Repositório RCAAP

O testemunho como linguagem do indizível. Um objeto inobjetável e sua jurisdição de possibilidades a partir da escola fenomenológica de Jean-Luc Marion

A categoria testemunho tem alcançado nas últimas décadas um significado decisivo. Depois de um longo período de esquecimento emerge no âmbito eclesial, principalmente a partir do Concílio Vaticano II, como um instrumento de possibilidade de redescoberta da positividade da relação entre a Verdade comunicada e a liberdade responsiva. Nessa perspectiva, o testemunho pertence a ordem do mistério da liberdade humana. O presente artigo examina a categoria testemunho como linguagem do indizível, uma vez que, compreendido como linguagem, a categoria não se apresenta simplesmente como um argumento para a razão, mas portadora de “algo a mais” e indizível, capaz de dar sentido a uma vida que se entrega até às últimas consequências em uma plena liberdade. A reflexão, fundamentando-se na relação entre fenomenologia e teologia em Jean-Luc Marion, tem a responsabilidade de demonstrar que o testemunho enquanto linguagem do indizível excede em sentido e se manifesta como fenômeno saturado.

Ano

2020

Creators

Xavier, Donizete José

Love’s crossing through self-emptying language: Augustine of Hippo’s confessio and Adélia Prado’s mystical poetry

“Crossing” can be described as a displacement between two points, characterized by a starting point, a path and a point of arrival. In addition to the geographical, exterior voyage, crossing is a metaphor for the wandering heart in via, an inner journey. This work approaches two “boatmen” who propose the crossing of inner life, the 4th-5th century North-African theologian Augustine of Hippo and Brazilian poet Adélia Prado. Augustine and Adélia Prado use self-emptying language, confessio and mystic poetry respectively, to express their existential poverty. While Augustine crushes his pride through the vulnerability of confession, Adélia Prado uses poetic language as spiritual exercise to annihilate her ego. This self-emptying language is not only informative, but performative speech; it is the language that affirms finitude and vulnerability, opening the self to a journey of longing towards an alterity. The ultimate goal of humbling oneself in poetic vulnerability before the Mystery is to capture the dynamic invitation to love. Augustine’s confessional language and Adélia Prado’s poetry foster the passage from self-centeredness to a loving relational center. Adélia Prado can help us read Augustine not only as the doctor of Grace, but as “Doctor Humilitatis”, a reception clouded by centuries of theological discussion.

Ano

2020

Creators

Ribeiro Lin, Davi C.

A luta calada das horas: revelação e silêncio no “Sétimo Livro” (Седьмая книга) de Anna Akhmátova

Este trabalho visa refletir acerca do tema do silêncio no livro “Sétimo Livro” (Седьмая книга) da escritora russa Anna Akhmátova – desdobrando deste tema suas implicações religiosas e teológicas, o diálogo entre indizível e invisível bem como as relações que se estabelecem entre silêncio e o sagrado. Popular, ainda que censurada por décadas, Akhmátova foi importante na manutenção de certos motivos bíblicos e existenciais que foram suprimidos da “arte oficial” durante o regime bolchevique. Sendo assim, este artigo propõe, para fins de régua metodológica, levar a sério a densidade e relevância de sua obra poética e concebê-la também como expressão de linguagem religiosa. Por meio da análise do ambiente estético da “Era de Prata” russa, discutimos os ecos históricos e culturais que culminaram nas temáticas abordadas em “Sétimo Livro”. Propomos, ainda, que o paradoxo da “voz do silêncio” na tradição religiosa (e suas relações com o silenciamento social e político) é uma importante chave de leitura do silêncio na poesia de Anna Akhmátova.

Ano

2020

Creators

Sugamosto, Alexandre Araujo, Uriel Irigaray

Filosofia em zona de confronto: máscaras securitárias, desejos coloniais

O ensaio busca traçar algumas considerações críticas sobre a necropolítica racial de segurança pública em voga nas políticas de “governo da emergência”. Pretende-se rastrear nessas políticas de Estado os direcionamentos que, historicamente, justificam o genocídio anti-negro na diáspora, bem como as violações estruturais aos direitos humanos de segmentos, reiteradamente, desumanizados e lançados na zona do não-ser. A constatação que orienta o ensaio baseia-se no fato de que a produção do inimigo racializado tem operado de modo a legitimar a subjugação e o assassinato sumário de sujeitos marcados por estereótipos racistas e criminalizantes. Para isso, parte-se do arsenal analítico forjado por pensadoras/es comprometidas/os com a luta antirracista e que problematizam os impactos da colonialidade racista no padrão mórbido das relações raciais, sustentado pelo sistema de justiça criminal. Finalmente, para uma leitura crítica da “exceção desejada” no Brasil contemporâneo é preciso analisar os argumentos mobilizados por esses governos da emergência e as implicações político-jurídicas advindas desta paisagem permanente de guerra às drogas, ao terror e ao crime. 

Ano

2020

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Reis, Diego dos Santos

Crítica à Estadolatria: contribuições da filosofia anarquista à perspectiva antirracista e decolonial

A partir do conceito de epistemicídio (SANTOS, 2011), procuramos situar a colonialidade do saber sofrida pela filosofia anarquista e a perspectiva decolonial. O artigo aborda a importância da perspectiva de análise decolonial ao apontar o racismo como eixo estruturante da Modernidade. Com vistas a aumentar a eficácia da crítica decolonial, resgatamos alguns dos principais conceitos da filosofia anarquista. Objetivamos, assim, fazer confluir essas duas escolas interpretativas e mostrar que parte da crítica anarquista pode ser muito útil aos propósitos antirracistas. Para tanto, simultaneamente, apresentamos o significado de alguns conceitos importantes: anarquismo, colonialidade do poder, estadolatria, ação direta e autogoverno. Também articulamos as categorias de liberdade e de igualdade como centrais tanto para o pensamento anarquista quanto para o decolonial. A estadolatria unifica diferentes filosofias europeias, bem como o Estado foi uma das principais instituições responsáveis pela escravização, tortura e assassinatos de negros e indígenas.

Ano

2020

Creators

de Moraes, Wallace dos Santos

Os Signos Audiovisuais na representação do Invisível e do Indizível na animação The Day the Sun Danced: the true story of Fatima

Este artigo apresenta como os signos audiovisuais na animação The Day the Sun Danced: the true story of Fatima (2015) representam o invisível e o indizível das aparições do Anjo de Portugal e de Nossa Senhora, em Fátima, aos pastorinhos Lúcia de Jesus Santos (1907-2005), Francisco (1908-1919) e Jacinta Marto (1910-1920), nos anos de 1916 e 1917, valendo-se da noção de signo de Peirce (2010): aquilo que, sob certo aspecto ou modo, representa algo para alguém. A pesquisa parte da contextualização das aparições sob a ótica de alguns autores, entre eles: Bertone (2016), Meessen (2005), Pereira (2015), Ratzinger (2016), além do Catecismo da Igreja Católica (CIgC) para expressar como a animação, baseada em um documento do Padre Robert J. Fox (1927-2009), traduziu palavras em imagens e sons, processo este recorrente nas animações religiosas denominado de Tradução Intersemiótica (JAKOBSON, 1969): tradução do signo verbal, a literatura, para um sistema não verbal, como o audiovisual. Na análise, constata-se a simbologia presente na animação a partir de Chevalier e Gueerbrante (1986), de aspectos fílmicos, e da tradição em representar algumas formas e figuras do universo religioso.

Ano

2020

Creators

Berns, Diogo

La lucha por la vida: biopoder y biopolítica Una reflexión sobre experiencias comunitarias en México

Este artículo desarrolla las características del biopoder en la gubernamentalidad neoliberal -y en particular en México-. como forma de control y, sobre todo, de selección de la vida. En contraparte, propone que las experiencias de algunas comunidades autónomas de los pueblos indígenas de México, resisten de manera eficiente a esas prácticas construyendo alternativas de defensa de la vida. Analiza para ello los casos del Municipio Autónoma de Cherán K’eri y de la Coordinadora Regional de Autoridades Comunitarias (CRAC) para mostrar cómo sus formas de organización social y política protegen la vida humana, natural, social y cultural, configurando biopolíticas de protección de la vida. Frente a los biopoderes, que intenta dominar y seleccionar la vida, se crean biopolíticas capaces de protegerla.

Ano

2020

Creators

Calveiro, Pilar

Violência e história: o lebenswelt da política.

Esse texto retoma a crítica de Merleau-Ponty ao livro Zero e o Infinito, no qual o escritor Arthur Koestler denuncia a violência perpetrada pelo regime estalinista através da narrativa do julgamento do líder comunista Rubashov. Desse modo, analisando o debate que confronta a crítica de Merleau-Ponty à obra de Koestler e a retomada da interpretação trágica da história a partir do marxismo, sustentamos a presença ambígua do humanismo e do terror, da fatalidade e da universalidade como elementos estruturantes do lebenswelt da política.

Ano

2020

Creators

Falabretti, Ericson Sávio

O Desejo de Ver: Hilda Hilst e a redenção pelo grotesco

A partir de uma perspectiva teopoética, este artigo traça relações entre duas obras da escritora Hilda Hilst, a peça teatral O Rato no Muro (1967) e a novela Com os Meus Olhos de Cão (1986), localizando a compreensão do divino apresentada nestas narrativas sob a premissa de manifestações ligadas ao grotesco. Com a base inicial em teorias de Kayser (2003) e Bakhtin (1979), a respeito deste conceito estético, esta reflexão aprofunda sua análise por meio da teologia de Rudolph Otto (2007) e a categoria do Mysterium Tremendum. Por meio da experiência literária, Hilda Hilst oferta uma profunda compreensão do numinoso, na maneira como este se revela à humanidade, despertando o sentimento de criatura e ampliando a percepção com um desejo de ver além do que a realidade imediata permite. São interpretações que visam enriquecer os estudos teopoéticos na literatura brasileira, assim como a fortuna crítica em torno da obra de Hilda Hilst.

Ano

2020

Creators

Mendonça, Fernando de

A Evolução da Oração Judaica: Linguagem, Filosofia e Teologia

O material litúrgico judaico é fonte de estudos acadêmicos filológico-semióticos, literários, filosóficos, teológicos, históricos, antropológicos, bíblicos e talmúdicos. O presente artigo transita por esses territórios numa possível integração entre eles, principalmente dos aspectos literário e teológico com foco nos seguintes temas: 1) as rezas bíblicas anteriores ao culto estabelecido e seu caráter individual, criador, subversivo e generoso. Rezas que pedem a libertação dos adversários da punição recebida na disputa com o próprio orador e rezas que pedem para os rivais o que o próprio orador almeja para si. 2) A entrega dos sacrifícios em contraposição com a demanda das rezas e outras diferenças entre sacríficos e orações como a sublimação da oralidade e a violência da oferenda ou a semelhança de entregar o que não se possui a quem não precisa (Deus possui  e\ou é tudo e não precisa de nada). 3) Os desafios e as oportunidades da oração fixa e padronizada em contraposição ao culto espontâneo e individual bem como o impacto dos antropomorfismos litúrgicos: a reza do próprio Deus e as atualizações teológicas expressadas pelos talmudistas na literatura litúrgica a partir das tragédias históricas. 4) Significações psicológicas e teológicas medievais e contemporâneas do ato de rezar incluindo sistemas à beira do ateísmo.

Ano

2020

Creators

Sternschein, Ruben Gerardo

O invisível e o indizível: interfaces entre fenomenologia, religião, política e narrativas

v. 10, n. 21

Ano

2020

Creators

Falabretti, Ericson Sávio Silva, Marcos Carneiro Villas Boas, Alex Zeferino, Jefferson

Editorial

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Ano

2020

Creators

Manzatto, Antonio Leonel, João Lopes, Marcos

Nominata de Avaliadores 2020

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Tecnocracia como ordem política antinatural no romance O Fruto Do Vosso Ventre, de Herberto Sales

O presente artigo analisa o modo como o romance O fruto do vosso ventre, de Herberto Sales, publicado originalmente em 1976, representa esteticamente a estrutura e ações de uma tecnocracia autoritária num mundo distópico. A obra, dividida em três partes com estilos e formas diferentes, demonstra, de certo modo, como a gestão autoritária de uma sociedade serve-se da própria corrupção e empobrecimento da linguagem. Por meio disso, o romance narra uma gradual alienação coletiva, que se pauta tanto na usurpação das potencialidades comunicativas do ser humano quanto numa dinâmica social de desumanização. Em contraposição a essa alienação, no entanto, surge, ao longo da obra, uma narrativa teológica, de fundo messiânico, que transporta o ideal querigmático para um cenário moderno. Desse modo, busca-se investigar como o autor, a partir de suas experiências empíricas e políticas numa ditadura tecnocrática, transpõe para o plano estético as relações entre linguagem, autoritarismo, messianismo e teologia.

Ano

2021

Creators

Moraes, Fabrício Tavares

Persigo a un colibrí de la hermosura, lo sagrado en el espacio poético y el espacio poético como sagrado en Amelia Biagioni

Amelia Biagioni, poeta argentina nacida en 1916 y fallecida en el año 2000, es tan fundamental para la poesía argentina contemporánea como lo es para Portugal Sophia de Mello Breyner Andresen. Con el trabajo que aquí presentamos intentaremos realizar una pequeña introducción a su persona y a su obra, para luego ingresar en uno de los ejes que atraviesan su poesía, específicamente, el del camino poético-literario como espacio de encuentro con la belleza, con el otro (humano/ divino) y con la propia identidad, realidades que en Biagioni son fundamentales, pero nunca definitivas o preestablecidas. Al contrario, toda su poesía es movimiento, sed, y búsqueda en respuesta a un llamado vital, de una promesa que se torna fugitiva y huidiza. Para el análisis nos centraremos en su último libro publicado Región de fugas (1995), específicamente en uno de sus poemas "Al Rey sin fin" del cual surge el verso citado en el título de nuestro trabajo: "Persigo a un colibrí de la hermosura"

Ano

2021

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Falcón, Ana Rodriguez

“Busco el nacer de la luz…” Decir el desierto y la sed en la poética de Hugo Mujica

La poesía de Hugo Mujica, poeta argentino contemporáneo, nos sumerge en un espacio literario en el cual el silencio, el deseo, el desierto, la sed, el vacío perfilan un camino que conduce al acontecimiento del poetizar. Poeta del silencio que revela honduras de las cuales somos protagonistas, que oscilan entre paradojas: palabra-silencio, desierto y sed, luz y oscuridad, trascendencia e inmanencia, presencia y ausencia, que nos asoman al abismo de belleza y misterio del cual pendemos. La obra de Mujica está atravesada por lo sagrado como lo inaugural, la fuente que conduce al poeta-pensante a cavar hondo en lo más despojado, “allí donde la vida es la de todos, donde desnudos, somos todos un mismo rostro”.  Y su decir es testigo y fruto del diálogo con otros, entre ellos: Juan de la Cruz, el maestro Eckhart, Heidegger. Nos adentraremos en su espacio poético para volvernos escucha de esta hondura y descubrir la tensión que lo rodea, hacia el misterio de lo indecible.

Ano

2021

Creators

Campana, Silvia Julia

O espanto da luz e a inocência da carne - (a poesia de Sophia de Mello Breyner e de Adélia Prado)

Este texto procura aproximar e, mais ainda, fazer dialogar a poesia da portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen com a da brasileira Adélia Prado. Ambas são mulheres, casadas e mães de família.  Ambas escrevem em língua portuguesa, uma em Portugal e outra no Brasil.  Ambas levam em sua poesia a marca inegável da Transcendência e da aliança entre divino e humano. Sua experiência vital feita poesia, porém tem pontos de diferenciação estilística importante.  Enquanto Sophia é iluminada por um permanente deslumbramento com a beleza da criação e do mundo que a rodeia, Adélia é alguém cuja poesia reflete a consciência profunda da corporeidade, da carne.  A poética de Sophia é impregnada de natureza, sentimentos, odores, mitos. A de Adélia de desejo sexual, corporeidade gozosa ou ferida, dureza pontiaguda da luta pela vida. 

Ano

2021

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Bingemer, Maria Clara

O transcendente, o sagrado e o cristão na obra de Sophia de Mello Breyner

Este breve ensaio sobre a arte poética de Sophia, vertida não só nos seus conhecidos textos (Arte Poética) mas em toda a sua Obra, pretende alcançar a matéria-prima sobre a qual a poeta portuense constrói o seu olhar sobre o mundo. Nesse olhar convergem o sagrado, o transcendente e o peculiarmente cristão, o melhor da cultura ocidental, desde Homero a Rilke ou Hölderlin, ou «a exactidão da Cruz, na luz branca de Creta».

Ano

2021

Creators

Pinho, Arnaldo de

“Ó flor que é impossível ver”: a associação metonímica como princípio de continuidade em Toda a Terra, de Ruy Belo

Reconhecida pela torrencialidade discursiva, a poesia de Ruy Belo assume em Toda a Terra, de 1976, os seus traços mais excêntricos. O presente artigo analisará o contributo da associação metonímica para o desenvolvimento da obra em questão, partindo da hipótese de que este tropo assume uma dimensão matricial na poética de Ruy Belo. A metonímia funciona, então, não apenas como figura de retórica, mas como processo cognitivo que orienta o sentido anagógico subjacente a toda a escrita beliana e que, em Toda a Terra, atinge o grau máximo de concretização. À insuficiência da linguagem para chegar a uma transcendência ou a uma totalidade por si própria anunciada, a poesia de Ruy Belo contrapõe um excesso de palavras — uma excentricidade contínua alimentada por um princípio gerador estável — na busca de uma palavra-total simbolizada pela “flor”.

Ano

2021

Creators

Moreira, Helder

Alejandra Pizarnik: trazida (também) ao espanto da luz

Alejandra Pizarnik (1936-1972) y Sophia de Mello Breyner (1929-2004) son dos de las poetas más reconocidas en sus países. Fueron muy diferentes entre sí, pero compartieron un “espanto” por la luz, entendiendo “espanto” con la ambigüedad que presenta en portugués: como ‘horror’ y como ‘asombro’. En el caso de la poeta argentina, su preferencia por la noche y la oscuridad muestra claramente su inclinación a la luz como horror; en el caso de la poeta portuguesa, por el contrario, la luz es sinónimo de asombro y de claridad.

Ano

2021

Creators

Carou, Mariano