Repositório RCAAP
Memória e metapoesia em João Cabral de Melo Neto e Carlos de Oliveira
Com o intuito de investigar o papel relevante da memória na construção e formação do sentido nos poemas de João Cabral de Melo Neto e Carlos de Oliveira, e com base em estudos sobre a arte da memória, fizemos uma seleção paradigmática de textos cujo referencial ancora-se em imagens buscadas nas lembranças da infância de ambos os poetas. Partindo do referencial imagético regional, passamos a investigar como essa poesia evolui do referencial ao metapoético, passando a utilizar as imagens de densidade e estoicidade, resgatadas pela memória, como termos de comparação ao processo rigoroso e árduo de composição do poema, que atinge sua máxima depuração nas obras A educação pela pedra e Micropaisagem, de Melo Neto e Oliveira, respectivamente. A poesia crítica exercida racionalmente cria uma poética que teoriza a si mesma, refletindo sobre seus próprios meios de construção. Após essas obras que efetivaram a experiência oficinal, gradativamente tais comparações cedem lugar a construções mais indicativas, uma vez que já se conquistou o domínio das relações entre as palavras e as coisas. Seguros de que a palavra é o material com qual se constrói o poema, já não sentem a necessidade de explicar, passando a praticar a construção do poema como um elemento da realidade material.
Flagrantes de cotidianos periféricos na literatura contemporânea de Brasil e Cabo Verde
Abordamos os romances Guia afetivo da periferia, do escritor brasileiro Marcus Vinícius Faustini, e Marginais, do escritor cabo-verdiano Evel Rocha, com o interesse de estudar seus protagonistas, personagens pobres que vivem em zonas urbanas. Motivou-nos o interesse de entender como estão representadas e, por isso, tratamos de investigar suas experiências cotidianas, a partir do que pudemos identificar algumas de suas características e atitudes. Essa investigação teve como suporte teórico textos que defendem a importância de uma hermenêutica do cotidiano, recomendando a sua realização como uma forma de se potencializar a documentação de experiências de vidas anônimas e de demandas sociais legítimas, mas escondidas para a conveniência dos grupos hegemônicos. Essa hermenêutica se baseia na compreensão de que aquilo que se vive informalmente deve ser entendido como uma alavanca para o conhecimento humano. Analisamos cinco unidades temáticas mínimas que se evidenciaram comuns aos romances: vida, morte, doença, trabalho e território. Constatamos que a forma como os dois textos retratam a vida na periferia são complementares, não obstante, individualmente, privilegiem visões unívocas da realidade social que retratam. Também constatamos que os romances tanto inovam na abordagem de alguns temas, como o combate à tuberculose e a opção pelo autoemprego, como, de algum modo, ratificam posições que cerceiam os seres humanos, como quando atrelam a noção de decência ao fato de se estar ou não empregado e a pobreza à criminalidade.
2015
Giselle Rodrigues Ribeiro
O deslocamento e a orfandade nas obras Livro, de José Luís Peixoto, e Os Malaquias, de Andrea Del Fuego
Neste trabalho, defendemos a tese de que entre-espaço e subespaço configuram-se como elementos narrativos relevantes na representação do deslocamento das personagens dos romances Livro, de José Luís Peixoto, e Os Malaquias, de Andrea Del Fuego. Para atestar essa ideia e elucidar os elementos por nós sugeridos, propomos a comparação dos dois livros, por meio da análise do itinerário das personagens Adelaide e Júlia, ambas órfãs e migrantes. Assim, buscamos demarcar o espaço nas duas obras e relacioná-lo com fatos históricos e dados geográficos, a fim de observar o trabalho estético literário responsável por organizar e enfatizar as intervenções no espaço realizadas pelo governo salazarista em Portugal e pelo mandonismo rural no Brasil. Intervenções que estão ligadas ao deslocamento e à orfandade. Ao final desta pesquisa, incorporamos um ensaio fotográfico lúdico, pois parece-nos eficaz estudar a ficção também por meio da própria ficção.
Do indivíduo às redes da vida política e social: protagonismo e construção identitária em Padre Nando (Antônio Callado) e Aníbal (Pepetela)
O estudo tem como objetivo analisar comparativamente o processo de formação identitária das personagens Padre Nando e Aníbal, respectivamente protagonistas dos romances Quarup, publicado em 1967, pelo escritor Antônio Callado e A Geração da Utopia, publicado em 1992 por Pepetela. Ambos os romances abordam de forma marcante como se configuraram aspectos do processo da luta armada de sentido libertário, no Brasil e em Angola. No entrecruzamento de ficção e História, os escritores, através das marcas de seus autores implícitos, em nível dos sujeitos da enunciação (narradores) ou do enunciado (personagens) apresentam dois protagonistas engajados política e socialmente que vivem profundas transformações em seus caracteres psicossociais. O estudo dessas caracterizações constitui um rico material para problematizar os sentidos da identidade e das problemáticas que envolvem os processos da luta libertária e compreender como as transformações das personagens centrais de cada narrativa têm a ver com seus horizontes utópicos.
2015
Maristela da Soledade e Souza
Angela Lago e o processar de vozes e registros: do riso medieval ao grotesco contemporâneo
O presente trabalho tem como objetivo estudar a obra de Angela Lago, escritora e ilustradora de livros infantis, partindo da seleção de títulos que têm em comum a temática do assombro e da morte, a saber: De Morte! (1992), Charadas Macabras (1994), Sete Histórias para Sacudir o Esqueleto (2002) e Minhas Assombrações (2009). Considerada um dos grandes nomes da Literatura Infantil e Juvenil contemporânea, Angela Lago há mais de três décadas tem oferecido aos seus leitores títulos instigantes, muitos dos quais já foram objeto de pesquisa no âmbito acadêmico. Da análise de algumas dissertações de mestrado e teses de doutorado, verificamos a possibilidade de investigação de sua obra sob diferentes perspectivas teóricas. Entre os vieses possíveis, nossa abordagem considerou os conceitos teóricos desenvolvidos por Mikhail Bakhtin, já apontados em alguns trabalhos, e o estudo da oralidade e da cultura escrita, propostos por Walter Ong e Eric Havelock. Reverberam nas obras os conceitos de plurilinguismo, dialogismo e a estética do grotesco, discutidos por Bakhtin, e características da oralidade, do advento da escrita e da impressão, apresentados especialmente por Ong. Realizando o entrecruzamento das teorias, procuramos demonstrar como a artista propõe o processar da interação autor/leitor de forma gradativa no corpus selecionado, passando do riso ao assombramento, do convite ao ato de contar à inserção do leitor como personagem da história. Partindo do estudo comparativo dos livros selecionados, observamos semelhanças entre os projetos estéticos, o que nos fez agrupá-los em duas categorias: obras nas quais a autora se posiciona ao lado de seu leitor, convocando-o a transmitir as histórias; obras em que a autora e leitor tornam-se personagens, com novas formas de participação.
Nas sendas da revolução: a poesia de Agostinho Neto e Solano Trindade
A presente pesquisa tem por objetivo propor aproximações entre os autores Agostinho Neto (angolano) e Solano Trindade (brasileiro). Realizamos as comparações entre ambos considerando semelhanças literárias e políticas em seus percursos. Ao longo de suas vidas os dois poetas dedicaram-se à literatura e também a causas sociais e raciais. A pesquisa centra-se na análise comparativa entre os textos de Sagrada esperança (1985) de Neto e Cantares ao meu povo (1969) de Trindade. Para embasar nossa pesquisa teremos como foco de comparação pressupostos da Négritude enquanto temática e sua ligação com o romantismo revolucionário e/ou utópico, nas sendas dos estudos levados a efeito por Michael Löwy e Robert Sayre. Ao articularmos suas convergências, acreditamos ser possível constatar que há sobrevivências românticas que se fazem vivas na Negritude, às quais podem ser verificadas nas obras eleitas para a presente pesquisa. O romantismo é aqui pensado como visão de mundo, logo, livre de suas amarras temporais. Ao, visualizarmos ecos deste romantismo presentes na Négritude acreditamos ser possível verificar em que medida as obras de Agostinho Neto e Solano Trindade, pertencem a uma forma de poesia, em que há uma preocupação dos poetas em instigar, pelo verso, a prática revolucionária capaz de gerar transformações.
2009
Oluemi Aparecido dos Santos
Capitães da areia, um estudo comparado entre os Amados: literatura e cinema em diálogo
Buscando aproximar as obras literária e fílmica dos Amados, este estudo, sob a perspectiva dos Estudos Comparados, visa abarcar a relação entre estes dois campos narrativos, discutindo como tais obras, através de determinados elementos narrativos, refletem a matéria histórica do contexto em que estão inseridas, bem como marcam o projeto político e estético de seus autores.
2015
Renata Paltrinieri Hograefe
Metamorfoses do olhar: reflexões sobre a formação do leitor literário contemporâneo
O presente trabalho propõe reflexões sobre a formação do leitor literário, tendo como base a perspectiva da literatura como pensamento, conhecimento de mundo e da experiência humana e da leitura literária como experiência de formação e transformação do leitor. Para tanto, articulam-se proposições teóricas que abrigam princípios da teoria literária e conceitos centrais da filosofia contemporânea, os quais privilegiam a hermenêutica como exercendo um papel central no processo de conhecimento humano. Às investigações teóricas relacionam-se a prática pedagógica em sala de aula e a cuidadosa observação do processo de aprendizagem de jovens enquanto leitores de obras literárias e escritores de textos, os quais engendram experiências com a literatura. Primeiramente, apresentamos o cerne do paradigma científico moderno e as críticas a que tem sido exposto desde o final do século XIX. Nesse contexto, acercamo-nos de conceitos fundamentais da hermenêutica filosófica tal como postulada por Hans-Georg Gadamer e desenvolvida sob o ponto de vista da literatura por Paul Ricoeur, cujas reflexões abarcam a dimensão ontológica e existencial da literatura, bem como da experiência da leitura literária. Em seguida, aprofundamos duas vias propostas por Paul Ricoeur, esclarecedoras do processo interpretativo pelo qual se dá o encontro entre texto e leitor, quais sejam, a referência metafórica como base do funcionamento e valor cognitivo da linguagem literária propulsora da relação estabelecida entre texto e imaginação produtora do intérprete, e a dialética entre explicação e compreensão, como dinâmica da leitura interpretativa que compõe o círculo hermenêutico ricoeuriano. Os caminhos apresentados rearticularam-se de modo a pensar estratégias de mediação com vistas ao trabalho de formação do leitor literário, sobretudo na aula de Língua Portuguesa. Em um terceiro momento, apresentamos experiências de mediação de leitura da obra Aventuras de Alice no País das Maravilhas (1865), de Lewis Carroll, realizadas com estudantes do 9º ano do Ensino Fundamental II de uma instituição da rede particular de ensino da cidade de São Paulo. Por fim, investigamos nas produções textuais dos estudantes vestígios e indícios do percurso de leitura iniciado em aula e de sua efetivação enquanto experiência autêntica com a obra literária selecionada, acontecimento discursivo entendido como apropriação que, na acepção ricoeuriana, corresponde ao diálogo entre os horizontes do texto e do leitor, processo em que ambos são refletidos e transformados. Notamos ainda como a elaboração de estratégias de mediação de leitura, entrelaçada ao nosso olhar investigativo, também constituiu-se por um exercício hermenêutico, ressignificado em muitos momentos, ampliando os horizontes da pesquisa.
Da terra das sombras à terra dos sonhos. O espaço sagrado na literatura para crianças e jovens
Esta dissertação tem como objetivo identificar a presença do espaço sagrado na Literatura para Crianças e Jovens. Para isso, utilizamos como eixo teóricometodológico propostas sociológicas e antropológicas sobre o sagrado e sua relação com o homem. Como um substrato para mitos, ritos e arquétipos, o sagrado tem permeado a Literatura para Crianças e Jovens, revelando o homem e sua relação com suas crenças. Em diversas obras, evidencia-se como um elemento essencial e norteador do ser que o aceita. Assim, recorrendo ao estudo de temas (tematologia) como método comparativista, objetivamos identificar a configuração do espaço sagrado, pela oralidade, em duas obras: A menina de lá, de Guimarães Rosa, e O beijo da palavrinha, de Mia Couto. Além disso, pelo mesmo método comparativista, analisaremos as obras As Crônicas de Nárnia: o leão, a feiticeira e o guarda-roupa, de C. S. Lewis e Cibermãe, de Alexandre Jardin, com o objetivo de identificar o retorno do sagrado nos dias atuais e, verificar que o sagrado não se limita a épocas, mas até mesmo na modernidade o homem o busca.
Arte literária em dois ramos graciliânicos: adulto e infantil
A nossa intenção neste trabalho é situar o escritor Graciliano Ramos em um contexto de estudo onde se coteje a sua produção adulta, mais especificamente o livro São Bernardo, com A terra dos meninos pelados, um de seus trabalhos destinado às crianças. A proposta justifica-se por ser Graciliano Ramos autor representativo da literatura brasileira, conhecido e estudado em países de língua portuguesa, amplamente pesquisado nos meios acadêmicos, escritor de obras também destinadas ao público infantil. Ao considerarmos as relações dinâmicas que se estabelecem entre autor, texto e leitor, e sabendo que o escritor, ao elaborar o seu trabalho, o faz submetido a uma intenção criativa e a um propósito estético, ideológico e social, cônscio da necessidade de buscar efeitos de sentido, transmitir o seu pensamento e incitar interpretações, tentamos responder a uma questão que nos parece fundamental: podemos considerar os dois ramos literários de Graciliano (o adulto e o infantil) igualmente significativos? Com este objetivo, analisamos A terra dos meninos pelados, de Graciliano Ramos, interpretando as vozes subjacentes que reverberam além do texto, e observando os contextos que permitem considerar o livro em questão como obra canônica de nossa literatura infantil, tanto quanto os seus trabalhos adultos o são. Para isso procuramos fazer uma abordagem mais ampla, buscando sua relação histórica com a escola, a sua contemporaneidade, as questões culturais que envolvem o autor, bem como o seu pensamento como escritor.
2013
Ricardo de Medeiros Ramos Filho
\'Literapalco\' em Lygia Bojunga: arte como projeto de vida
A literatura de Lygia Bojunga tem como uma de suas características marcantes a teatralidade. Propõe-se, neste trabalho, a analisar a maneira pela qual essa teatralidade é construída verbalmente, a fim de demonstrar os efeitos oriundos dessa conjugação entre literatura e teatro, em todas as obras da autora. Para essa análise, aplica-se uma metodologia empírica - analítica, que se dispõe a investigar, na obra da autora, as estratégias literárias recorrentes que coincidem com recursos do teatro, com base em estudos de autoridades da arte teatral, tais como Patrice Pavis, Jean-Jacques Roubine, Anne Ubersfeld, Gerd Bornheim, Raymond Williams, Bertolt Brecht, Erwin Piscator, Ana Maria de Amaral, Valmor Beltrane, Margot Berthold, Felisberto Costa, Admar Costa, Iná Costa, Sílvia Fernades e J. Guinsburg, Marli Terezinha Furtado, Lionel Abel, Sonia Aparecida Vido Pascolati e Igor de Almeida Silva. Constatou-se que os recursos teatrais mais recorrentes na literatura de Lygia Bojunga pertencem ao Teatro Épico, ao Teatro Mambembe, ao Teatro de Animação e ao Metateatro. Os efeitos analisados são a construção da visualidade e da expressividade dos elementos contidos na caixa cênica, que se materializam literariamente, e a fusão entre o projeto literário da autora e o seu projeto de vida.
2019
Cristiane Figueiredo Florencio
Vou pôr uma história: estratégias narrativas em Nosso musseque, de Luandino Vieira
Esta dissertação apresenta uma leitura de Nosso Musseque (2003), do escritor angolano José Luandino Vieira, um romance que se filia ao conjunto da literatura produzida na década de 1960 e que flagra o cotidiano das parcelas mais desfavorecidas de Luanda: os moradores dos musseques. O objetivo é analisar a constituição do foco narrativo e os efeitos das diversas estratégias estilísticas utilizadas no sentido do texto. Sob a égide de uma literatura comprometida com a construção da nacionalidade e da angolanidade, o romance caracteriza-se pela recuperação da memória coletiva de um grupo de crianças que habitaram as periferias de Luanda no período anterior à Guerra de Libertação, do qual faz parte o narrador. O percurso entre a infância, a adolescência e a juventude é rememorado sob numa perspectiva que adere às personagens e que se revela na polifonia de vozes discursivas, no resgate de formas oriundas da lógica da oralidade das sociedades tradicionais africanas em tensão com as que se apresentam na literatura. Essa reconstrução da memória coletiva evidencia os embates dos sujeitos com o real excludente: desvela não só os momentos significativos em que os desejos de plenitude foram frustrados, mas também as estratégias de resistência dos marginalizados ao colonialismo. Nesse sentido, a trajetória dos meninos do musseque é recontada sob um ponto de vista interno e profundamente engajado, que recupera o processo de amadurecimento e o despertar de uma consciência revolucionária e utópica, imbricando ficção e realidade.
2014
Janete Barbosa de Oliveira
Em boa companhia: a amizade em O senhor dos Anéis
Chama a atenção o fato de uma obra como O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien, envolver não apenas um herói, mas muitos personagens com um objetivo comum: a destruição do Anel do Poder. Eles criam laços e revelam sentimentos que nós encontramos no dia a dia, na jornada de nossa vida: se tornam amigos. Este projeto busca analisar como a amizade na obra tolkieniana colabora para o desenvolvimento de seus personagens, bem como contribui para o sucesso de seu objetivo final. Para tanto, tomaremos como base teórica o livro Ética a Nicômaco de Aristóteles, obra que se propõe essencialmente a estudar a felicidade, ou seja, o bem último do homem (eudaimonía). Ao aniquilarem o Anel, os heróis da saga tolkieniana realizam seu grande desejo, e ocorre então o que Tolkien chama de eucatástrofe, o final feliz, essencial nas histórias de fada. Ainda no pensamento aristotélico, a amizade seria tanto um sintoma da felicidade do ser humano quanto uma necessidade para que ele alcance essa realização plena. Por conta de Tolkien ter o seu entendimento de imaginário baseado, entre outras questões, no pensamento religioso, buscaremos também apoio na teologia, especialmente na Suma Teológica de São Tomás de Aquino, enxergando, na amizade, uma relação direta com a caridade cristã. Por entendermos que, na contemporaneidade, a centralidade do livro dá espaço para outras produções artísticas, nos apoiaremos também nas adaptações fílmicas de O Senhor dos Anéis, dirigidas pelo neozelandês Peter Jackson. Tal análise comparativa visa trazer mais elementos para o estudo sobre a amizade na narrativa de Tolkien, visto que o homem contemporâneo, especialmente o jovem, se mostra, cada vez mais, apoiado no universo do audiovisual, muitas vezes partindo dele para o da literatura. Acreditamos que nosso projeto chega em boa hora, visto que tanto o livro quanto o filme em questão envolvem e fascinam seu público leitor e espectador, contribuindo para a formação de seu pensamento ético e de seu caráter, servindo de referência a muitas obras do gênero fantasia, em diversas plataformas.
2017
Cristina Casagrande de Figueiredo Semmelmann
A rede literária de Timor
Esta pesquisa reivindica a capacidade de aglutinação de escritores das literaturas de língua portuguesa por Timor-Leste, e com isso, a leitura do fazer literário poder ocorrer pela dimensão das relações. Nelas, entende-se a fragilidade de um rizoma (baseado na conceituação de Deleuze e Guattari) passível de ser analisado nas obras entre si, na prática da intertextualidade e nos índices paratextuais reunidos, porque se interlocucionam por Timor. Para isso, evidencia-se o encadeamento da textualidade flagrada entre os escritores de língua portuguesa, que um a um cavam a própria capilaridade no rizoma-Timor, transmutado em Rede Literária de Timor. Pelo menos vinte escritores se interconectaram rizomaticamente a três escritores-nós, Ruy Cinatti, Xanana Gusmão e Luís Cardoso, fazendo dessa dinâmica de produtividade o flagrante da Rede Literária de Timor. Observou-se que o trânsito de literatas foi a ocorrência mais acionada, ao passo que a permanência-pertença foi gratamente evidenciada em Luís Cardoso, Joana Ruas e Teresa Amal.
O comportamento colonial no romance de Jacob e Dulce (1896) de Francisco João da Costa
O presente trabalho analisa o romance do escritor goês Francisco João da Costa (1859-1900), Jacob e Dulce scenas da vida indiana (1896), publicado em Goa, antiga colônia portuguesa na Índia. O principal foco da obra é criticar o comportamento colonial da elite goesa cristã, isto é, retratar de forma bastante ácida seus hábitos e costumes, denunciando sua imitação servil aos modelos europeus. O presente trabalho procura analisar a crítica ali presente, assim como situar o texto em meio a outras obras coloniais de referência para outras tradições literárias, nomeadamente a moçambicana e a marfinense. Finalmente, revela como a crítica produzida na altura do surgimento do livro acaba por colocar em diálogo o escritor goês com um escritor brasileiro, Visconde de Taunay, em cujo debate podemos constatar a densidade intelectual de Francisco João da Costa, assim como alinhá-lo a críticos do colonialismo como Frantz Fanon.
O escravo: entre a identidade caboverdiana e a literatura européia
O romance O Escravo (1856), escrito por José Evaristo de Almei-da, português radicado por algum tempo em Cabo Verde, traz marcas do contexto histórico e cultural daquela colônia portuguesa em meados do século XIX. Este estudo busca demonstrar que o romance vai além da caracterização genérica do arquipélago, e procura delinear literariamente uma identidade caboverdiana. Essa abordagem, identitária, tem por parâmetros, estéticos e de valor, não apenas o contexto literário e de idéias português, mas o contexto maior do debate europeu acerca da escravidão e da raça, com destaque para um diálogo intertextual privilegiado com o romance Bug-Jargal (1826) de Victor Hugo.
2009
Claudia Bernardete Veiga de Almeida
Graciliano Ramos do outro lado do Atlântico: a difusão e a recepção da obra do autor de Vidas Secas em Portugal entre as décadas de 1930 e 1950
O presente trabalho tem como objetivo estudar as diferentes facetas da recepção e da divulgação da obra de Graciliano Ramos em Portugal ao longo dos anos de 1930, 1940 e 1950. Trata-se de um período marcado, entre outros aspectos, 1) pela ampliação, em termos editoriais, da indústria do livro brasileira, o que teria dado início a um processo de inversão de influência tipográfica entre Portugal e Brasil; 2) pela emergência, no âmbito artístico, do neorrealismo luso e pela singular presença da literatura brasileira em terras portuguesas; 3) e, em termos políticos e culturais, pelo esforço de aproximação formal entre os governos de Getúlio e Salazar. Com ênfase nas dimensões jornalística, epistolar e editorial relativas à chegada e à ressonância de Graciliano em Portugal, procurou-se observar como, para além de leituras e apropriações neorrealistas, presencistas e estadonovistas, as produções do autor alagoano se firmaram no panorama cultural português e consolidaram seu nome como um dos principais prosadores de nosso idioma.
Desentranhando desejos e identidades: uma leitura queer de Luís Miguel Nava
O objetivo desta pesquisa é discutir, a partir da ideia de interdição foucaultiana, os processos de que se valeu a crítica literária para apagar de seu horizonte de leitura as imagens do homoerotismo nas literaturas de língua portuguesa, para tanto, detivemo-nos de modo mais apurado na leitura de poemas de Luís Miguel Nava, poeta português cuja obra tem uma dimensão homoerótica notável e, mesmo assim, as leituras que fizeram dela passaram ao largo de discuti-las de modo mais aprofundado.
Júlio Gonçalves e a literatura romântica na Índia portuguesa
Este trabalho tem como horizonte a análise da produção do escritor goês Júlio Gonçalves, composta por matérias não ficcionais, tais como biografias, estudos historiográficos e crônicas, bem como por crônicas, contos e poesia. O corpus do trabalho advém, sobretudo, da revista Illustração Goana (1864-1866), que o escritor dirigia e editava. O presente estudo tem dois objetivos: tratar da imprensa literária da qual a referida publicação fez parte e analisar a produção em prosa de Júlio Gonçalves. Tendo sido o primeiro escritor goês a escrever e publicar contos, foi um dos grandes promotores das letras em Goa, podendo ser tomado como um paradigma da produção literário daquele momento.
2018
José Antonio Pires de Oliveira Filho
Violências singulares, textos plurais: um diálogo entre Sapato de salto de Lygia Bojunga e As aventuras de Ngunga de Pepetela
Esta dissertação tem por objetivo discutir e comparar as imagens da violência e da infância, que são histórica e culturalmente construídas, na literatura de recepção infantil, analisando as obras As aventuras de Ngunga, do escritor angolano Pepetela e Sapato de salto, da escritora brasileira Lygia Bojunga, buscando compreender em que medida a articulação entre as duas obras possibilita a compreensão dessas culturas para identificar os efeitos estéticos, culturais e sócio-políticos presentes nessas obras. Utilizou-se como aporte teórico o referencial dos Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa e os estudos relativos à formação e ao desenvolvimento da literatura juvenil no Brasil e em Angola, utilizando também as noções do paradigma indiciário proposto por GINZBURG (1989) como um recurso metodológico que pode contribuir com a Literatura Comparada. O modelo indiciário mostrou-se uma perspectiva de análise produtiva para o desvelamento das imagens das violências, no percurso de construção das identidades dos protagonistas das duas obras analisadas, por mapear os indícios, que permitiram identificar as diferentes violências que constituem, em parte, um legado universal, por estarem presentes em todas as culturas e nas mais diversas temporalidades; e, em parte, um conceito idiossincrático, por apresentarem tonalidades locais, de acordo com o tempo-espaço em que elas se materializam, já que partimos da hipótese de que se trata de um conceito que é histórico e culturalmente construído. Nos universos ficcionais analisados, os protagonistas não se apresentaram apenas como meras potencialidades de recursos estético-formais, mas revelaram uma natureza simbólico-coletiva, à medida que espelharam a matriz constitutiva do adulto que constrói o futuro das sociedades a que pertencem. Por essa razão, o constructo emprestado de Deleuze e Guattari do devir-criança mostrou-se eficaz para caracterizá-los, afastando-os da imagem idealizada da infância vista apenas como uma etapa da vida humana marcada pelas narrativas da inocência e possibilitando sua análise como uma construção histórica, cultural, social e econômica que permite explicar a sociedade de que eles são produtos. Também as imagens das violências que gravitam em torno desses universos ficcionais puderam ser recuperadas pelo mapeamento de indícios, em cada um dos projetos estéticos estudados. Assim, foi possível concluir que para além das histórias que cada protagonista constrói e que são marcadas na efabulação pelo seu chrónos específico, a condição de devir-criança os aproxima, no tempo aiônico das experiências por que passam, já que eles interrompem a história, revolucionam-na e criam pelo princípio-esperança uma nova e potencial história, uma matriz espaço-temporal de onde outras histórias podem ser contadas sobre o que pode ser a infância como potência, como possibilidade real. Dessa forma, não se pode falar em infância, mas em infâncias, em existências singulares que aprendem, de acordo com os modelos que lhes são oferecidos pelo universo adulto, mostrando que se deve tornar o passado útil e não coercitivo, na formação das novas gerações, ensinando não o que aprender, mas como fazê-lo e não com o que comprometer-se, mas mostrando-lhes o valor do compromisso.