Repositório RCAAP

Periódico literário luso-brasileiro O Futuro

Esta pesquisa se insere na área de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa, tentando compreender o surgimento da revista literária O Futuro. Criada por Faustino Xavier de Novais em 15 de setembro de 1862, circulou até 1 de julho de 1863 e contou com vinte exemplares. Diferiu-se das publicações vigentes no período, pois reuniu escritores portugueses e brasileiros propondo a criação de um campo comum que fortaleceria as relações luso-brasileiras e combateria o estranho domínio representado, sobretudo, pela presença marcante da literatura francesa. Assim, esta revista defendeu a divulgação e livre circulação de obras literárias das nações do futuro: Portugal e Brasil. À luz de estudos sobre o desenvolvimento da imprensa no país, realizados por Molina (2014) e Sodré (1999), e baseando-se nas reflexões elaboradas por Massa (2009) e Sandmann (2004) acerca da existência de relações luso-brasileiras intermediadas, principalmente, pelo escritor Machado de Assis, buscamos compreender o que foi esta revista e refletir sobre alguns círculos de sociabilidade da época. Para tanto, realizamos, primeiramente, um mapeamento do periódico. Criamos três tabelas dispondo os dados encontrados e um dicionário biobibliográfico sobre os colaboradores desta revista. Em seguida, pontuamos alguns elementos presentes na carta de abertura escrita por R. Carlos Montoro e, por fim, elencamos dados em torno de três escritores: Faustino X. de Novais, Camilo C. Branco e Machado de Assis, grandes responsáveis pela concretização deste periódico. O corpus estudado apresentou novidades literárias sobretudo o romance Agulha em Palheiro - partituras musicais e gravuras, denotando os aspectos modernos deste periódico que visou, aparentemente, atingir não só o público masculino como também o feminino.

Ano

2016

Creators

Damares Rodrigues de Oliveira

Hibridização e vida social - um olhar comparativo entre Memorial do convento, de José Saramago e Bartolomeu de Gusmão: Inventor de aerostato, a vida e a obra do primeiro inventor americano, de Afonso E. Taunay

O trabalho aqui apresentado insere-se na área de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa e fundamenta-se na teorização sobre o hibridismo cultural e sua in-fluência nas sociedades. Tem-se em vista discutir a circulação dos repertórios culturais entre Brasil e Portugal, tal como aparecem na figura de Bartolomeu Lourenço de Gus-mão em duas obras literárias: no romance Memorial do convento, de José Saramago, e na biografia Bartolomeu de Gusmão: Inventor do aeróstato, a vida e a obra do primeiro inventor americano, de Afonso de E. Taunay. Nessa trajetória, enfocaremos como os dois autores tratam da hibridez de Gusmão, além de outros aspectos referentes ao múlti-plo e ao plural, seja no que diz respeito às obras em si, à construção de identidades em um mundo de fronteiras flutuantes e ao hibridismo como resultado do colonialismo. A hibridação permeia todos os níveis das produções culturais das sociedades e, portanto, dos fluxos entre as literaturas. Em um mundo de fronteiras flutuantes, é imprescindível buscarmos novas associações no campo do comunitarismo cultural ao qual historicamen-te nos vinculamos. A essência marcadamente híbrida de Gusmão é ressaltada tanto por Taunay como por Saramago. A partir do múltiplo, ambos unificam o personagem na figura do herói, apesar de, em Saramago, o herói fazer parte de um grupo. Em uma cons-trução biográfica de caráter transtextual, Taunay visa provar a prioridade aerostática de Gusmão e dar-lhe as glórias que não recebeu em vida. Vemos então um homem de fé, religioso e grande cientista injustiçado pela sociedade portuguesa do século XVIII. Já Saramago constrói um Gusmão profano, herético, desequilibrado, que caminha para a loucura e a morte após construir sua passarola. Esta representa o escape de um mundo opressor e injusto, em uma manobra utópica que nos remete ao sonho de Ícaro e coloca não o divino, mas o homem como o responsável pela dinâmica do mundo. Por meio de um texto que mistura história e ficção, passado e presente, ironia e transtextualidade em uma mescla de gêneros literários, Saramago faz uma releitura da História portuguesa para que melhor possamos compreender o presente e atuar criticamente para modificá-lo. Paralelamente, constatamos que devido à sua constituição altamente híbrida desde a Pré-História, sem exclusivismos de raça ou cultura, a sociedade portuguesa apresentou uma burguesia atípica, ficando marcada por uma rusticidade resultante da passagem de uma sociedade não totalmente tradicional a uma não tipicamente moderna. O seu ingresso tardio no coro europeu apenas a partir dos grandes descobrimentos marítimos determinou um tipo de sociedade que se desenvolveu, em alguns sentidos, quase à margem das ou-tras nações europeias e constitui-se uma zona de transição por ser uma das pontes pelas quais a Europa comunica-se com outros mundos. A plasticidade social portuguesa in-fluenciou na formação do Brasil colônia, em uma hibridação que se aprofundou através da mesclagem com índios e negros, possibilitando o nosso caráter tipicamente híbrido e não apenas multicultural.

Ano

2011

Creators

Inaiê Lisandre Costa Garcia Sanchez

João Carlos Marinho e Pepetela: dois escritores em ponto de bala. O gênero policial em Berenice detetive e James Bunda, agente secreto

A presente tese procura sustentar que as obras do corpus desta pesquisa, Berenice detetive, do brasileiro João Carlos Marinho, e Jaime Bunda, agente secreto, do angolano Pepetela, duas narrativas literárias de língua portuguesa, são ambas tributárias do gênero policial sem, no entanto, abdicarem de ser, ao mesmo tempo, obras sui generis. Para dar suporte a semelhante proposição busca-se, inicialmente, inventariar e comentar os mais importantes traços das principais vertentes do gênero policial e sua relação com história e sociedade; em seguida, analisa-se, em separado e comparativamente, as obras Berenice detetive e Jaime Bunda, agente secreto, a fim de compreender em qual medida estas obras se inserem no ou se afastam do gênero policial; com quais obras literárias ou cinematográficas, dentro e fora do gênero policial, e com quais vertentes do citado gênero, ambas dialogam; quais procedimentos intertextuais lançam mão em sua construção; em quais contextos ambas estão inseridas; e os efeitos estéticos, culturais e sociopolíticos que alcançam. Após a realização das análises acima mencionadas, tenta-se elucidar o modelo teórico de análise comparativa de narrativas ficcionais efetuado nesta investigação por intermédio do gênero literário, num esforço de contribuição teórica desta pesquisadora ao campo dos Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa.

Ano

2013

Creators

Luci Regina Chamlian

Sagas familiares e narrativas de fundação engajadas de Érico Verissimo e Pepetela

Esta tese apresenta um estudo comparativo entre a trilogia O tempo e o vento, formada pelos romances O continente (1995), O retrato (1995) e O arquipélago (1995), do escritor brasileiro Erico Verissimo; e o romance Yaka (1998), do escritor angolano Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, conhecido como Pepetela, pelo fato dos dois escritores se utilizarem de estratégias narrativas comuns, tais como a saga familiar, a metaficção, a técnica narrativa do contraponto e a polifonia na escrita de seus romances históricos ou narrativas de fundação. A utilização de recursos narrativos comuns torna semelhantes as estruturas narrativas das duas obras que formam o corpus da pesquisa. Ao final da tese, esperamos comprovar que a obra do escritor brasileiro serviu de modelo para o escritor angolano, que incorporou algumas de suas estratégias narrativas e as adaptou ao contexto da literatura angolana, segundo o conceito de intertextualidade de Julia Kristeva (1974) que concebe a escrita de um texto literário como a leitura do corpus anterior, noção que implica ver o texto como absorção e transformação de um outro texto, de modo que o romancista ao escrever a sua obra sempre parte de um modelo pré-existente, seja para legitimá-lo ou questioná-lo, sem que isto signifique que ele tenha feito uma mera cópia do modelo apropriado.

Ano

2013

Creators

Donizeth Aparecido dos Santos

Manuel Bandeira e a claridade: confluências literárias entre o modernismo brasileiro e o cabo-verdiano

Este trabalho analisa a importância da poesia de Manuel Bandeira, dentro do contexto do Modernismo literário brasileiro, para o grupo de autores cabo-verdianos ligados à publicação da revista Claridade, sobretudo em sua primeira fase, nos anos de 1936 e 1937. Destacamos aspectos que contribuíram para a confluência literária que se verifica entre tais autores, como a similaridade das formações culturais, a busca por um modernismo que servisse de transição entre a herança literária do passado e as inovações formais, e o caráter utópico da literatura. Como conclusão, esperamos contribuir para uma nova leitura da obra do poeta brasileiro, enaltecendo aspectos até então relegados a um segundo plano, e, como conseqüência, promover uma valorização dos autores cabo-verdianos como agentes no vasto sistema das literaturas de língua portuguesa.

Ano

2006

Creators

Julio Cesar Machado de Paula

\"A gata e a fábula\" e \"Exílio\": a manifestação do desamor no mundo moderno

O presente trabalho tem por intuito demonstrar a solidão, a incomunicabilidade e a precariedade dos relacionamentos no mundo moderno. Para tanto fizemos um estudo detalhado das personagens e da linguagem simbólica presentes em A gata e a fábula, de Fernanda Botelho e Exílio, de Lya Luft. Coincidentemente, o contexto histórico das duas obras consiste na ditadura, que ocorreu em Portugal e no Brasil, porém não aparece explicitamente nos romances, mesmo porque o enfoque de ambos é o de mostrar a situação da mulher numa sociedade conservadora e patriarcal. Ambos os romances mostram a mulher à procura de sua identidade numa sociedade na qual ela sempre ocupou uma posição inferior.

Ano

2006

Creators

Alda Maria Arrivabene Genta

Contribuições para uma poética do maravilhoso: um estudo comparativo entre a narratividade literária e cinematográfica

Esta pesquisa tem como objetivo estudar o maravilhoso, enquanto um gênero narrativo, e propõe uma investigação comparativa entre a literatura e o cinema. O recorte estabelecido ficou circunscrito ao gênero dos contos maravilhosos , privilegiando a estória de A Bela e a Fera em algumas de suas variantes, comparadas à sua matriz Eros e Psique. Quanto ao cinema foi escolhido o gênero da ficção científica, elegendo o filme Matrix I como objeto de análise, apontando sua convergência estrutural com os contos, baseada na teoria de Vladimir Propp. O problema proposto foi o de encontrar possíveis elos de ligação entre a literatura milenar dos contos e o cinema moderno.Ou seja, Como o cinema - em alguns de seus gêneros- pode se conectar com o maravilhoso na literatura?

Ano

2006

Creators

Celisa Carolina Alvares Marinho

O teatro trans-ibérico: Raul Brandão e Valle-Inclán

O teatro trans-ibérico: Raul Brandão e Valle-Inclán tem como objetivo: pesquisar, analisar e comparar a literatura dramática desses dois artistas e escritores contemporâneos; ambos representantes de suas gerações literárias, na península ibérica, e desencadeadores de uma moderna dramaturgia no início do século XX. Antes de apresentar o estudo comparativo do teatro português e espanhol, do início do século XX, faremos observar alguns aspectos históricos e sociais da contínua decadência peninsular deste período, questões que aproximam ambos ainda mais, e que enfaticamente influenciaram na formação dos temas, das concepções artísticas e literárias dos dramas desses dois autores de povos vizinhos. Um painel amplo e detalhado da vida e obra de cada autor, em seu respectivo contexto histórico, fez-se aqui necessário para vislumbrar o percurso realizado por cada um deles e o desenvolvimento de suas respectivas produções literárias. Testemunhas comprometidas com esse período, Raul Brandão e Valle-Inclán, ao término da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), na plenitude literária de suas vidas, decidiram criar uma dramaturgia de vanguarda. Jesus Cristo em Lisboa (Brandão, 1927) e Los cuernos de Don Friolera (Valle-Inclán, 1921) são frutos do inconformismo de uma época conturbada; peças características de um teatro, que apostava em mudanças e, sobretudo, buscavam alguma reação sinestésica de suas respectivas sociedades. Elegemos os dois dramas mencionados, por serem considerados os precursores do teatro moderno, e por se tratarem de peças polêmicas, produções cinematográficas e de difícil encenação. Tratando-se também de estudo comparativo, recolhemos um conjunto de recepções críticas sobre nossos autores e suas respectivas obras dramáticas, em vida tanto quanto postumamente. Por fim, após investigação, conclui-se a respeito das diferenças e semelhanças desta dramaturgia ibérica, presente nas peças de Raul Brandão e Valle- Inclán.

Ano

2006

Creators

Fermín Vañó Ivorra Filho

Cabo Verde em perspectiva feminina: a produção literária em língua portuguesa de Ivone Aida e Orlanda Amarílis

Esta pesquisa analisa comparativamente as personagens femininas dos contos de Ivone Aída e Orlanda Amarílis. Ambas as autoras revelam particularidades do cotidiano feminino cabo-verdiano na ilha e na diáspora. Em consonância com o propósito da hermenêutica do cotidiano que procura registrar aspectos concretos da vida de todos os dias, de homens e mulheres, o caráter dinâmico do conto ilumina nas obras de Orlanda Amarílis e Ivone Aída a história cultural caboverdiana e as identidades sociais nela inseridas pelo viés do estudo das relações de gênero. Analisando a situação social feminina vigente em Cabo Verde, durante longo tempo sob o signo da resignação e da obediência, concluímos que as escritoras propõem que o futuro aguardado deve levar em conta o presente das experiências, movido pela esperança concreta que não se esgota em uma realização particular, mas estimula constantemente a ação das mulheres que constroem o seu porvir e o do país. Consideramos a esperança concreta, patente nos textos literários analisados, como um sentimento mobilizador de práticas transformadoras das condições opressoras da sociedade frente aos discursos fatalistas, ampliando a compreensão do real e permitindo visualizar-se de maneira antecipatória uma nova realidade, em prol da construção de novas identidades.

Ano

2012

Creators

Jussara de Oliveira Rodrigues

Entre percursos e berros: o eu entretecido por fios de memória em Wanda Ramos e em Tereza Albues

Esta tese efetua uma leitura comparada das obras Percursos (Do Luachimo ao Luena), publicada em 1981, pela portuguesa Wanda Ramos (1948 1998), e O Berro do Cordeiro em Nova York, escrita em 1995 pela mato-grossense Tereza Albues (1936 2004), focalizando a memória enquanto elemento estético literário organizador da narrativa, cuja gênese está ligada ao ato de recordar as experiências de vida pela personagem principal a partir das relações sociais, constituídas durante todo o percurso de sua existência e, de modo especial, no presente da narração. Ao tecer a própria história, o eu é sujeito e objeto da sua percepção e da abordagem discursiva. Ao rememorar e construir sua história de vida sempre à luz do ficcional, as protagonistas atribuem uma espécie de unidade ao eu textual que se distingue do eu da experiência, descontínuo e fragmentado pela infinitude da existência em oposição ao mundo finito, fixado através da linguagem escrita; pela vulnerabilidade do vivido, impossível de ser apreendido pelo sujeito na totalidade, e pela fragmentação do ser em constante mobilidade. A rememoração no ato criador das duas narrativas literárias mencionadas vem acompanhada do imaginário ficcional, capaz de preencher as lacunas provocadas pelo esquecimento e pela limitação da percepção e da apreensão do vivido pelas protagonistas. Por considerar o ato de lembrar intrinsecamente ligado às relações interpessoais, a memória como uma habilidade psicológica do ser humano, que depende dos signos para se fazer expressar e que os signos possuem significados constituídos socialmente, o suporte teórico desse trabalho é norteado pelos estudos de Halbwachs e de Bakhtin, acrescidos das abordagens de Walter Benjamin referentes à habilidade de narrar como uma das peculiaridades fundamentais do ser humano intimamente ligada ao processo mnemônico. Este estudo nos leva a entender que a formação das protagonistas revelada, construída e apresentada no final dos textos por meio do discurso metalingüístico está entrelaçada às próprias escrituras do eu, tendo como ápice desse processo a autonomia da obra de arte em relação a seu criador.

Ano

2010

Creators

Leonice Rodrigues Pereira

As imagens em palavras: sensações e percepções na leitura de obras da modernidade

Esta tese tem por objetivo apreender as relações do código verbal nas imagens das palavras, promovendo o resgate da palavra, a qual prescinde do código visual, e que descreve as sensações e percepções diferenciadas e múltiplas, mostradas em níveis graduados, do contextual ao estético; concomitantemente com os traços de modernidade, detectados nas obras selecionadas. O corpus de análise compõe-se de nove obras, dos autores brasileiros tem-se: Bartolomeu Campos de Queirós, Cecília Meireles, Clarice Lispector, Leo Cunha, Lygia Bojunga e Paulo Leminski; dos portugueses, Alice Vieira e José Saramago; e do africano, Mia Couto. Através da observação de algumas características comuns, e buscando-se apoio teórico nos autores que discorreram e discutiram criticamente a modernidade, foram captados tais traços comuns, elencados no primeiro capítulo. O segundo capítulo faz uma pequena incursão sobre os modos de processar a percepção. O terceiro apresenta as análises realizadas, categorizadas em três paradigmas, evidenciando-se os traços de modernidade, cuja presença aparece em menor ou maior grau. Desta forma, o verbal comprova a sua força e seu caráter essencial, que tanto sugere quanto mostra sensações e percepções na leitura da palavra imagética.

Ano

2015

Creators

Daniela Yuri Uchino Santos

\'Quase\' como antes: a (des)construção das representações de infância da classe trabalhadora na literatura infantil e juvenil

Este trabalho visa a apresentar um estudo investigativo do processo de construção e desconstrução das representações da infância da classe trabalhadora na literatura infantil e juvenil inglesa e brasileira. Para tanto, estabelecemos, a priori, no Capítulo I, as bases conceituais de nosso trabalho, bem como tratamos das esferas culturais, econômicas, políticas, ideológicas que propiciaram o surgimento do conceito de infância da classe operária durante a Revolução Industrial, e investigamos de que forma interesses de formação da mão de obra trabalhadora e movimentos sociais e filantrópicos, assim como obrigações legislativas fizeram com que a jornada de trabalho infantil fosse paulatinamente diminuída e os diversos tipos de ensino fossem instaurados, de acordo com o contexto socioeconômico em questão. A seguir, a tentativa de traçar um perfil literário histórico e social que demonstre as diversas representações da infância da classe trabalhadora na Inglaterra e no Brasil ou a ausência delas --, procedemos à análise de obras literárias representativas da condição da criança que fosse filha de trabalhadores ou ela mesma trabalhadora. Assim, no Capítulo II, iniciamos nossa exploração através da análise de Kim, de Rudyard Kipling, e O Jardim Secreto, de Frances Hodgson Burnett, bem como de Os meninos e o trem de ferro, de Edith Nesbit, para discutirmos representações de classe e infância entre as personagens, bem como sua relação com o espaço habitado e a relação dialética entre base e superestrutura existentes tanto na literatura relativa à colônia inglesa quanto ao território inglês, e então partimos para a análise de Saudade, de Tales de Andrade, como obra exponencial do projeto político-pedagógico de uma República ainda em construção e carente da formação de uma identidade nacional, e colocamos em evidência as relações entre o protagonista e as demais personagens e o espaço do campo e da cidade, como forma de ressaltar a visão utópica e idílica da comunhão da criança com a natureza como base formadora ideal de uma civilização. No capítulo III, avançamos na história para abordarmos Ballet Shoes, de Noel Streatfeild, primeiro livro de uma série das irmãs Fossil, adotadas por um arqueólogo na Londres dos anos 1930 e que, diante do desaparecimento deste, se vêem forçadas a trabalhar para garantir a subsistência. Neste contexto, exploramos questões de cunho social e histórico e discutimos representação de classe, infância e trabalho, numa tentativa de estabelecermos um ponto de diálogo com o conto Negrinha, de Monteiro Lobato, e aí retomarmos, no contexto nacional de uma república herdeira de uma tradição escravocrata, a relação entre família, trabalho e infância na existência da protagonista. Ainda na discussão da relação de infância, classe e trabalho, o Capítulo IV apresenta uma análise de A fantástica fábrica de chocolate, de Roald Dahl, e Açúcar amargo, de Luiz Puntel, para contrapor as visões do modo como a criança da classe trabalhadora volta a ter sua infância cada vez menos idealizada e mais inserida na realidade adulta do trabalho, da desestrutura familiar, da falta de recursos materiais e da necessidade de garantir sua subsistência. O Capítulo V apresenta não obras emblemáticas ou definitivas sobre o tema, mas novas possibilidades de leitura social inglesa e brasileira da infância da classe trabalhadora e do crescimento de jovens em tais contextos, e a forma como a descoberta de cada um se dá em tais ambientes. Para tanto, apresentamos uma análise de Reviravolta, de Damian Kelleher, e Jardim do céu, de Edison Rodrigues Filho. Com este caminho percorrido, compreendemos que houve, de fato, um processo de construção de uma infância da classe trabalhadora, que ora foi maquiado pelo discurso rousseauniano do bom selvagem e da inocência, ora foi calado em detrimento da expansão de uma literatura infantil e juvenil mais centrada na figura da criança sacralizada, nos termos de Viviana Zelizer (1985), para então voltar a figurar, a partir principalmente dos anos 1980, não como representação de uma classe, mas como ser constituinte de uma sociedade multifacetada que já não comporta, há muito, mascaramentos sociais ou políticos em favor da propaganda de um ideal inexistente

Ano

2014

Creators

Fabiana Valeria da Silva Tavares

O canto do galo, o pouso da mosca: exclusão social em Manuel Lopes e Graciliano Ramos

Partindo das narrativas de ficção Galo cantou na baía (1936), de Manuel Lopes, e Um ladrão (1939), de Graciliano Ramos, buscamos investigar as estratégias discursivas dos autores de nosso corpus quando da tentativa de se mobilizar em favor das populações que viviam em condições de extrema carência, tendo na literatura um forte meio de promover os debates urgentes daquele momento histórico, caracterizado pela opressão de regimes ditatoriais. Desta maneira, a perspectiva narrativa é um dos pontos centrais do trabalho. Em confluência com a fatia social retratada nos contos, pareceu-nos fundamental o debate sobre a fome e seus efeitos para o organismo humano, que findou por dirigir nosso trabalho. Encontramos na obra de Josué de Castro uma rica pesquisa capaz de conduzir nossas análises, levando-nos da condição de faminto dos personagens a seu desdobramento: a condição de criminoso principiante. Buscamos analisar, também, as construções ideológicas que influenciavam as consciências naquele período da história, encontrando em Louis Althusser os subsídios para tal análise.

Ano

2011

Creators

Maria Luzia Carvalho de Barros Paraense

Entre literatura, cinema e filosofia: Miguilim nas telas

Esta pesquisa teve como objetivo analisar a literatura e o cinema a partir da filosofia contemporânea. Foram objetos deste estudo a literatura, aqui representada por João Guimarães Rosa, e o cinema inspirado por uma de suas obras. Analisou-se Campo Geral, novela publicada pela primeira vez em Corpo de Baile (1956) em relação a Mutum (2007), de Sandra Kogut, o filme mais recente de inspiração rosiana até a organização do projeto de pesquisa que deu origem a esta tese. Para a análise do corpus da pesquisa, emprestamos alguns conceitos da filosofia, especialmente de Gilles Deleuze, um autor que se dedicou ao cinema e à literatura em seus escritos individuais e na parceria com Félix Guattari. Fazendo um recorte da literatura e do cinema à luz dos conceitos filosóficos selecionados, reafirmamos as potências contemporâneas da arte rosiana. Ao trabalharmos conceitos em um plano transversal coerente com o pensamento deleuziano, também estabelecemos critérios para uma análise comparatista entre literatura e cinema, explorando principalmente o conceito de fabulação.

Ano

2013

Creators

Davina Marques

A simbolização nas imagens poéticas de Cecília Meireles e Sophia de Mello Breyner Andresen: tempo e espaço

Numa mesma época marcada por reflexões filosóficas sobre o tempo e suas relações com o espaço, Cecília Meireles e Sophia de Mello Breyner Andresen entregaram ao mundo os seus primeiros escritos poéticos, nos quais revelam que essas mesmas reflexões não se distanciam da poesia. Ao contrário, num espaçotempo caracterizado pela transitoriedade das coisas, a poesia se apresenta como forma de equilíbrio em meio à passagem, evitando a total dispersão do ser. Assim sendo, nossa análise procura focalizar as formas que espaço e tempo assumem na poesia de ambas as escritoras, investigando a possibilidade desses \"cronotopos\" servirem à revelação da experiência humana no tempo e no espaço.

Ano

2006

Creators

Jussara Neves Rezende

Percurso do orfão na literatura infantil / juvenil, da oralidade à era digital: a trajetória do herói solitário

A orfandade é um tema bastante recorrente na literatura infantil e juvenil. Desde as antigas narrativas orais, como os contos de fadas, por exemplo, o arquétipo do órfão é revisitado regularmente na construção de diferentes personagens, sendo mantida, porém, uma estrutura básica predominante, principalmente no que concerne à sua trajetória. Investigar a recorrência dessa temática, partindo da análise de alguns contos populares até alcançar as mais recentes obras voltadas para o público jovem, foi um dos objetivos desta pesquisa. Uma outra meta foi estabelecer paralelos e divergências entre as figuras secundárias que compõem essas narrativas, como as madrinhas, as madrastas, os irmãos, os amigos, os seres mágicos, entre outros, e focalizar o papel que elas desempenham na trajetória do órfão, agindo ora como \"desvios\", ora como \"atalhos\" em seu caminho. Um terceiro propósito da dissertação foi estudar a circulação da personagem órfã contemporânea entre a literatura e outras mídias, como as histórias em quadrinhos (HQ) e o cinema. Para isso, tomamos três personagens da ficção criadas originalmente para três diferentes suportes - Harry Potter (literatura), Peter Parker (HQ) e Luke Skywalker (cinema) - e procuramos estabelecer similaridades e divergências em três momentos de seus percursos: partida, iniciação e retorno. Ao compararmos as trajetórias desses três heróis órfãos, podemos perceber as visíveis intersecções entre elas e somos levados a crer que, mesmo modificadas pelos estilos literários e pelas mídias que lhes servem de suporte, essas personagens solitárias conservam, contudo, a essência das características de seu remoto substrato popular, proveniente da oralidade.

Ano

2006

Creators

Lais de Almeida Cardoso

A psicanálise do brinquedo na literatura para crianças

O presente estudo realiza uma leitura psicanalítica do brinquedo na literatura para crianças. Aborda-se o conceito e a história da infância, da literatura para crianças e do brinquedo, como as transformações ocorridas com esses conceitos na atualidade. Estabelece-se uma comparação entre o brinquedo e o livro, considerados produtos culturais. São discutidos o brinquedo e sua dupla expressão, como um objeto inventado pelo adulto e reinventado pela criança. Utilizando a Psicanálise como instrumento de interpretação, a pesquisa faz uma análise de duas histórias clássicas da literatura, do século XIX: O soldadinho de chumbo, do dinamarquês Hans Christian Andersen e Conto de escola, do brasileiro Machado de Assis. Mostra diferentes representações do brinquedo na literatura contemporânea para crianças, do final do século XX e início do século XXI, em treze obras literárias estudadas. As obras trabalhadas compreendem edições nacionais e traduzidas, em diferentes gêneros e categorias: prosa e poesia, narrativas com texto e sem texto verbal. O brinquedo, entendido como o objeto cultural que propicia o encontro entre o universo adulto e o infantil, está representado de diversas maneiras, como uma transgressão, uma catarse, uma via de comunicação da criança com o mundo interno e externo. Depois de apresentadas e analisadas as obras, são estudados o brinquedo e sua ausência, o brinquedo como um retorno à infância e a literatura como brinquedo. São trabalhadas algumas referências sobre o brinquedo dos autores da Psicanálise: Sigmund Freud, Sándor Ferenczi e Donald W. Winnicott.

Ano

2006

Creators

Ninfa de Freitas Parreiras

O Brasil-menor de idade - crianças e infâncias em Graciliano Ramos e João Antonio

Neste trabalho, pretendemos destacar a relevância dos personagens infantis nos textos de Graciliano Ramos e João Antônio, escritores brasileiros do século XX, marcados pela crítica e pela denúncia da realidade nacional, elementos centrais em ambos os projetos literários. Buscamos demonstrar como os personagens infantis presentes nos textos desses dois escritores tornam mais explícitos os traços de arbitrariedade e autoritarismo próprios da formação social brasileira que eles denunciam em seus escritos. Nossos corpora são contos ou capítulos de romances e têm como critério de seleção, não a simetria de gêneros, mas o protagonismo dos personagens infantis, cujos processo de integração social são marcados pela violência e pelo autoritarismo, característicos da cultura senhorial (CHAUÍ, 1996) e da violência estrutural (GORENDER, 2000), associadas aos dois traumas fundamentais de nossa formação: o processo colonial e a escravização dos negros (RIBEIRO, 1999). A leitura comparativa dos textos de Graciliano Ramos e João Antônio possibilita uma percepção mais apurada da centralidade do tema das infâncias e das crianças na obra de cada um deles, pelo fato de que a abordagem delas evidencia e, ao mesmo tempo, redimensiona as contundentes críticas que os autores fizeram à realidade nacional.

Ano

2019

Creators

Adriano Guilherme de Almeida

O aprendiz de Fradique Mendes: Eça de Queirós na leitura de Gilberto Freyre

A presente dissertação trata do modo como a obra de juventude do sociólogo e escritor Gilberto Freyre estabelece uma forte relação intertextual com o conjunto da obra de Eça de Queirós. Tomamos por referência o livro Tempo de aprendiz, onde se encontram reunidos diversos textos jornalísticos do jovem intelectual brasileiro, livro repleto de referências ao escritor português. A análise de tais referências revela que a apropriação da obra queirosiana por meio de alusões e citações foi uma forma de Freyre se capitalizar simbolicamente - na expressão de Pierre Bourdieu - frente a um meio intelectual brasileiro que lhe era adverso. Procuramos ainda, a partir daí, fazer algumas inferências de como o modo de apropriação que Freyre faz da obra de Eça se transforma no decorrer de seu percurso intelectual .

Ano

2007

Creators

Vania Regina Gomes

Roteiro da literatura de Timor-Leste em língua portuguesa

A presente pesquisa tem como escopo reunir e comentar a Literatura de Timor-Leste em língua portuguesa, tendo como base seus principais representantes. Das lendas às narrativas de viagem, da poesia dos escritores politicamente engajados aos romances escritos na diáspora, o presente estudo procura identificar as principais questões que estiveram no horizonte dos timorenses em diferentes momentos de sua história, assim como delinear a imagem que o conjunto desses textos acabou por produzir de Timor na contemporaneidade.

Ano

2013

Creators

Damares Barbosa Correia