Repositório RCAAP
Diversidade sexual humana: notas para a discussão no âmbito da psicologia e dos direitos humanos
A proposta do presente trabalho é a de colocar em discussão a noção de diversidade sexual no cenário contemporâneo enredado pelos processos de medicalização e psicopatologização. Analisam-se as contribuições da Psicologia nesse âmbito, entendendo que se trata de um campo constituído por práticas discursivas diversas imbricadas em jogos de forças que se objetivam, por exemplo, nos códigos internacionais de doenças. A noção de direitos sexuais, ainda polêmica, inclui-se nessa cena dinâmica na qual os sujeitos se vêem às voltas com a "verdade" do (seu) sexo como um genuíno paradoxo, uma vez que o sexo que revela é o mesmo que assujeita.
2008
Toneli,Maria Juracy Filgueiras
Dor e desamparo: filhos e pais, 40 anos depois
Ouvindo o relato das lembranças de filhos de militantes políticos brasileiros atingidos pela ditadura militar de 1964, mortos, desaparecidos, torturados, clandestinos e presos, são discutidos aspectos emocionais e afetivos destas vivências. As falas dos filhos estão no documentário "15 filhos", de Marta Nehring e Maria de Oliveira (1996)¹.
2008
Arantes,Maria Auxiliadora de Almeida Cunha
Por uma invenção ética para os Direitos Humanos
Através do referencial teórico da Filosofia da Diferença buscamos problematizar alguns conceitos como os de civilização, barbárie, direitos, humano, evolução e progresso, dentre outros. Para tanto, historicizamos a gênese dos Direitos Humanos no contexto da Declaração de 1948, em plena Guerra Fria, e no Brasil, com a emergência dos novos movimentos sociais a partir de 1975. Esses acontecimentos históricos, apesar de sua importância, produziram efeitos naturalizadores e essencialistas, esvaziando e capturando, muitas vezes, a luta pelos Direitos Humanos. Ao afirmarmos um direito e uma humanidade positivados enquanto processos, trazemos a discussão de uma ética da imanência.
2008
Coimbra,Cecília Maria Bouças Lobo,Lilia Ferreira Nascimento,Maria Lívia do
A extração da verdade e as técnicas inquisitórias voltadas para a criança e o adolescente
O artigo traz reflexões sobre o substitutivo ao projeto de lei nº 4.126 de 2004, que dispõe sobre o procedimento de inquirição de crianças e/ou adolescentes vítimas ou testemunhas de crimes. A apuração da "verdade real" é apresentada como um dos seus objetivos e como ideal que legitima o aprimoramento de novas tecnologias inquisitórias voltadas para o público infanto-juvenil. A utilização de técnicas dessa natureza implica na abordagem da criança e do adolescente como objeto de investigação e não como sujeito de direitos.
2008
Aleixo,Klelia Canabrava
Diga-me agora... O depoimento sem dano em análise
O artigo aborda, por meio de discussão teórica, o denominado Depoimento sem Dano, procedimento defendido por alguns para se obter testemunhos de crianças e de adolescentes. Trata-se da possibilidade de crianças e jovens, acomodados em salas especialmente projetadas com câmeras e microfones, serem inquiridos em processos judiciais por psicólogos ou assistentes sociais. No artigo são expostos argumentos apresentados por aqueles que defendem a implantação do Depoimento sem Dano em território nacional, como proposto em projeto de lei que tramita no Senado Federal, enfocando-se também motivos dos que contestam essa prática. São apresentadas, ainda, discussões empreendidas por profissionais de outros países, que analisam a execução de trabalhos similares. Conclui-se pela inadequação desta prática, especialmente quando vista como atribuição de psicólogos.
2008
Brito,Leila Maria Torraca de
Sobre um parágrafo de Michel Foucault: resposta a muitas questões?
Em "Resposta a uma questão", artigo-réplica a perguntas encaminhadas a Michel Foucault pela revista Esprit, um parágrafo concernente às relações entre a constituição da medicina clínica e a Revolução Francesa nos parece, ainda hoje, paradigmático do modo de pensar foucaultiano. O presente ensaio dele parte, no intuito de distinguir a perspectiva foucaultiana daquelas ligadas à História das Mentalidades e à Sociologia do Conhecimento. Em seguida, usa-o como ferramenta analítica de uma recente polêmica, relativa a uma investigação que se propõe a mapear o cérebro de "adolescentes infratores". Avalia-se que o parágrafo mencionado faculta entender de modo singular o repúdio de uma parcela da intelectualidade e da militância ao projeto de pesquisa em pauta. Com isso, a "Resposta a uma questão" se amplia a uma resposta a muitas questões, especialmente ao que se pode entender por defesa dos Direitos Humanos no campo dos saberes e regimes de verdade.
2008
Rodrigues,Heliana de Barros Conde
Políticas cognitivas e as propostas de intervenção e tratamento para usuários e dependentes de drogas
O presente trabalho discute as políticas de cognição existentes nas modalidades de prevenção e tratamento propostos para usuários e dependentes de drogas. Toma como referência as leis 6.368/1976, 10.409/2002 e 11.343/2006 e a Política do Ministério da Saúde para Atenção Integral a Usuários de Álcool e outras Drogas (Ministério da Saúde, 2003). O referencial teórico que subsidiou a análise baseou-se, prioritariamente, nos trabalhos de Humberto Maturana, Francisco Varela e Virgínia Kastrup. A análise possibilita identificar um deslocamento nas políticas cognitivas que iniciam centradas muito mais na experiência recognitiva e representativa da cognição para abrir possibilidades a uma cognição inventiva e enativa. O fato de algumas políticas e propostas abrirem a possibilidade para o exercício de uma cognição inventiva não se constitui como um deslocamento necessário ou lógico, mas, sim, ético e político.
2008
Lopes,Graziela Pereira Maraschin,Cleci
Relação conjugal, violência psicológica e complementaridade fusional
Neste artigo abordamos um tipo específico de dinâmica conjugal marcada pela violência psicológica. Na clínica com casais, temos observado situações nas quais são utilizadas agressões verbais e humilhações, que afetam a auto-estima e a capacidade de reação e decisão da pessoa agredida. Forma-se um laço perverso caracterizado por um movimento recíproco no sentido do domínio do parceiro, com condições e exigências que submetem a ambos, levando a um tipo de relação na qual impera a complementaridade fusional. O discurso característico da contemporaneidade, de obtenção de prazer e busca da perfeição nos relacionamentos amorosos e da presença do modelo igualitário nas relações homem/mulher, põe em destaque esse tipo de dinâmica relacional. Observa-se, em alguns casos, uma fixação do modelo "homem-ativo-fálico/mulher-passiva-castrada" que permanece subjacente à mudança dos tempos.
2008
Levy,Lídia Gomes,Isabel Cristina
Adolescência, família e escolhas: implicações na orientação profissional
A adolescência é uma fase do ciclo de vida na qual o indivíduo passa por transições que acarretam grandes mudanças em seu desenvolvimento. Este é um período de consolidação da identidade, em que o jovem se depara com uma série de escolhas que definirão seu futuro, dentre elas a escolha profissional. A família é apontada como um dos principais elementos que podem tanto ajudar quanto dificultar o jovem em sua escolha no momento da decisão profissional. As influências familiares podem ser trabalhadas de diversas maneiras, durante o processo de orientação profissional, auxiliando o adolescente a compreender as questões que estão por trás de sua escolha. Quando o jovem reconhece essas influências, ele pode utilizá-las, de forma consciente, ao estabelecer o seu projeto de vida pessoal e profissional.
2008
Almeida,Maria Elisa Grijó Guahyba de Pinho,Luís Ventura de
A psicanálise sob o risco da demência
Nossa pesquisa começa por uma "aposta pascaliana" sobre a existência de um sujeito na demência, existência negada na maioria dos trabalhos sobre a demência ou pelo menos bastante explícita clinicamente. A análise dos trabalhos sobre as perturbações da linguagem demonstra uma recusa em reconhecer as possibilidades de comunicação e de relação com os dementes. As pesquisas reduzem as dimensões pragmáticas do discurso de Austin e as análises do sujeito da enunciação de Benveniste e de Bakhtin, provocando uma destituição do demente do campo da fala. Nós propomos uma nova análise do paciente demente, sublinhando sua existência na fala. Através de um diário clínico que cartografa diferentes modos de abordagem dos dementes, propomos um método de trabalho com esse tipo de paciente. Nós analisamos algumas produções, certamente reduzidas, dos dementes como autênticas formações do inconsciente, tal como as concebem Freud e Lacan. Nossa proposta articula-se em torno das abordagens clínicas de Ferenczi e Winnicott, apresenta técnicas relacionais a partir de um cuidado materno e de um fluxo de compaixão. Uma ética vem à luz, tomada do referencial analítico.
2008
Quaderi,André
A sociedade do desprezo: por uma nova teoria crítica
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2008
Oliveira,Prado de
Acompanhamento terapêutico na proposta de alta-assistida implementada em hospital psiquiátrico: relato de uma experiência
A Alta-Assistida/AA e o Acompanhamento Terapêutico/AT são práticas que se inserem no contexto atual da atenção à saúde mental em concordância com as diretrizes que norteiam a Reforma Psiquiátrica. Atualmente, vive-se o desafio da reintegração social de sujeitos portadores de transtornos mentais, uma vez que ainda não se dispõe de uma rede ágil, flexível e resolutiva para atendê-los. A proposta de uma saída do hospital planejada e assistida é, pois, uma estratégia fundamental no processo de desinstitucionalização. Este trabalho objetiva apresentar uma experiência de AT realizada junto a um paciente do Hospital Dr. João Machado, em Natal, e discutir os efeitos e resultados desta forma de atenção na proposta de alta-assistida aí implementada.
2009
Bezerra,Cíntia Guedes Dimenstein,Magda
Considerações sobre o tempo e suas contingências em uma clínica-escola
A partir de dificuldades concernentes ao tempo clínico observadas nos ambulatórios de instituições de ensino voltados para o atendimento de população de baixa renda, este texto tenta problematizar o que poderia vir a ser uma apreensão contemporânea da noção de tempo. De uma concepção historicizante, eminentemente simbólica e baseada na sucessão, exploram-se aqui outras possibilidades, baseadas agora na conexão e na associação, nas quais uma abordagem topológica do tempo mostrar-se-ia mais adequada.
2009
França Neto,Oswaldo
O trauma psíquico e o paradoxo das narrativas impossíveis, mas necessárias
Considerando-se, à luz das contribuições freudianas mais tardias, que o traumático, entendido como excesso pulsional, estaria situado além da capacidade de representação psíquica, exploramos neste artigo a estreita articulação entre trauma e "indizível". Para tal, são retomados alguns aspectos centrais da teorização psicanalítica sobre o trauma, aspectos relacionados com a sua dimensão "intransmissível". Segundo esta visada, o trauma constitui um vivido que ultrapassa a capacidade psíquica de apropriação e de recalcamento. Nosso objetivo é mostrar como a ideia de uma narrativa impossível, mas absolutamente necessária - eixo central do presente artigo - parece aplicar-se perfeitamente ao sofrimento indizível posto em cena a partir da experiência traumática, e que torna tão fundamental a paradoxal tarefa de narrá-la.
2009
Maldonado,Gabriela Cardoso,Marta Rezende
O trauma sexual e a angústia de castração: percurso freudiano à luz das contribuições de Lacan
Este trabalho tem como objetivo articular os conceitos de trauma sexual e angústia de castração a partir dos textos freudianos e à luz das contribuições de Lacan. Em Freud, estes conceitos acompanham a construção da psicanálise enquanto campo de investigação do inconsciente. O inconsciente nos indica o vazio fundamental que movimenta o desejo, a ausência do objeto. A fantasia, através do que se orienta o desejo, representa a permanência do objeto faltoso, a alienação do eu no Ideal de um gozo fálico. A angústia de castração funciona como sinal para a atuação dos mecanismos de defesa do eu, cujo último véu é a reivindicação fálica. Esta, articulada à angústia de castração, surge como "limite intransponível" da psicanálise. A proposta de Lacan é ir para além da angústia de castração, retornando, ao seu modo, ao conceito de trauma sexual.
2009
Couto,Luiza Vieira Chaves,Wilson Camilo
Continuidade e ruptura no processo de constituição psíquica
O trabalho se constitui numa discussão sobre o processo de constituição dos limites psíquicos em duas leituras contrastantes representadas por Andre Green e Donald Winnicott. Inicialmente apresentamos duas hipóteses sobre esta questão encontradas no texto freudiano, especificamente em 1930, que a nosso ver fundamentam os desenvolvimentos teóricos posteriores em Winnicott e Green. Então, a possibilidade de pensar a constituição psíquica a partir do postulado de uma indiferenciação primária, em Freud, se apresenta, em Winnicott, através do recurso ao paradoxo enquanto figura emblemática do processo de constituição psíquica. Por outro lado, a postulação freudiana sobre a ausência enquanto requisito fundamental da constituição da psique ressurge em Green sob a forma da exigência do trabalho do negativo, evento central na construção dos limites psíquicos.
2009
Garcia,Claudia Amorim
A dimensão ética da psicologia analítica: individuação como "realização moral"
O artigo expõe a centralidade da dimensão ética inerente à Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung através de uma minuciosa referência a passagens fundamentais do texto junguiano, frequentemente não percebidas na importância que têm para uma correta compreensão da natureza da praxis psicoterapêutica formulada por Jung. O autor sustenta ainda que a (in)atualidade da clínica junguiana no cenário contemporâneo deve ser pensada à luz da (in)compatibilidade entre esta dimensão ética específica e as tendências que organizam hoje o modo humano de ser-no-mundo.
2009
Barreto,Marco Heleno
O corpo e a máquina: um terreno de experiência, a clínica do adolescente¹
A partir de estudo de casos em clínica com adolescentes, procuramos identificar os aparatos simbólicos da linguagem contemporânea, no que concerne à construção da identidade. As tecnologias disponíveis são utilizadas pelos adolescentes como elementos de alteridade em que a afirmação da sexualidade desvanece sob o emaranhado de "próteses da linguagem". A constatação de que esses valores, uma vez incorporados, não inibem o aparecimento dos temores do homem primitivo revela paradigmas e paradoxos singulares. Na montagem que o adolescente produz de sua imagem, as próteses não só comparecem como proteção da pulsão, mas, além e concomitantemente, como autorização erótica da angústia identitária.
2009
Tassel,Anne
O conto policial e as origens da psicanálise
A lenda de Édipo é a primeira aventura "policial" de nossa história e uma das mais modernas: um homem busca um assassino sem saber que é, ele próprio, este assassino. Freud ignora Sherlock Holmes, mas é para este que a reflexão ideal exige luz baixa e se recostar em um divã. Alguns contos de Edgar Allan Poe se tornaram passagens obrigatórias do pensamento psicanalítico francês, não sem problemas. Desde os primeiros estudos de Freud sobre Leonardo Da Vinci, a psicanálise aplicada sempre encontrou dificuldades, que talvez não sejam estranhas à técnica psicanalítica individual. Este artigo as examina.
2009
Oliveira,Prado de