Repositório RCAAP
Figurações do trágico e do utópico em Graciliano Ramos e José Saramago: formas contrideológicas em perspectiva comparada
O presente estudo tem como objetivo realizar uma análise comparativa dos romances São Bernardo (1934), de Graciliano Ramos, e Memorial do Convento (1982), de José Saramago, com o intuito de ressaltar as perspectivas contraideológicas que são subjacentes às obras, cujos narradores identificam-se com a instância autoral, na medida em que são produzidos discursos marcados pela crítica a sistemas hegemônicos e dominantes. Assim, através da análise das relações de trabalho e de poder presentes nas obras, e dos projetos que se configuram nas construções engendradas, pretendemos apontar uma divergência essencial entre os romances que os configura e os aproxima, no entanto, como formas contraideológicas: o trágico como perspectiva dominante em São Bernardo, que se apresenta a partir do projeto do narrador de escrever um romance; e a utopia como elemento central no Memorial do Convento, concentrada no projeto de construção da passarola, que constituindo um contraponto simbólico do convento, apresenta-se como verdadeira realização e fruto da vontade dos homens. Dessa forma, pretendemos revelar que os romances concentram perspectivas hegemônicas e contrahegemônicas, ou ideologias dominantes e ideologias de oposição, que contestam a perspectiva de um único poder instituído.
O medieval romântico (a construção da Idade Média nas obras de Alexandre Herculano)
Ao longo de sua prosa, Alexandre Herculano desenvolveu uma particular visão e interpretação acerca do passado português. Dentro de suas reflexões, o período da Idade Média portuguesa foi aquele que mais chamou a atenção do autor. Essa disposição em redimensionar a História nacional fez com que Herculano aliasse um sistemático estudo das fontes históricas com um notório poder criativo e exemplar talento ficcional em recriar os tempos medievais de outrora. Na presente tese foram analisados quais caminhos teóricos e estéticos foram empreendidos por Herculano a fim de elucidar as bases temáticas de sua construção sobre a Idade Média portuguesa. Para alcançar tal objetivo tomou-se como referência algumas narrativas ficcionais do autor e algumas reflexões historiográficas sobre o período medieval português. Para mostrar o alcance da construção medievalista e da reconfiguração da Idade Média dentro da História de Portugal feita por Herculano também abordou-se a visão histórica de Garrett captada através da análise de alguns exemplos de sua prosa e alguns temas presentes nas narrativas ficcionais de Camilo Castelo Branco.
2017
Leonardo de Atayde Pereira
Guimarães Rosa e Mia Couto: ecos do imaginário infantil
Realiza-se neste trabalho um estudo comparado de dois contos pertencentes ao macrossistema das literaturas de língua portuguesa: \"As margens da Alegria\", do livro de contos Primeiras Estórias, do escritor brasileiro João Guimarães Rosa, e \"O viajante clandestino\", do livro Cronicando, do escritor moçambicano Mia Couto, utilizando como suporte teórico o comparatismo de solidariedade teorizado por Benjamin Abdala Junior, a partir da conceituação de sistema literário formulado por Antonio Candido. A dissertação focaliza os contos buscando articulação entre eles do ponto de vista temático e estrutural, enfatizando o narrador e a linguagem, e detectando em sua construção narrativa a presença do imaginário infantil. Inicialmente, analisamos os contos em suas especificidades e depois estabelecemos confronto entre ambos para detectar similitudes e diferenças entre os autores na construção de suas narrativas, buscando sempre a correlação com o conjunto da obra de cada autorl.
Ilustração brasileira (1854-1855) e a ilustração luso-brasileira (1856, 1858, 1859): uma contribuição para o estudo da imprensa literária em língua portuguesa
A tese intitulada \"Ilustração Brasileira (1854-1855) e A Ilustração Luso- Brasileira (1856, 1858, 1859): uma contribuição para o estudo da imprensa literária em língua portuguesa\" teve por objetivo demonstrar que, no Brasil, a imprensa de ilustração foi inaugurada com a publicação da Ilustração Brasileira, visto que nenhuma publicação anterior deu tamanho destaque e foco especial ao \"modelo de ilustração\" quanto ela, o que pôde ser confirmado a partir do exame de periódicos brasileiros que a antecederam. Provou também que a publicação da revista A Ilustração Luso- Brasileira (1856, 1858, 1859) veio na esteira de uma tradição da imprensa ilustrada lusitana em ascensão. Discutiu ainda a relevância destas duas ilustrações para o estudo das literaturas românticas de Portugal e do Brasil, bem como a participação de cada uma no processo de desenvolvimento da imprensa literária e ilustrada em seus respectivos países. Traz, em volume separado, um índice por categorias de análise dos textos publicados em cada uma das revistas.
2007
Benedita de Cássia Lima Sant'Anna
A poética da delicadeza e do essencial: Roseana Murray, Bartolomeu Campos Queirós e José Jorge Letria
Esta dissertação analisa a poesia como forma de renovação do homem e o olhar como ponte entre a palavra e o leitor e entre o ser humano e o outro nas obras Receitas de Olhar, Manual de delicadeza de A a Z, Recados do corpo e da alma de Roseana Murray; O olho de vidro do meu âvo de Bartolomeu Campos Queirós e Versos de fazer ó-ó e A Borboleta com asas de vento de José Jorge Letria como forma de reafirmar a necessidade do texto poético desde o ínicio da infância. Apresenta-se, nessas obras, a busca da essencialidade humana, o desejo de ver o não-visível. Assim, no primeiro capítulo abordamos a função integradora da literatura, enfatizando seu caráter humanizante e libertário. O segundo capítulo soma-se ao primeiro, apresentando a função renovadora da poesia, que coloca o homem em contato com a sua humanidade. O terceiro capítulo apresenta as obras de Roseana Murray que possibilitam o encontro consigo mesmo e com o outro. No quarto capítulo, trabalhamos, nas obras de José Jorge Letria, o olhar como condutor da relação mãe-bebê e da poesia como ponte para dentro de si; neste capítulo há também o fazer poético na obra A borboleta com asas de vento. O quinto e último capítulo aborda as obras de Bartolomeu Campos Queirós, que trazem o olho como metáfora da descoberta de si e do outro
A literatura para a juventude portuguesa e brasileira e a relevância de dois elementos estruturais da narrativa: linguagem e narrador
Esta tese de doutorado dentro da Área de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa teve por objetivo abordar e investigar nas obras de literatura para a juventude portuguesa e brasileira, a relevância de dois elementos estruturais importantes: Linguagem e Narrador. O intenso diálogo entre autor, texto e leitor cria um clima de cumplicidade, convidando este a participar ativamente da obra. Essa interação leitor/ texto mediada pelo narrador poderá ser o fio condutor capaz de provocar a reflexão e o espírito crítico no receptor. A obra precisa do leitor para se realizar, pois este contribui com suas vivências pessoais e dialoga com o texto dando-lhe \"vida\". A problemática da leitura foi e é analisada por inúmeros Educadores, Especialistas. Para nós a ênfase recai na Relação Prazerosa, Afetiva, Estética, pois se trata da Arte da Palavra. A proposta é investigar a importância da literariedade de obras de autores portugueses e brasileiros, podendo ser considerada, na formação de jovens leitores, como o elemento chave na perfeita associação: leitura-prazer.
2007
Ione Vianna Navajas Dias
A (de)formação da imagem: Pinheiro Chagas refletido pelo monóculo de Eça de Queirós
Manuel Pinheiro Chagas (1842-1895) foi, na sua época, uma personalidade influente, participando ativamente tanto no campo das letras como no da política. Além disso, ele foi autor de uma obra multiforme e de caráter popular, lida, em seu tempo, com grande interesse e entusiasmo. Contudo, hoje, é inquestionável o apagamento literário desse escritor no cânone português, enquadrado num lugar à sombra mesmo de escritores menores. O objetivo central deste trabalho consiste em evidenciar na trajetória literária de Manuel Pinheiro Chagas os fatos que, de forma decisiva, contribuíram para o seu desaparecimento do cânone. Será visto que nestes acontecimentos ocupa um papel central Eça de Queirós, que não só conseguiu apagar a importante participação de Chagas como político, crítico, historiador e prosador, mas reduziu a figura de seu desafeto, imortalizando-a no retrato-sátira de um patriota conservador e reacionário, sob o codinome de \"brigadeiro do tempo de D. Maria II\".
2007
Jane Adriane Gandra Veloso
Eça ensaísta: estudo sobre o trabalho jornalístico de Eça de Queirós para a Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, ao final do século XIX
Partindo da afirmação de Antonio Candido de que Eça de Queirós escreveu na última década do século XIX seus \"artigos mais avançados politicamente\" sobre o socialismo e a burguesia capitalista, esta pesquisa definiu como seu objeto de estudo uma série de artigos publicados nesse período na Gazeta de Notícias, diário carioca de grande prestígio, que contemplava essa temática. Os pressupostos que direcionaram a pesquisa foram a de que os textos apontados por Antonio Candido configuravam em seu conjunto um projeto literário e, individualmente, poderiam ser compreendidos como ensaios, no sentido proposto por Adorno e Lukács. Para se testar tais idéias, procedeu-se a uma análise da forma dos artigos integrada com o estudo de seu contexto histórico e literário, utilizando-se para tanto os recursos teóricos e interpretativos de Roberto Schwarz, John Gledson e Dolf Oehler, além do direcionamento crítico desenvolvido por Candido.
2007
Jose Carlos Siqueira de Souza
A poética de Manoel de Barros e a relação homem-vegetal
O presente trabalho é uma escolha, entre muitos caminhos, de uma pesquisa iniciada no Curso de Mestrado. A dissertação, defendida em 2000, na FFLCH, USP, sob a orientação da Profa. Dra. Maria Lúcia Pimentel de Sampaio Góes, recebeu o título de O REINO VEGETAL E O IMAGINÁRIO: comparação entre mitos do Leste do Mediterrâneo, narrativas indígenas brasileiras e textos literários da Cultura Ocidental Européia, (ênfase a Portugal e Brasil). O caminho escolhido, agora, é detectar a influência dos vegetais na criação poética de Manoel de Barros. Voltados para o mundo das plantas, recortando poemas fitomórficos, relacionados aos vegetais do referido autor, comparando-os com textos visuais e verbais, observaremos possíveis semelhanças e ou diferenças Autores de Portugal, Brasil e África estarão presentes, com textos poéticos. O trabalho está estruturado em dois grupos de comparações: 1 autores brasileiros, portugueses e africanos de língua portuguesa. Escolhemos criações de autores como Cecília Meireles, Murilo Mendes, Lúcia Pimentel Góes, Fernando Pessoa, Herberto Hélder, Ruy Cinatti, Rui Knopfli, João Melo e outros. 2 textos visuais de Arcimboldo, pintor italiano, Van Gogh, holandês, René Magritte, belga e Frida Khalo, mexicana. Seguindo a Dissertação defendida em 2000, nosso trabalho está apoiado em três centros de interesse, seguindo as principais tendências observadas por Mircea Eliade1, em seus estudos sobre os mitos relacionados aos vegetais de diversos povos: a) A identificação da árvore com o cosmos b) A identificação da árvore com o homem c) A nostalgia do paraíso Esses centros de interesse aparecem entrelaçados de modo plural. Além disso, estarão mesclados em nossa pesquisa, os elementos: Terra, Ar, Fogo e Água, envolvendo os três níveis cósmicos: Mundo Subterrâneo, Mundo Terrestre e Mundo Celeste.
2007
Nery Nice Biancalana Reiner
O corpo grotesco como elemento de construção poética nas obras de Augusto dos Anjos, Mário de Sá Carneiro e Ramón López Velarde
O trabalho objetiva uma análise do corpo grotesco enquanto elemento construtivo da poética de três autores do início do século XX: Mário de Sá-Carneiro (Portugal); Augusto dos Anjos (Brasil) e Ramón López Velarde (México). Os escritores foram escolhidos pelo fato de, na mesma época, abalarem as respectivas sociedades em que viveram com produções poéticas inovadoras. Baseando-se nisto, a abordagem é feita a partir das teorias de W. Kayser, sobre o grotesco romântico e Mikhail Bakhtin sobre o realismo grotesco. A pesquisa identificou a necessidade de relacionar o corpo grotesco com a teoria do Decadentismo, pois esta estética constitui uma das primeiras rupturas rumo ao que convencionou chamar de modernidade. Por fim, analisamos a definitiva entrada do grotesco no cânone dos três países e a relação existente entre a categoria literária (e o corpo grotesco) com a poesia moderna.
2007
Rogério Caetano de Almeida
Nas fronteiras da memória: Guimarães Rosa e Mia Couto, olhares que se cruzam
Este trabalho tece uma comparação entre as obras de João Guimarães Rosa e Mia Couto, contemplando as semelhanças e diferenças entre seus projetos estéticos, tendo como fio condutor a tradição oral. Segundo Walter Benjamin, todos os grandes escritores hauriram da tradição oral e, Ángel Rama parece corroborar com isso, quando diz que os escritores da modernidade recorrem a essa vertente para tecerem as suas narrativas. Rosa e Mia se voltam para o passado e seus olhares se cruzam ao recriarem as lendas, mitos, ritos, provérbios e chistes na elaboração de seus textos. É certo que, a tradição oral em suas narrativas não representa os costumes de seus povos na íntegra, uma vez que, na obra de Guimarães Rosa é retratada como algo evanescente e, mesmo na de Mia Couto, que faz parte do cotidiano, ela já aparece fragmentada. Porém, a preocupação maior é com o processo de recriação, pois este acaba nos remetendo à história de seus países, uma vez que as perspectivas dos autores parecem convergir no mesmo ponto: a \"modernização\" implantada de maneira brusca naquelas sociedades, relegando a uma \"terceira margem\", grande parte de suas populações. Brasil e Moçambique são países que têm em comum a língua portuguesa, herdada do colonizador que foi o mesmo. No entanto, são portadores de culturas distintas, pois, apesar da semelhança entre os elementos que as compõem, os valores são diferentes. As narrativas de João Guimarães Rosa e de Mia Couto não representam a História, mas contam história. Dessa forma, narração, memória e História se entrecruzam de tal maneira, que as fronteiras entre ficção e realidade se tornam muito tênues.
Memórias inventadas: um estudo comparado entre \'Relato de um certo oriente\', de Milton Hatoum e \'Um rio chamado Tempo, uma casa chamada Terra\', de Mia Couto
Este trabalho realiza um estudo comparado entre o romance Relato de um certo Oriente, do escritor brasileiro Milton Hatoum e Um rio chamado Tempo, uma casa chamada Terra, do escritor moçambicano Mia Couto, com a finalidade de verificar as estratégias de construção da memória. Com base na hipótese de que a memória, nestes textos, é imaginação de possibilidades do devir que não se esgota em quadros fixos, a tese focaliza as dominantes técnicas e temáticas de construção da narrativa através do uso feito pelos autores do motivo da viagem, da fotografia e da epistolografia na composição dos quadros de memória. Para refletir sobre os narradores que se movimentam no espaço impreciso das misturas, envolvidos em complexas práticas culturais em interação, vale-se do apoio teórico e crítico de conceitos como hibridismo, mestiçagem, transculturação, crioulização e ambivalência. Este exercício crítico faz-se no horizonte do comparatismo da solidariedade, proposto por Benjamin Abdala Junior para os estudos das literaturas ibero-afro-americanas.
2007
Vera Lúcia da Rocha Maquêa
Os (des)caminhos da nação: um estudo comparado do espaço em Terra sonâmbula e Mãe, materno mar
Nesta tese de doutorado, são analisados comparativamente dois romances, Terra sonâmbula do autor moçambicano Mia Couto e Mãe, Materno Mar do angolano Boaventura Cardoso. A abordagem incide no espaço por ser considerado categoria fulcral de ambas as narrativas, sendo estabelecidas as relações entre os elementos internos e externos dos textos quanto ao tema da nação. Os principais espaços da análise são a estrada, a terra e o mar, destacando-se a questão da transitividade dos veículos, ônibus e trem, sendo formulada a hipótese de que tal problema constitui-se, muitas vezes, como discurso metafórico para a situação de Angola e Moçambique no período posterior à Independência. Trata-se, portanto, de um estudo comparativo que tem como fundamentação teórica e crítica um conjunto de autores de áreas diversas, estabelecendo-se um diálogo entre literatura, geografia, história e religião. A análise e comparação apontou para a prevalência de dualidades, contrapontos e ambivalências de diversos motivos que se relacionam ao espaço, tais como: imobilidade/movimento, vontade/destino, vida/morte, luz/sombra, tradição/modernidade, realidade/imaginação, religião/política. Como a ambivalência caracteriza-se, geralmente, por um lado negativo e outro positivo, subentende-se que do caos enfrentado no espaço se pode passar à ordem, à harmonia. Assim, como a estrada projeta um futuro, fazendo-se na terra e terminando no mar com seus atributos maternais, considera-se possível entender os finais abertos dos romances como formas de esperança, indicando a possibilidade de um renascimento individual e da nação.
2016
Everton Fernando Micheletti
Contos e cantos de resistência: diálogos entre narrativas breves de Boaventura Cardoso e canções de Chico Buarque
A presente dissertação analisa comparativamente os contos do primeiro livro do escritor angolano Boaventura Cardoso, Dizanga dia Muenhu, e canções do compositor brasileiro Chico Buarque, compostas entre o período de 1970 e 1985, com o fito de revelar, a partir das respectivas linguagens, a elaboração estética e a crítica social que emergem de obras escritas sob períodos de repressão. O trabalho busca, a partir das narrativas breves e das letras das canções, refletir sobre os caminhos da resistência à opressão e os ideais utópicos que mobilizaram os dois autores estudados.
2016
Estefânia de Francis Lopes
Para uma filosofia do cabelo: uma análise de Esse Cabelo, de Djaimilia Pereira de Almeida
Este trabalho apresenta uma análise da obra Esse Cabelo, de Djaimilia de Almeida (2015), a partir de uma proposta que combina elementos históricos e culturais com aspectos formais: ao mesmo tempo em que construímos um percurso sobre a enunciação do \"eu\" - até chegarmos aos marcadores de raça, nacionalidade e gênero que acabam configurando a narrativa, dando vistas a um possível \"arquivo negro português\" - reconhecemos procedimentos textuais próprios dos gêneros filosóficos, tais como o do Ensaio e do Aforismo. Assim, tomando de empréstimo uma expressão que aparece no livro, formulamos o conceito de \"filosofia do cabelo\" a fim de oferecer uma interpretação que contemple o movimento de oscilação da narrativa, que ora recolhe traços de sua origem, ora se confronta com o próprio intento de (re)construir o \"eu\".
Princesa: natura, cultura, acaso e liberdade
Esta tese tem como objetivo principal apresentar Princesa (1994), de Fernanda Farias de Albuquerque e Maurizio Jannelli. Embora escrito a quatro mãos, o texto nasce de uma narrativa em três vozes, dentro do cárcere romano de Rebbibia: Fernanda Farias, uma transexual brasileira; Maurizio Jannelli, um ex-terrorista italiano; Giovanni Tamponi, um ex-assaltante de bancos de origem sarda. Princesa narra a história de múltiplos trânsitos entre cidades, países, identidades, gêneros, consciências, contextos e corpos e, devido à sua particular gênese criativa, de conteúdo, de edição e de publicação, encontra-se em uma zona fronteiriça, o que nos levou a realizar, de forma semelhante, longas e intricadas viagens pela teoria literária. Assim, para o estudo da obra, recorremos à noção de entrelugar, com base nos pressupostos de Santiago (1971), Bhabha (1998) e à teoria da tradução, de Santos (2002); de autoria, gênero e nacionalidade literária; de dialogismo com obras pertencentes tanto ao sistema literário italiano quanto brasileiro; e, por último, nos apoiamos nos estudos da teoria queer, bem como nos Estudos Culturais e Pós-Coloniais, na medida em que a narrativa entrelaça a história da transformação de um corpo, para além dos limites do sexo e do gênero, com questões como pertencimento, Estado-Nação e migrações contemporâneas.
2016
Luciana Miranda Marchini Ulgheri
O imaginário e as manifestações do silêncio
O silêncio integra as experiências humanas, compõe o pensamento, tece a linguagem e configura a conduta e as manifestações artísticas. O imaginário e as manifestações do silêncio representam o anseio pela busca de faces do silêncio presentes no imaginário, nas experiências humanas e nas linguagens artísticas. Faces que, ao potencializarem o movimento de introspecção, podem contribuir para a abertura de portais e para a reorganização das vivências do ser. Para desenvolver o estudo, realizamos uma pesquisa bibliográfica e uma leitura analítica de obras artísticas de dois campos narrativos diferentes: fílmico e literário. As obras selecionadas para exame têm em comum a vigorosa presença do silêncio. Pela sua riqueza poética, os filmes Padre, padrone (1977) e Mutum (2007) e as produções literárias O Espelho (2001) e Manuelzão e Miguilim (2001) além de outros textos inesquecíveis colaboraram no desenvolvimento das análises. Para ampliar o entendimento sobre o imaginário, foram imprescindíveis os autores: Castoriadis (1982), Durand (2001), Maffesoli (2012) e Ruiz (2003). Também, como referência, Orlandi (2005; 2007), dada sua expressiva pesquisa a respeito do silêncio, além de outras teses que, ao tratarem do tema, trouxeram relevantes contribuições.
2019
Edna Alencar da Silva Rivera
Entre discos e lobos: o medo e o insólito revelados pelas ausências nas obras Vinil Verde e Os lobos dentro das paredes
A presente tese procurou estudar como a ausência, representada por elementos como a incomunicabilidade, a não-identificação, o entre-lugar, a perda e a morte, dentre outros, ajuda a deflagrar atmosferas e emoções de insólito e de medo nas obras Vinil Verde (2004), curta-metragem de Kleber Mendonça, e Os lobos dentro das paredes (2006), narrativa gráfica de Neil Gaiman. Em ambos os enredos, o mundo ficcional dos personagens é desestabilizado por fatos inexplicáveis que se sobrepõem à rotina do cotidiano. A ausência faz parte da existência humana e, como recurso estético, ajuda a construir variados sentimentos, sensações e ambientações, como a solidão e a melancolia. Dentre os efeitos que ela pode provocar, estão os do insólito e o do medo. O insólito na narrativa ficcional carrega a força e a potência de desestruturar a ordem, provocando incômodo, estranhamento e dúvida. O medo, por sua vez, é uma sensação inerente ao ser humano que, no campo ficcional, como experiência estética, tem fascinado crianças, jovens e adultos, o que se traduz pelo grande número de produções literárias e fílmicas que se fundamentam no susto e no pavor. Por um viés comparativo e multidisciplinar, que engloba obras de diferentes suportes (um livro ilustrado e um audiovisual), foram postos em foco os principais recursos estéticos que cada suporte utilizou para revelar os traços de ausência e, como resultado, provocar o estranhamento e o medo. O profícuo diálogo entre as linguagens verbal, visual e sonora, em que a palavra, a imagem e o som se articulam para construir múltiplas significações e múltiplas leituras, proporciona uma rica troca de saberes e uma singular leitura de mundo.
2017
Maria de Lourdes Guimarães
Samba, suor e cerveja: a poética do mascaramento no Carnaval modernista
A pesquisa sobre as figurações do Carnaval fundamenta uma das estratégias textuais dos escritores no primeiro tempo modernista, motivados pelo desejo de minimizar o sentimento de inautenticidade oriundo da emulação sistemática de matrizes estéticas europeias. A adoção da festividade momesca, por parte dessa geração, ocorre após a leitura dos poemas coligidos por Manuel Bandeira no volume Carnaval, em 1919, o que motiva significativas enunciações em poemas e manifestos literários de Mário de Andrade, Oswald de Andrade e outros escritores e artistas iconográficos coetâneos. Essa visada nacionalista crítica assegura-se numa permeabilidade com as manifestações culturais desvinculadas das abordagens academicistas, entre as quais estão os registros do cancioneiro popular, poesiacantada em que as figurações carnavalescas são profusas. Na análise desse conjunto de poemas, constatamos a emergência de uma poética do mascaramento, em que três constantes o corpo, o tempo e os humores (a melancolia e a alegria) são submetidas a outramentos, o que suscita a hipótese de que esses poetas inventam uma tradição objetivando a positivação da originalidade nativa, tendo a festa de Carnaval e suas variantes míticas como motivação literária. No decênio de 1930, as figurações carnavalescas tornam-se rarefeitas na poesia escrita para livros, estabelecendo a palavra cantada como espaço de permanência. Com Orfeu da Conceição, em 1956, Vinicius de Moraes faz convergir ambas as vertentes, fragilizando a fronteira que as separava . Nesse percurso, constatamos que as figurações momescas obedecem a uma gramática do mascaramento, o que, por analogia, favoreceu o delineamento das singularidades da categoria brasilidade.
2019
Victor Roberto da Cruz Palomo
Narradora e ideologia em Lúcia Miguel Pereira e Maria Lamas: os anos 1930
A presente pesquisa tem por objetivo a análise comparada dos romances Maria Luísa e Amanhecer, de Lúcia Miguel Pereira e Para além do amor e A Ilha Verde, de Maria Lamas, publicados durante os anos 1930. Considera-se como hipótese a presença da perspectiva ideológica, amparada por certa estrutura patriarcal, por um lado, e feminista, por outro, que desvenda uma narradora em diálogo com o contexto social e histórico a que estão circunscritos os romances.
2019
Tatiane Reghini de Mattos