornou-se local de recebimento de imigrantes que tiveram na sua adaptação uma história de grandes sacrifícios, lutando contra preconceitos e estigmas. Um desses estigmas está relacionado justamente àquele território, por se tratar de uma região ocupada por imigrantes de origem humilde e ter a fama de abrigar mascates e prostitutas que na época eram popularmente conhecidas como polacas. Neste mesmo período, o bairro foi escolhido pelo interventor Ademar de Barros para confinar a Zona do Meretrício da cidade, que entre 1940 e 1953 ficou sob controle do Estado de São Paulo, revelando conflitos e resistências por parte da organizada comunidade judaica local. A principal rua que abrigava as casas de tolerância chamava-se Itaboca, mas, devido à má fama, após o fechamento da Zona, um projeto de Lei impôs a mudança de nome.
As formas verbais finitas do hebraico bíblico: qatal, yiqtol, wayyiqtol e weqatal e seus respectivos usos na narrativa e poesia bíblica
O sistema verbal do hebraico bíblico tem sido objeto de debate desde o início dos estudos gramaticais até os dias atuais. As conjugações de sufixo e prefixo, com ou sem a presença do waw prefixado (respectivamente, as formas verbais: qatal, yiqtol, weqatal e wayyiqtol) tomam uma parte central nesse debate devido à grande amplitude de significados que possuem na Bíblia Hebraica. A presente pesquisa propõe-se a apresentar as várias correntes teóricas acerca da interpretação do significado e relação dessas quatro formas verbais e também o uso das mesmas nos textos narrativos e poéticos da Bíblia Hebraica.
Jorge Amado e o Judeu
O objetivo desta tese de doutorado é verificar a presença judaica em textos diversos de Jorge Amado (1912-2001), sobretudo em romances, abrangendo suas duas fases, em articulação com sua leitura de mundo. Quanto ao método, a verificação se dá por meio de rastros/indícios do judeu na obra amadiana, considerando que a presença judaica em seus textos aparece mais como referência ou assunto do que personagem. O pensamento analógico é a tônica da tese. As reflexões têm como gatilho o rastro do judeu no texto, nas quais se articulam parte e todo, em mútua influência. Em relação aos resultados, a presença judaica nos trabalhos de Jorge Amado está ligada a um modo bastante monolítico de ver o judeu. Em geral, figuras judaicas são associadas à militância comunista, assim como se relacionam a um plano mítico/profético sobre o qual a cosmovisão amadiana também se assenta. A forma da obra de Jorge Amado, calcada em diálogo com expressões populares, guarda ecos da cultura judaico-cristã, com ênfase no pensamento escatológico e soteriológico. A conclusão é a de que o judeu no texto amadiano tem função metonímica, algo que se relaciona tanto com sua posição ideológica quanto com sua cosmovisão. Portanto, há um feixe de significados na presença judaica em Amado: de contestação à revelação.
Um estudo das ideias linguísticas em torno das אהוי no Hebraico de Abussahal (séc. X) até Abudiente (séc. XVII)
O objetivo da presente tese é identificar as ideias linguísticas que foram elaboradas em torno das אהוי no hebraico do Tanaḵ / תנ"ך a partir do momento em que elas emergem do comentário de Dunaš ibn Tamīm ʾAbū Sahl / דונש  אבן   תמים  אבוסהל (séc. X) ao Sēp̄er Yəṣirā / ספר יצירה até serem recebidas na Gramatica Hebraica (séc. XVII) de Moseh filho de Gidhon Abudiente que foi a primeira do gênero a ser impressa em língua portuguesa. Mais especificamente foi analisado: (a) o valor fonológico das אהוי nos verbos fracos e defectivos; (b) a interação das אהוי com as בגדכפת e com as letras restantes do alfabeto hebraico; (c) a sobreposição das vogais tiberienses às אהוי de acordo com a tradição andaluza; e (d) os homófonos. Foi demonstrado que as אהוי eram interpretadas como letras mudas, porém: (a) como Dunaš ibn Tamīm ʾAbū Sahl /  דונש  אבן  תמים  אבוסהל, em seu comentário ao Sēp̄er Yəṣirā / ספר יצירה, foi o primeiro a associá-las às mães da fala e qualificá-las como letras fracas; (b) como Mənaḥēm bēn Saruq /  מנחם  בן   סרוק no Maḥbereṯ Mənaḥēm /  מחברת  מנחם ofereceu as primeiras especulações linguísticas em torno das אהוי; (c) como um Saussure judeu, Ḥayyūj / 'חיוג elevou as ideias embrionárias de Mənaḥēm /  מנחם ao seu apogeu no Kitāb ʾal-Līn / כתאב   אללין; (d) como os Qimḥi /  קמחי, apesar de ampliarem e difundirem as conquistas alcançadas pelos linguistas andaluzes, tolheram a robustez das ideias linguísticas de Ḥayyūj / 'חיוג em suas respectivas obras o Sēp̄er Zikkārōn /  ספר  זכרון, o Sēp̄er Mahălaḵ / ספר  מהלך e o Miḵlōl /  מכלול; (e) como nos ensinamentos do Rabino Yiṣḥāq ʿUzziʾēl /  עוזיאל  יצחק  registradas no Maʿănēh Lāšōn /  מענה  לשון editado por Yiṣḥāq Neḥemiyāh /  נחמיה  יצחק e no Məleʾḵeṯ haDiqdūq /  מלאכת  הדקדוק de Aboab, as ideias linguísticas em torno das אהוי começaram a perder espaço para explicações baseadas na grafemática; e (f) como Abudiente na Gramatica Hebraica expandiu o emprego das explicações baseadas na grafemática diminuindo o protagonismo das אהוי.
Moacyr Scliar: diálogos entre memória e diáspora
Esta pesquisa objetivou investigar como se estrutura nos enredos de quatro romances de Moacyr Scliar o diálogo ambivalente entre a memória judaica e a diáspora brasileira. Nas obras escolhidas no corpus, foi verificada a presença comum de dois planos narrativos. Um deles se ancora no passado, possui dicção memorialista e documental, retrata a longa saga do povo judeu, ficcionalizada por intermédio de vários recortes históricos. Já o segundo plano narrativo relaciona-se a distintos contextos da diáspora. Este se desenvolve no tempo presente do discurso e apresenta uma cronologia gaúcha brasileira que transcorre em meados do século XX. A metodologia adotada averiguou a possível validade da seguinte hipótese: a mescla discursiva entre elementos da memória judaica e da diáspora brasileira é responsável pela produção de um discurso híbrido de caráter multicultural. Foi realizado também o cotejo entre diversos elementos intratextuais bem como os entre-lugares e hibridismos representados nos romances.