RCAAP Repository
Teorias e imagens antropológicas na Viagem Filosófica de Alexandre Rodrigues Ferreira (1783-1792)
O artigo analisa as estampas de tapuias produzidas pela Viagem Filosófica (1783-1792) do naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira, a partir das teorias setecentistas que promoviam taxonomias e hierarquizavam a humanidade de acordo com o progresso técnico. Inicialmente, é realizado um balanço historiográfico sobre os estudos dedicados a Lineu, Buffon e Robertson. Em seguida, analisa-se como estes teóricos foram fundamentais para a composição das imagens. Os costumes, o meio e os contatos com portugueses e espanhóis explicavam, segundo Ferreira, a existência de diversas nações. Os povos da Amazônia constituiriam uma única raça, mas se encontravam em diferentes estágios da evolução humana.
2014
Raminelli,Ronald Silva,Bruno da
Fotografia e ciência: a utopia da imagem objetiva e seus usos nas ciências e na medicina
O artigo analisa como a fotografia foi empregada no interior das ciências e, especificamente, na medicina ocidental, desde a segunda metade do século XIX até as primeiras décadas do século XX. Nesse período, a fotografia sedimentou o seu papel como instrumento de registro, de conhecimento e de divulgação das práticas médicas, inicialmente na Europa. O principal meio de divulgação de fotografias foram as publicações médicas seriadas, motivo pelo qual a técnica foi rapidamente vulgarizada, a despeito das resistências que despertou. São analisadas aqui fotografias produzidas, principalmente, em Paris e São Paulo, com a preocupação de explicar as condições de sua produção, as implicações heurísticas ligadas ao uso da fotografia na medicina e como, a partir dela, novos significados foram agregados ao universo de representações no campo das práticas médicas.
2014
Silva,James Roberto
Os estudos comparativos e os desenhos 'imparciais e singelos' de Antonio Lopes Mendes no Brasil (1882-1883)
O artigo analisa a singularidade de Antonio Lopes Mendes (1835-1894), agrônomo português que viajou por seu país e pelo mundo (especialmente Índia e Brasil) integrando missões científicas e comerciais. Essa experiência resultou em abundante material textual e iconográfico, ainda pouco estudado. Como outros 'homens de ciência' e politécnicos de seu tempo, Lopes Mendes demonstrou notória sensibilidade para a expressão visual, realizando estudos comparativos com a 'imparcialidade' e a 'singeleza' de seu traço. Desenhista atento, meticuloso e prolixo, ele esteve no Brasil entre 1882 e 1883, quando percorreu várias províncias do país e, mais detidamente, a região Norte. As descrições textuais e visuais que compõem suas observações de campo nos ajudam a compreender a interdisciplinaridade do conhecimento científico, assim como sua constituição e comunicação pelas artes visuais no século XIX.
2014
Turazzi,Maria Inez
Animatógrafo da guerra: Canudos e Contestado e a fotografia militar no Brasil
O artigo analisa a relação que o Exército brasileiro manteve com a tecnologia fotográfica no final do século XIX e início do século XX. Foram analisados os acervos fotográficos de duas campanhas militares: o da Guerra de Canudos (1896-1897) e o da Guerra do Contestado (1914-1916). Investigou-se a forma como o Exército investiu na tecnologia fotográfica para registrar os feitos militares e combater as críticas efetuadas à repressão dos dois maiores conflitos sociais da Primeira República (1889-1930). São destacados os avanços nessa tecnologia e a lógica dos discursos oficiais incorporados nas representações fotográficas. Houve um deslocamento na forma de registrar e imortalizar os feitos militares entre Canudos e o Contestado, especialmente no que diz respeito à produção e circulação de fotografias relacionadas a morte e destruição no campo de batalha. Tal mudança esteve relacionada às transformações políticas e sociais vividas no Brasil durante o período, articuladas ao projeto local de modernização militar.
2014
Rodrigues,Rogério Rosa
Do céu ao solo: Miss México 1928
Este ensaio narra um episódio histórico no qual a eleita Miss México de 1928 converteu-se em uma 'auto-viúva' no ano seguinte. A história não é somente mais uma anedota da vida pós-revolução mexicana, mas apresenta uma série de elementos que refletem claramente as transições vivenciadas pelas mulheres naqueles anos, nos quais a modernidade se aproximava. O importante é a forma como se projetaram essas mudanças sociais, culturais e legais, as quais deram um significado às mulheres e ao seu momento libertário, que se manifestava de maneira muito diferente frente à vida militar e política. Trata-se de um estudo de caso que permite observar de forma clara e embasada, por meio das imagens fotográficas, as transformações na agitada vida cotidiana do México, a partir do ponto de vista da história de gênero e de abordagens da história cultural.
2014
Nasr,Rebeca Monroy
...E a etnologia fez os cineastas sonharem: olhar etnológico e alteridade no cinema brasileiro entre 1970 e 1980
Este artigo caracteriza a emergência de um olhar etnológico como padrão interpretativo teórico e prático nos filmes e nas discussões do campo cinematográfico brasileiro entre 1970 e 1980. Demonstra-se que o cinema era uma forma visual que constituiu uma 'etnovisão', a qual sofreu uma inflexão com a problematização da cultura popular brasileira no campo cinematográfico dos anos 1960. No final dessa década, na recuperação do choque provocado pelo golpe civil-militar de 1964, o campo cinematográfico reagiu, reconhecendo a alteridade do povo brasileiro. Voltando-se a um registro etnovisual da cultura local, empreendeu o reconhecimento visual de sua diversidade para desenvolver interpretações etnológicas da brasilidade. A análise de textos e imagens fílmicas, a partir da abordagem iconológica, evidenciou de que maneira uma nova concepção de alteridade se formou no Brasil.
2014
Santiago Júnior,Francisco das Chagas Fernandes
Entre o tempo perdido e o instante: cronofotografia, ciência e temporalidade moderna
Quando a temporalização da história e da percepção põe em movimento um presente cada vez mais efêmero e contingente, a categoria do instante adquire lugar relevante no cenário epistemológico moderno. Surge, na segunda metade do século XIX, verdadeiro arsenal cronométrico que se articula ao imperativo de estruturar o tempo, dentro e fora do corpo, em substâncias idênticas, eminentemente divisíveis e estimáveis, opondo-se à hipótese filosófica e fenomenológica de que o tempo, por excelência, seria um contínuo indivisível. Trata-se de uma disputa pela imagem do tempo e, portanto, por sua natureza e seu sentido - dilema que envolve o mapeamento e o 'imageamento' por meio das novas tecnologias da imagem, tendo no microinstante um conceito-chave e na fotografia instantânea uma engrenagem fundamental. Presente como problemática na formulação de campos de saber variados, a fotografia participa não apenas de uma cronometria generalizada, mas também da problematização dessa fragmentação temporal, crítica que instaura novas percepções e relativizações acerca do tempo. Nesse sentido, perpassando as experiências fotográficas no âmbito científico de Jules Janssen e Étienne-Jules Marey, confrontando-as e levando-as a dialogar com os debates filosóficos, científicos e artísticos, o artigo pretende problematizar a profunda relação entre fotografia e experiência moderna do tempo.
2014
Sanz,Cláudia Linhares
Tupi ou não Tupi? Predação material, ação coletiva e colonialismo no Espírito Santo, Brasil
Este artigo trata das interações entre populações indígenas e não indígenas no sul do Espírito Santo (costa sudeste do Brasil) nos séculos XVIII e XIX, a partir de uma abordagem da arqueologia interpretativa combinada a teorias sobre a agência dos humanos e dos objetos. Sua primeira parte é uma discussão crítica sobre a assimetria epistemológica, estabelecida e mantida ao longo de séculos de colonialismo, entre histórias locais e a história da colonização americana pelos ocidentais. A partir de um estudo de caso, discute-se como a mesma metanarrativa do devastador impacto ocidental sobre populações nativas, consideradas culturalmente estáticas e socialmente passivas, opera em modelos teóricos arqueológicos correntes e no discurso nacionalista do século XIX sobre a conquista dos índios do Espírito Santo. Em seguida, apresenta-se uma perspectiva alternativa de estudo do aparato material tupi setecentista, atenta à noção indígena de reciprocidade e ao potencial do mundo material para a mobilização de ações coletivas. Com o contexto interpretativo construído para os sítios arqueológicos do Espírito Santo, procura-se discutir, a partir de cerâmicas, líticos, manuscritos e mapas, a ação tupi na colonização europeia.
2014
Ribeiro,Loredana Jácome,Camila
O comércio internacional de peles silvestres na Amazônia brasileira no século XX
Durante o século XX, o comércio internacional de peles foi responsável pelo abate de milhões de mamíferos e répteis na Amazônia. Negociadas no regime de comércio fluvial e aviamento, as peles seguiam dos portos e seringais, localizados no interior, para as casas aviadoras e exportadoras de Manaus e Belém, de onde eram exportadas principalmente para os Estados Unidos, a Europa e o sul brasileiro. Neste artigo, analisamos documentos fiscais inéditos liberados pelo extinto império econômico do aviamento - a empresa J. G. Araujo -, bem como periódicos da Associação Comercial do Amazonas e os registros portuários da Manáos Harbour Ltd. O comércio internacional de peles silvestres intensificou-se imediatamente após a crise da borracha (1912) e atingiu seu auge entre 1935 e 1946, com o pico durante a Segunda Guerra Mundial. O segundo pico ocorreu na década de 1960, principal e ironicamente logo após a publicação da Lei de Proteção à Fauna (1967). Ao longo do período que antecedeu a aprovação da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas (CITES), em 1973-1975, não houve depreciação significativa no preço ou na demanda internacional por peles silvestres, sugerindo um esforço de caça constante e intenso por quase meio século.
2014
Antunes,André Pinassi Shepard Junior,Glenn Harvey Venticinque,Eduardo Martins
Práticas de uso e manejo tradicional de Carapa spp. (andiroba) na Reserva Extrativista do Rio Jutaí, Amazonas, Brasil
Na Reserva Extrativista (RESEX) do Rio Jutaí, Amazonas, os moradores têm manifestado expectativas e aspiram mudanças quanto ao manejo da andiroba (Carapa spp.). Na presente pesquisa, foram formuladas perguntas sobre as razões dessas mudanças e como elas estão acontecendo. Aspectos socioeconômicos e de manejo foram estudados em 31 unidades familiares de dez comunidades da RESEX. Utilizaram-se entrevistas semiestruturadas, observação participante e avaliação de tempo e esforço de trabalho. A população local atribuiu relevante significado para a espécie em razão do valor de uso, destacando-se as aplicações medicinais, na pesca de matrinxã (Brycon spp.) e de outras quatro espécies de peixe. O manejo da andiroba é realizado, principalmente, em áreas de floresta primária e é complementado pela maioria das famílias na forma de plantios, comercializando parte da produção no interior da RESEX. Análises multivariadas discriminaram um grupo que investe maior tempo e número de pessoas na coleta, tendo maior produção, no entanto com menor rendimento. Não existe tendência à especialização das atividades, pois as famílias são pluriativas. O fenômeno estudado se encaixa na proposta conceitual do neoextrativismo, na medida em que as práticas estão em transformação e incluem cultivo e beneficiamento.
2014
Calle,Diego Alejandro Cardona Vieira,Gil Noda,Hiroshi
O conflito social como ferramenta teórica para interpretação histórica e sociológica
Os conceitos são as ferramentas utilizadas pelos cientistas das Humanidades para a labuta intelectual. Artefatos substantivos, os conceitos diferenciam uma análise científica do senso comum. Este ensaio pretende debater uma dessas ferramentas, o conceito de conflito social. Diante dos últimos acontecimentos no mundo e, mais recentemente, no Brasil, este conceito tende a ganhar cada vez mais destaque. Entretanto, ainda há carências teóricas para organizar o debate acadêmico, sob o risco de superficialidade. Propõe-se aqui, amparado por pensadores como Pierre Bourdieu, Georg Simmel, E. P. Thompson e Axel Honneth, uma abordagem que extrapola a interpretação utilitarista do conceito. Dessa forma, espera-se contribuir para o entendimento dos movimentos sociais pretéritos, históricos, e atuais, sociológicos.
2014
Santos,Leonardo Bis dos
Identidade Agudá espelhada no tempo: fotografia como instrumento de pesquisa social - um relato de experiência
O texto apresenta um relato de experiência de pesquisa antropológica realizada nas Repúblicas do Benin e do Togo, em dois momentos (1996 e 2010), sobre a construção da identidade agudá. Enfatiza-se o papel da fotografia como plataforma privilegiada de observação e de registro de fenômenos sociais visualmente relevantes, que apoia a produção de conhecimento cientificamente controlado sobre as sociedades fotografadas. Analisa-se em perspectiva temporal três pares de imagens fotográficas produzidas nos dois tempos da pesquisa de campo, para se evidenciar os processos de atualização das tradições e dos marcadores identitários da comunidade agudá.
2014
Guran,Milton
Um olhar antropológico sobre a questão ambiental
No summary/description provided
2014
Lelis,Michelle Gomes Ferreira Neto,José Ambrósio
Arqueologia Guarani na ponta sul do Brasil
No summary/description provided
2014
Ribeiro,Bruno Leonardo Ricardo
Um pequeno tributo para um grande antropólogo
Este ensaio presta homenagem à obra de Charles Wagley (1913-1991), tomando como base a carreira do autor e revelando como um dos seus estudos foi baseado na obra de Wagley e Eduardo Galvão
2014
DaMatta,Roberto
Charles Wagley: his career, his work, his legacy
Charles Wagley's work, firmly in the Boasian tradition, reflects his association with and training by Franz Boas, but especially by Ruth Benedict and Ruth Bunzel. Wagley's career as an ethnographer began in the Guatemalan highland town of Santiago Chimaltenango in 1937. Soon thereafter, he turned from Guatemala to Brazil, where he did his first field research (1939-1940) among the Tapirapé Indians. Wagley's Tapirapé revisits culminated in his last book, "Welcome of tears: the Tapirapé Indians of Central Brazil" (1977). Wagley's study of Gurupá began in 1948 and produced various editions of his popular book "Amazon town: a study of man in the Tropics". Wagley co-directed the Bahia State-Columbia University Community Study Project in 1951-1952, culminating in the edited book "Race and class in rural Brazil". Over time, Wagley focused increasingly on non-Indians, ranging from rural towns like Gurupá to Brazilian culture as a whole. Illustrating the latter, Wagley wrote two editions of "Introduction to Brazil", a culturally insightful text that examined unity and diversity in Brazilian culture and society. A man of careful scholarship and keen intellect, Chuck Wagley took great pride in the excellence of his teaching and writing; he also enjoyed sharing his knowledge and insights with a larger public
2014
Kottak,Conrad Phillip
Foreseeing the big scientific questions: a special gift of Wagley's
In this paper I review my experience as Charles Wagley's Ph.D. student and later as a faculty colleague at the University of Indiana. In addition to his deep humanism and personal warmth, Wagley also had an uncanny ability to foresee important emerging issues in social sciences, especially within Latin American and Brazilian Studies. With his flexible, personable style he found ways to direct students and colleagues towards the issues he considered important, and which later became truly major issues for these fields. For example, he helped to create the interdisciplinary field of Latin American Studies while in New York, focused on Latin American race relations while at Columbia University, and created the Amazonian Studies program at University of Florida with its focus on impacts of development and infrastructure projects. He helped create scholarship programs for such studies through the Title VI mechanism. Through all of his scholarly contributions, Wagley led by inspiring with a rare social consciousness and a deep concern for the human costs of social and economic change
2014
Moran,Emilio
Charles Wagley: mentor and colleague
Professor Charles Wagley was my mentor at Columbia University, my colleague at the University of Florida and a dear friend. His influence on me can be summarized in one word: Brazil. From the time I took his course, "Peoples of Brazil", as a first semester graduate student at Columbia I was captivated and most of my subsequent field research and publications have had Brazilian themes. Under Dr. Wagley's direction I did field research for my dissertation in the coffee region of northern Paraná and focused on the shift from coffee cultivation to cattle ranching and the social and economic consequences of that change. My subsequent research in the area involved the impact of frost on this shift in economic base as well as one of its results: the flight of poor Brazilians to Paraguay. Then starting in the late 1980s my research shifted and I began focusing on Brazilian immigrants in New York City. This was part of a growing movement of Brazilians arriving in New York, elsewhere in the United States and in Europe and Japan. Since then most of my subsequent research and publications have been on this new wave of international migrants
2014
Margolis,Maxine L.
Charles Wagley on changes in Tupí-Guaraní kinship classifications
Charles Wagley contributed significantly to the ethnographic study of culture and society in Brazil. In addition to his well-known work on both rural and urban Brazilian populations, Wagley was a pioneering ethnographer of indigenous societies in Brazil, especially the Tapirapé and Tenetehara, associated with the Tupí-Guaraní language family. In comparing these two societies specifically, Wagley was most interested in their kinship systems, especially the types of kinship or relationship terminology that these exhibited. In both cases, he found that what had once been probably classificatory, bifurcate-merging terminologies seem to have developed into more or less bifurcate-collateral (or Sudanese-like) terminologies, perhaps partly as a result of contact and depopulation. Recent research on kinship nomenclature and salience of relationship terms among the Ka'apor people, also speakers of a Tupí-Guaraní language, corroborates Wagley's original insights and indicates their relevance to contemporary ethnography.
2014
Balée,William
Charles Wagley's legacy of Interdisciplinary Graduate Research and Training Programs at the University of Florida
When Charles Wagley moved from Columbia University to the University of Florida (UF) in 1972, he established the Tropical South America Program. In this program he began an enduring legacy at UF of interdisciplinarity, collaborative research and training focused on the problems and solutions of tropical development, and support for students as future leaders. Reaching out to agricultural researchers and other social science disciplines, Wagley later co-founded and directed the Amazon Research and Training Program (ARTP), and remained active even after his retirement in 1983. The ARTP built on Wagley's strategy of supporting student research and building collaboration with partners in Latin America, and innovated in bringing in visiting professors from different disciplines, developing new interdisciplinary courses, and networking among Amazonian scholars in different countries. Wagley's most lasting contribution is the Tropical Conservation and Development (TCD) program, which grew out of the ARTP to become an internationally-recognized interdisciplinary graduate program focused on the intersection between biodiversity conservation and the well-being of people in the tropical world. Drawing on participation from over 100 faculty affiliates in 27 academic units at UF, since 1980 the ARTP and TCD programs have trained over 400 graduate students from two dozen countries.
2014
Schmink,Marianne