Repositório RCAAP
Ultimatum, crise do romance e representação literária em Eça de Queiroz
A proposta desta tese é a de investigar as relações entre processo social e forma literária nos dois últimos romances de Eça de Queirós, escritos após a crise de 1890 A Ilustre Casa de Ramires e A Cidade e as Serras. Nesse sentido, se à crise do processo social (Ultimatum), conforme Walter Benjamin, corresponde uma crise na forma do romance, certamente há, nesses dois últimos romances de Eça, formas singulares que sedimentam o processo em questão. Assim, é preciso ler as duas obras em conjunto para entender o que Antonio Candido chamou de redução estrutural. O objetivo é entender em que medida a história, como causa ausente, se manifesta na forma do romance. Para tanto, será preciso recorrer não só à história do período, sobretudo no que concerne à luta de classes na Europa e, especificamente, em Portugal, a fim de entender os movimentos de ambos os romances, na sua tentativa de responder artisticamente à crise; mas também recorrer a um método específico para investigar adequadamente o que foi proposto. Nesse sentido, será imprescindível a referência ao historiador Arno J. Mayer, principalmente ao seu trabalho sobre o papel da aristocracia na luta de classes da sociedade europeia até a Grande Guerra. Obrigatória também será a referência ao antropólogo Norbert Elias e à sua análise sobre os rituais aristocráticos na sociedade de corte. Por fim, Fredric Jameson será a referência metodológica, a partir de sua proposta de uma análise calcada no inconsciente político.
Personagens engajadas em sociedade de classes: uma leitura comparativa entre \'O Tempo e o Vento\', de Érico Veríssimo, e \'Levantando do chão\', de José Saramago
O presente estudo comparativo aproxima o discurso literário de O Tempo e o Vento, do escritor brasileiro Érico Veríssimo, e Levantado do Chão, do escritor português José Saramago. Observamos em O Tempo e o Vento que as relações humanas são focalizadas e desenvolvidas a partir do modo de vida e das preocupações das personagens proprietárias. Os conflitos existentes expressam o auge e a decadência moral de um estrato da sociedade brasileira e dão lugar a disputas políticas e ideológicas para a manutenção da ordem social vigente. Em Levantado do Chão o modo de vida e as preocupações das personagens são apresentadas ligadas diretamente aos interesses das personagens trabalhadoras do campo. O conflito social constitui o sistema opressor português e a resistência decorrente desafia a ordem. As ações políticas das personagens, no sentido de manter ou resistir à ordem social vigente, podem ser apreciadas a partir de uma longa época histórica integrante do tempo nas narrativas, que salienta a queda da monarquia, os grandes acontecimentos locais, a Primeira Guerra Mundial, a Revolução Russa, a Guerra Civil Espanhola, a Segunda Guerra Mundial e aborda o início e o fim do Estado Novo em ambos os países. Assim, visualizamos os aspectos semelhantes entre as personagens em atividade política e ressaltamos aspectos diferenciadores como classe social, ideal socialista e intensidade de atuação, a fim de acompanharmos a trajetória do engajamento durante o século XX.
Convergências e divergências: revistas literárias em perspectiva
A Águia foi um órgão da \"Renascença Portuguesa\" e sua segunda série esteve, pelo menos em seus primeiros anos, orientada pelo Saudosismo - doutrina capitaneada pelo poeta Teixeira de Pascoaes. A partir dessa revista surgiram inúmeros outros periódicos, dentre os quais destacamos a Seara Nova e Terra de Sol. O objetivo dessa pesquisa foi, tendo a 2a série de A Águia como matriz, pensar e comparar essas três publicações. Ao verificar as convergências e divergências entre elas, pudemos compreender várias questões referentes às relações entre Portugal-Brasil nas primeiras décadas do século 20: os conceitos de \"nação\" incorporados aos discursos desses objetos de análise; a idéia de \"engajamento\" entre os intelectuais envolvidos nas revistas e as possíveis relações entre o modernismo brasileiro e o modernismo português.
2008
Raquel dos Santos Madanêlo Souza
Um amor que se anuncia, polas ribas da cantiga: modos de presença da lírica medieval galego-portuguesa em Trovas de muito amor para um amado senhor, de Hilda Hilst
Através de uma leitura comparativo-contrastiva da tradição da lírica medieval galego-portuguesa e da poesia de Trovas de muito amor para um amado senhor, volume publicado pela escritora brasileira Hilda Hilst (1930 2004) em 1960, este trabalho propõe uma leitura dos modos pelos quais essa tradição constitui-se em estratégia privilegiada pela autora para a elaboração de uma subjetividade poética que só se pode afirmar e constituir plenamente na presença do Outro. Nesse sentido, a própria escrita poética definir-se-ia como incessante movimento de busca de um amado ausente, cuja condição permitiria aproximá-lo à noção do absolutamente Outro, postulada pelo filósofo Emmanuel Lévinas. Assim, enquanto impulso desejante condenado inevitavelmente ao malogro, o poema dobrar-se-ia sobre si mesmo, movimento do qual resultaria uma lírica de amor ao próprio texto poético.
2013
Arnaldo Delgado Sobrinho
A voz, o lugar e o olhar: culturas e periferias em Subúrbio de Chico Buarque
A presente dissertação verifica a abordagem dos espaços periféricos a partir da análise poética da canção Subúrbio, de Chico Buarque (Carioca, 2006), com o fito de analisar o lugar de enunciação do sujeito poético. Nossa hipótese é a de que na canção um enunciador cujo olhar se distancia dos objetos que tematiza e que esta abordagem é um aspecto que prevalece em boa parte da obra cancional do referido poeta.
2013
Sandra Salavandro Rodrigues
Narrativa e resiliência: a invenção de si. Um estudo das narrativas produzidas a partir do jogo Enredo
Essa pesquisa analisa quinze narrativas produzidas pelos alunos de graduação da disciplina ECLLP V, ministrada pela Prof. Dra. Fabiana Buitor Carelli no 1º semestre de 2017, na Faculdade de Letras da FFLCHUSP, a partir da utilização do jogo narrativo Enredo, na plataforma digital e-Scola. O baralho, que produzimos artesanalmente no ateliê Ocuilí de artes, instaurou o caos e seu sistema randômico foi, portanto, organizado textualmente. Nossas análises, nesse contexto, privilegiaram a observação dos caminhos escolhidos por cada composição, demonstrando assim o conceito de resiliência narrativa cunhado em nossa pesquisa. Fundamentamos nossa investigação na fenomenologia hermenêutica de Martin Heidegger e Paul Ricoeur e também na ideia de resiliência desenvolvida por Boris Cyrulnik. A apreciação atenta dos textos produzidos pelos alunos revelou a proximidade entre o processo de construção textual e a experiência existencial, de modo a reiterar as bases epistemológicas de nossa pesquisa. Mais do que corroborar uma linha de pensamento, as produções discentes aqui analisadas constituem um corpo de análise robusto do ponto de vista dos estudos literários e uma prazerosa experiência estética.
Câmara Cascudo e Oscar Ribas: diálogos no Atlântico
O presente trabalho tem por objetivo propor aproximações entre os autores Câmara Cascudo e Oscar Ribas. O primeiro pertencente ao sistema literário brasileiro e o segundo ao angolano. Buscamos a comparação entre ambos, considerando as semelhanças entre seus percursos. Ao longo de suas carreiras, os autores dividiram-se entre a produção literária e a pesquisa folclórica. A proposta que executamos apropria-se do conceito de macrossistema literário defendido por Benjamin Abdala Júnior. Em sua perspectiva, macrossistema é definido pelos contatos que podem ser estabelecidos entre os sistemas literários nacionais no contexto das literaturas de língua portuguesa. Nosso estudo centra-se sobre dois romances: Canto de muro (1959) de Câmara Cascudo e Uanga (feitiço) (1951) de Oscar Ribas. A análise destas obras nos permite apreciar textos fracionados entre o fazer literário e o compromisso com a divulgação de dados de pesquisa. A dualidade nas carreiras dos intelectuais é espelhada na composição de seus romances. Realizamos também uma leitura do livro de ensaios Made in África (1965) de Câmara Cascudo, no qual nos deparamos com um Cascudo leitor de Oscar Ribas e preocupado com os matizes africanos da cultura brasileira.
O falatório de Stela do Patrocínio e o discurso da crítica literária: variações
Este trabalho se situa entre os campos da crítica literária, da estética e da ética e foi impulsionado pelo seguinte questionamento: quais são os dilemas que os textos atribuídos a Stela do Patrocínio, no livro Reino dos bichos e dos animais é o meu nome (2001), provocam à crítica literária? Diante dessa pergunta, ele variou tanto no sentido de ampliar o seu corpus e se tornar diverso em sua discussão, como no de cometer alguns desvios no formato padrão pressuposto aos trabalhos acadêmicos. Para lidar com os textos atribuídos a Stela, mulher \"nega preta e crioula\", que ficou 30 anos internada na Colônia Juliano Moreira, tornou-se fundamental discutir algumas questões de herança do discurso da crítica literária, suas premissas, seu jogo, suas regras de atuação e o papel do pesquisador frente aos dizeres dos sujeitos subalternizados, assim como se tornou necessário, ainda que de modo inicial, testar outros modos de olhar, escutar, sentir e experimentar esse falatório, que se constrói como um anedotário, que fala sobre os desafetos contra o corpo negro, que busca um \"corpo sem órgãos\".
2019
Ariadne Catarine dos Santos
O Sétimo Juramento de Paulina Chiziane e Hibisco Roxo de Chimamanda Ngozi Adichie: um olhar sobre a constituição das personagens
É possível afirmar que a produção literária de qualquer sistema social dialoga com o contexto histórico, cultural, econômico e político dentro do qual está inscrita, e tal contexto, por sua vez, também dialoga e reage a essa produção definindo um constante movimento sistêmico. Tais imbricações entre literatura e contexto social incidem na construção das personagens, muitas vezes, mobilizadas, nos textos literários, pela construção de suas próprias identidades e em tensão não só com o contexto social dentro do qual vão sendo inscritas, mas também e, inevitavelmente, com as demais personagens que integram a narrativa ficcional. É a partir desses movimentos entre a constituição das personagens, suas identidades e seus respectivos contextos sociais que os romances, O Sétimo Juramento, da escritora moçambicana Paulina Chiziane e, Hibisco Roxo, da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie serão analisados. Tendo por base conjunturas históricas cujas especificidades estão demarcadas, Moçambique e Nigéria, é que as personagens femininas dos romances de Adichie e de Chiziane serão aproximadas e se distanciarão entre si, mas, continuamente em tensão, confrontam o universo masculino. Essas personagens acabam por ascender nessas narrativas ficcionais como mulheres que vislumbram rupturas de sistemas sócio-político-econômico-culturais e acabam por desencadear, sobretudo, novas relações plurais de identidade. Em ambos os romances, de maneira confluente, a dinâmica das tramas reside na movimentação, transformação e ação das personagens femininas que se redescobrem na pluralidade de sua constituição como seres humanos e plenas de possibilidades concretas e objetivas de transformação social para conferirem diferentes saídas para as sociedades de classes, historicamente, opressoras, machistas, patriarcais e opressivas.
"Poder colonial e literatura: as veredas da colonização portuguesa na ficção de Castro Soromenho e Orlando da Costa"
Este trabalho versa sobre os romances A Chaga (1970), do autor angolano Fernando Monteiro de Castro Soromenho, nascido na Vila de Chinde (Zambézia Moçambique), e O Último Olhar de Manú Miranda (2000), do autor goês Orlando da Costa, nascido em Lourenço Marques, hoje Maputo (Moçambique). A nossa proposta de análise comparada parte do pressuposto de que essas duas criações literárias do passado histórico recente, de Angola (Camaxilo) e Goa (Margão) na situação de ex-colônias portuguesas apontam a perspectivas confluentes, conforme a visão crítica da história que aqui se tentou estabelecer. Buscamos levar em consideração a imprescindível relação dialética que mantêm entre si arte e sociedade. Constata-se a identificação desses respectivos romances com os pressupostos indicados por poéticas distintas, como o Neo-Realismo e o Realismo Maravilhoso.
2005
Regina Célia Fortuna do Vale
De charadas e adivinhas: o continuum do contar em Angela Lago
Estabelecemos como objetivo de nossa pesquisa: o descortinar do olhar para obras de Literatura Infanto-Juvenil, viabilizado por meio do entrelaçamento de aspectos referentes ao imaginário medieval ao fazer literário de Angela Lago. Destacamos em Charadas Macabras, a presença do elemento capeta como veiculador de informação e ou transformação através do uso da palavra. Em Sua Alteza A Divinha, o resgate da oralidade, enfocada sob a luz da teoria bakhtiniana, concedeu a ampliação de recursos como a comicidade, a ludicidade, a brincadeira, encapsulada na obra através do jogo, do desafio oral englobados na esfera da antítese social - o popular contrapondo-se à aristocracia, o forte contra o fraco - o elemento feminino em oposição ao masculino, fatores que concorreram para o dimensionar da análise. Caminhar nas trilhas da cultura oral possibilitou, ainda, a descoberta do riso espontâneo pelos veios da improvisação, pelo evidenciar da praça pública com suas práticas, identificadas em 10 Adivinhas Picantes, além de contribuir para o despertar da literatura paródica, presente em Indo Não Sei Aonde Buscar Não Sei O Quê. A busca de releituras do conto da princesa \"expert\" em adivinhações, compiladas por pesquisadores como Adolpho Coelho e Câmara Cascudo consolidaram, sobremaneira, o propósito inicial de pesquisa - a comprovação, nos contos de Angela Lago, da influência da cultura medieval que chega, através de Portugal e Brasil. Na conclusão, retomamos os elementos pertinentes à cada obra permeados ao âmbito do leitor, e palmilhados, particularmente, ao universo da criança - quintal da casa do faz-de-conta, lugar onde a magia, a alegria e o sonho, são.
2001
Rosemarie Giudilli Cordioli
A hora e a vez da perifeira: A literatura marginal/periférica e o cinema feito em Pernambuco a partir da Retomada
Esta dissertação tem como objetivo realizar um estudo comparado entre o livro Capão Pecado, de Ferréz e o filme Febre do rato, de Cláudio Assis. A proposta deste trabalho é comparar as obras, tendo como base a problematização do movimento Literatura Marginal/Periférica, integrado pelo autor do livro e, assim, questionar a noção de marginalidade. A partir da análise do romance, problematiza-se o lugar ocupado pelo narrador, com seu viés didático, inserindo-o num lugar não de marginalidade, mas de intermediação, fronteiriço. Por esse viés, observo na construção do filme, algo similar, que nomeei \"entre-lugar\", tomando emprestada a expressão de Silviano Santiago. Com isso, espero lançar um novo olhar para a questão e contribuir para os estudos das obras da literatura marginal/periférica e do cinema feito em Pernambuco, no começo da década.
Criar e recriar, viver e escreviver: o encontro de Lygia Bojunga e Tomie Ohtake nos livros de arte para crianças e jovens - de 7 cartas e 2 sonhos a O meu amigo pintor
A presente pesquisa tem como objeto duas diferentes versões de narrativa juvenil de Lygia Bojunga; a primeira delas é 7 Cartas e 2 Sonhos, publicada em 1982, contando com reproduções de nove pinturas de Tomie Ohtake e a segunda é O Meu Amigo Pintor, trazido ao público, sem as referidas ilustrações, em 1987, pela Editora José Olympio - republicada em 2006 pela editora Casa Lygia Bojunga, contendo o posfácio Para Você que Me Lê, com informações sobre o processo criativo dessas duas obras. Investiga-se, dessa forma, o contato da escritora com as nove imagens pictóricas ohtakeanas, que inspiraram a criação de um texto literário para o projeto Arte para Crianças e Jovens da Berlendis & Vertecchia Editores, reunindo arte literária e arte pictórica num mesmo suporte o livro com ilustração. Para tanto, se pretende estudar o diálogo entre aspectos verbais e visuais presentes na primeira obra, que, por sua vez, culminaram no refazer literário de Lygia Bojunga, que, ao reescrever a narrativa, transformou-a em outra, sem a presença do suporte artístico de Tomie Ohtake. As histórias de 7 Cartas e 2 Sonhos e O Meu Amigo Pintor são contadas por um narrador que está na passagem da infância para a adolescência, período em que se depara com o suicídio de seu melhor amigo um artista, pintor. Nesse prisma, objetiva-se investigar ainda como se deu o processo de reescrita da primeira para a segunda versão do texto literário bojunguiano, analisando os resultados dessa transformação. Partiremos do pressuposto de que os presentes estudos são importantes para instaurar uma reflexão crítica sobre o papel da literatura destinada às crianças e jovens, na vertente de sua criação e recriação artística, com e sem a dimensão suplementar da arte pictórica.
2018
Flávia Maria Reis de Macedo
Fragmentos de uma cena invisível: um estudo das imagens melancólicas do Brasil no cinema de Joaquim Pedro de Andrade
Essa pesquisa analisa três dos filmes do diretor de cinema brasileiro Joaquim Pedro de Andrade: O padre e a moça (1965), Os inconfidentes (1972) e Guerra conjugal (1975). Tivemos em vista, para essas análises, as imagens melancólicas de nação que o diretor realiza a partir de uma ideia de trauma, que se funde à história do país. Estudamos, pois, como essas imagens nos filmes constroem uma representação do Brasil, feita de violência e repressão verificamos, para isso, como é expresso o contexto de realização dos filmes: a ditadura militar brasileira. Partimos da relação entre a fragmentação, tanto narrativa, quanto formal, que esses trabalhos propõem em relação a esses contextos, revisitando o conceito de melancolia, para associar a crise da representação com o processo histórico do país notadamente violento. Debruçamo-nos sobre os estudos de autores como Jeanne Marie Gagnebin, Jaime Ginzburg e Walter Benjamin para compor uma análise em mosaico dos filmes, nessa investigação sobre o desassossego da linguagem em nomear o passado. Ao nos aproximarmos dos três filmes também melancolicamente já que esse é o olhar que propomos nas análises, identificado como característica dos filmes reafirmamos nossa crença de que a linguagem não se rende ao impossível, à constatação de que o real é irrepresentável.
O romance O Escravo (1856), de José Evaristo de Almeida no sistema literário português
Com sua ação passada em Cabo Verde, o romance O escravo (1856) de José Evaristo de Almeida está vinculado à história da literatura caboverdiana, sendo considerado por alguns críticos como o primeiro romance nativista daquela literatura. O enfoque aqui proposto procura refletir sobre o seu lugar no âmbito da Literatura Portuguesa, demonstrando que, apesar de ocupar um espaço marginal no sistema literário português, esse romance dialoga, tematicamente, com a literatura européia, na sua relação intertextual com os romances Die Verloburg In St Domingo (O noivado em São Domingos), de Bernd Henrich Von Kleist e Bug- Jargal, de Victor Hugo.
2011
Susanne Maria Lima Castrillon
O eterno selo: morte e narrativa
Notabilizada por atuação positivadora ou negativadora, desde os primórdios do homem, a morte assumiu papel fundamental. Seus ritos notadamente refletiram a compreensão humana a seu respeito, ora intimizando, ora afastando seus expedientes das relações tecidas na sociedade. Desde a origem, a Filosofia sempre procurou descobrir as implicações da morte para a vida humana. Na literatura, o tema é uma constante, muitas vezes determinando seus caminhos, suas tragédias e as soluções narrativas encontradas. Tomando como subsídios teóricos os trabalhos de Phillippe Ariès, Édouard Glissant, Michel Foucault e sobretudo Maurice Blanchot, esta dissertação busca compreender a presença da morte, em suas diversas acepções, na narrativa do escritor baiano Adonias Filho. Para isso, focaliza sua obra Memórias de Lázaro, que compõe o perséquito dos mortos (Os servos da morte, Memórias de Lázaro e Corpo Vivo), do escritor itajuipano. A proposta é que seja feito cotejo da obra do escritor mencionado com as tendências contemporâneas de escrita narrativa e com os estudiosos citados, entendida a morte como aporte essencial para a operação narrativa.
Racionais Mc\'s: do denuncismo deslocado à virada crítica (1990-2006)
O presente trabalho analisa dois momentos na obra do grupo de rap paulistano Racionais Mc´s. O primeiro momento, de 1990 a 1993, estrutura um modo de crítica que se caracteriza pelo tom denuncista, assemelhado ao tom professoral, no enfoque das composições, cujo ponto de vista dos raps não se constrói a partir da periferia, mas deslocado, pretensamente acima dela, em razão da posição em destaque do rapper nesse espaço social. Já o segundo momento, a partir dos raps Fim de semana no parque e Homem na estrada, do álbum Raio X do Brasil (1993), é marcado pela superação do ponto de vista professoral, pois as composições formalizam a perspectiva do morador de periferia, cujo resultado estético não só olha para a periferia, mas partir desse espaço social.
2015
Charleston Ricardo Simões Lopes
As representações do imaginário popular nos romances de Carlos de Oliveira
O objetivo desta tese é investigar o vínculo da prosa ficcional de Carlos de Oliveira com as tradições populares. Para tanto, foram escolhidos os quatro primeiros romances do escritor: Casa na Duna (1943), Alcateia (1944), Pequenos Burgueses (1948) e Uma Abelha na Chuva (1953). Além disso, como subsídio, foi analisada uma coletânea de contos populares que Carlos de Oliveira e José Gomes Ferreira publicaram em 1957, os Contos Tradicionais Portugueses. O conto popular, fonte rica de informação interdisciplinar, anônimo e ubíquo, é um documento vivo dos costumes, idéias e mentalidades de um povo, e suas representações acabaram por impregnar a ficção de Carlos de Oliveira, artista que viveu boa parte de sua vida numa região pobre e rural, a Gândara, que teve intensos reflexos em sua obra. Entre as representações do imaginário popular que foram rastreadas em seus romances, incluem-se entidades, crenças, mitos, provérbios e ditos populares. Como se procurou evidenciar, a tradição, porém, não é simplesmente incorporada a seus romances, mas problematizada e encarada sob o viés da ironia e da crítica. Na sua escrita ficcional, a linearidade fabular, estudada por Propp, Alain Dundes e outros, é rompida e, nesse processo, desvia-se da construção esquemática dos personagens dos contos tradicionais. Conforme neste trabalho se enfatizou, na passagem do tradicional ao literário, dá-se a quebra da exemplaridade, que é importante marca do conto popular. Pela inclusão das análises de capítulos de dois romances (Casa na Duna e Pequenos Burgueses), pretendeu-se pontualmente acrescentar como, reunindo o mítico, o anedótico e o mágico, essas mininarrativas recuperam o caráter oral dos causos famosos. O resgate de contos da tradição popular lhes dá ganho da longevidade nos romances de Carlos de Oliveira, pela competência artística de, transformando-os, atualizandoos, conceder-lhes outro futuro.
2007
Maria Cecilia de Salles Freire Cesar
A literatura entre lados da guerra: uma leitura comparativa de Os sobreviventes da noite, de Ungulani Ba Ka Khosa, e Neighbours, de Lilia Momplé
A partir de uma análise comparativa de duas obras do romance moçambicano, Os sobreviventes da noite (2008), de Ungulani Ba Ka Khosa, e Neighbours (1995), de Lilia Momplé, é possível visualizar certo tipo de estruturação da narrativa em que o tempo presente parece afetado por engastes narrativos que interceptam constantemente o avanço da ação. A esses engastes narrativos correspondem inúmeras camadas de passado em que as histórias pessoais de cada personagem ganham vez na economia da obra e se sobrepõem ao tempo que corresponde à ação no presente. Essa característica estética, aqui chamada de presente dependente, é analisada à luz de uma crítica materialista que tenta conectar o dado estético à dimensão histórica do período em que essas obras foram escritas e a que ambas fazem referência. O enredo dos dois romances situa-se no conflito armado que se seguiu à independência de Moçambique. Nesse sentido, a investigação avança sobre as hipóteses que, entre a literatura e a história, motivam o fato de duas obras tratarem de um mesmo momento histórico através de estruturas estéticas aproximáveis.
2014
Ubiratã Roberto Bueno de Souza
A (des)socialização do negro em Kinaxixe, de Arnaldo Santos
O presente trabalho tem como objetivo refletir sobre o processo de assimilação imposto às populações do território angolano dos anos de 1950 e 1960 presente na obra literária Kinaxixe, de Arnaldo Santos, publicada em 1965, em Portugal, e em 1981, no Brasil. A obra de nove contos retrata a tensa convivência dos negros, mestiços e brancos nos musseques e bairros que circundam a costa luandense no auge da maior migração de brancos portugueses ao território angolano. Por meio de leis como o então recente Estatuto do Indigenato, de 1954 e o Acto Colonial, de 1933 acirram-se as diferenças sociais. Esse plano jurídico foi baseado em teorias darwinistas do século XIX e lido de maneira hierarquizante e subjugadora, separando as populações do território angolano como não civilizados ou assimilados, e fazendo dos portugueses, em oposição, supostamente, civilizados, aptos a colonizar as populações do território baseado, por isso, na suposta superioridade cultural e social.