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A agricultura de corte e queima: um sistema em transformação

A agricultura de corte e queima é praticada há milhares de anos nas áreas florestadas do planeta, principalmente nas regiões tropicais. Sua prática envolve uma gama de técnicas que denotam seu caráter diversificado e itinerante, aproveitando o capital energético da floresta em recomposição. Muitos estudos atestam a sustentabilidade desses sistemas quando praticados tradicionalmente e sob baixas densidades populacionais, mantendo, ou mesmo, promovendo a biodiversidade local e garantindo a subsistência de muitas populações pobres rurais. No entanto, é crescente na literatura acadêmica e no debate político o papel que a agricultura de corte e queima vem desempenhando no desmatamento e demais impactos ambientais e socioeconômicos. Esse processo é conseqüência das mudanças no uso do solo, da intensificação agrícola e do aumento demográfico que, estão alterando as práticas e comprometendo a sustentabilidade desses sistemas agrícolas tradicionais. No rastro dessas preocupações, este estudo traz uma revisão do tema na literatura com os objetivos de traçar um panorama geral do que foi produzido até o momento, identificar as principais correntes teóricas envolvidas e apontar as alternativas propostas para sua manutenção.

Year

2008

Creators

Pedroso Júnior,Nelson Novaes Murrieta,Rui Sérgio Sereni Adams,Cristina

Dark Earths and manioc cultivation in Central Amazonia: a window on pre-Columbian agricultural systems?

Many commentators highlight the fertility of Anthropogenic Dark Earths (ADE), emphasizing their potential for sustainable agriculture. Some scholars believe that terra mulata (the less fertile, more extensive form of ADE) was created by means of agricultural practices used by large settled populations of pre-Columbian farmers. But what was it that these Amerindian farmers were growing? Until recently, scholarly consensus held that manioc does not perform well on ADE. New research on the middle Madeira River is showing, however, that this consensus was premature. In this region, the most common crop in ADE fields is bitter manioc. Farmers there have various landraces of manioc that they believe yield particularly well on ADE, and logically plant more of these varieties on ADE. Aspects of the behaviour and perception of manioc cultivation among 52 farmers at the community of Barro Alto were measured quantitatively on four terra firme soil types (Terra Preta, Terra Mulata, Oxisols and Ultisols). These farmers plant different configurations of landraces in different soils, according to their perception of the suitability of particular landraces and their characteristics to certain soil types and successional processes. This, in turn, shapes selective pressures on these varieties, as new genetic material incorporated from volunteer seedlings is more likely to contain traits present in the most prevalent landrace(s) in each soil type. Owing to localized population pressure at Barro Alto, manioc is under more intensive cultivation systems, with shorter cropping periods (5-10 months) and shorter fallow periods (1-2 years). The outcome of these processes is different co-evolutionary dynamics on ADE as opposed to non-anthropogenic soils. Further anthropological study of manioc swiddening in one of the richest agricultural environments in Amazonia can fill a gap in the literature, thus opening an additional window on the pre-Columbian period.

Year

2008

Creators

Fraser,James A. Clement,Charles Roland

A cidade, um foco de diversidade agrícola no Rio Negro (Amazonas, Brasil)?

As regiões do Médio e Alto Rio Negro, apesar de serem isoladas da malha de comunicação terrestre e das frentes de colonização, caracterizam-se por uma articulação cada vez mais forte entre a área florestal, a das comunidades, e a urbana, ou seja, as pequenas cidades ribeirinhas. Esta complementaridade, temporária ou definitiva, se traduz por uma expansão da agricultura periurbana. Propomos uma abordagem comparativa da diversidade agrícola entre o urbano e o florestal. Analisamos as relações entre formas de manejo dos espaços cultivados (superfícies, ciclo de uso e práticas), plantas cultivadas e redes sociais envolvidas no acesso aos recursos fitogenéticos. A análise mostra uma recomposição dos sistemas agrícolas com a permanência de uma alta diversidade agrícola, porém marcada por uma maior vulnerabilidade do sistema em decorrência da diminuição do tempo de pousio e da diminuição da força de trabalho disponível. No contexto urbano, as estratégias tradicionais de manejo dos recursos agrícolas se combinam a um outro objetivo, o do acesso à terra. A análise aponta para a necessidade de uma reflexão sistémica sobre as possíveis formas de conservação deste patrimônio biocultural.

When the shifting agriculture is gone: functionality of Atlantic Coastal Forest in abandoned farming sites

Slash-and-burn agriculture has been practiced for a very long time by the traditional populations (caiçaras) on Ilha Grande, Rio de Janeiro State, Brazil. After a few years of use the plots are abandoned to fallow. We examined the processes of litter production and decomposition and the relationships between forest lands used by caiçara populations and landscape functionality. Five and 25-year-old forests growing on areas once used for subsistence agriculture were compared to a near-climax forest site. No significant differences between the three areas were noted in terms of litter production over a 2-yr period; the average litter productions were 9,927, 8,707 and 10,031 kg/ha/yr for the 5-year, 25-year and climax forests respectively. N and K nutrient input through litter was greatest in the climax forest; P and Mg input was greatest in the 5-yr forest; and Na greatest in the 25-yr forest. Ground litter accumulation (3,040-3,730 kg/ha/yr) was not significantly different in the three areas. Litter turnover times (1/K) were 0.33, 0.42 and 0.38 for the 5-yr, 25-yr and climax forests respectively. These secondary forests cover almost all of Ilha Grande and demonstrate low species diversity, but they have production and decomposition systems similar to those of mature forests.

A casa e a roça: socioeconomia, demografia e agricultura em populações quilombolas do Vale do Ribeira, São Paulo, Brasil

Este estudo tem como objetivos caracterizar o perfil demográfico e socioeconômico de nove comunidades remanescentes de quilombos no vale do Ribeira, estado de São Paulo, e identificar os principais fatores responsáveis pelas mudanças recentes nos seus padrões de subsistência. Desde a formação das primeiras aglomerações de escravos libertos e foragidos no século XVIII, as relações estabelecidas entre estas populações com as cidades próximas e com o mercado regional têm vivenciado momentos de retração e de expansão, adaptando-se e ajustando-se a novas mudanças políticas e socioeconômicas. Nas últimas cinco décadas, o impacto de fatores externos na aceleração das mudanças nos padrões de subsistência locais parece ter tido um aumento significativo. Os resultados mostram que as restrições impostas pela legislação ambiental, os conflitos de terra, a construção de uma rodovia na região, a crescente inserção no mercado regional e a atuação de órgãos governamentais e não-governamentais de desenvolvimento são os principais fatores responsáveis pelas mudanças observadas no sistema agrícola de corte e queima e, conseqüentemente, na organização socioeconômica destas populações.

Year

2008

Creators

Pedroso Júnior,Nelson Novaes Murrieta,Rui Sérgio Sereni Taqueda,Carolina Santos Navazinas,Natasha Dias Ruivo,Aglair Pedrosa Bernardo,Danilo Vicensotto Neves,Walter Alves

Na trilha do manejo científico da floresta tropical: indústria madeireira e florestas nacionais

O texto aborda a elaboração de políticas governamentais direcionadas às reservas florestais no Brasil durante o século XX, até a adoção da categoria de Floresta Nacional, em meados da década de 1960, para designar áreas públicas de exploração madeireira. Discorre sobre as principais motivações para a promoção e o ordenamento da produção madeireira no país, e o seu direcionamento para a Amazônia, de acordo com o projeto geopolítico dos militares para modernização e aceleração do crescimento da economia regional. Em 1974, o governo federal criou a Floresta Nacional do Tapajós, no estado do Pará, com o objetivo de impulsionar e disciplinar a atividade madeireira nos parâmetros do manejo florestal científico, conceito que foi gerado na Alemanha em meados do século XVIII e que fundamentou, nos Estados Unidos, a criação do sistema de reservas denominadas de Florestas Nacionais no início do século XX. A emergência de um sistema de reservas florestais na Amazônia visou contribuir para a abertura do mercado exportador madeireiro, que contava com fortes incentivos técnicos e fiscais. Entretanto, a exploração não foi realizada em áreas de reserva florestal e nem seguiu qualquer preceito do moderno manejo florestal, apesar do eventual alcance internacional das exportações de madeira na Amazônia.

Análise agrossocial da percepção de agricultores familiares sobre sistemas agroflorestais no nordeste do estado do Pará, Brasil

Em 2005, foi conduzida uma pesquisa sobre sistemas agroflorestais (SAF), tendo como estudo de caso os agricultores familiares do Projeto de Assentamento Arapuã-Simeira, no município de Garrafão do Norte, estado do Pará, Brasil. O propósito foi descrever e sistematizar as características agrossociais dos agricultores familiares e suas experiências e percepções sobre SAF. A metodologia constou de visitas a campo, aplicação de questionários padronizados, observação e discussão em grupo. Os agricultores privilegiam algumas espécies perenes e florestais para o plantio consorciado. A principal explicação para a introdução de espécies no sistema foi os motivos econômicos e o comportamento social. Percebe-se uma complexidade na escolha de produtos e no manejo agrícola em cada propriedade, resultando numa combinação de diferentes sistemas agrícolas apropriados às condições locais. Os agricultores demonstraram capacidade de decisão sobre a combinação ideal para cada sistema agrícola. A pesquisa mostra a trajetória agrossocial e sociocultural dos agricultores e faz especulações sobre os possíveis desafios que implicariam a adoção de SAF na agricultura familiar. Uma abordagem sistêmica poderá ser muito útil no entendimento das relações e dos processos sociais, os quais são importantes aspectos na questão rural e agrária.

Year

2008

Creators

Henkel,Karl Amaral,Idemê Gomes

Os quintais como espaços de conservação e cultivo de alimentos: um estudo na cidade de Rosário Oeste (Mato Grosso, Brasil)

Os quintais são uma das formas mais antigas de manejo da terra. Esses sistemas consistem em uma combinação de árvores, arbustos, herbáceas, algumas vezes associados a pequenos animais domésticos, crescendo próximos à residência. Com o objetivo de identificar as espécies vegetais que compõem o verde dos quintais de Rosário Oeste, Mato Grosso, e que fazem parte da alimentação de seus moradores, seguiu-se a metodologia de pesquisa sugerida por estudos etnobotânicos, com base em análises qualitativa e quantitativa. A coleta de dados etnobotânicos foi realizada por meio de visitas domiciliares, utilizando-se a técnica de "bola de neve". Foram identificadas 94 espécies vegetais, utilizadas especialmente na alimentação das famílias. Apesar de terem importante função ecológica e de conservarem alta diversidade de plantas na sua composição, garantindo a variabilidade genética de muitas espécies, esses quintais, enquanto sistemas agrícolas tradicionais, voltados para a subsistência, estão se desarticulando e perdendo espaço para a agroindústria e para outras atividades comerciais que ganham, cada vez mais, impulso no campo.

Year

2008

Creators

Amaral,Cleomara Nunes do Guarim Neto,Germano

Animais medicinais: conhecimento e uso entre as populações ribeirinhas do rio Negro, Amazonas, Brasil

O estudo tem por objetivo documentar o uso de animais na medicina caseira entre ribeirinhos do rio Negro, Amazonas, Brasil. Os dados foram coletados por meio de 92 entrevistas e de observações sobre o conhecimento e as práticas cotidianas de uso de animais medicinais. Cerca de 60 espécies animais são conhecidas com propósitos medicinais. O conhecimento é bem distribuído entre os sexos (homens e mulheres) e entre localidades (urbano e rural). O uso de animais medicinais está imerso em conceitos etiológicos e envolve uma complexa visão cosmológica do processo de cura. O êxodo rural e o acesso facilitado à medicina ocidental podem promover a perda dos conhecimentos tradicionais, o que pode ser mitigado através da valorização e da transmissão desses saberes às futuras gerações.

A pesca do tamoatá Hoplosternum littorale (Hancock, 1828) (Siluriformes: Callichthyidae) na ilha de Marajó

Hoplosternum littorale (Hancock, 1828) (Siluriformes, Callichthyidae) é um peixe de médio porte conhecido na Amazônia brasileira como tamoatá. Apresenta respiração acessória, o que permite ocupar as extensas áreas pantanosas da foz dos rios Amazonas e Orinoco. O tamoatá é o principal recurso pesqueiro da ilha de Marajó, sendo capturado principalmente nos campos alagados da bacia do rio Arari, no município de Santa Cruz do Arari (PA). Seu desembarque representa 6% do total no porto do Ver-o-Peso, em Belém (PA), o principal da Amazônia oriental. A pesca do tamoatá é marcadamente sazonal, ocorrendo na estação seca. De julho a agosto, é mais intensa no rio e lago Arari e de outubro a novembro, nos poços das fazendas, que são os últimos a secarem na região. A pesca é feita por pescadores locais, que vendem sua produção para as geleiras. Estas são embarcações de madeira, com urnas de gelo que levam a produção para ser comercializada nos principais portos urbanos, em especial o do Ver-o-Peso. A pesca é aqui descrita com base em observações de campo e entrevistas estruturadas com pescadores comerciais e fazendeiros da região. A frota de geleiras que desembarca o tamoatá em Belém é composta por 415 embarcações com capacidade de urna de até 27 t. As pescarias são realizadas, basicamente, por redes de emalhar de monofilamento e de cerco de multifilamento.

Year

2008

Creators

Albuquerque,Adna Almeida de Barthem,Ronaldo Borges

A Rede Paraense de Agricultura Familiar e Biodiesel

A produção de biodiesel na lógica da agricultura familiar demanda empenhos institucionais diversos. São necessárias pesquisas agronômicas e tecnológicas e é preciso desenvolver a produção por meio do associativismo e do cooperativismo. O zoneamento agrícola e o crédito, assim como a assistência técnica, são também aspectos importantes para a atividade, cujo propósito é garantir uma nova alternativa de mercado aos agricultores, sem agressões ambientais e sem que isso signifique prejuízo à produção de alimentos. Significa dizer que o biodiesel, na lógica da agricultura familiar, exige a integração de muitas abordagens, o que pode ser alcançado mediante uma ação sistêmica, capaz de articular competências institucionais diversas aos interesses de agricultores familiares e assentados da reforma agrária. Esse é o objetivo da Rede Paraense de Agricultura Familiar e Biodiesel. Mais que constituir um fórum de discussão, a rede busca a articulação de competências institucionais em função de projetos definidos conforme contextos territoriais. Nessa direção, a rede integrou-se ao projeto Araguaiana Biodiesel, cujo escopo é desenvolver, com o apoio da Petrobras, uma alentada ação no sul do Pará. A esse conjunto institucional soma-se, decisivamente, a Secretaria de Agricultura do Estado do Pará.

Notas sobre o antigo povoamento indígena do alto Trombetas e Mapuera

A 'Relação' de 1728 de frei Francisco de São Manços, com a narrativa da primeira exploração da bacia Trombetas-Mapuera, no noroeste do Estado do Pará, embora publicada há mais de cem anos, é aqui, pela primeira vez, objeto de análise e de interpretação geográfica e etno-histórica. A importância do documento está em nomear e em localizar com aproximação cerca de 50 'nações' indígenas, quase todas ignoradas pelas fontes históricas e etnográficas posteriores, além de mencionar muitas de suas aldeias e de seus chefes. A reconstituição do itinerário permitiu concluir que a viagem do 'descobridor do Trombetas' transcorreu, na verdade, em grande parte, pelo Mapuera, seu afluente, até o planalto das Guianas. A informação etnográfica, embora limitada, inclui referências a dois níveis de chefia política e à guerra como meio de obter escravos destinados ao escambo por mercadorias.

Imagem e pesquisa na Amazônia

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