Repositório RCAAP

Territórios e projetos em disputa na institucionalização dos cursos de licenciatura em educação do campo

As reflexões sobre a Educação do Campo não podem se apartar do contexto social da luta pela terra. Nesse sentido, a Educação do Campo se constitui para além da prática pedagógica, ao passo que se territorializa em busca de romper as cercas do latifúndio, do capital e da ignorância. Ela emerge dentro do Movimento dos trabalhadores rurais sem terra (MST) e transcende os anseios do movimento de uma educação para assentados e acampados. Ao reconhecer que a luta não era somente dos sem terra, outros sujeitos agregaram força para garantir educação pública para o campo. O direito à escola se amplia para a luta por uma educação para os povos do campo que contemplasse os saberes e fazeres próprios desses sujeitos. A Educação do Campo pode ser vista como um território em constante disputa, haja vista que há um processo de desterritorialização da mesma. Nesta perspectiva, propusemo-nos a compreender se ao passo que a proposta de Educação do Campo se institucionaliza e amplia sua oferta para além da militância dos movimentos sociais foi possível manter a essência em que foi gestada. Foram considerados os campos simbólico, material e político, que abarcam a cultura, a terra, o território e a luta na Educação do Campo. O desafio esteve em pensar epistemológica e empiricamente o reflexo da institucionalização da Educação do Campo, considerando que este processo trouxe novas práticas que consequentemente apresentaram novas perspectivas e novas relações com as premissas e a essência da Educação do Campo, gestadas pelos movimentos sociais de forma orgânica. Para tanto, foi imprescindível buscar a compreensão de como os cursos de Licenciatura em Educação do Campo articulam as Experiências Sociais constituídas na Terra e no Território na construção de suas matrizes curriculares a partir das matrizes formativas da Educação do Campo para que pudéssemos apontar as possibilidades de territorialização ou re-territorialização desta dentro das IES. A pesquisa foi delineada por meio da pesquisa teórica e documental. Foram consultados livros clássicos e contemporâneos, artigos científicos, teses e dissertações, além de teóricos relevantes na discussão sobre Território, Conhecimento e Educação do Campo. A pesquisa documental se propôs a analisar os Boletins e Cadernos Temáticos do Setor de Educação do MST e da Via Campesina, os Projetos Pedagógicos de Curso (PPC) dos cursos de Licenciatura em Educação do Campo e demais documentos articulados à Educação do Campo dentro dos movimentos sociais de luta pela terra. As análises realizadas nos levam a reconhecer a Licenciatura em Educação do Campo como o mais importante território da Educação do Campo, que, por sua vez, apresenta-se como um território em constante disputa. A resistência de um projeto de educação que nasce no Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, mas rompe os limites do movimento, materializa-se na construção de projetos pedagógicos que não se descolam da matriz formadora da Educação do Campo, mesmo que, por vezes, não se reconheça dentro da Pedagogia do Movimento. A institucionalização foi um fortalecedor deste processo, ao passo que as instituições não são homogêneas e têm características próprias, envoltas por currículos ocultos que irão se apropriar da Educação do Campo, sem dela tirar toda essência.

Modelagem matemática da voz, trigonometria e robótica: atividades interativas

Neste trabalho buscou-se desenvolver e aplicar atividades interativas em sala de aula com o uso de tecnologias digitais da informação e comunicação, da modelagem matemática do som de uma vogal e da robótica com a finalidade de abordar a trigonometria de forma prática e lúdica. Para a realização do objetivo, a pesquisa utilizou metodologia combinada, com abordagem tanto quantitativa quanto qualitativa: aplicou-se a primeira ao desenvolvimento dos recursos usados nas atividades; e a segunda, ao registro e à avaliação do uso dos recursos em sala de aula. As atividades almejaram os alunos do primeiro ano do ensino médio de uma escola estadual de Uberlândia (MG) e tiveram caráter de revisão de conteúdo da função trigonométrica. A característica interativa das atividades decorreu do fato que os alunos interagiam com os recursos desenvolvidos. Em uma primeira etapa, por meio de modelagem matemática, a voz dos alunos foi utilizada como fonte de dados para demonstrar que o som de uma vogal poderia ser representado por uma soma de senos. Em outra etapa, os alunos interagiram com um dispositivo robótico por intermédio de smartphone para resolver situações-problema que exigiam o uso de funções trigonométricas. Os resultados apontaram que essas atividades influenciaram positivamente na motivação e na participação dos alunos. Ademais, foi produzido um manual explicativo, produto resultante da pesquisa, que detalha como implementar os recursos e o roteiro didático utilizados nas atividades, de modo que outros professores possam replicá-los e produzir outros materiais didáticos.

Estratégias de aprendizagem no trabalho: a influência da cultura de inovação

Para se manter competitiva no mundo do trabalho, a organização deve favorecer a aprendizagem de novas competências. Nesse cenário em que a aprendizagem tem papel de destaque, as Estratégias de Aprendizagem no Trabalho (EAT’s) utilizadas pelos trabalhadores apresentam-se como um fator importante para que esses possam acompanhar as constantes transformações e inovações no mercado e, no âmbito acadêmico, essa variável tem se mostrado promissora e em fase de consolidação. O processo de aprendizagem é afetado por variáveis contextuais e individuais e, no presente estudo, o foco se centra na variável cultura de inovação que é multidimensional e se refere à cultura organizacional que endossa e suporta a inovação. Diante do exposto, o objetivo geral foi verificar a influência da cultura de inovação nas estratégias de aprendizagem no trabalho. Para alcançar o objetivo proposto, foi realizada uma pesquisa descritiva e quantitativa, foi selecionada por conveniência uma organização que endossa a inovação localizada no interior de Minas Gerais e que atua no ramo de serviços. Foram distribuídos questionários para todos os trabalhadores com taxa de retorno de 61% (n=152). Para aferir cada uma das variáveis do estudo, foram utilizadas medidas com evidências de validação empírica, sendo a de cultura de inovação composta por 15 fatores, e a de EAT’s composta por cinco fatores, e para respondê-las foi usada escala de resposta likert de cinco e de 10 pontos, respectivamente. Os achados da regressão múltipla padrão mostram que cultura de inovação foi preditora de EAT’s, sendo maior o poder de explicação para Reflexão Ativa (R2= 30%), com a contribuição significativa oriunda dos fatores comunicação institucional (beta=0,23;p<0,05) e regras flexíveis (beta=0,22;p<0,05). O presente estudo traz contribuição para a compreensão dos preditores de EAT’s e aponta que a cultura de inovação é um fator relevante, mas não unicaule, uma vez que reforça a importância do ambiente organizacional com características inovadoras como fonte propulsora para gerar diálogos e compartilhar significados, favorecendo a utilização das estratégias de aprendizagem no trabalho de maneira mais reflexiva, relações interpessoais mais relevantes para o desenvolvimento dos profissionais e consequentemente a possibilidade da organização administrar suas vantagens competitivas. Assim, o trabalho contribui para os esforços de pesquisa acadêmica, bem como para as práticas organizacionais. Palavras-chave: Estratégias de aprendizagem no trabalho. Aprendizagem. Cultura de inovação.

Saberes de professores sobre a práxis pedagógica de Matemática nos anos iniciais

Esta pesquisa de cunho qualitativo foi realizada com a participação de um grupo de quinze professores que ensinam Matemática, do 2º ao 5º ano do ensino fundamental I, em uma escola da rede pública na cidade de Uberlândia – Minas Gerais. As ações e reflexões deste estudo foram conduzidas pela seguinte questão problematizadora: Como os saberes de professores que ensinam Matemática contribuem (ou não) com o desempenho de seus alunos? Buscando responder a essa indagação, tivemos como objetivo principal investigar, identificar e analisar os saberes de professores que ensinam Matemática, sua relação com a práxis pedagógica e como contribuem (e se contribuem) com o desempenho escolar de seus alunos. Pela impossibilidade de abarcar o maior número de escolas possíveis localizadas no município de Uberlândia, analisamos o resultado do IDEB, no ano de 2017, identificamos as escolas que obtiveram as maiores notas neste índice e optamos por investigar uma delas. O material de análise foi constituído por entrevistas e sessão reflexiva. Os aspectos observados e os materiais produzidos foram de grande valia na construção e compreensão da relação dos saberes docentes com suas respectivas práxis pedagógica, na contribuição do desempenho escolar dos alunos. A análise dos dados foi elaborada elencando duas categorias: Compreensão do ensino da Matemática e Práxis pedagógica no ensino da Matemática. Pelas análises realizadas, podemos obter como resultados a compreensão que os saberes de professores que ensinam Matemática mediante a organização do ensino dessa disciplina, o desenvolvimento de práxis pedagógicas dotadas de intencionalidades e a realização de atividades em grupos de alunos podem contribuir com a apropriação dos conhecimentos matemáticos pelos envolvidos no processo de ensino da Matemática, imbuídos de reflexões e ações mediadoras que contribuem significativamente com o desempenho escolar dos alunos. Portanto, fica assim explícito, que as relações sociais desenvolvidas pelos professores são de suma importância no desenvolvimento do ensino da Matemática, pois ao serem organizadas a partir de uma práxis pedagógica com intencionalidades, motivadas pelo o que o professor realiza e propõe aos seus alunos, contribui de forma significativa no processo de ensino da Matemática e, consequentemente, no desempenho escolar dos alunos.

Vozes silenciadas no território indígena Akwẽ-Xerente: expressões da colonialidade no Programa de Compensação Ambiental Xerente (Procambix) pós-construção da UHE de Lajeado no rio Tocantins

A colonização do Território Akwẽ-Xerente, na Amazônia Legal, a partir do século XVI pelas frentes mineradoras causou a fragmentação, a diminuição da área de abrangência e o decréscimo populacional desse povo. Mesmo com o fim da colonização, a colonialidade ainda permanece a partir da imposição de padrões de comportamento, língua, religião, escola e, também, a partir de vários projetos desenvolvimentistas, tais como: rodovias, grandes lavouras e construção de barragens como a de Lajeado no rio Tocantins, objeto de análise deste estudo. A barragem de Lajeado entrou em funcionamento no ano de 2002, trazendo inúmeros efeitos negativos aos Akwẽ-Xerente, principalmente no que se refere à alimentação, pois a alteração do fluxo do rio se refletiu negativamente na qualidade e quantidade de roças de várzeas e, também, na quantidade de peixes e outros alimentos disponíveis. Por estar à jusante da barragem, esse povo não foi, a priori, considerado atingido, ficando, dessa maneira, às margens do processo de negociação com a empresa construtora. Mas, a partir de muita luta e com o auxílio do Ministério Público Federal, os Akwẽ foram reconhecidos como atingidos. Assim, o Programa de Compensação Ambiental Xerente (Procambix) foi uma medida compensatória com o objetivo de amenizar as perdas sofridas por esse povo. Nesse sentido, a tese que queremos sustentar no decorrer deste trabalho é que, além dos efeitos negativos trazidos pela construção da barragem, o Procambix não diminuiu tais impactos. Pelo contrário, aprofundou ainda mais a precarização do território. Foi implantado de fora para dentro, silenciando as vozes desse povo. As atividades implantadas pelo Procambix não consideraram as especificidades culturais dos Akwẽ-Xerente, não surtindo, dessa maneira, os resultados esperados. Diante disso, o presente trabalho tem como objetivo compreender as expressões da colonialidade no Programa de Compensação Ambiental Xerente (Procambix), implementado em virtude dos efeitos negativos da UHE de Lajeado sobre o Território Indígena Akwẽ-Xerente. A pesquisa está assentada em uma revisão bibliográfica referente à temática proposta, revisão esta dialogando com as entrevistas feitas com os Akwẽ-Xerente que participaram da implantação do Procambix, além da observação participante com o uso do diário de campo.