Repositório RCAAP
Sofrimento, solidão e desordem: a representação trágica como meio político no cinema de Leon Hirszman
Esta tese tem como objetivo analisar três narrativas do cineasta Leon Hirszman: A falecida (1965), S. Bernardo (1972) e Eles não usam black-tie (1981) a partir do conceito de tragédia moderna, de Raymond Williams. A comparação sistemática entre as obras fez surgir o que se chamou nesta tese de trágico desalienante, uma vez que ao observar a maneira adotada pelo diretor, sobretudo, ao conduzir as suas personagens, evidenciou-se sua preferência por expor o sofrimento e a desordem dentro das narrativas com o intuito de produzir o conhecimento da realidade. Com isso, pôde-se constatar que o tom trágico empregado foi a opção estética de Leon Hirszman para levar adiante o seu projeto cinematográfico, fincado na ideia de cinema como instrumento político. Porém, em contraposição à valorização do trágico, muito em consonância com o contexto histórico repressivo imposto pela ditadura civil-militar no Brasil, vale apontar, com a reorganização do cenário nacional, uma retomada da perspectiva romântica, no sentido defendido por Michel Löwy e Robert Sayre, em Eles não usam black-tie, que se não recuperava o romantismo revolucionário proposto por Marcelo Ridenti ao analisar as obras produzidas no Brasil no começo dos anos 1960, resgatou a representação da esperança arrefecida com os anos de governo militar. Nessa direção, no cotejo das obras, atenta-se para o contexto histórico em que os filmes foram produzidos considerando-o como elemento estruturante de sua forma. Assim, se em A falecida, de 1965, começo do período ditatorial, há ainda espaço para um sutil humor que, de alguma forma, atenua o seu tom trágico; S. Bernardo, elaborado em 1972, no auge da repressão militar, impera o aniquilamento dos homens e a tragédia se instala sem respiro; por fim, como foi dito, em Eles não usam black-tie, realizado em 1981, período de abertura política e maciça insurreição dos movimentos populares, a perspectiva trágica cede espaço para a imagem da força da coletividade e, portanto, restaura certa visão romântica do mundo.
2017
Anna Carolina Botelho Takeda
Representações dos discursos da FRELIMO na literatura moçambicana: análise de O regresso do morto, de Suleiman Cassamo e Orgia dos loucos, de Ungulani Ba Ka Khosa
O presente trabalho busca estabelecer diálogos entre os discursos produzidos pela FRELIMO, durante o processo de independência e os primeiros anos de governo, e duas obras literárias, nomeadamente O regresso do morto (1989), de Suleiman Cassamo e Orgia do Loucos (1990), de Ungulani Ba Ka Khosa. Ao longo de sua constituição enquanto movimento de resistência ao colonialismo e, após a independência, como partido político, a FRELIMO estabeleceu diversas diretrizes de governo visando a construção de uma nação moçambicana que repudiasse os mecanismos de exploração colonial e promovesse a igualdade e o respeito entre todas as populações moçambicanas, possibilitando assim melhorias na qualidade de vida dessas populações. As duas obras estudadas, no entanto, pertencem ao movimento literário promovido pela publicação da revista Charrua, que procurava promover reflexões sobre a situação de Moçambique após quase uma década de independência, permitindo a observação de problemáticas e contradições relacionadas à realidade social do país, refletindo sobre o quanto essa realidade se aproxima ou se distancia dos objetivos propostos pelo partido. Para observar estas contradições, foram utilizados ao longo da pesquisa alguns discursos proferidos por Samora Machel, tais como A libertação da mulher é uma necessidade da revolução, garantia de sua continuidade, condição de seu triunfo, de 1973, e Educar o homem para vencer a guerra, criar uma sociedade nova e desenvolver a pátria, também de 1973, além de diversas pesquisas de historiadores, cientistas políticos e antropólogos. Em O regresso do morto podemos observar uma certa anuência aos discursos frelimistas no que tange a um ideal de nação proposto durante o processo de independência e ao longo dos primeiros anos de governo. Por meio de narrativas que transmitem a esperança do surgimento de um país livre e independente, forjado por meio dos esforços individuais de cada moçambicano, Cassamo reafirma possibilidades de convivências harmoniosas entre as populações e a superação de obstáculos advindos do duro processo colonial, de acordo com preceitos já estabelecidos nos discursos frelimistas. Por outro lado, Khosa opta por construir, em suas narrativas, tramas que apontam para a insuficiência desses discursos na nova sociedade moçambicana, destacando as fragmentações impostas pelos anos de colonialismo, a burocratização do estado, bem como o distanciamento do governo moçambicano da realidade social do país, dificultando o acesso das populações moçambicanas à serviços básicos e a uma vivência plena de suas culturas e diferenças.
Imagens e enigmas na literatura para crianças
As relações palavra&imagem na literatura para crianças e jovens são investigadas pela perspectiva de suas estruturas e jogos intercódigos, anotando como se engendram e favorecem, ou não, a recepção criativa das obras contemporâneas. O estudo dá evidência aos aspectos materiais da linguagem e dos signos verbal e visual, estabelecendo quinze critérios para apreciação e análise, que resultam da arquitetura lógica de três categorias (1) as condições contextuais ao campo da autoria, (2) as marcas do uso do suporte-livro e do projeto gráfico, (3) as relações espaciais palavra&imagem, propriamente ditas cada uma delas permitindo a divisão em três subcategorias. A última categoria abarca os níveis de montagem por justaposição, sobreposição e fusão palavra&imagem, que se deixaram filtrar por três subdivisões, possibilitando perceber e identificar mais detidamente sua franja de detalhes. Para tanto, foi necessário lançar mão de exemplos que principiam, factualmente, no período da Era de Ouro da Ilustração, a partir das últimas décadas do século XIX, na órbita dos países europeus, com destaque a Walter Crane e Arthur Rackham, dois marcos na história do livro para crianças. Em um percurso que não é estritamente cronológico, à experiência do passado vieram somar a reflexão e a experimentação de autores brasileiros na atualidade. Outro nível de discussão promoveu o mapeamento das dificuldades de definir conceitos e nomes para os próprios objetos literários no decurso da produção cultural para infância e, deste modo, colocaram-se à berlinda categorias como ilustração, livro de imagem e livro ilustrado. Esta é a visão geral do trabalho, em sentido inverso porque, antes de tudo, era necessário conhecer as formulações e abordagens teóricas de outras pesquisas acadêmicas, em razão de poucas obras de referência publicadas, que abraçaram o desafio de compreender a relação palavra&imagem na literatura infantil, em diferentes áreas: artes, comunicação, design, semiótica, psicologia, educação e estudos literários, desde 1980 aos dias de hoje (2008). Nossa tarefa tem sido obrigatoriamente mais descritiva, colecionando fatos, informações, idéias a fim de correlacioná-los e criar uma nova proposta aberta para as possibilidades de decifração literária em ritmo de jogo e re-invenção estética por parte do leitor-criança. Deste modo, para o último capítulo, escolheram-nos três obras singulares dos escritoresilustradores Angela Lago e Roger Mello, mais a parceria José Saramago e João Caetano, com as quais se brinca no diagrama das relações espaciais palavra&imagem.
A formação inicial do professor de língua portuguesa e a lei 10.639/03 em quatro IES privadas do estado de São Paulo: literatura no Quarto de Despejo?
A presente dissertação tem por objetivo central investigar, na grade curricular dos cursos de Licenciatura em Letras de quatro universidades privadas do estado de São Paulo, se a formação de professores de Língua Portuguesa, que atuarão com ensino de literatura na educação básica, foi impactada pela lei 10.639/03, após mais de uma década de sua promulgação. Assim, sob uma perspectiva sócio-histórica, tratou-se da condição brasileira de sociedade estruturada pela dominação racial, a branquitude, e sua relação com as desigualdades sociais e as políticas de ação afirmativa que determinam o ensino das literaturas africanas e afro-brasileira ou negra em todos os níveis de ensino no Brasil. Também se procurou articular, por meio de abordagem histórica e conceitual, um panorama sobre a complexa relação que envolve literatura, currículo, cânone escolar, ensino de literatura e formação inicial docente na educação brasileira. Dados provenientes do uso de metodologia qualitativa de pesquisa, pautados em entrevistas semidirigidas com os coordenadores de curso de Letras da modalidade presencial dessas universidades, foram analisados e permitiram concluir que o desafio de tornar efetivo o ensino de literaturas africanas e afro-brasileira ou negra no Brasil, além de enfrentar o preconceito e o racismo, também precisa lidar com os desgastes e contradições pertinentes ao campo do ensino de literatura e do cânone escolar, que hoje se debatem com concepções de educação mais voltadas ao tecnicismo e, portanto, menos afeitas à humanização.
Poetas do Povo e da Periferia: um estudo sobre as ações e as poéticas de Solano Trindade e de Sérgio Vaz
Estética e ética, a despeito de acepções bastante restritas, podem concernir a significados muito comuns em se tratando de literatura. A propósito, determinadas condições histórico-culturais ensejam que as preocupações sociais e as inquietações poéticas se imbriquem de modo que ambas pareçam ser tão somente uma. Os Poetas do Povo e da Periferia, epítetos pelos quais são conhecidos, respectivamente, Solano Trindade e Sérgio Vaz, emergem de extratos sociais empobrecidos e, ao mesmo tempo, contextos culturais enriquecedores. A despeito de distantes no tempo e no espaço, as trajetórias específicas de cada um deles conduzem-nos a mobilizar proposições similares de arte. Solano Trindade cresce em um contexto de efervescência cultural popular e, a partir de suas experiências pessoais, engendra uma arte do povo pelo povo, valorizando tradições brasileiras, africanas, afrobrasileiras. Sérgio Vaz cresce em um contexto de tensões sociais (vulnerabilidade econômica e violência exacerbada dos grandes centros urbanos) e transição entre a cultura popular e a cultura de massa e, a partir dessas experiências de vida, concebe uma arte da periferia pela periferia. Trata-se, em ambos os casos, de poetas que se tornam mais do que intelectuais; viram artistas-cidadãos; isto é, encarnam os Poetas do Povo e da Periferia um tipo específico de intelectualidade, aquela que, por meio do compartilhamento de arte, visa à partilha de saberes e a transformações sociais. Ancorado nos fundamentos dos estudos de Literatura Comparada, zarpa esta pesquisa em reflexões atinentes à formação de uma Paideia, por ambos os poetas - na história da Literatura Brasileira -, que não apenas inova no modo como se tematiza o excluído (sobretudo, pobres, negros, nordestinos, mulheres), alcançando-o ao protagonismo, tornando positivas características que lhe são peculiares, mas na maneira como se (re)estiliza a linguagem do povo nas composições poéticas que produzem. Para tanto, discorrer-se-á acerca de como Solano Trindade e Sérgio Vaz tornam-se referência para leitores, outros literatos, pesquisadores e ativistas (culturais e sociais). Destarte, por um lado, tratar-se-á de seus ativismos, por outro de seus poemas; no caso da produção literária, o enfoque convergirá ao tratamento ético e estético acerca da mulher, da criança e do adolescente e, enfim, da humanidade na figura do homem.
2021
Fabio Roberto Ferreira Barreto
Poesia e diálogos numa ilha chamada Brasil
A veiculação de uma perspectiva comunitária voltada para a aproximação/integração dos países latino-americanos recebeu destacada importância nas produções culturais brasileiras das décadas de 1960 e 1970. Especialmente no âmbito das manifestações artísticas, novas articulações em torno de uma identidade latino-americana surgiam na pauta dos debates político-culturais. A partir deste contexto, o presente trabalho visa refletir sobre a importância do ideal americanista para a poesia brasileira do período, dando destaque à produção poética de Ferreira Gullar e Thiago de Mello. A escolha por estes dois autores justifica-se pela intensidade e dramaticidade com que suas obras encarnaram as esperanças e contradições da época, tanto no que se refere aos dilemas formais inerentes a uma concepção poética disposta a atuar politicamente na realidade social, transformando-a, como no espaço que oferecem à representação de uma união solidária entre os países da América Latina. A partir da leitura de seus poemas buscamos matizar a posição da fulguração americanista dentro de um projeto político e estético mais amplo, bem como os lugarescomuns que acompanham sua concretização formal. Damos especial atenção aos eventos e personagens que, a nosso ver, catalisam o viés comunitário daquele período, tornando-se protagonistas de vários poemas e confundindo-se simbolicamente com o próprio desejo de aproximação solidária: a Revolução Cubana, a celebridade de Pablo Neruda e Che Guevara e o exílio dos poetas brasileiros em países da América Latina, destacadamente no Chile de Allende, onde testemunharam a euforia construtiva e a frustração traumática do projeto socialista. Por fim, propomos um balanço crítico das limitações desta tendência, sem desconsiderar a importância de tais ensaios supranacionais em um país pouco sensível ao diálogo com culturas e sociedades afins, como tem confirmado a história brasileira. Encerramos a pesquisa vasculhando os escombros do discurso americanista nas obras mais recentes dos poetas De uma vez por todas (1996) e Campo de Milagres (1998), de Thiago de Mello, e Muitas Vozes (1999) e Em alguma parte alguma (2010) de Ferreira Gullar publicadas na última década do último século e na primeira do século corrente. Num contexto marcado pela consolidação da chamada globalização neoliberal e de crise dos discursos utópicos que sustentavam a aspiração comunitária procuramos identificar e examinar novos arranjos discursivos e, a partir deles, sugerir o lugar (ou não-lugar) da América Latina no rol de preocupações da poesia brasileira contemporânea.
Entre vôos, pântanos e ilhas: um estudo comparado entre Manoel de Barros e Eduardo White
Esta tese apresenta um estudo comparado entre dois autores de Literaturas de Língua Portuguesa: Manoel de Barros - Brasil - e Eduardo White Moçambique. Do primeiro poeta escolhemos as obras: Gramática expositiva do chão, de 1966 e Livro de précoisas, de 1985, e do segundo a atenção se voltou para Poemas da ciência de voar e da engenharia de ser ave, de 1992 e Janela para o Oriente, 1999. No cerne do trabalho crítico e investigativo destas obras se concentrou o objetivo de verificar a intersecção do espaçotempo mítico, como um dos fatores determinantes da revisão dos limites e fronteiras dos gêneros literários e a contribuição desses procedimentos poéticos para o campo das discussões teórico-críticas na modernidade. Alguns dos vetores presentes no processar poético desses autores são: o uso da metalinguagem, do poema em prosa e prosa poética como princípios norteadores da proposta de revisão de gêneros.
Entre a literatura e a imprensa: percursos de Maria Archer no Brasil
A literatura de autoria feminina nos países que se comunicam através da língua portuguesa conta com excelentes representantes. Um olhar, ainda que superficial sobre essa produção revela que notadamente a partir da última metade do século passado, década de 40-50, ela veio gradativamente chamando a atenção de pesquisadores e conquistando, cada vez mais, o prestígio do público-leitor. Maria Archer, no entanto, parece encontrar-se em quase completo esquecimento De 1955 a 1977, Maria Archer (1899- 1982),escritora portuguesa, veio cumprir um largo exílio em terras brasileiras. Aqui, como nos continentes luso-africano, tornou-se um dos nomes de mulher mais importantes pela contribuição à imprensa de Língua Portuguesa. O objetivo primeiro deste trabalho é ressaltar as experiências e a contribuição desta escritora para a imprensa de Língua Portuguesa, problematizando-as à luz da hegemonia masculina que marcou a produção de conhecimentos e a reflexão pública sobre a resistência dos portugueses à ditadura do regime salazarista vigente no Portugal da época.
Vamos jogar RPG?: diálogos com a literatura, o leitor e a autoria
O presente trabalho é resultado da investigação envolvendo Roleplaying game, literatura e sociedade. As estruturas ficcionais e as formas do conto maravilhoso, presentes nas narrativas interativas, propiciam um resgate e reatualização da produção contemporânea na perspectiva da criação coletiva do enredo e na elaboração das personagens no fluxo de ficções. Foram utilizados como corpus as discussões nos fóruns do gênero, registros de jogadores sobre casos felizes e resultados infelizes no uso das regras da gramática da ficção. A prática que torna o leitor um cuidadoso manipulador da ficção, sujeito e criador de narrativas, pode ser observada na experiência com autoria e educação realizada numa escola pública. Finalmente, as narrativas interativas são um indicativo da necessidade de criação do ser humano ao relatar os feitos de suas personagens e os caminhos de suas histórias; denunciam não apenas as estruturas literárias e ficcionais em jogo, mas a presença de um leitor habilidoso na manipulação do universo cultural que o rodeia, cujas regras elementares são as da autoria.
Micropolítica do feminino e estética de confrontamento em Patti Smith e Ana Cristina Cesar
Unindo crítica cultural à pesquisa acadêmica, pretendemos mapear a poesia de Patti Smith e Ana Cristina Cesar, partindo de seus respectivos contextos da década de 1970 o movimento punk nova-iorquino, nos Estados Unidos, e a poesia marginal, no Brasil , para então explorar seus pontos de convergência, no que tange a uma micropolítica do feminino e a uma estética de confrontamento. Pensamos ambas as poetas como cartógrafas de uma época e das transformações intrínsecas a essa época, mapeadas por elas no fazer poético, no corpo da linguagem, por meio de uma política-estética; por elas somos levados à política como estética; à política menor, do eu mínimo, de Deleuze, em caráter contingente, de subjetividade e feminilidade. Discutimos também como, a voz do feminino localizado em Patti e Ana C. dá vazão à abertura de um novo tipo de experimentalismo que se integra a uma genealogia de arte/cultura e ao legado da poesia moderna travando diálogo com elementos catalisadores do pós-moderno que desembocariam no contemporâneo.
2013
Paulo Ricardo Pereira e Alves
Olhar indígena e olhar indigenista para a literatura infantil brasileira: representações da temática indígena por Ciça Fittipaldi e Daniel Munduruku
Esta dissertação pretende analisar, sob uma perspectiva comparatista, as obras: Kabá Darebu e As peripécias do jabuti, de Daniel Munduruku, e Pequena história de gente e de bicho, de Ciça Fittipaldi, tendo em vista as especificidades culturais de cada autor e a maneira como elas se refletem em suas produções, bem como destacar características de seus projetos ideológicos e estéticos. Levando em conta os preceitos dos estudos comparados, outro foco de análise será os diálogos estabelecidos entre cada escritor com outras áreas de conhecimento, como: antropologia, artes plásticas e educação, considerando a formação acadêmica de ambos e sua atuação profissional. Levando-se em conta as ponderações de Antonio Candido com relação às influências do contexto social e político na produção literária, este trabalho também abordará a Lei 11.645 - a qual institui o ensino das contribuições culturais e sociais dos povos africanos e indígenas nas escolas brasileiras - e a possibilidade de reflexo da mesma na produção literária de temática indígena desses autores.
2013
Andréa Castelaci Martins
Chinua Achebe e Castro Soromenho: compromisso político e consciência histórica em perspectivas literárias
No exercício de comparativismo literário entre as obras Things fall apart, do escritor nigeriano Chinua Achebe (1958), e Terra morta, do angolano Castro Soromenho (1949), é possível estabelecer aproximações e distanciamentos que dialogam entre si e podem trazer reflexões relevantes para o estudo das literaturas africanas. Enquanto a primeira oferece uma visão inédita a respeito do funcionamento interno da sociedade Ibo na Nigéria diante da situação colonial, a segunda transparece as frágeis relações dos colonos portugueses nas instituições políticas, econômicas e sociais do império na região da Lunda em Angola. Já por esse aspecto, os romances convergem para um panorama em comum ao apresentarem tanto o colonizado em Things fall apart quanto o colonizador em Terra morta de maneira distante dos estereótipos retratados pelas figuras coloniais, justamente por problematizarem questões internas e clivagens sociais e históricas. Assim, ao evidenciaram as fraturas internas, contribuem com a crítica sobre o sistema colonial ao mesmo tempo em que ajudam a construir outras visões históricas sobre o tema. Desse modo, as duas obras distanciam-se abertamente quanto aos contextos coloniais, que exigem, diante de uma leitura comparativa, um arcabouço teórico-crítico múltiplo que abarque as diferenças existentes nas dinâmicas coloniais e em seus contextos africanos específicos. O fato de os dois romances trazerem à cena regiões específicas na Nigéria habitada pelo povo Ibo e em Angola determinada como o espaço Lunda - e apresentarem uma multiplicidade de questões étnicas, raciais, sociais e identitárias, acaba distanciando os dois livros em perspectiva comparatista. Em termos aproximativos, no entanto, a problematização dos espaços e personagens retratados nas narrativas e a figura do narrador que assume posições políticas que se aproximam da categoria do autor implícito (BOOTH, 1983), permitem também uma leitura analítico-comparativa entre os romances. Se, por um lado, os contextos sociais e históricos distanciam os escritores e seus produtos literários; os romances se aproximam não apenas pelas categorias narrativas de personagens e espaço, mas também pela posição político-ideológica assumida por seus narradores. A consciência histórica e o compromisso político diante dos fatos narrados estão presentes na representação literária como uma tentativa de entender o funcionamento e apresentar uma crítica aos diferentes processos coloniais.
A selva: viagem do descobrimento
Este trabalho pretende mostrar como Literatura, História, Memória e Testemunho se cruzam no percurso de Euclides da Cunha e Ferreira de Castro na Amazônia. A \"terra sem história\" e os homens sem voz se fazem presentes nos Ensaios Amazônicos (1905) e n\'A selva (1930); mais do que assuntos, são motivos da produção textual. Procura-se demonstrar como os dois autores, movidos por objetivos distintos acabam por apresentar semelhanças de abordagem.
2007
Vander da Conceição Madeira
Mobilidades culturais e alteridades em Relato de um certo oriente e sua pré-tradução árabe
Esta tese tem como objetivo discutir as variadas manifestações de mobilidades culturais e suas consequentes relações de alteridades no romance Relato de um certo oriente de Milton Hatoum, partindo do suposto de que a alteridade é parte constituinte da subjetividade e da relação humana de diferença e identidade com o Outro; e, ao mesmo tempo, analisar o processo intercultural da pré-tradução para a língua árabe de quatro capítulos do Relato de um certo oriente. Nesse sentido, este trabalho está focado em dois lócus das mobilidades culturais das alteridades: a narrativa de memória da imigração e a tradução literária.
2012
Maged Talaat Mohamed Ahmed El Gebaly
O sagrado na literatura infantil e juvenil em processo de transformação: da ordem humanista/religiosa das origens na colonização para o novo homem em processo em nosso tempo
Desde os primórdios, a literatura infantil e juvenil tem acompanhado as transformações do homem e da sociedade e tem servido de palco para essas mudanças. Em diferentes épocas e lugares, podem-se observar produções literárias que reproduzem a experiência humana e tudo o que com ela se relaciona. Dentre essas relações está o sagrado, que se apresenta como um vínculo orgânico e universal. Nesta pesquisa, ao observar a trajetória do sagrado na literatura, identificam-se mudanças no modo como ele se manifesta, o que torna possível avaliar os elementos que projetaram essas transformações. Não se trata de um movimento linear, mas de um movimento espiralado que incorpora os elementos das modificações e, ao mesmo tempo, se projeta. Assim, propõe-se avaliar as transições do sagrado ao longo da história da literatura infantil e juvenil a partir de uma análise das principais manifestações literárias desde o período da colonização portuguesa no Brasil à contemporaneidade a fim de compreender como as transformações, ocorridas ao longo desse período, se refletem na sua configuração atual. Ao revisitar o ontem da literatura, pode-se compreender melhor o hoje, uma vez que o presente apresenta marcas do passado. Além de analisar excertos da produção literária da época da colonização ao início do século XIX, no período dos precursores da literatura infantil e juvenil brasileira, no período dos ideais do modernismo, na explosão da literatura infantil nos anos 1970 e na contemporaneidade, a pesquisa envolve, sobretudo, a análise comparada das obras dos autores Sophia de Mello Breyner Andresen (Portugal) e Bartolomeu de Campos Queirós (Brasil). Ao compará-las, verifica-se uma nova configuração do sagrado em suas articulações.
Dialéticas das formas literárias: uma interpretação de O Livro da Dor, Godido e Outros Contos e Chitlango, Filho de Chefe
Este trabalho tem como pressuposto de que as formas literárias visadas são conteúdos sedimentados que se consolidaram no processo colonial. Neste processo, considera-se o entrelaçamento entre uma cultura letrada alienígena e uma cultura oral autóctone, sendo uma dominante e outra dominada. Constatamos que a compreensão das fissuras, problemas e dilemas verificáveis nos textos em análise permitirá apreender os mecanismos, quer literário, quer sociais, que engendraram formas impregnadas de características situacionais e contextuais. Supomos que, em O Livro da Dor de João Albasini, Godido e Outros Contos de João Dias e Chitlango, Filho de Chefe de Chitlango Khambane e André-Daniel Clerc, as formas engendradas se resumem ao assimilado, resultante da hegemonia cultural produzida em situação colonial.
2016
Elídio Miguel Fernando Nhamona
Caminhos da ficção cabo-verdiana produzida por mulheres: Orlanda Amarilis, Ivone Aida e Fátima Bettencourt
As produções literárias de Orlanda Amarílis, Ivone Aida e Fátima Bettencourt, sob a forma de conto, constituem o objeto central dessa pesquisa e, a partir do corpus selecionado, buscamos identificar e compreender as opções de construção de personagens e de narração que definem, nas coletâneas Cais-do-Sodré té Salamansa, Vidas vividas e Semear em pó, respectivamente, representações sociais de gênero e características do Bildung (formação da personagem), com base numa hermenêutica do cotidiano cabo-verdiano no arquipélago e na diáspora. No primeiro capítulo, procuramos estabelecer um campo teórico, de largo espectro, que pudesse dar suporte às nossas ilações, para tanto aplicando os vários conceitos que orientaram a nossa visada sobre o objeto da pesquisa, como: entre-lugar, póscolonialismo, hermenêutica do cotidiano, diáspora, Bildungsroman feminino; em seguida passamos a uma incursão no contexto histórico, na biobibliografia das autoras e na conformação das coletâneas, pretendendo situar as obras para o nosso leitor. Iniciamos o processo de análise, logo na primeira parte do segundo capítulo, procedendo a uma investigação sobre os títulos dos contos e sua representação na diegese. Na segunda parte, buscamos investigar com mais detalhe os processos de estruturação das personagens, empreendidos pelas três escritoras, com vista a compreendermos os diversos modos de apreensão e representação do universo cabo-verdiano, especialmente o de vivências femininas de submissão, resistência e emancipação. O terceiro capítulo, que complementa o de panorâmica da construção das personagens, será dedicado a examinar, de forma sucinta, a atuação dos(as) narradores(as), que, em conjunto com as personagens, revelam a mundividência que as escritoras querem registrar na ficção, no intuito de introduzir uma ótica feminina e, por vezes, feminista, ao cânone literário cabo-verdiano, predominantemente masculino. O quarto capítulo foi dedicado a uma sistematização das conclusões.
Entre a poesia e o banco escolar: algumas tensões entre a arte e a cultura escolar no Brasil
Este trabalho busca investigar e analisar o ensino da literatura e, em específico, o gênero poético na cultura escolar brasileira, particularmente em manuais didáticos utilizados como ferramentas pedagógicas. Pretende-se verificar mais detidamente as particularidades e as características do tratamento do gênero poético para jovens leitores das últimas séries do ensino fundamental. Como exemplo, procura-se analisar a concepção de literatura no novo documento que estabelece os parâmetros curriculares no Brasil, a Base Nacional Curricular Comum (BNCC), e no documento curricular das escolas públicas da cidade de São Paulo. Para isso, averígua-se o contexto histórico da instituição escolar brasileira, a instalação de uma cultura escolar e as transformações políticas, sociais e ideológicas ocorridas na sociedade. Busca-se analisar como tais mudanças refletiram na literatura destinada a esse público leitor. Assim, empenha-se em compreender quais seriam o espaço, a concepção e a função da literatura, em específico da poesia, no ensino de jovens leitores e discutir a importância de tal arte na formação de jovens em fase escolar. Nesse sentido, investigam-se algumas tensões entre a prática escolar do ensino de literatura e a formação de leitores literários propriamente dita. Para tanto, utilizam-se como fundamentação os estudos comparatistas da literatura bem como a historiografia desenvolvida por estudiosos das áreas de Letras e Educação
De silêncios e de vozes: uma análise do processo narrativo em Boaventura Cardoso
Esta dissertação visa a análise dos narradores dos romances Maio, Mês de Maria (1997) e Noites de Vigília (2012), do escritor angolano Boaventura Cardoso. Por meio de método comparativo, foram examinados três recursos literários que auxiliam a composição das personagens narradoras, a saber: as situações narrativas - focalização e voz -, as formas de citação do discurso e o uso de imagens animistas. O uso desses recursos distingue-se em cada obra, de forma que a análise comparativa foi utilizada para destacar a adequação de cada estrutura literária a seu contexto. Em ambas as produções, as lacunas do discurso oficial são articuladas de maneira diversa. Maio, Mês de Maria apresenta uma narrativa permeada de boatos e presságios, que guiam a busca do protagonista pelos jovens desaparecidos, evento que alude à repressão ao 27 de Maio de 1977 angolano. Já Noites de Vigília articula os depoimentos de variadas personagens que narram memórias do passado colonial e da Guerra Civil angolana, em um debate que tenciona a pluralidade de vozes, mas não alcança o dialogismo
2020
Felipe de Oliveira Puritta
Sobre voltas e abandonos: literatura infantil/juvenil, reprodução e renovação de valores sociais
Este estudo, fundamentado numa perspectiva comparatista, estabelecendo conexões entre Literatura Infantil/Juvenil e sociedade, procura apresentar possíveis relações interdiscursivas e intertextuais existentes entre a parábola A Volta do Filho Pródigo, As Aventuras de Pinóquio de Carlo Collodi, Reinações de Narizinho de Monteiro Lobato, Eu & Mim Mesmo de Flávio e de Souza e Tchau de Lygia Bojunga. Por meio desses textos, que se mostram como narrativas simbólicas, pretendeu-se examinar a maneira pela qual a literatura para crianças vem a imbricar processos de reprodução e renovação de valores sociais, enfatizando os processos discursivos, em especial, os processos que colocam em discussão valores provenientes de uma educação que privilegia a moral exemplar. O trabalho encontrou suporte nas ideias sobre dialogismo de Mikhail Bakhtin, levando em conta questões de ordem interacionista e aquelas referentes aos diálogos intertextuais, procurando evidenciar princípios morais e ideológicos veiculados por tais textos, traços do discurso monológico e polifônico, elementos que contribuem para confirmar o fato de que a Literatura para crianças e jovens não se apresenta como uma arte inocente, mas desempenha papel significativo na sociedade como instrumento transmissor de ideologias, assumindo grande relevância na construção de identidades e na maneira de pensar e apreender o mundo.
2012
Adriana Falcato Almeida Araldo