Repositório RCAAP
Bernanos: Católico e Antimoderno
A obra de Georges Bernanos está inserida no que se define por “romance católico”, rótulo sob o qual se estabeleceu uma tradição que reúne uma diversidade de escritores, o que não significa necessariamente que todos se inclinem em um exercício dogmático e militante, nem mesmo que suas obras possam ser consideradas a expressão de um pensamento cristão. Antes disso, o “romance católico” manifesta-se, tanto na França, quanto no Brasil, como mais uma antítese da Cidade de Deus agostiniana, pela qual se pode perscrutar uma crítica mística ao mundo contemporâneo. A modernidade, nesse sentido, é o que faz emergir uma neocristandade no início do século XX, à qual muitos escritores, distantes da igreja dogmática, mas engajados nos tópicos espirituais, debruçaram-se. Considerar a obra bernanosiana como a simples expressão de um pensamento cristão seria, nas palavras de PICON (1948), para os não cristãos, como estar “diante da porta de um jardim selado”. Tal abordagem anularia o universo que se abre a partir da superfície religiosa e que se oferece como um desdobramento das investigações do mundo moderno. É nesse sentido que Bernanos, escritor católico, é antes um intelectual que experimenta, a partir de seu deslocamento, de uma vida de degredo físico e de busca espiritual, das encruzilhadas entre a razão e a fé, uma curva católica e espiritualista, da qual não apenas sofre suas influências, mas à qual também contribui em grande parte com a sua consolidação.
“Anjos e demônios estão em guerra”: o fantástico e o religioso na literatura para jovens adultos
A produção de livros direcionada para jovens no mercado editorial brasileiro, atualmente, tem como um dos seus gêneros principais a chamada "literatura de fantasia", que, de fato, identifica-se tanto com o gênero fantástico quanto com o maravilhoso, se considerarmos sua representação do mitológico e do sobrenatural (TODOROV, 2010). Tais produções e seus respectivos autores não apresentam, em sua maioria, um intuito religioso, no sentido de que seus livros teriam uma função de entretenimento, e não de catequese, conversão ou transcendência espiritual. Entretanto, esse artigo pretende, com a análise da obra O senhor da chuva, de André Vianco (2001), demonstrar que tal produção, apesar do contexto de leitura e produção teoricamente secularizados, apresenta um sistema de crenças e valores que podemos identificar como religioso, através de seus enredos e personagens. Conclui-se que tal sistema influencia no sucesso dessas obras, já que grande parte dos leitores brasileiros compartilham desses valores cristãos, ainda que não se autodeclarem religiosos.
A recriação dos Evangelhos em Boa Nova, de Humberto de Campos (Espírito)
No romance episódico Boa Nova, o autor extrafísico Humberto de Campos (2013) reconta, pela psicografia de Chico Xavier, em trinta capítulos, episódios da vida de Jesus, nos quais ficcionaliza a matéria bíblica para formar relatos que agregam à fonte originária pensamentos, sentimentos e emoções das personagens principais. A linguagem de Campos, neste romance, difere da empregada em outras obras do mesmo autor espiritual; o autor quer migrar do universo terreno dos “Espíritos esclarecidos” para aquele celestial, dos “Espíritos evangelizados” (Idem, p. 9). Neste estudo, queremos abordar algumas particularidades desse romance, refletindo antes, contudo, a partir da metodologia proposta pelo teólogo e educador italiano Luigi Giussani (2003, 2017, 2015) para o estudo do acontecimento cristão na perspectiva do catolicismo, sobre a postura adequada para considerar o fenômeno da literatura espírita mediúnica. Nossa comunicação objetiva refletir sobre a consciência autoral de Campos que, enquanto Espírito, produz obra sensivelmente distinta daquela produzida em sua última reencarnação.
A leitura literária da Bíblia e a espiritualidade cristã.
Este artigo relaciona dois pilares da fé cristã: Bíblia e espiritualidade, indicando como a primeira, lida em perspectiva literária e em seu papel mediador entre o que crê e a divindade, contribui para o enriquecimento e aprofundamento da segunda. Para tanto, é utilizado o conceito de prazerna leitura, trabalhado por Roland Barthes. A Escritura é o olho por onde vejo a Deus e ele me vê. Desenvolve-se, igualmente, uma análise crítica da racionalidade exegética e de sua vocação enfaticamente historicista e argumenta-se pela necessidade de incorporar à exegese o aspecto emotivo dos textos bíblicos. Por fim, a partir dos elementos teóricos, são desenvolvidos exercícios de interpretação literária.
Vozes poéticas na escuta da fragilidade dos pobres: contribuições para uma reflexão teológica sobre a mística em diálogo com a poesia de Violeta Parra
Este artigo propõe uma análise centrada no florescimento de uma "mística de olhos abertos" na América Latina ao longo do século XX, a chamada espiritualidade da libertação. Dentre os resultados da pesquisa, estão indicados elementos da mística que se revela com o sentido de "suspiro dos oprimidos", conforme a interpretação que faz Rubem Alves da conhecida expressão de Karl Marx, tecida numa interlocução com a sociologia da religião no Brasil, como fruto de uma reflexão sobre o retorno do sagrado na sociedade contemporânea. Suspiro, entretanto, que se expressa como desejo de transformação da realidade, tendo no horizonte a libertação social. Mística como indignação diante da injustiça e como força de revolução, de empoderamento dos grupos subalternos e de mudança social. Destaca-se também a mística como canal de expressão da fragilidade humana, da capacidade de alteridade e do despertamento da dimensão lúdica. Por meio de metodologia bibliográfica, esta análise oferece elementos para o debate epistemológico no âmbito dos estudos de mística que se propõem a escutar a experiência religiosa das vozes reprimidas pelo poder colonial, tendo como recurso a correspondência de perspectivas teológicas latino-americanas, especialmente as de Gustavo Gutierrez, Maria Clara Bingemer e Rubem Alves, com a poesia de Violeta Parra.
2020
Mariani, Ceci Maria Costa Baptista Ribeiro, Claudio de Oliveira Campos, Breno Martins
E POIS ME DEUS NOM VAL: A ideia de Deus nas cantigas de amor galego-portuguesas
O presente artigo se propõe a analisar um conjunto de poemas medievais galego-portugueses pertencente à vertente das cantigas de amor. Nosso recorte contemplará poemas que contêm a palavra “Deus”. A partir das formulações teóricas de Mongelli (2009), Spina (2009), Lemos (2007), Achcar (1994), entre outros, nos propomos a compreender quais os diferentes significados que a referência a Deus assume nos poemas escolhidos.
Escrita de si em Etty Hillesum: da condição feminina a experiência mística
Este artigo objetiva inquerir os escritos de Etty Hillesum a partir de uma perspectiva de sua condição humana e de sua privação de liberdade em um campo de concentração nazista. Desse espaço, ela questiona a si e a sua situação de ser mulher, sujeito de desejos para um processo interior de mudança. Para tal encontra no diário e nas cartas, a voz necessária para acalentar o EU e se ancora fortemente na espiritualidade. Aliada a uma pesquisa bibliográfica perscrutamos seu diário e cartas para estudar as suas diversas experiências e o sentido ético por ela construído. Ao viver dualidades diversas demonstra certa capacidade para uma ação criada e propiciada por relações concretas e historicamente configuradas. Ela também questiona o feminino e o feminismo e alerta que as mulheres devem resistir à ordem dominante masculina, subvertendo significados a partir de suas mais diferentes possibilidades, incluindo uma retórica emocional e espiritual.
2020
Zimmermann, Tânia Bahia, Cristiano Anderson
A importância da palavra em Chico Buarque e no discurso teológico
Chico Buarque de Hollanda, um dos maiores artistas brasileiros e com reconhecimento internacional é, em sua arte, verdadeiro artesão das palavras no sentido de construir significados na busca da palavra certa, mesmo se diferente, e também de chamar a atenção para a realidade da dignidade da palavra, que é, no seu dizer, mais que instrumento de comunicação pois é forma de habitar o pensamento. Através de procedimento comparativo, percebe-se que o fazer teológico possui a mesma convicção porque também constrói significados para as palavras que compõem seu universo. Dessa maneira, além da exatidão e do cuidado gramatical, também a teologia tem em alta consideração a atualização de significados e o reconhecimento da dignidade da palavra. Mais não fosse, pelo fato de afirmar na fé que a encarnação da Palavra de Deus em Jesus é forma não apenas de comunicação, mas uma maneira de Deus habitar o mundo dos seres humanos e, por esse viés, possibilitar que também o humano perceba maneiras de habitar o mundo de Deus.
O Cego e o Rosto Uma leitura ético-poética de Clarice Lispector
Este artigo trata de fazer uma interpretação do conto “Amor”, da escritora Clarice Lispector, em diálogo com o pensamento de Emmanuel Lévinas, aqui evocado tanto pela pertinência de sua reflexão sobre a alteridade para a leitura do conto clariceano, quanto pela sua teoria ético-literária que traz para o cerne de suas ideias a consideração da literatura de ficção. Assim, a partir das ideias de Lévinas sobre a alteridade do texto literário, a experiência vivida pela personagem Ana, protagonista do conto, é aqui compreendida sob a luz das reflexões levinasianas sobre o encontro com a alteridade do Rosto do outro. O relato do conto permite perceber como esse encontro, marcado pela infinitude da diferença que lança a vivência humana à abertura ao que não pode mais ser controlado e nem mesmo conhecido, invade a experiência a ponto de obrigar a personagem a um (re)posicionamento pessoal frente às outras pessoas, mas sem que essa transformação leve ao distanciamento em relação àqueles que são os mais próximos.
2020
Murta de Almeida, Marília Ribeiro Junior, Nilo
Por uma filosofia do “fragmento”: A metáfora do “des-astre” em Lévinas e Blanchot
Como a metáfora do des-astre da literatura de Blanchot interroga a ética de Lévinas? No presente texto procuramos responder a esta questão na tentativa de mostrar como a ética e a literatura se articulam em Lévinas e Blanchot revelando o sentido ético do “fragmento” que somos, fragmento que advém do des-astre cujo sentido é explicitado neste texto: em termos blanchotianos trata-se de, com a escritura, mostrar a condição fragmentária do humano e, com Lévinas, trata-se de afirmar que “o reino do céu é ético”, no sentido de que tudo o que tem a ver com o humano é ético e que, mesmo quando somos reduzidos a uma minúscula partícula, ainda sim, no fragmento resta o ético. Deste modo, entendemos que a consciência ocidental, na sua busca por princípios e fundamentos do ser, acabou colocando-se como um astro, e seu des-astre foi não ter considerado (con-sideral) outros lugares de expressão como o da ética e o da escritura literária.
Entre a literatura e a filosofia: pensar com Levinas é pensar além
O encontro entre literatura e filosofia na obra de Emmanuel Levinas, é foco aqui de nossa atenção. Longe de pretender esgotar o tema, mas buscando já mostram pontos em que essas duas atividades se entrecruzam, a intenção que nos orienta é indicar sob que perspectivas o agir literário influência Levinas; em como muitas de suas teses têm uma estreita relação ao que já vibra enquanto “insigths” em obras clássicas da literatura, principalmente àquelas da literatura russa; e como, ao lado das escrituras sagradas do judaísmo, a literatura é igualmente fonte de inspiração às teses que durante toda sua obra irá defender.
Aspectos sociais, políticos e governamentais da administração da vida e da morte
O presente estudo é uma tentativa de elaborar um “diagnóstico do presente” acerca da pandemia de SARS-CoV-2 e de suas consequências. A filosofia política, ao longo de sua história, produziu inúmeras definições acerca do ato de governar. Apresentaremos mais uma. Tal tentativa terá como foco a compreensão da “arte de governar” como a dominação dos recursos estatais praticada em benefício de certas classes sociais em detrimento de outras. Para empreender tal compreensão, abordaremos os seguintes temas: 1- análise da pandemia de SARS-CoV-2; 2- a arte de administrar a vida e a morte na pandemia; 3- a pandemia como metáfora viva da “arte de governar”; 4- as soluções dadas no caso da pandemia e das enchentes no mesmo ano de 2020 no Brasil: contradição em ato; 5- o uso de recursos do governo federal para socorrer os oligopólios e o abandono da população pobre. Ao final, enunciaremos questões relativas ao problema político da valorização do saber científico e acerca das consequências da revalorização dos movimentos sociais.
2020
Sass, Simeão Donizeti Gallian, Dante Marcello Claramonte
A crise na educação brasileira: a falácia da Escola “sem” Partido
O texto tem como objetivo identificar as origens do movimento denominado Escola sem Partido e o ambiente político profícuo em que se instalou e suas consequências para o sistema educacional e político no Brasil. Para tanto, pretendo fazer uma breve síntese do mapeamento das suas correntes ideológicas, analisando como se alastrou nas nossas redes de ensino, quais as suas pretensões e as possíveis formas de resistência. A tentativa de realizar uma diagnose do presente depende muito da habilidade do autor, mas sigo na intensão foucaultiana de não perder a sensibilidade ao intolerável e acho esse, um caso bem emblemático. Nesse sentido, contarei com o suporte conceitual, não só de Michel Foucault, mas também de Hannah Arendt (inimigo objetivo, banalidade do mal, vazio de pensamento). Verificamos que os pressupostos da Escola “sem” partido, baseados numa educação neutra, promove a irreflexão e o vazio do pensamento. O risco identificado, caso nada seja feito contra essa corrente retrógrada, foi a produção de deficientes cívicos (FRIGOTTO, 2017)
Pequenos partidos e novas estruturas políticas nas democracias
Os partidários da vida comunitária e da democracia, há dois séculos, tem procurado realizar, malgrado as experiências das diversas ditaduras e regimes totalitários, esforços em favor da gestão democrática das sociedades. A pergunta que se faz, diante da história, é pertinente: será que, de fato, o mundo contemporâneo realiza, de modo crescente e permanente, uma vida democrática feita através de ampla participação popular, em todos os aspectos? Se a democracia, como exercício popular e pode existir, em muitos casos, com ampla participação coletiva, qual a razão das eventuais e constantes destituições da vida comunitária e democrática em todo o mundo? A pergunta que fazemos, neste trabalho, diante do quadro difícil de analisar é o da possiblidade e força dos pequenos partidos na vida política na atualidade. Existe alguma certeza sobre o lugar dos grandes partidos na vida democrática? As causas dos pequenos partidos podem modificar as regras do jogo democrático?
Progressive neoliberalism and self-entrepreneurship. Notes on the limits of Foucauldian analysis of neoliberal subjectivity
This article proposes an analysis of current forms of neoliberalism that takes at its starting point the works of Michel Foucault. From this view, neoliberalism is understood as an organization of power that doesn’t work only through the control of the economy, but essentially through the constitution of certain forms of subjectivity. We will defend the thesis that the promises that have maintained for decades these models of subjectivity, have entered into an irreversible crisis since 2008 with the collapse of “progressive neoliberalism”. The Foucauldian model, which allowed us to analyze this expansive neoliberalism, then faces certain problems because of the retreat towards an increasingly authoritarian power that seems to promote recessive forms of subjectivity. With the help of authors such as Nancy Fraser, Maurizio Lazzarato, Wendy Brown or William Davies we will try to present a map of these problematizations of the Foucauldian analysis of neoliberalism with the aim of overcoming some problems to which it has been doomed in the new context.
Política, verdade, tekné
A partir das dinâmicas políticas contemporâneas e do papel das mídias sociais no uso político, que deram origem a expressões como pós-verdade, falência do senso comum, desconstrução do político, discutiremos com auxílio de Hannah Arendt as relações entre política e verdade e as distinções que estabelece entre verdade factual e opinião. Temos como hipótese, que, historicamente, as íntimas relações entre política e mentira, assim como o uso de novos elementos técnicos-mediáticos no âmbito do político, não se configuram nenhuma novidade. Os meios técnicos depois de sua surpresa e sucesso inicial, tendem a se homogeneizar e perder sua significação espetacular. Esse processo se repetiu historicamente desde o advento da retórica no processo democrático na Grécia Antiga até o uso de mídias sociais como instrumento político na contemporaneidade, passando pelo uso de outros meios que em seu momento ocuparam o mesmo lugar e colocaram em questão o político e suas relações com os fatos.
Representar o irrepresentável e formular o informulável: o mito em trânsito nos labirintos da literatura e da teologia
Ambas, teologia e literatura se prendem em um fundo existencial onde experiências e vivências comandam o discurso, mas, mesmo que não queiramos, a tendência do discurso é eufemizar as experiências e vivências. Isso significa que o indizível, uma vez dito, perde sua força. Não obstante, embora o discurso seja uma das únicas formas de representar nossas experiências e vivências, o mito parece ser o fundo ancestral que fundamenta, sustenta e posiciona o discurso no mundo, na realidade, seja para a literatura, para a teologia ou qualquer outra forma de saber.Resumidamente, compelimos realizar uma jornada, quase um passeio, ao lugar do mito no discurso, compreendendo sua natureza fugidia e, em seguida, nos meandros dos labirintos da teologia e da literatura. Jornada que fará com que esbarremos em algumas placas que parecem nos indicar que o mito é uma boa estratégia do discurso para representar o irrepresentável e formular o informulável.
2020
de Carvalho, Rogério Gonçalves
A evidência do divino indizível em Vergílio Ferreira
A presença do divino ao longo dos séculos foi-se transformando na literatura. Encontramos os deuses poderosos, pagãos e cristãos, um Deus temível que há de julgar, o Deus que dá sentido à existência e o Deus inexistente. No século XX, a literatura influenciada pela corrente filosófica do Existencialismo enfrenta-se à existência do ser, questionando a (in)existência do divino, de Deus. Vergílio Ferreira, autor português, essencialmente, da segunda metade do século XX, abre um diálogo entre o ser e o divino através da evidência do invisível e do indizível da fé numa narrativa que não diz, mas que se sente. Sem uma história com princípio, meio e fim, e uma prosa cada vez mais lírica, os seus romances apresentam o “eu” do protagonista que sofre um processo de autognose acompanhado pelo leitor, que vai ordenando o pensamento e a memória sobre a relação do “eu” com os outros. É o leitor que termina o romance, imaginando a palavra, a frase, a ideia que nunca se chega a dizer, atribuindo um dos múltiplos sentidos à narrativa que mostra o pensamento e o sentir de um “eu” crente.
2020
de Matos, Ana Catarina Coimbra