Repositório RCAAP

Estranhas Angélicas: confluências entre Manoel de Oliveira e Lúcio Cardoso

Estudo comparativo entre o filme O Estranho Caso de Angélica de Manoel de Oliveira e o texto da peça de teatro \"Angélica\" de Lúcio Cardoso, este trabalho mobiliza a escolha irônica para a onomástica dos títulos com o objetivo de trazer à discussão problemáticas sociológicas nas obras desses dois artistas de língua portuguesa, mais tranquilamente aproximáveis pelas confluências formais relacionadas a temáticas introspectivas e metafísicas que remetem aos grupos de estética católica da geração de 1930. Foi por meio da perspectiva crítica alargada acerca da construção de personagens, nos trânsitos interartístico e interdisciplinar, que se colocou em relação essas duas obras originalmente gestadas em meados do século XX, mas que só recentemente obtiveram recepção mais detida, devido à publicação da peça em 2006 e à concretização do filme em 2010. Dividindo a atenção entre as personagens protagonistas, aproximadas pelo fenômeno do duplo, e os dois conjuntos de personagens, subdivididos e imbricados segundo funções sociais resultantes de elaborações discursivas, em alguma medida, convergentes, buscou-se praticar as potencialidades transdisciplinares do comparatismo literário.

Ano

2020

Creators

Edimara Lisboa

Dois cárceres, uma certeza: a morte. Um estudo comparado entre \'A vida verdadeira de Domingos Xavier, de José Luandino Vieira e \'Memórias do cárcere\', de Graciliano Ramos

Este trabalho apresenta uma análise comparada empreendida ao abrigo da linha de pesquisa \"literatura e sociedade nos países de língua portuguesa.\" Deste modo, realizamos o cotejo entre as obras A vida verdadeira de Domingos Xavier, de José Luandino Vieira, escrita em 1961 e publicada em 1974, e Memórias do cárcere, de Graciliano Ramos, escrita entre os anos de 1946 e 1952, e publicada logo após a morte do escritor em 1953. O objetivo desse trabalho é o estudo do engajamento da Literatura nos problemas sociais e políticos de uma nação e, como recorte principal, a atuação relevante dos escritores no painel social em que se encontram inseridos. A leitura das obras, em que aparece plasmada a realidade representada pelos regimes de exceção mostrou-nos a amplitude da transfiguração da realidade operacionalizada em tais regimes, a iminência da absoluta aniquilação física e psicológica do ser humano, o cárcere no seu interior e o desrespeito à dignidade humana. No entanto, encontramos também diferenças como a estratégia formal adotada por cada escritor e a relação construída entre a identidade individual e coletiva. Essas observações entre outras possíveis permitiram a elaboração de um diálogo comparatista que se orienta principalmente pela problemática do tratamento da forma literária a partir de determinados elementos incidentais e comuns às referidas obras, que são o autoritarismo e a violência.

Ano

2006

Creators

Debora Leite David

Memória e clausura em As visitas do Dr. Valdez, de João Paulo Borges Coelho e Teoria Geral do Esquecimento, de José Eduardo Agualusa

O presente trabalho aborda os romances Teoria Geral do Esquecimento (2012) de José Eduardo Agualusa, e As visitas do Dr. Valdez (2010) de João Paulo Borges Coelho, com foco nos processos de rememoração de duas personagens femininas que se confrontam com o medo das transformações sociais iniciadas com os movimentos pela Independência. de Angola e Moçambique. Diante do clima de incerteza Ludovica e Sá Amélia se fecham e se restringem a microespaços, como pequenas ilhas de sobrevivência dos valores coloniais dentro dos países independentes. Trata-se de refletir a respeito da clausura como parte do processo de rememoração, sendo ela antes um meio do que propriamente um fim, ou mesmo uma tentativa de solução para escapar à realidade da transformação radical. O estudo comparativo focalizará os movimentos da memória e seu registro enquanto construção histórico-ficcional no campo literário, examinando os desdobramentos do percurso dessas personagens para as quais a única forma de viver no presente é viver no passado.

Ano

2018

Creators

Bruna Del Valle de Nobrega

A poética de Noémia de Sousa: História e identidade em Moçambique colonial

Esta dissertação tem como objetivo a análise de poemas da escritora moçambicana Noémia de Sousa, reunidos na obra Sangue Negro (2016). A partir de discussões teóricas sobre o conceito de identidade, buscamos entender de que modo estas se constroem no discurso estético da autora e quais percursos identitários podem ser vislumbrados em sua poética por meio de uma crítica analítica e interpretativa. Buscamos observar como a experiência pessoal de mulher e mestiça dentro de uma sociedade colonial, foi determinante na gênese da poesia engajada da escritora. Para tanto, traçamos um breve panorama histórico sobre as singularidades do colonialismo português no território de Moçambique.

Ano

2018

Creators

Roseleine Vitor Bonini

A poética de Arménio Vieira: labirinto, trânsito, rizoma

Esta pesquisa tem como objetivo ler, à luz do comparativismo, a obra poética de Arménio Vieira, compreendendo o seguinte corpus: Poemas (1981), MITOgrafias (2006), O poema, a viagem, o sonho (2010) , O Brumário(2013a), Derivações do Brumário (2013b), Sequelas do Brumário(2014), Fantasmas e fantasias do Brumário(2015).Os poemas, revestidos de camadas e de diálogos polifônicos, oferecem-se como escritura rizomática e labiríntica aos olhos do leitor. Por isso, compreender o espaço de representação da escritura armeniana demanda a leitura atenta da intertextualidade, geradora das perguntas que o escritor impõe a si mesmo e, por extensão, ao leitor. Outro ponto a ser destacado na pesquisa é aquele que diz respeito à desconstrução, já que tal procedimento viabiliza a desmontagem do texto, convertendo-o num objeto de múltiplas leituras, vinculando as palavras aos princípios que as formam e, ao mesmo tempo, aos pontos que as deslocam. Igualmente relevante é a noção de jogo, seja como tema ou como procedimento autoral, desvelando as diversas possibilidades de entrada e saída no texto, estendendo-o num constante movimento e devir: o do jogar e o do ler. O tema da morte é incontornável por apresentar-se como ponto de fuga, espaço alegórico da finitude e do inferno, sendo que, este, como metáfora do fazer literário e da própria escritura, performatiza a substância do jogo e a do jogar. A pesquisa ancorou-se, principalmente, nos estudos de Marc Augé (1989, 1994, 1998, 2003, 2006, 2015),Gaston Bachelard (1996), Roland Barthes (1987, 1994, 2001, 2004, 2007), Maurice Blanchot (1987, 2005, 2011), Gilles Deleuze e Félix Guattari (1995, 2000a e 2000b), Jacques Derrida (1972, 1973, 1975, 1978, 1979,1987),Michel Foucault (1994,1999, 2001, 2009), Hans-Georg Gadamer (1985, 1991, 1999), Johan Huizinga (2014), Agustín Fernández Mallo (2009).

Ano

2019

Creators

Vilma Aparecida Galhego

Mia Couto: memória e identidade em \'Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra\'

O presente trabalho, fruto de nossas incursões pela obra de Mia Couto, aborda mais especificamente as relações entre a memória e as identidades no romance Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra, considerando a sua participação na construção da moçambicanidade. Para este estudo apoiamo-nos em vários autores, que vão desde Amílcar Cabral e Frantz Fanon, dois autores de relevância nas revoluções africanas (e, especialmente, nas revoluções dos países que alcançaram as suas independências por via armada como é o caso de Moçambique) até Stuart Hall e Terry Eagleton, dois estudiosos das questões da pós-modernidade como migração, diásporas, e identidades. O trabalho focaliza ainda as relações entre a oralidade e a escrita, entre o pós-colonialismo e pós-independência, o pós-modernismo e a pós-modernidade. E, por fim, busca-se refletir sobre o lugar da literatura e o papel do narrador num romance que se movimenta num terreno pleno de conflitos, tais como aqueles que encontramos no par tradição/modernidade, cidade/campo, passado e presente.

Ano

2008

Creators

Jorge de Nascimento Nonato Otinta

Tecendo estórias das comunidades remanescentes de quilombolas aqui e acolá

A presente tese objetiva a recolha de narrativas orais em comunidades rurais remanescentes de quilombola, em 2008, no município de Caxias-Maranhão, e análise do sentido estético, ético, bem como a função social desses enredos. Marcadas pela luta do direito à posse da terra, todas as atividades culturais aí desenvolvidas, como a dança do baião, a festa do Divino e a contação de estórias, fortalecem a identidade étnica, o passado de exploração, o sentimento de pertencimento e as ações reivindicatórias por serviços públicos que lhes garantam vida digna. O confronto dessas narrativas orais com as narrativas escritas, divulgadas por folcloristas brasileiros, a partir da segunda metade do século XIX, mostra que as temáticas, profundamente humanas, estão relacionadas com valores, crenças, sonhos, desejos e comportamentos regidos por uma moral relativa, revelando, pois, o mundo de quem narra e a atualidade dos enredos. A variedade de contos (de encantamento, de exemplo, de animais, facécias, demônio logrado, adivinhação etc.), além de mitos, lendas e causos comprova que o motor da tradição oral é a inovação, pela incorporação do elemento local e articulação com os anseios das comunidades onde circulam que são: a busca do conhecimento, a realização amorosa, financeira, o tradicional embate entre o velho e o novo, entre o fraco e o forte, entre o bem e o mal. Veiculada numa linguagem simbólica e exercendo função essencialmente lúdica, a literatura popular sintoniza-se com o viver. Isso justifica sua cooptação pela literatura infanto-juvenil, uma vez que, ao lidar com a subjetividade, conflitos e ambigüidades, apresenta alto nível de comunicabilidade com a infância. É o que comprovamos através da história da literatura brasileira voltada para crianças e jovens, cujo viés nacionalista das primeiras publicações avança para o realismo maravilhoso de Monteiro Lobato e, na atualidade, reconhecida em âmbito mundial, mantém-se no patamar de arte como deve ser toda literatura comprometida com a formação da infância e a juventude de cada país.

Ano

2010

Creators

Joseane Maia Santos Silva

As fontes setecentistas do romance português

O romance tem sido perpassado e indelevelmente marcado pelo signo da instabilidade, traço que se estende do arcabouço teórico ao engendramento e manifestação dessa forma. Não obstante essa compleição móvel, a crítica e historiografia literárias têm sedimentado o equívoco de totalizar o romance realista, mais especificamente aquele fixado na França e Inglaterra entre os séculos XVIII e XIX, como modelo acabado. No âmbito do espaço cultural português, essa abordagem tem gerado inúmeros equívocos, já que a história do romance não se processa no lado oeste da Península Ibérica como na Inglaterra, onde o surgimento de estruturas sociais tributárias do individualismo, o capitalismo industrial e a ética protestante repercutem na forma como os suportes ficcionais são forjados. Também não se desenrola tal como na França, onde os processos históricos resultantes da Revolução Francesa consolidam o estiolamento do Ancien Régime e fomentam as bases de uma matriz cultural calcada na mundividência burguês-liberal. A aplicação dessa abordagem impossibilita considerar as questões específicas e os caracteres que o romance adquire no processo de elaboração estética das contingências inerentes ao espaço cultural lusitano. Além disso, traz como consequência ignorar a produção romancística portuguesa do século XVIII, tida como inexistente, uma vez que não corresponde ao modelo referido. Essa ideia, no entanto, revela-se sem fundamento. Não só existem romancistas portugueses nesse período, como eles exercem influências sobre os escritores conterrâneos que se ocupam dessa forma no século XIX, como comprovam diversos romances de Camilo Castelo Branco, responsáveis pela recuperação de diversas narrativas pátrias setecentistas

Ano

2014

Creators

Moizeis Sobreira de Sousa

Espaço em ruínas: meio social, conflito familiar e a casa em ruínas em Os dois irmãos de Germano Almeida e Dois irmãos de Milton Hatoum

o diáloqo entre a literatura brasileira e a caboverdiana não se esgota nas décadas de 30 e 40. Este pode ser observado até a atualidade e com extensão para outras regiões brasileiras, além do Nordeste. A partir desta reflexão, este estudo tem como objetivo investigar, dentro do macrossistema literário de língua portuguesa e no âmbito das relações literárias contemporâneas entre Brasil e Cabo Verde, como se dá o diálogo entre as obras Os dois irmãos, de Germano Almeida, e Dois irmãos, de Milton Hatoum. lnvestiqará também como o espaço impacta o comportamento das personagens que, não raro, são movidas pelo contexto em que estão inseridas. Essas obras podem ser aproximadas, numa abordagem comparativa, por alguns fatores como a hibridez cultural, em virtude principalmente da emigração, a presença do mito da rivalidade entre irmãos, o drama familiar causado pelo adultério seguido da reparação sob o signo da vingança, a casa que se desfaz associada à ruína das personagens, a coerção imposta pelos valores da sociedade.

Ano

2010

Creators

Antonio Aparecido Mantovani

As confluências das tradições literárias escritas e orais nos livros didáticos: um estudo das representações das literaturas africanas, afro-brasileira e indígenas nos materiais do Programa Nacional do Livro Didático 2014

O objetivo desta tese é analisar as representações do campo literário (Bourdieu, 1996), notadamente das produções africanas, afro-brasileiras e indígenas, divulgadas nos livros didáticos de Português mais distribuídos pelo Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) 2014. Para isso, partimos da noção de que os livros didáticos são um gênero do discurso, cuja organização e seleção textual expressa um projeto autoral (Bunzen, 2005, 2009). A partir daí, foi possível compreender o papel das antologias dentro da proposta pedagógica de cada uma das coleções que compõem nosso corpus. Como uma etapa inicial, realizamos uma quantificação e tabulação do número de textos literários e não literários concernentes ao nosso recorte. Esses dados foram descritos, analisados e comparados à luz de perspectivas teóricas da área de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa e, tendo por base, também, o projeto autoral dos materiais analisados. Os resultados obtidos, em diálogo com a exigência legal do decreto 11645/08, mostram a tentativa de publicar textos oriundos das tradições oral e escrita do campo literário, divulgando duas naturezas distintas de produções literárias por meio dos materiais de Ensino Fundamental 2, e também demonstram que a presença de tais produções literárias nas coletâneas dos materiais didáticos é incipiente. Verificamos ainda distinções quanto aos processos de reconhecimento social, de acordo com a perspectiva de Honneth (2003) entre o legado da tradição oral e o da escrita para a composição do campo literário. Ao enfocar as especificidades e as representações de ambas as tradições, foi possível identificar a carência de propostas de leitura que fossem capazes de introduzir, na formação do jovem leitor, a engenhosidade e a complexidade das narrativas orais. Tal constatação se opõe aos resultados referentes às representações da tradição escrita, em que se notam iniciativas de expor autores e obras representativos das literaturas nacionais especificamente afro-brasileiros e indígenas e africanos de países de Língua Oficial Portuguesa.

Ano

2017

Creators

Flávia Cristina Bandeca Biazetto

Não tenhas medo de ser: corpo, transgressão e liberdade na Poesia erótica de Maria Teresa Horta e Olga Savary

A portuguesa Maria Teresa Horta e a brasileira Olga Savary publicam livros de poesia erótica em um momento de impulsão dos movimentos feministas em seus países nas décadas de 1970 e 1980. Enquanto Savary não reivindica diretamente questões políticas relativas às mulheres, Horta participa ativamente do movimento feminista português. O objetivo deste trabalho é, a partir das obras Educação Sentimental (HORTA, 1976) e Magma (SAVARY, 1982), fazer uma análise comparatista que tem o corpo, a transgressão e a liberdade como operadores críticos para a percepção da poética das duas autoras, olhando para o erotismo como um espaço de conflito, confronto e poder que propicia a liberação feminina e a ruptura com a poesia canônica. Para tanto, a pesquisa dialogará com a crítica literária feminista e os estudos de gênero, tomando como horizontes teóricos os pensamentos de Simone de Beauvoir, Hélène Cixous, Michel Foucault, Audre Lorde, Adrienne Rich, Judith Butler, entre outros, para investigar se os discursos eróticos de Savary e Horta entram em conflito com o poder patriarcal ou conformam abordagens alternativas em relação ao falogocentrismo e à heterossexualidade e seus dispositivos.

Ano

2020

Creators

Bruna Renata Bernardo Escaleira

Figura de Marília: aspectos da poética de Tomás Antônio Gonzaga

O objetivo desta pesquisa é estudar a figura de Marília, central na obra Marília de Dirceu do poeta luso-brasileiro Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810). A partir de uma perspectiva histórica, buscamos evidenciar aspectos da poética do autor conforme as convenções retórico-poéticas de seu tempo. Analisamos tópicos formais e características discursivas desse poema em duas partes, a primeira editada em 1792 e a segunda, em 1799. Para tal, reexaminamos a longa tradição crítica brasileira que interpretou o idílio ficcionalizado no poema ou como expressão de uma subjetividade empírica ou como reflexo de determinada realidade social. Também desvinculamos a figura de Marília da personagem histórica Maria Doroteia Joaquina de Seixas, que a teria inspirado. Nesse sentido, o \"casal de sonhos\" Dirceu e Marília afasta-se da esfera biográfica e empírica, do mesmo modo que o discurso de Tomás Antônio Gonzaga é compreendido além da esfera documental e biográfica, deslocando-se para o terreno das convenções poéticas da segunda metade do século XVIII. Compreendida como poesia regrada retoricamente, ressaltamos aspectos da poética de Tomás Antônio Gonzaga que estruturam seu poema. Tendo esse ponto de partida, apontamos a centralidade da figura de Marília de Dirceu na obra lírica atribuída a Gonzaga, descrevendo algumas de suas \"facetas\": um nome da tradição bucólica, a interlocutora privilegiada da persona poética, a pastora que compõe o par com Dirceu, uma personagem da ficção mitológica, um retrato feminino pintado pelo poeta, e, por fim, como uma espécie de intermédio conciliatório entre a primeira e a segunda parte do poema.

Ano

2020

Creators

Heidi Strecker-Gomes

Jorge Amado e o romance de 1930: protagonismo de uma nova voz emergente (1931-1934)

A atividade literária de Jorge Amado, manifestada em livros e artigos na primeira metade dos anos 1930, revela o protagonista de uma nova voz que emerge e propõe transformações expressivas na literatura brasileira praticada até então. Surgem ambientes, personagens, linguagem e narrativas que, ao longo desse período, se consolidaram como uma nova proposta artística, corroborada pelo interesse crescente do público leitor e pelo desenvolvimento e florescimento de uma indústria editorial. As circunstâncias políticas e sociais -- representadas no contexto nacional pela Revolução de 1930 e suas consequências e, no nível internacional, pelas tensões entreguerras -- forjam condições propícias para a manifestação dessa nova voz por meio da qual Jorge Amado pratica, define e defende suas proposições transformadoras, em consonância com outros autores de sua mesma geração, com destaque para o romance social, romance intencional e romance proletário -- rótulos semelhantes para a mesma proposta.

Hans Christian Andersen e \'O companheiro de viagem\': da narrativa mítica ao conto literário - um estudo em perspectiva comparatista

O objetivo da presente tese firmou-se na investigação de como se articula a imagem-símbolo da viagem no conto literário O companheiro de viagem, de Hans Christian Andersen, em diálogo com o conto popular norueguês O companheiro e a narrativa mítica nórdica Thor no País dos Gigantes. Para fundamentar o comparatismo literário das três narrativas, buscou-se aporte teórico na taxonomia dos símbolos presente na antropologia do imaginário, de Gilbert Durand (2012), e em outros teóricos da crítica da literatura contemporânea sobre o imaginário, o conto popular e o mito, a produção literária. Verificou-se como cada narrativa do corpus é configurada em imagens-símbolos e que algumas ressoam no conto anderseniano. A imagem compósita da viagem manifestou-se constitutiva de um esquema ascensional pela presença de um simbolismo que remete ao cume, à vitória do herói, à realização do sonho da conquista da amada e do reinado. A viagem é ascensão simbólica. Do ponto de vista da crítica literária pode-se reconhecer ainda que O companheiro de viagem é o palimpsesto no sentido que formula Gèrard Genette: um hipertexto (texto inovador) que narra um hipotexto (um texto anterior), pelo procedimento da transformação que se distingue da imitação. O conto O companheiro de viagem é (re)tecido em imagens-símbolos, configuradas em artifícios picturais, melodiosos, gestuais, visuais pela escrita. A imagem semelhantemente à vida, manifesta-se.

Ano

2017

Creators

Euclides Lins de Oliveira Neto

As dobras do texto - trajetória da obra de João Guimarães Rosa pelo sertão

Esta tese estrutura-se a partir de experiências com a literatura de Guimarães Rosa no sertão de Minas Gerais e ressalta aspectos do retorno da sua obra a determinadas localidades, constituindo o que definimos como Território Literário. Alguns aspectos contribuíram nesse processo: representação do real na obra; recepção da obra geradora de ações em torno da leitura; adaptações da obra em outras linguagens. O processo criativo do escritor e suas estratégias para observar a realidade e torná-la matéria-prima da sua criação são observados a partir de registros localizados em seu arquivo no Instituto de Estudos Brasileiros/USP-SP . Na perspectiva de observar o percurso da obra pelo sertão, são abordados projetos artísticos e pesquisas que mostram a obra como mobilizadora de vivências no sertão real. Destaca-se a expedição Os Loucos por Rosa (1995) como o início de um projeto coletivo em Cordisburgo, Morro da Garça e Andrequicé/Três Marias, cidades de referência na vida e obra do escritor e a partir dela as iniciativas que se firmaram nesses locais: semana culturais; narração de textos literários de cor; o bordado; pintura. As adaptações do texto para a narração oral são apresentadas pelos projetos Contadores de Estórias Miguilim e Caminhos do Sertão, ambos desenvolvidos em Cordisburgo. Na recriação da obra em imagem estão destacados os projetos artísticos: na pintura, o trabalho do artista plástico José Murilo; no bordado, experiências coletivas nas cidades, mostrando técnicas e métodos utilizados. Nessa perspectiva, a proposição de Território Literário firma-se nos caminhos da obra entre espaço, sons, imagem e várias outras ações literárias, que resultaram na valorização da cultura local e na relação estabelecida pelas comunidades com seu Território, revitalizado a partir da literatura.

Ano

2017

Creators

Elizabeth Maria Ziani

Entre o passado e o presente: um estudo do orientalismo literário português na segunda metade do século XIX

Este estudo tem como objetivo a análise das representações do Oriente na literatura portuguesa metropolitana produzida na segunda metade do século XIX. Partindo da hipótese de que essas imagens apresentam complexidade e pluralidade maiores do que se depreende em uma leitura superficial, investigamos de que forma o Oriente surge em obras de três relevantes escritores desse período: Manuel Pinheiro Chagas (1842-1895), Camilo Castelo Branco (1825-1890) e Antero de Quental (1842-1891). Para tanto, realizamos um amplo estudo comparativo de escritos desses autores, que compreendem diversos gêneros textuais. Como sustentação teórica, apoiamo-nos em teorias orientalistas -com destaque à obra Orientalismo de Edward Said (1978), mas não se limitando apenas a esta -, em estudos em torno do orientalismo português e na fortuna crítica desses escritores. Nosso corpus de análise compreende, nomeadamente: de Pinheiro Chagas, os textos não ficcionais História Alegre de Portugal (1880), O Centenário de Luiz de Camões (1880), os romances históricos A Marqueza das Índias (1890), A Joia do Vice-Rei (1890) e Naufrágio de Vicente Sodré (1892); de Camilo Castelo Branco, os romances Doze Casamentos Felizes (1861) e O Senhor do Paço de Ninães (1867), e os textos não ficcionais Tragédias da Índia (1880) e Luiz de Camões (1880); e de Antero de Quental, um selecionado de cartas pessoais, bem como os textos em prosa As Causas da Decadência dos Povos Peninsulares nos Últimos Três Séculos (1871) e O Japão: Estudos e Impressões de Viagem, por Pedro Gastão Mesnier (1875). Abordamos ainda, de modo mais breve, alguns contos, textos jornalísticos e diplomáticos de Pinheiro Chagas, como As Colónias Portuguesas no Século XIX (1890); algumas polêmicas camilianas com Alexandre Herculano (1850) e Oliveira Martins (1884); e, de Antero, seus Sonetos Completos (1886) e o ensaio Tendências Gerais da Filosofia da Segunda Metade do Século XIX (1890).

Ano

2020

Creators

José Carvalho Vanzelli

Cultura na trincheira: literatura marginal e o chão da fricção

De Lima Barreto a Ferréz, surge e se consolida no país uma linhagem literária que faz frente aos valores estéticos que regem a formação da literatura brasileira. Suas formas artísticas coincidem com as formas sociais do trabalho e estão circunscritas ao universo do favor, do assalariamento e do trabalho precarizado. Diante desse quadro, não fica difícil imaginar a intersecção que anima suas formas literárias calcadas em um estilo de classe e em uma determinada situação ficcional. A investigação da natureza política dessa nova linhagem literária que propõe uma formalização das relações de classe no Brasil é também a mesma que pretende verificar se o sistema literário proposto por Antônio Cândido diz respeito às novas configurações culturais que surgem pelas periferias brasileiras. Sabe-se que o princípio mediador entre obra literária e sociedade se dá através da forma, em que a realidade é vista por meio da ficção e a ficção por meio da realidade, e que ambas fundam um pêndulo temático que pende ora para um lado, ora para outro, de modo a atingir seu teor de verdade social. Mas também podemos analisar o valor de uma obra pela tríade Literatura-História-Política, nesse caso, essa última funcionando como base do triângulo, denotando a intenção do autor. Seja qual for o ponto de partida (ainda que cada método de leitura tenha seu ponto de chegada), no meio do caminho podemos notar que existe uma íntima correspondência entre a realidade objetiva e a figurada, em que uma tenciona a outra, e o mundo pode ser visto através da literatura e a literatura através do mundo. Se o tema das obras em estudo passa necessariamente pelas feições da barbárie que atravessam a miséria e a violência dos contos estudados, o projeto tem importância na medida em coloca para exame a forma das obras de Lima Barreto, João Antônio e Ferréz, a formação do público que lê essas obras e por ele é influenciado, dando continuidade a esse tipo de literatura, bem como a relação entre forma e formação constituindo um sistema cultural articulado que se convencionou chamar de literatura marginal.

Ano

2013

Creators

Gabriel Alves de Campos

Claridade - o canto e o louvor de um povo no percurso da construção identitária: o diálogo como regionalismo

Claridade - revista de letras e artes é considerada um dos principais marcos do desenvolvimento literário no arquipélago de Cabo Verde. O lema fincar os pés no chão crioulo fulgurou como estratégia na busca de temas que refletissem a realidade social das ilhas. O contato com escritores brasileiros (modernistas e regionalistas), a partir dos anos de 1930, foi a força motriz para o desenvolvimento e modernização literária cabo-verdiana. Nesse processo, os estudos de Gilberto Freyre, notadamente o Manifesto Regionalista, foram especialmente significativos por oferecerem o arcabouço teórico e metodológico para a valorização das raízes culturais das ilhas e de sua formação social. O presente trabalho estrutura-se na análise das ações envolvendo o grupo claridoso, questionadoras da identidade cultural e literária do arquipélago, por meio da valorização dos aspectos regionais, cujos registros figuram nas publicações de Claridade, entre os anos de 1936 e 1960.

Ano

2015

Creators

Elisangela Aparecida da Rocha

A estética do ser/estar no 'entre lugares'. Imagens do negro, do mestiço, do mulato e do branco em Primeiras trovas burlescas de Getulino, de Luiz Gama

O romantismo literário brasileiro conseguiu fabricar um modelo de índio civilizado despido de suas características reais, mas quase nada falou sobre as populações africanas, houve um longo silêncio sobre as etnias negras que povoavam o Brasil\" (ORTIZ, 2003: 19). Por isso, optamos por estudar analiticamente a obra Primeiras trovas burlescas de Getulino, do ex-escravo, escritor, abolicionista, jornalista e advogado Luiz Gama, levando em conta como o eu-lírico qualifica o negro, o mestiço, o mulato e o branco por meio de características ou de ações, e quais são os valores a atribuídos a esses grupos étnicos. Análise que nos lembra a importância da relação entre a mensagem e a imagem que se produz literariamente, já as qualificações (atributos e valores) apresentadas vêm ligadas à uma série de fatores dotados de significados próprio originando uma valorização humanitária peculiar, que leva em conta certas pretensões que podem ser sociais e históricas e desvelam acontecimentos e motivações que vão ao encontro de concepções que geram o que cita David Haberly: \"The multiracial character of Brazilian literary history, however, goes far beyond genetics. As we shall see, much of Brazil\'s literature has been preoccupied with an anguished search for a viable racial identity - a search that has been both personal and national in scope.\" (HABERLY, 1983: 2)

Ano

2010

Creators

Mara Regina Paulino

O favor: uma ponte entre Brasil e Portugal oitocentista

Para o estudo de relações entre as literaturas brasileira e portuguesa durante o século XIX esta dissertação de mestrado buscará identificar e compreender o favor, como definido por Roberto Schwarz em Ao Vencedor as Batatas, no contexto luso-brasileiro e em algumas obras nas quais o favor ainda não foi objeto de análise. Para discutirmos as prefigurações do favor, escolhemos obras do Brasil, Portugal e França nas quais algo muito semelhante ao favor descrito por Schwarz na obra machadiana já pode ser observado. São elas: O Filho do Pescador, de Teixeira e Sousa; A Mão do Finado, de Alfredo Hogan e Eugènie Grandet, de Balzac. Já, para tentarmos entender um pouco mais do favor brasileiro e fazer relações com Portugal oitocentista, escolhemos uma obra de Machado de Assis e outra de Camilo Castelo Branco que foram publicadas em períodos muito próximos aos grandes sucessos dos autores. São elas Iaiá Garcia de Machado de Assis, publicada três anos antes de Memórias Póstumas de Brás Cubas e As Três Irmãs de Camilo Castelo Branco, publicada no mesmo ano que Amor de Perdição. Esperamos que as semelhanças e diferenças encontradas nas descrições literárias das sociedades brasileira e portuguesa feita pelos autores nos possibilite evidenciar o favor como uma ponte que colaborou para o entendimento do romance nos países em questão.

Ano

2017

Creators

Yara Fruteiro Vieira de Souza