Repositório RCAAP
Angústia e O amanuense Belmiro: duas visões de uma mesma época
O trabalho visa a comparar duas obras escritas no mesmo período pensando nas diferentes posições adotadas pelos escritores em suas narrativas na tentativa de passar para o leitor suas impressões e reflexões sobre o mundo em que vivem. As duas obras, Angústia, de Graciliano Ramos, e O amanuense Belmiro, de Cyro dos Anjos, foram escritas em meados dos anos 30 e retratam a vida de funcionários públicos que moram em espaços urbanos; são intelectuais citadinos que vivem em uma mesma época, mas que reagem à vida de maneira muito diversa. Com essa comparação, espera-se encontrar os pontos divergentes (pois as obras podem ser consideradas antagônicas no que diz respeito à maneira de narrar), mas, sobretudo, os pontos convergentes, levando-se em consideração as problemáticas vividas em um determinado espaço (meio urbano pouco industrializado - próprio de centros urbanos de menor importância econômica) e tempo (a tumultuada e importante década de 30) por intermédio da figura do funcionário público, central nas duas obras
Experiência colonial e pós-colonial na ordem ruinosa do mundo: uma leitura de O esplendor de Portugal, de António Lobo Antunes
A observação dos procedimentos formais empregados por António Lobo Antunes em O esplendor de Portugal (1997) levou-nos a constatar a existência, no livro, de uma visão crítica muito peculiar e complexa a respeito da História do colonialismo português e do contexto pós--colonial em que Angola e Portugal inserem-se. Dessa forma, o objetivo de nossa dissertação de mestrado é elucidar a dinâmica social representada nO esplendor de Portugal e a condução que o desígnio autoral dá a essa representação. Nesse sentido, procuramos identificar as inter- -relações entre os elementos formais estruturadores da obra e aqueles que regem as dinâmicas sociais que nela figuram. Para alcançarmos tal objetivo, direcionamos nossos estudos a leituras de teoria e crítica literária pautados nas noções de redução estrutural e de interpretação dialética, que Antonio Candido propõe. Paralelamente, procedemos ao delineamento e à análise dos contextos históricos que envolvem o enredo do romance em questão, com ênfase à observação das dinâmicas dialéticas que se deram entre o desenvolvimento do capitalismo das grandes potências mundiais e o atraso econômico de Portugal, bem como ao modo como essas dinâmicas intervieram na constituição e na manutenção das formas sociais de base do colonialismo português na África. Depois desse embasamento teórico, efetuamos a análise literária de O esplendor de Portugal e constatamos que, nessa obra, a visão crítica sobre o colonialismo português em suas imbricações com as conjunturas políticas e econômicas mundiais assenta-se no cruzamento, dentro do romance, de diversas temporalidades, que se situam entre o fim do século XIX e o ano de 1995. É a partir do cruzamento dessas temporalidades que o desígnio autoral faz sobressaírem questões como os modos de exploração da força de trabalho angolana, a atuação do grande capital estrangeiro em Angola, o travamento das expectativas de expansão econômica dos colonos proprietários, subordinados que estavam ao Estado português e ao poderio do grande capital, a corresponsabilidade desses colonos na instituição e na generalização da violência que permeou as relações sociais na colônia e a influência que os interesses estrangeiros também tiveram na exploração de Angola, nos rumos da guerra colonial e na intensificação e ampliação dos conflitos existentes entre os movimentos nacionalistas angolanos. A principal conclusão a que chegamos, portanto, é a de que o pilar sobre o qual se assenta a construção de O esplendor de Portugal é a composição, subjacente à complexa rede narrativa do romance, de uma rede não menos complexa de relações causais entre as temporalidades abrangidas no livro, na qual se destacam as linhas de ruptura e de continuidade históricas que sustentam essa rede e que constroem a representação do presente catastrófico em que se situam os narradores.
2016
Fernanda Fatima da Fonseca Santos
Bunda e Bond: uma paródia em dois tempos
Esta dissertação tem como objetivo analisar a paródia e suas nuances. Através do confronto entre os personagens Jaime Bunda, da obra Jaime Bunda, o agente secreto do escritor angolano Pepetela; e James Bond, personagem das obras homônimas de Ian Fleming, no sentido de analisar como os dois personagens se entrecruzam por meio das linhas da teoria paródica. Pepetela, no seu romance, traz uma crítica ácida às condições de Angola pós-revolução utilizando-se da paródia e, também, ao parodiar James Bond com seu Jaime Bunda desconstrói o arquétipo do homem ideal, encarnado em Bond e jamais apresentado em Bunda. Nesse sentido, a paródia será decisiva para o entendimento do verso e reverso da medalha, como veremos, ao longo deste trabalho, ao confrontar os dois agentes, Bond e Bunda se distanciarem e, paradoxalmente, se alinharem, tornando-se uno nas suas histórias.
2018
Luiz Carlos Loureiro de Lima Junior
Uma curva pela mão esquerda: autoficção e alteridade na trilogia Os filhos de Próspero de Ruy Duarte de Carvalho
O trabalho aqui proposto apresenta a hipótese de que na obra de Ruy Duarte de Carvalho, especialmente nos livros que compõem a trilogia Os filhos de Próspero, autoficção é utilizada como uma espécie de artíficio para representar o outro, o não ocidental. Nos três romances que compõem a trilogia, Os Papéis do Ingles, As paisagens propícias e A terceira metade, é possível observar um narrador-personagem, identificado com o autor, que se desloca pelo sul de Angola e norte da Namíbia, contando ao leitor sobre as paisagens que percorre e as pessoas que encontra em seu caminho. Pretendemos analisar dois aspectos centrais dessas narrativas: o modo como se configura o narrador e a forma encontrada por Ruy Duarte de Carvalho para representar o outro em suas narrativas, tomando como base a fortuna crítica escrita sobre sua obra do autor, textos teóricos sobre a autoficção como gênero literário e a discussão sobre alteridade e etnografia presente na literatura antropológica do fim do século XX.
O fantástico no contexto sócio-cultural do século XX: José J. Veiga (Brasil) e Mia Couto (Moçambique)
O desenvolvimento deste trabalho pautou-se em obras artísticas, engajadas politicamente, pertencentes ao macrossistema de Literaturas de língua portuguesa, a saber, uma Moçambicana: Um Rio chamado Tempo, uma Casa chamada Terra, de Mia Couto, e outra brasileira, Sombras de Reis Barbudos, de J.J. Veiga. A partir desse comparativismo entre os dois contextos, chegou-se a uma idéia do que é o fantástico contemporâneo, e procurou-se aprofundar o estudo sócio-cultural ressaltado nos conteúdos das duas obras. A temática \"opressão\" permitiu estudar as relações de poder e submissão entre as personagens das duas obras. Esta temática perpassou a análise crítico-literária fundamentando, filosoficamente, a atuação das personagens, reflexos muitas vezes da situação histórica vivenciada pelos autores. Semanticamente variada e polêmica, a palavra \"opressão\" prestou-se, nesta abordagem, a uma interpretação de possibilidade de um estudo sócio-cultural do momento em que as obras foram escritas, seguindo a linha filosófica desenvolvida pelo pensador alemão Sigmund Freud, no que se refere à interpretação do duplo. A pesquisa serviu-se de teóricos como Todorov, Caillois e Bessière, para a abordagem do gênero fantástico presente nas duas obras. Pelo fato de ter-se pesquisado toda a produção literária dos dois autores, sentiu-se a necessidade de citar outras obras, o que ajudou a estabelecer um diálogo entre as narrativas selecionadas e as demais obras dos dois escritores. Ao estudar as narrativas dos autores, pensou-se que fosse necessário uma inserção na história recente dos dois países cujo levantamento vem inserido nos anexos. Por não esquecer o contexto sócio-cultural da elaboração dos dois textos, é que a pesquisa espelha as circunstâncias históricas da época da criação das mesmas, sem deixar, contudo de perceber que a literatura vai além desse simples espelhar do real, pois a obra literária, além de dialogar com o mundo em que está inserida, dialoga com tempos e espaços outros que não os da realidade. A escolha desse tema se deu também pela indagação de ordem teórica, o que justifica a escolha do corpus, apresentado para estudo.
Um Samuel Rawet qualquer: pensamento-prosa
A presente dissertação consiste num estudo acerca da produção ensaísticonarrativa de Samuel Rawet. Trata-se de um ensaio no que há de mais disperso e não hierárquico no termo desenvolvido em contínua revisão. De um trabalho iniciado e inacabado, à medida em que sugere e proposita diversas trilhas, encruzilhadas e encontros entre autores e teorias ao redor dos escritos de Rawet. Se a disposição analítica segue a cronologia dos livros publicados pelo autor, isso se dá não porque pensamos sua produção numa totalidade sistêmica, formadora de uma obra fechada, mas como campo transitivo onde toda uma transformação de paradigmas literáriofilosóficos incorre e transborda. Do primeiro livro de narrativas, Contos do imigrante, de 1956, ao último, Que os mortos enterrem seus mortos, de 1981, percebemos uma intensa trajetória de especulação e atuação literárias. Seus textos ensaios, contos, novelas, peças teatrais, artigos para jornais e revistas , sempre investigativos e inovadores, suscitam e exigem um pensamento atento à rede de relações transversais emergente no pós-guerra, ao redimensionamento ontológico dado no desabamento das estruturas metafísicas
2014
Tiago da Cunha Fernandes
A literatura para criança no Brasil e em Portugal: meio de revelação do eu e do mundo
A proposta desta pesquisa é analisar qual o olhar a respeito da criança e da infância que está presente nas obras dos renomados escritores Lúcia Pimentel Góes e António Torrado. Na forma peculiar de revelar o Eu e o Mundo, cada um dos autores imprime sua percepção de vida e de mundo na tessitura de suas obras. Ludicidade, poeticidade, identidade são pontos que se destacam nos textos analisados. Da extensa publicação da escritora brasileira elegemos as seguintes obras literárias: Zé Diferente, Dráuzio, Trim, O dedal da vovó, Dudu, amigo do mar; O jardim de Lucita, A maior boca do mundo, Amanhã e Jajá, Bumba meu boi, mapinguari, curupira und... e Momotaro, o menino que nasceu do pêssego. Do escritor português foram contempladas as estórias: O veado florido, A cadeira que sabe música, A corneta faladora, O segredo dos búzios, Como se faz cor-de-laranja, A mania das pressas, O pajem não se cala e o Menino Grão de milho. A cultura, cultura da infância e a criança no Brasil e em Portugal também mereceram destaque como base teórica norteadora para a análise das obras.
2010
Claudimeiri Nara Cordeiro Kollross
Estórias que ilustram a História: as narrativas ficcionais de Lília Momplé
A presente dissertação tem por objetivo estudar a obra Ninguém matou Suhura da escritora Lília Momplé, analisando as questões em torno da opressão estabelecida pelo regime colonialista português em Moçambique. Para tanto, três eixos centrais nortearam a análise crítica desenvolvida, a saber, um primeiro eixo que se organiza em torno da força de trabalho; um segundo eixo voltado para uma falsa organização de um projeto educacional para o país; e, um terceiro, que diz respeito às relações dialéticas estabelecidas entre as personagens em seus diferentes segmentos sociais.
2016
Silvaneide da Silva Costa
\'Memórias Póstumas de Brás Cubas\' e \'Coração, Cabeça e Estômago\' - Machado de Assis e Camilo Castelo Branco: leitores e críticos do romantismo
O presente trabalho tem como objetivo principal analisar as posturas de Camilo Castelo Branco e Machado de Assis como leitores e como críticos do Romantismo que, de certa forma, colocaram em xeque a aplicação rígida das teorias e doutrinas vigentes para a crítica oitocentista como o naturalismo, o positivismo, o racionalismo e os ideais românticos. Realizamos este trabalho partindo do estudo das obras Coracão, Cabeça e Estômago, de Camilo Castelo Branco, e Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. Buscamos demonstrar aproximações e similaridades presentes nas duas obras, destacando textos críticos que apontaram tais semelhanças para apresentarmos algumas idéias que desenvolvemos ao longo da pesquisa. Como substrato teórico para o trabalho, utilizamos os livros Introdução ao estudo da novela camiliana, de Jacinto do Prado Coelho e Um mestre na periferia do capitalismo, de Roberto Schwarz.
2007
Geraldo da Aparecida Ferreira
Literatura e filosofia: alteridade e dialogismo poético nas obras Lavoura Arcaica e Um Copo de Cólera, de Raduan Nassar
O estudo das obras de Raduan Nassar constitui-se de um trabalho a respeito da linguagem poética pautada no exercício dialógico entre as personagens. Segundo o pensamento de Emmanuel Lévinas uma relação pautada na ética exige um olhar para o rosto do outro e dessa relação tem-se a responsabilidade, uma apreensão da subjetividade exteriorizada e não mais contida no ser. Nesse caminho analisam-se os personagens protagonistas das obras Lavoura Arcaica (1975) e Um copo de cólera (1978) que estão durante toda narrativa em relação de descoberta e devir. Vistos como personagens conceituais ou filosóficos, na concepção de Deleuze e Guattari, André, adolescente em busca de hospitalidade e alteridade na relação com o outro, traz em sua composição traços de impessoalidade, refletindo sua condição não recaindo sobre si, mas estendendo para um fora, o neutro de Blanchot que considera essa possibilidade de abertura como espaço para o um outro acontecimento. O chacareiro, da segunda obra, também em exercício dialógico, porém não poético compõe de atos de enunciação que tratam de seu percurso histórico-social e pessoal. Diante de sua interlocutora trava um embate que permeia as leis da hospitalidade frente ao acolhimento e inabitação da morada, do lugar de pertença.
2011
Ana Carolina Belchior de Jesus
Na raiz, a fome: uma leitura dos romances Vidas secas, de Graciliano Ramos, Os flagelados do vento leste, de Manuel Lopes e Famintos, de Luís Romano
Partindo dos romances Vidas secas, de Graciliano Ramos (1938), Os flagelados do vento leste, de Manuel Lopes (1959) e Famintos, de Luís Romano (1962), buscamos investigar as estratégias discursivas dos autores de nosso corpus que se debruçaram sobre a fatia social menos favorecida daquele momento histórico. Nos dedicamos, em especial, às denúncias dos autores que trouxeram à luz temas que atravessavam as três prosas de ficção: a fome, o banditismo e a opressão. Encontramos em Josué de Castro uma rica pesquisa que permitiu que analisássemos a fome não apenas como flagelo, mas também como fato social passível de desdobramentos mais complexos. O historiador Eric Hobsbawm e o filósofo Louis Althusser fundamentaram nossa investigação de tais desdobramentos. Destacamos que nossa perspectiva tem como horizonte o comparatismo de solidariedade proposto pelo crítico Benjamin Abdala Junior.
2017
Maria Luzia Carvalho de Barros Paraense
Diálogos possíveis entre Maria Gabriela Llansol e Clarice Lispector: modos de (re)pe(n)sar o ser-criança
O objetivo deste trabalho é estudar uma criança nova e potencializada, que cresce na escrita, tanto na obra da escritora Maria Gabriela Llansol quanto na de Clarice Lispector. Tratamos essa criança como uma metáfora de um ser-vivo, que se arrisca em novas compreensões sobre a escrita, transformando seu olhar diante da leitura. Investiga-se a escrita como um lugar fecundo, onde haja o desenvolvimento do ato criativo pelos seres, denominado entre-lugar. Nele, ocorre a continuidade do ser, que aprende sobre si a partir do outro, num movimento de persistência. Utilizam-se alguns títulos, como Um beijo dado mais tarde e Amar um cão, de Llansol, e Quase de verdade, Mistério do coelho pensante, A mulher que matou os peixes e A vida íntima de Laura, de Lispector, para mostrar a relação entre o ser e a leitura através da sua mudança de olhar. Discutem-se várias noções, como as de criança, aprendizagem, leitura, textualidade, liberdade, representação, autor, pensamento, percepção e tempo. Fundamenta-se a teoria através das obras de Clarice e de Maria Gabriela, acima citadas, além da crítica especializada, como Maria dos Prazeres Santos Mendes, Nádia Gotlib, Olga de Sá, Maria de Lourdes Soares, Jorge Fernandes da Silveira, João Barrento, Eduardo Prado Coelho, Eduardo Lourenço, Lúcia Castelo Branco, João Barrento e Maria Etelvina Santos.
2014
Danielle de Paiva Pereira Lopes
Febre e poesia: o impulso febril em Mário de Andrade e Álvaro de Campos
Este trabalho constitui-se como um estudo comparativo entre as poéticas de Álvaro de Campos e Mário de Andrade, a partir dos poemas Ode Triunfal e Ode ao burguês, no sentido de oferecer uma outra possibilidade de leitura para um material poético já acirradamente analisado pelo crivo crítico. Considerou-se o signo febril como instrumento de verificação de vozes exaltadas de tais poesias, de maneira a revelar os procedimentos no campo estético e expressivo significativos para um momento de acentuado extravasamento literário: o Modernismo. O percurso estabelecido passa pela força das vanguardas; pela potência matriz do movimento literário essencialmente dionisíaca relacionada às considerações de Nietzsche e Eurípedes; além de abordar as relações entre Portugal e Brasil neste período, para corroborar com a perspectiva comparativa entre os poetas mencionados destes países.
Repertórios da literatura brasileira nos livros didáticos: uma perspectiva antirracista
Esta pesquisa busca investigar os repertórios da literatura brasileira disponibilizados nas coleções didáticas de língua portuguesa para o Ensino Médio aprovadas pelo PNLD 2015, de modo a verificar quantitativa e qualitativamente a inserção de textos que tocassem a temática racial, independentemente do pertencimento étnico-racial de seus autores, por um lado, e especificamente a utilização de textos de autoria negra, por outro. Assim, a partir de um aparato teórico interdisciplinar que engloba as áreas dos estudos literários, da história, da sociologia, da educação e da psicologia social , analisa-se como tais textos e autores foram aproveitados pelas coleções, considerando o contexto em que aparecem nos livros, com ênfase nas atividades de interpretação literária. Constata-se lacunas importantes nos dados encontrados, uma vez que a inserção por si só dessas obras e desses escritores não é suficiente para uma reformulação do livro didático como instrumento possível de uma educação antirracista. Desse modo, são propostas alternativas tanto de repertório, privilegiando os nomes contemporâneos da literatura negro-brasileira, quanto de abordagem de autores que já figuram no cânone, alternativas pensadas para relacionar-se de maneira orgânica com todo o conteúdo das coleções didáticas, e não mais como apêndices e notas de rodapé.
2019
Nara Lasevicius Carreira
A lavoura, a guerra, a caça: os elementos mitológicos em três romances
A presente tese pretende, a partir da análise dos romances Lavoura arcaica (1975), de Raduan Nassar, Terra sonâmbula (1992), de Mia Couto, e Crônica de uma morte anunciada (1981), de Gabriel García Márquez, estabelecer um diálogo entre romance e mitologia. Sob tal perspectiva, a tese procura examinar como se dá a interação do tempo mitológico com o tempo histórico e o papel da reinterpretação dos mitos e sua repercussão nas obras literárias escolhidas. Para desenvolver tal proposta, apresentaremos lineamentos teóricos básicos que nos permitirão definir os elementos caracterizadores da presença do mitológico nos textos ficcionais selecionados para análise. Apontaremos, em primeiro lugar, a alusão a um determinado mito reconhecível; em seguida, a presença de elementos rituais que aí estabeleçam a conexão do mito com o sagrado; e, por último, o papel da palavra como elemento fundamental que reatualiza, preserva e difunde a memória do sagrado, isto é, do mitológico. Os romances escolhidos constituem verdadeiros exemplos dos processos de experimentação desenvolvidos em cada um desses campos o mito, o rito, a palavra numa prática artística que congrega diferentes maneiras de ver o mundo, assim como de reinterpretá-lo criativamente por meio de seus respectivos imaginários. O objetivo central de nosso trabalho é, pois, mostrar que a presença de elementos mitológicos nos três romances constitui o componente estrutural básico das três narrativas e que essa presença se manifesta de modo específico em cada uma das obras analisadas.
2019
Claudia Esperanza Durán Triana
A geração da utopia e Memórias do cárcere: a resistência como re-existência
Em A geração da utopia, do escritor angolano Pepetela, e em Memórias do cárcere, do escritor brasileiro Graciliano Ramos, ambos os autores denunciam formas de opressão e alienação usadas pelos governos: o colonialismo português em Angola, e o ditatorial, de Getúlio Vargas, no Brasil. Embora o texto de Pepetela trate de um romance, e o de Graciliano Ramos, de um livro de memórias, esses textos se aproximam pela ideia de um balanço histórico crítico. Posicionados ao lado dos oprimidos, invertem o discurso oficial e expressam a voz dos vencidos. Juntam as partes do que fora fragmentado e refazem a unidade - da nação, em A geração da utopia, e dos homens, em Memórias do cárcere. Como intelectuais engajados, elaboram uma literatura de resistência - capaz de levar à re-existência e à desalienação - e que aponta, utopicamente, para a possibilidade de alcançar um futuro melhor, por meio de um agir contínuo no presente, pleno de esperanças.
2011
Maria Alzira de Souza Santos
Pinheiro Chagas, um escritor olvidado
Este estudo tem por objetivo refletir sobre uma figura literária pouco estudada, Manuel Pinheiro Chagas (1842-1895), escritor português considerado pela crítica principalmente como romancista histórico. Ao eleger o romance histórico como narrativa romântica, parece que Chagas tenta disputar espaço com o romance realista/naturalista, mesmo depois da consolidação do Realismo. Por meio da análise de quatro de seus romances, A virgem Guaraciaba (1865), A máscara Vermelha (1873) e a sua continuação O juramento da Duquesa (1873), e A descoberta da Índia. Contada por um marinheiro (1890), verificamos como o projeto literário deste escritor, que se inicia com a efabulação da História, vai convergindo para um realismo pouco romantizado, que ele denominou de estudo histórico romântico.
Entre melindres e espertezas: personagens malandras, nos contos de Lima Barreto e José da Silva Coelho
A literatura é campo fértil para refletirmos sobre os mais variados aspectos da sociedade e a obra de Antonio Candido certamente é uma referência dessa perspectiva de leitura. Nesse sentido, analisamos comparativamente contos do escritor brasileiro Lima Barreto e do goês José da Silva Coelho, com foco nos comportamentos de seus protagonistas. Partindo da observação de semelhanças e diferenças nas formas de contornar as dificuldades, ou de conquistar uma melhor posição social, em espaços organizados a partir do colonialismo português, procuramos demonstrar que as atitudes imorais das personagens não eram apenas um recurso narrativo cômico, mas eram fruto de uma reflexão crítica dos autores sobre essas duas sociedades marcadas pela colonização ibérica. Tais comportamentos são representados por figuras repletas de espertezas, astúcias e malandragens, que nem sempre logram êxito nos seus golpes. Desse modo, discutimos a representação literária do caráter nacional brasileiro por personagens de Lima Barreto e a representação de traços semelhantes por personagens de Silva Coelho. Essas análises culminam na discussão sobre a possibilidade de que as semelhanças apontadas possam ser fruto da longa dominação portuguesa, tendo-se consolidado com a implementação das Repúblicas brasileira e portuguesa.
2016
João Figueiredo Alves da Cunha
Narrativa da espera no romance angolano contemporâneo: notas às alegóricas Noites de vigília de Boaventura Cardoso
Esta Dissertação, intitulada Narrativa da Espera no Romance Angolano Contemporâneo: Notas às alegóricas Noites de Vigília de Boaventura Cardoso, propõe a leitura de Noites de vigília (2012), do angolano Boaventura Cardoso. Essa obra, voltada para a revisitação do passado histórico-político angolano, sob o signo da alegoria lançada no universo teorizador por Walter Benjamin, irrompe com a história oficial ao pôr em questionamento o projeto da Terra Prometida, cujo marcador é a espera ancorada no desejo de fundação de uma associação das personagens- protagonistas, a saber: Quinito, do MPLA, e Saiundo, da UNITA. Por conseguinte, através do comparativismo literário, procuramos analisar como a recriação do sociopolítico angolano, em Noites de Vigília, indicia a desrepressão da história, visando a consumação do projeto de comunidade imaginada angolana, hasteando-se, desse modo, a bandeira da igualdade social, dando-se voz e vez aos da pereiferia social. Assim, procura-se demonstrar como a ficcionalização do histórico-político angolano denuncia um socius na contramão do apregoado ao longo do movimento anti-colonial, haja vista a proclamação da sociedade pautada na igualdade, liberdades e bemestar coletivo ainda em processo.
Retratos do colono, do colonizador, do cidadão: a representação literária da minoria branca em Nós, os do Makulusu e em outras narrativas angolanas
Inspirados nos retratos de colonizadores e colonizados apresentados por Albert Memmi e Franz Fanon, escolhemos algumas narrativas angolanas para perceber de que modo são retratados literariamente os membros de uma minoria: os brancos, colonizadores ou colonos e, num momento posterior, cidadãos da república independente. É, portanto, um estudo de personagens literários, sua construção, constituição, e inclui as sugestões interpretativas que, a partir deles, pudemos fazer. Nós, os do Makulusu (1975), de José Luandino Vieira (1935-) é nosso corpus principal. Percorremo-lo do núcleo central de personagens aos mais fugidios e efêmeros. Constituem um corpus secundário os romances As lágrimas e o vento (1975), de Manuel dos Santos Lima (1935-), em que estudamos os personagens brancos e a visão que os colonizados têm deles; de Pepetela (1941-), A geração da utopia (1992), foco na personagem Sara Pereira, seus anos de exílio e seu retorno à terra natal; de Manuel Rui (1941-), Rioseco (1997), o personagem sô Pinto, português que continuou em Angola após a debandada dos brancos em 1975 e vive no Mussulo. Todas estas obras dialogam com momentos historicamente determinados, numa linha do tempo que vai de meados da década de 1930 até meados da década de 1980, da sociedade colonial à crise colonial e ao país independente. Procuramos pensar estas obras em diálogo não apenas com as outras literaturas de língua portuguesa, com as quais têm relação óbvia, também com outras obras da literatura ocidental, da qual elas, devemos enfatizar sempre isso, também fazem parte.