Repositório RCAAP

João Melo, pós-modernidade, pós-modernismos: condições contemporâneas globais na produção de O dia em que o Pato Donald comeu pela primeira vez a Margarida

Este trabalho procura estudar as noções de pós-modernidade e pós-modernismo no livro de contos O dia em que o Pato Donald comeu pela primeira vez a Margarida (2006), do escritor angolano João Melo, sob o viés do materialismo histórico. Parte das relações entre fetiche da mercadoria e literatura para estabelecer uma ferramenta de análise que permita ver que o estético não é um campo isolado do conhecimento. Entende que para definir se há ou não uma época pós-moderna é necessário estudar as condições materiais de produção contemporâneas, fá-lo seguindo o que Harvey chamou de acumulação flexível, e vê o pós-modernismo como tratamento estético dessa matéria histórica. Analisa a organização do livro relacionando-a à atual lógica da mercadoria, e compara-a com a organização por tema do livro Filhos da Pátria (2001). Estuda o arranjo das vozes dos contos Tio, mi dá só cem e O feto e a estrutura de Ngola Kiluanje; a lógica do fetiche em O dia em que o Pato Donald comeu pela primeira vez a Margarida, o arranjo das vozes em O Canivete agora é branco e o campo de refugiados como espaço paralelo de construção de Angola em \"Angola é toda terra onde planto minha lavra\".

Ano

2013

Creators

Emiliano Augusto Moreira de Lima

Luuanda delenda est: a destruição literária da cidade de Luanda em Os transparentes, de Ondjaki

Nas escusas veredas da Luanda contemporânea edificada no romance Os transparentes (2013), de Ondjaki, todos os caminhos, desde o começo, parecem apontar para uma única solução possível: a destruição. Analisaremos por que a cidade do romance deve ser destruída, a começar pela construção histórica desse arquétipo, de acordo com Northrop Frye. A ocorrência estética desse temário poderá ser constatada na forma romanesca, consoante as formulações de Bakhtin, evidenciando o caráter vivo e moderno do romance em questão, bem como a categoria de cronotopo ocupada pela cidade. Esse caminho será percorrido, com um recuo para investigar o lugar deste livro no pós-Independência, até chegar às causas da destruição presentes nos subterrâneos da sociedade, que enfraquecem os alicerces de Luanda na narrativa, e fazem-na ser consumida pelo fogo quase impiedoso ateado pelas mãos daqueles que estão às voltas com o poder político-econômico e que fazem da cidade viva da narrativa um lugar de embates, uma zona de contato, como será discutido nas considerações finais.

Ano

2017

Creators

Bruno Henrique Coelho

Corpo de romances de autoras negras brasileiras (1859-2006): posse da história e colonialidade nacional confrontada

O romance é um gênero pouco presente nos estudos críticos e bibliográficos dedicados a autoria negra no Brasil. Intervindo nesse cenário, o principal objetivo deste trabalho é tornar visível o conjunto de romances cujas autoras brasileiras são negras, reunindo suas obras dispersas num arco histórico que atinge três séculos. A leitura comparada evidenciou vários pontos de contato, dos quais emerge um pensamento partilhado pelas diversas narrativas. Os romances se aproximam entre si ao recorrerem continuamente a um mesmo solo histórico, que resulta na posse da História. Para tanto, desenham uma imagem crítica da nação ao apontarem a sua matriz colonial constitutiva. Maria Firmina dos Reis (Úrsula, 1859), Ruth Guimarães (Água Funda, 1946), Carolina Maria de Jesus (Pedaços da fome, 1963), Anajá Caetano (Negra Efigênia: paixão do senhor branco, 1966), Aline França (A mulher de Aleduma, 1981), Marilene Felinto (As mulheres de Tijucopapo, 1982), Conceição Evaristo (Ponciá Vicêncio, 2003) e Ana Maria Gonçalves (Um defeito de cor, 2006) reelaboram a modernidade brasileira, demarcando os lugares de poder e subalternidade, constituídos pela intersecção de gênero e raça. As obras reunidas nesta tese articulam uma inteligibilidade pluriversal, porque não apagam a presença da alteridade; transtemporal, porque o passado que formulam também produz significados para o nosso presente; e posicionada, porque articulam em seu bojo o rompimento do silenciamento sobre a voz da mulher negra.

Ano

2019

Creators

Fernanda Rodrigues de Miranda

O cânone desgastado: hegemonia, masculinidades e crise

O mundo sofreu uma mudança drástica após a Segunda Guerra Mundial. O panorama político, com as novas configurações de poder com a ascensão dos Estados Unidos e da União Soviética, mudou também a vida em sociedade. Fatos importantes como a perseguição a qualquer um que se desconfiasse ser comunista, e o American Way of Life estiveram presentes durante muitos anos após o final do conflito. As artes como o Cinema e a Literatura têm um papel fundamental nessa nova configuração social, levando ao mundo a imagem da família nuclear como a perfeita e desejável. O teatro teve um renascimento durante esses anos do final da década de 1940, e durante todos os anos 1950. Tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, dramaturgos surgiam como contestadores responsáveis por textos que foram considerados marcos para a História do Teatro. Tennessee Williams e Nelson Rodrigues criaram tramas e personagens que refletiam o meio em que se inseriam, muitas vezes com um viés moralista, outras como importantes ferramentas de contestação social. Os personagens Stanley Kowalski, de A Streetcar Named Desire, e Raul, de Perdoa-me por me traíres, ambos os principais antagonistas de suas peças, são analisados com foco nas características de masculinidade que apresentam. Para tanto, foi necessário estudar os demais personagens para entender de forma mais ampla como eles se inserem em suas histórias. O modelo de masculinidade hegemônica conceituado por Connell é buscado nesses homens, com o objetivo de tentar provar sua presença nas tramas.

Ano

2019

Creators

Vanessa Rodrigues Thiago

África, axis mundi: uma leitura d\'O quase fim do mundo de Pepetela 

O escritor angolano Pepetela possui em sua produção literária a obra O quase fim do mundo (2008), na qual cria condições para o reinício da humanidade a partir de poucos sobreviventes a uma hecatombe, o que a faz ser inserida no rol de discursos escatológicos. Seu diferencial, a nosso ver, estará nas discussões suscitadas quanto à realidade africana, em especial de Angola. Nesse sentido, há no romance a formação de uma sociedade a partir de valores principalmente africanos, já que África surge como o espaço central da nova era - são desse continente, em sua quase totalidade, os indivíduos selecionados e ali reconstroem suas vidas e o passado que ficará como História. Paralelamente, é possível relacionar a narrativa e seus elementos à formulação de uma nova utopia, desta vez priorizando características próprias em detrimento daquelas importadas (a não ser que relidas sob a ótica local). No entanto, o autor sabe da complexidade da empresa e não se furta a apontar e problematizar entraves. Com o livro OQFM, Pepetela volta a pôr em pauta os rumos e os projetos de seu país, situando-o na produção estético-política da literatura angolana de língua portuguesa.

Ano

2012

Creators

Kelly Mendes Lima

Literatura e representação social das mulheres em Cabo Verde: vencendo barreiras

Esta dissertação analisa comparativamente textos cabo-verdianos de autoria masculina e feminina à luz do tema Literatura e representação social das mulheres em Cabo Verde, com o objetivo de demonstrar como constroem a historicidade das mulheres naquele contexto, com base na abordagem de gênero e numa hermenêutica do cotidiano feminino. Diante do exposto, centramos as leituras nas personagens femininas das narrativas, especialmente as protagonistas, no intuito de acompanhar suas trajetórias de objetos a sujeitos históricos, tendo em conta a complexidade do fenômeno da emancipação feminina em Cabo Verde e a entrada um pouco tardia, todavia decisiva, de produções de mulheres no cânone literário. Buscamos demonstrar, em nossa pesquisa, como a escritura literária masculina de António Aurélio Gonçalves, Baltasar Lopes, Manuel Ferreira, Oswaldo Osório, Teobaldo Virgínio e Virgílio Pires apreende e apresenta realidades femininas, sobretudo por meio da exposição, ao passo que as escrituras literárias femininas de Camila Mont-Rond, Dina Salústio, Fátima Bettencourt, Ivone Aída e Maria Margarida Mascarenhas revelam subjetividades femininas que lançam novos olhares e novos recortes que dialogam o universo representado pela ótica masculina.

Ano

2010

Creators

Sonia Maria Alves de Queiroz

Machado de Assis em jornal e livro: os diferentes suportes e sentidos dos três contos de Papéis Avulsos publicados antes de Memórias Póstumas de Brás Cubas

Em chave comparatista, esta dissertação pretende analisar os efeitos de sentido produzidos pelos contos \"A Chinela Turca\", \"Uma Visita de Alcebíades\" e \"Na Arca\", de Machado de Assis, nos diferentes suportes editoriais em que foram inicialmente publicados. Ademais de terem sido reunidos na coletânea Papéis Avulsos, organizada em 1882 pelo próprio autor, cada um dos contos em questão foi publicado em um jornal da época: \"A Chinela Turca\" na folha A Epocha, em novembro de 1875; \"Uma Visita de Alcebíades\" no JJornal das Famílias, em outubro de 1876; e \"Na Arca\" n\'O Cruzeiro, em maio de 1878. Sendo assim, além da análise intrínseca dos textos, a presente investigação conferirá destaque aos conceitos de ambiência discursiva e de mediação editorial, tendo em vista o pressuposto mais amplo de examinar o modo por meio do qual os diferentes espaços de publicação de um escrito participam da significação por ele produzida. Por fim, esses três contos são os únicos presentes no livro que foram publicados antes de Memórias Póstumas de Brás Cubas, isto é, ainda durante o período conhecido como a \"primeira fase\" da obra do escritor. Em perspectiva mais ampla, portanto, propõe-se estabelecer conexões, ainda que sumariamente, entre elementos provenientes dos estudos machadianos, da teoria literária e da história da imprensa e do livro no Brasil a partir dos referidos contos e de suas trajetórias de veiculação.

Ano

2020

Creators

Luiza Helena Damiani Aguilar

Labirintos perdidos: ficção contemporânea em trânsito nos romances de Bernardo Carvalho e Francisco José Viegas (2000-2010)

Esta tese investiga de que forma a ficção contemporânea de língua portuguesa encontra possibilidades de resistência à crise do romance que tem se estabelecido na contemporaneidade. As obras dos autores Bernardo Carvalho e Francisco José Viegas, inscritos no início do século XXI, permitem verificar como a ficção da era atual suplanta a crise da narrativa e inscreve-se como elemento de resistência. Com base nas teorias de Walter Benjamim, Theodor Adorno, Zygmunt Bauman e Andreas Huyssen - acerca do declínio da narrativa e do romance aliadas a questões de deslocamento, memória e identidade procuramos demonstrar que essa ficção responde a um momento de crise e de transição. Assim, a ficção dos autores investigados representa não a crise do romance, antes configurase como romance da crise, justamente por encontrar nas questões conflitantes (transgressão narrativa, deslocamento espacial, diluição da memória e identidades fluídas) os muros para a construção de seu labirinto ficcional.

Ano

2013

Creators

Adenize Aparecida Franco

Eça de Queirós e o extremo oriente

O presente estudo apresenta uma análise das representações do Extremo Oriente nas obras do escritor português Eça de Queirós (1845-1900). Através de um estudo amplo de obras de diversos momentos da carreira do escritor português, procuramos demonstrar que o Extremo Oriente queirosiano estabelece uma representação complexa das relações Ocidente-Oriente, não se limitando às imagens cristalizadas do Oriente na literatura portuguesa, em que se destacam o exotismo e o caráter imaginário. Como principais pilares teóricos, nos apoiamos nas teorias orientalistas, principalmente as de Raymond Schwab (1950) e Edward Said (1978), e da fortuna crítica queirosiana. Realizamos uma análise comparativa de textos ficcionais e não ficcionais do autor que, nomeadamente, compreende os romances O Mistério da Estrada de Sintra (1870), escrito juntamente com Ramalho Ortigão, O Mandarim (1880) e A Correspondência de Fradique Mendes (1900); os textos de imprensa A Marinha e as Colônias (1871), A Pitoresca História da Revolta da Índia (1871), A França e o Sião (1893), Chineses e Japoneses (1894), A Propósito da Doutrina Monroe e do Nativismo (1896), França e Sião (1897); e o relatório consular A Emigração como Força Civilizadora (1979).

Ano

2013

Creators

José Carvalho Vanzelli

\'Uns contos iguais a muitos\': estórias africanas, relações de trabalho e estrutura narrativa no contexto colonial angolano e moçambicano (décadas de 50/60).

Nesta tese, a partir da leitura de estórias escritas por João Dias, José Craveirinha, Luís Bernardo Honwana, Costa Andrade, Antonio Cardoso, Luandino Vieira, Arnaldo Santos e Jofre Rocha nas décadas de 50 e 60 no contexto colonial angolano e moçambicano, analiso as estratégias narrativas utilizadas pelos autores para formalizar a violência das relações de trabalho impostas pelo colonialismo. No estudo dessas narrativas engajadas focalizo e sistematizo as estruturas convergentes que denunciam a exploração do trabalhador e da trabalhadora em Angola e Moçambique. Com efeito, considerando as recorrências estruturais encontradas e sistematizadas no contexto recortado, julgo que enuncio aqui, cônscio dos limites do estudo, a existência de uns contos iguais a muitos, ou seja, de diferentes estórias que valendo-se de estratégias narrativas congruentes formam uma estrutura de denúncia das relações de trabalho. Enunciadas por um(a) narrador(a) empenhado(a), estas estórias de enclausuramento, resistência e libertação articulam um confronto entre as ações das personagens agressoras brancas (patrões e seus agentes) e as dos(as) trabalhadores(as) negros(as). Além disso, é recorrente o uso de uma temporalidade tensiva e a inserção dos(as) trabalhadores(as) em espaços sociais compartimentados. Diante da vida rastejante e dos caminhos fechados, da exploração, da imobilidade e do racismo, as estórias também estruturam um processo de resistência no qual os(as) trabalhadores(as) enfrentam seus agressores e promovem a contra-violência do colonizado.

Ano

2018

Creators

Luiz Fernando de França

A arte de contar histórias: uma poética da memória em Leite derramado de Chico Buarque

Analisamos, nesse trabalho, o romance Leite Derramado (2009), escrito por Chico Buarque, e observamos a reconstrução dos fatos e associações fictícias organizadas através da edição memorialística do narrador. O romance é narrado por um homem de cem anos, que se encontra em um leito de hospital, e transmite suas experiências à medida que as rememora. Essas memórias dialogam com uma percepção social, de uma determinada classe, reconhecível, inclusive, na estilização da linguagem elaborada pelo autor. A arte de contar histórias, que em Leite Derramado se manifesta por meio da transmissão oral, atenderá às necessidades comunicativas do narrador e dialogará com sua perspectiva melancólica. Ao revelar os recursos utilizados pelo narrador-protagonista para reconstituir verbalmente sua história e a de seus ancestrais, percebemos os eventos históricos manipulados pela retórica de Eulálio, cuja perspectiva esclarece seu discurso de classe, baseado nas experiências próprias ou alheias resgatadas pela memória que, por sua vez, se apresenta de maneira desalinhada. Assim, esse trabalho busca iluminar a forma como os registros históricos, descritos pelo narrador, são transmitidos e como sua força deixa de incorrer num simples pano de fundo para alçar instâncias de destaque dentro da obra

Ano

2014

Creators

Ari Silva Mascarenhas de Campos

Matrizes para um estudo da literatura feminina: uma leitura comparativa de Sóror Mariana Alcoforado e Sor Juana Inés de la Cruz

Esta tese foi organizada e proposta com a finalidade de comparar a obra e a transgressão de Sóror Mariana Alcoforado ou a ela atribuídas a parte da obra e à transgressão de Sor Juana Inés de la Cruz, uma vez que são duas personagens exemplares do Barroco ibero-americano. Ambas serão aproximadas a partir do conhecimento dos respectivos modelos de escrita, e também através do conhecimento do trabalho artístico criado com base na herança deixada por elas. Estarão em discussão, ainda, a vida que os conventos femininos de Portugal e Nova-Espanha proporcionavam, a profundidade e a insistência com que o século XVII levou a cabo uma política sobre sexualidade e a fortuna crítica de Sóror Mariana e de Sor Juana. Ao remeter o leitor para as Cartas portuguesas, para a Carta atenagórica, para a Respuesta a Sor Filotea, para La carta e para alguns poemas, o próprio exemplo de trabalho artístico e intelectual feminino estará exposto e fundamentado. A remissão permitirá caracterizar e recuperar a dinâmica do percurso feminino e a sua dicção, dentro de um panorama literário masculino.

Ano

2010

Creators

Betina dos Santos Ruiz

Traços do chão, tramas do mundo. Representações do político na escrita de Mia Couto e Patrick Chamoiseau

Como gesto de resistência ao colonialismo e em relação às assimetrias impostas pelos centros homogênicos, em face do poder político das metrópoles europeias, escritores de margens periféricas assumiram um papel protagonista na luta pela libertação de seus países. Os sistemas literários que floresceram ao longo desse período de luta anticolonialista também estreitaram relações entre esses escritores, cujas ideias circularam pelas metrópoles e pelos territórios colonizados. No caso dos territórios africanos colonizados por Portugal, se em 1975 alcançaram a independência após mais de uma década de conflito armado, o mesmo não ocorreu com as ilhas antilhanas sob a dominação francesa exceto o Haiti, cuja independência se deu no século XIX. Desse modo, considerando essa diferença histórica, convocamos neste trabalho textos de reflexão do escritor martinicano Patrick Chamoiseau e o do moçambicano Mia Couto, cujos desempenhos como intelectuais, na cena global da informação, os colocam em destaque na busca por respostas capazes de discutir as tensões político-culturais próprias da contemporaneidade. Assim, propomos, pelo método comparativo e por critérios metodológicos dialéticos, analisar os ensaios Lintraitable beauté du monde adresse à Barack Obama (2009), uma coautoria de Patrick Chamoiseau e Édouard Glissant, e E se Obama fosse africano? (2009c), de Mia Couto, procurando destacar as estratégias de revisão epistemológica de conceitos eurocêntricos, bem como as de inserção do pensamento de margem na cena política global. Em um segundo movimento analítico, propomos confrontar três linhas de força que se apresentam nos romances Texaco (1993b), de Patrick Chamoiseau, e Jesusalém (2009b), de Mia Couto, quais sejam, as representações da memória, do feminino e do espaço. Entendemos tais representações como importantes elementos do campo de articulação de forças políticas direcionado à construção de projetos identitários na Martinica e em Moçambique, em relação com o sistema planetário.

Ano

2014

Creators

Luana Antunes Costa

O jogo estético na obra de Pepetela: a subversão da forma como um novo modo de expressão no mundo contemporâneo

Esta dissertação tem por objetivo estudar a subversão da forma do romance policial clássico nos livros Jaime Bunda, o agente secreto; Jaime Bunda e a morte do americano e O Terrorista de Berkeley, Califórnia, do autor angolano Pepetela que recria o gênero com o uso da paródia, da ironia, da polifonia e do riso. Traça-se um panorama do romance policial em Angola, desde o século XIX para situar o autor estudado e verificar-lhe as rupturas com o gênero. Segundo a pesquisa, a originalidade do escritor aparece com o uso da multiplicidade de gêneros narrativos para compor estas narrativas policiais, explorando a própria natureza do romance, ou seja, a sua permeabilidade a todo gênero. O trabalho ainda estuda as possibilidades que o romance policial de Pepetela propicia de uma análise sobre a complexidade social e as relações de poder exercidas no seio da sociedade angolana, uma vez que, o benguelense explora, por meio de suas personagens, as situações experienciadas pelos habitantes da cidade, exibindo-a sob os signos da solidão, do crime, da doença e da sedução.

Ano

2014

Creators

Ana Silvia Grigolin

Grimm e Majidí: figurações da cumplicidade na infância em João e Maria e Filhos do paraíso

A presente dissertação atém-se, ao fazer uso do método de abordagem comparativista, à experiência da cumplicidade entre os irmãos protagonistas do conto de fadas João e Maria (versão de Jacob e Wilhelm Grimm) e do filme iraniano Filhos do paraíso (direção de Majid Majidí [1998]). Apesar de estarem situados em diferentes contextos histórico-político-culturais, os casais de irmãos apresentados no conto e no longa-metragem superam a situação de extrema pobreza material em que vivem, bem como as adversidades a eles impostas pelos adultos. Para a realização da pesquisa, realizou-se um estudo acerca da poética e do alcance de trabalho dos irmãos Grimm e de Majid Majidí. As narrativas literária e cinematográfica ganham ora análises isoladas ora conjugadas, a fim de se observar, nesta correlação, as especificidades e as similaridades no tocante aos vínculos construídos pelos protagonistas das duas obras. Inúmeras são as adaptações literárias, em língua portuguesa, para \"João e Maria\", as quais atestam a relevância do clássico na perene formação do imaginário da criança, ao mesmo tempo em que abarcam o tema conflituoso da separação e do abandono no seio familiar; as produções de Majidí e demais cineastas iranianos que retrataram o lugar cultural das crianças no Oriente Médio manifestam, em meio à severa censura do regime político, a restrição econômica em consórcio com a inocência e os prematuros compromissos na fase da infância. Dentre os pressupostos teóricos e aportes críticos evocados no curso da dissertação, estão os de Vladimir Propp, Nelly Novaes Coelho e Maria Tatar, na área de literatura, e os de Jacques Aumont, Alessandra Meleiro e Marcel Martin na área do cinema.

Ano

2019

Creators

Dayse Oliveira Barbosa

Um obscuro encanto: gnose, gnosticismo e poesia moderna

A presente tese é sobre gnosticismo, doutrina religiosa da Antiguidade tardia, em sua relação com a poesia. Procura circunscrever seu âmbito, definir suas características e localizar seus principais temas: entre outros, o dualismo, os mito do demiurgo, das duas almas, do andrógino primordial, sua noção do tempo e sua relação com hermetismo, astrologia e alquimia. Mostra como mitos e temas gnósticos e até um estilo, um modo gnóstico de escrever, reaparecem ou são retomados por poetas românticos, simbolistas e modernistas, inclusive aqueles de língua portuguesa. Entre outros, examina William Blake, Novalis, Gérard de Nerval, Baudelaire, Rimbaud, Mallarmé, Lautréamont, Breton, Fernando Pessoa, Dario Veloso e Hilda Hilst. Sustenta que, sendo arcaico e anacrônico em seu dualismo e sua complexa cosmovisão e teologia, ao mesmo tempo o gnosticismo pode ser associado a uma mentalidade moderna e, como parte dela, a criações literárias, algumas inovadoras, pelo caráter sincrético e por formular uma crítica total, cósmica, na era da crítica. Também mostra como poetas não apenas absorveram ou reproduziram aquela doutrina, mas o fizeram de modo pessoal e original, transformando-a e reinventando-a. E, principalmente, como, utilizando suas categorias e temas, tentaram promover uma subversão do senso comum, da percepção instituída do mundo, justificando paralelos do gnosticismo como misticismo rebelde com a rebelião romântica e seus continuadores.

Ano

2008

Creators

Claudio Jorge Willer

Escrita feminina e laços familiares: Clarice Lispector e Marvel Moreno

Esta pesquisa procura desenvolver uma leitura da produção literária de duas mulheres a russo-ucraniana naturalizada brasileira Clarice Lispector e a colombiana Marvel Moreno. Da primeira, foram selecionados contos publicados no volume Laços de família (1960). Da segunda, contos publicados no volume Oriane, tía Oriane (1980). Vale-se, para tanto, de metodologias do comparativismo e de teorias sobre a literatura feminina. E procura problematizar questões referentes a esse universo em que mulheres escrevem sobre o ser feminino, aí considerado num sistema que inclui experiências existenciais, relações sociais e que considera também o campo mais amplo da própria condição humana. Entre os vários aspectos estudados, considerou-se o modo como as autoras comparadas estruturam as personagens femininas, nos seus diversos estágios de desenvolvimento: enquanto crianças e adolescentes em formação, na sua primeira juventude como mulher, na vida de casada e no seu papel de mãe. A análise comparativista dos contos está fundamentada em alguns elementos considerados pela crítica feminista como determinantes do conjunto de obras produzidas por mulheres, ressaltando-se, dentre eles, o uso frequente do discurso indireto livre e da narração em primeira pessoa, recursos que, mediante a mobilização da lembrança do passado, da auto-análise e da auto-descoberta, colaboram para uma problematização da identidade feminina e do significado da existência.

Ano

2011

Creators

Claudia Esperanza Duran Triana

Caminhos teóricos para a leitura literária de práticas de resistência subalterna.

A elaboração deste trabalho foi motivada pela percepção de que as vozes de indivíduos subalternizados, embora muitas vezes explicitadas no texto literário, passam freqüentemente despercebidas no processo analítico desses textos. A crença de que isto se deve não a uma negligência preconcebida, mas antes a uma colonização das [nossas] perspectivas cognitivas (QUIJANO, 2005, p.237), motivou-nos, conseqüentemente, a realizar um trabalho de natureza propositiva. Um trabalho, cabe dizer, que torne legível, para o estudioso de literatura, um arcabouço teórico capaz de auxiliá-lo na estruturação de análises literárias que abracem uma perspectiva descolonizada. E que assim sendo, auxilie o leitor e/ou crítico literário a transcender o enfoque dado à caracterização da opressão que demarca a existência subalternizada, ao potencializar a atenção para com as estratégias de resistência postas em movimento, pelo indivíduo marginalizado, para garantir as condições necessárias à sua sobrevivência. Desse modo, e entendendo a desconstrução das subalternidades como opção ético-políticoepistemológica, tratamos de recuperar a perspectiva bakhtiniana do outro; os conceitos de Relação e de Crioulização, propostos por Édouard Glissant; as reflexões sobre o homo situs e os sítios simbólicos de pertencimento, elaboradas por Hassan Zaoual; e a razão cosmopolita proposta por Boaventura de Sousa Santos. Isto se deu, porque o consenso intelectual percebido nos textos teóricos considerados quanto à existência, à capacidade e ao valor do papel de pessoas historicamente outremizadas mostrou-se adequado ao modelo teórico que desejávamos propor. Mas também porque nossa intenção era a de somar em conjunto os esforços das diferentes disciplinas acadêmicas, para interpretar e documentar diferenças e construir pontos de vista plurais (DIAS, 1998, p.128). Cumpre, ainda, dizer que o desenvolvimento desta dissertação se apoiou no intuito de contribuir para com a difusão da noção de existência subalterna, memoravelmente trabalhada por Spivak nos anos 1980, e recentemente transcendida por pesquisadores latino-americanos, quando se atêm ao exame da colonialidade do poder e de uma geopolítica do conhecimento, e por intelectuais portugueses ao considerarem os estudos e movimentos desenvolvidos a partir do Sul Global.

Ano

2010

Creators

Giselle Rodrigues Ribeiro

A Bruta Flor do Querer: amor, performance e heteronormatividade na representação das personagens lésbicas

A literatura, instrumento de representação e questionamento dos comportamentos sociais, tanto pode induzir a discussão de papéis de gênero e sociais, como sugerir a adoção de ideias e condutas. A representação da afetividade de personagens lésbicas, em sua relativamente recente e modesta emergência na história da literatura, recebe o peso das delimitações femininas em face de um cânone falogocêntrico. As características comportamentais impostas às subjetividades das mulheres, de tão largamente utilizadas, são naturalizadas nos e pelos discursos da cultura ocidental, tornando-se assim uma espécie de manual de regulação da performance amorosa. Tal normatização incide inclusive na representação de casais homoafetivos, o que muitas vezes reforça estereótipos num viés hierarquizante e heteronormativo de diferenciação e valoração sexista. Assim, o objetivo do presente trabalho é, por meio da Crítica Literária Feminista e dos Estudos de Gênero, sobretudo com base nas obras de Judith Butler, Michel Foucault, Adrienne Rich e Monique Wittig, estabelecer a comparação entre as personagens das obras O Corpo, de Clarice Lispector (1974), Eu sou uma Lésbica, de Cassandra Rios (1982) e Azul é a Cor mais Quente, de Julie Maroh (2013), para analisar a representação da afetividade lésbica e a incidência da heteronormatividade nestas personagens em ascensão na literatura das últimas décadas do século XX e início do século XXI. Para isso se faz necessário considerar as diferenças entre os três gêneros literários do corpus (conto, romance e novela gráfica) e seus respectivos suportes que apontam para uma popularização deste tipo de protagonismo, bem como sua recepção pela crítica e pelo público.

Ano

2018

Creators

Claudiana Gois dos Santos

Travessias solitárias: um estudo sobre as personagens de João Antônio e Caio Fernando Abreu

Os projetos literários de João Antônio e Caio Fernando Abreu complementam-se ao representarem, de diferentes maneiras, o indivíduo marginalizado nas grandes cidades, problematizando o contexto histórico e social de produção dos textos e priorizando o trabalho com a linguagem e a criação ficcional. Para uma melhor compreensão das obras desses dois escritores brasileiros, realizamos um estudo comparativo entre suas personagens, bem como uma reflexão sobre alguns de seus contos. Inicialmente, foram analisados dois textos que possuem como tema central a postura diante da escrita. São eles: o ensaio Corpo-a-corpo com a vida (1975), de João Antônio, e a Carta ao Zézim (1979), enviada por Caio Fernando Abreu a José Márcio Penido. Em seguida, o primeiro capítulo apresenta um estudo comparativo dos contos Galeria Alaska, de João Antônio, e Caçada, de Caio Fernando Abreu, narrativas que tratam de questões relacionadas ao homoerotismo. O segundo capítulo realiza uma comparação entre dois contos protagonizados por personagens femininas marginalizadas: Mariazinha tiro a esmo e Dama da noite, respectivamente de João Antônio e Caio Fernando Abreu. Por último, seguindo a mesma ordem de autoria, o terceiro capítulo analisa os contos Três cunhadas Natal 1960 e Creme de alface, os quais discutem a inserção social da classe média.

Ano

2010

Creators

Flavia Merighi Valenciano