RCAAP Repository
Escrever sobre a própria prática: desafios na formação do professor da primeira infância
O trabalho analisa os registros escritos produzidos por quatro professoras que atuavam com dois grupos de crianças de 2 a 3 anos em um Centro de Educação Infantil da rede municipal de educação da cidade de São Paulo e que participavam de um processo de formação continuada realizado por uma organização não-governamental ao longo de dois anos. A análise dos registros dos dois grupos apontou que a maioria das atividades mencionadas é realizada coletivamente, ou seja, a mesma proposta é oferecida para todas as crianças, ao mesmo tempo, o que sugere que as crianças têm longo período de espera. Os registros mostraram que o trabalho com as sequências de leitura proposto pelo projeto de formação trouxe um diferencial à rotina das crianças, que passaram a escutar histórias lidas todos os dias e um repertório de enredos, imagens e personagens passou a fazer parte do cotidiano dos dois agrupamentos. Os dados apreendidos dos registros revelaram uma ausência de conhecimentos sobre a natureza do papel de professor de crianças pequenas. Muitas de suas formas de agir são emprestadas do ensino fundamental. A sequência dos registros, porém, revela que as professoras passaram a considerar cada vez mais o ponto de vista das crianças. A análise feita apontou que os registros diários das práticas pelas professoras podem ser instrumentos estruturantes do trabalho por elas realizado, e que devem ser incorporados na prática dos coordenadores pedagógicos responsáveis pela formação continuada das equipes nas unidades.
2022-12-06T14:49:38Z
Maria Paula Vignola Zurawski
Políticas públicas de educação de jovens e adultos no ABC paulista: conquista de direitos e ampliação da esfera pública
A educação de jovens e adultos é um campo de políticas, práticas e reflexões que está para além dos limites da escolarização, sentido estrito. É considerada como parte integrante da história da educação em nosso país, na verdade, um dos maiores problemas da educação e que envolve milhões de brasileiros. Este trabalho tem como foco programas, projetos e ações concebidos e implementados, nos últimos anos, pelos governos locais dos municípios que compõem o ABC Paulista, em parcerias com a sociedade civil. As políticas analisadas foram desenvolvidas pelas administrações municipais no período 1987-2003, quando foi possível ver o surgimento e a coexistência de duas gerações de políticas: a primeira baseada na idéia de um estado de bem estar social e a segunda, ancorada no princípio da participação social objetivando a ampliação das esferas públicas, local e regional. No conjunto das municipalidades do ABC, este estudo recaiu sobre Diadema, Santo André e Mauá. Foram realizadas entrevistas com gestores públicos, dirigentes sindicais, representantes de entidades parceiras, coordenadores, professores; grupos focais com alfabetizandos, sendo os dados analisados à luz de extensa documentação atos legais, estatísticas oficiais, produção das secretarias municipais de educação e centros de memória locais. O estudo sobre os MOVA(s) (Movimento de Alfabetização) locais e Regional evidenciou a concretização das lutas por direitos e pela garantia à participação social dos jovens e adultos, o estabelecimento de novos atores (individuais e coletivos) a ampliação e o fortalecimento da esfera pública.
2022-12-06T14:49:38Z
Marli Pinto Ancassuerd
Brinquedos e gênero na educação infantil - um estudo do tipo etnográfico no Estado do Rio de Janeiro
Este estudo objetiva identificar as principais representações sociais, de gênero, circulantes no contexto da educação infantil, bem como conhecer como se estabelecem as relações de gênero/poder nesse contexto, sob uma perspectiva foucaultiana. Realizou-se pesquisa do tipo etnográfico em uma unidade pública de educação Infantil de ensino pré-escolar (UEI), no Estado do Rio de Janeiro. Observaram-se as relações das crianças e seus pares, bem como as relações das professoras com as crianças, em sala de aula e nos espaços exteriores, nas horas de recreação. Focalizaram-se, sobretudo, os brinquedos e as brincadeiras das crianças nesse contexto, por considerá-los um dos principais meios de socialização, na faixa etária de 0 a 6 anos. Os dados demonstram que o cotidiano do ensino préescolar, através do currículo, das práticas pedagógicas e das relações que se estabelecem entre as crianças, principalmente no seu brincar, produz representações e relações de gênero/poder que podem se constituir em desigualdades e discriminações entre meninas e meninos e interferir no processo de formação das identidades de gênero das crianças. Assinala-se a necessidade de medidas e ações, tanto no plano das políticas públicas, quanto no cotidiano do ensino pré- escolar, no sentido da desconstrução da díade gênero/poder, no âmbito da educação infantil.
2022-12-06T14:49:38Z
Tania Maria Cordeiro de Azevedo
A proposta educacional da Congregação Canossiana para a educação em Timor-Leste
Esta pesquisa tem por objetivo analisar a proposta pedagógica da Escola Canossa, bem como suas relações com os dispositivos legais pósindependência, os quais regulamentam a política educacional na República Democrática de Timor-Leste. Analisa-se ainda a sua contribuição ao processo educativo nacional. Para tanto, parte-se do estudo da Lei de Educação Básica da RDTL, destacando o paradigma da educação integral, proposto para fundamentar o currículo das escolas timorenses, situando-a no contexto sociocultural e educacional do país, após os conflitos da independência. Também retoma a gênese histórica da implantação da Escola Canossiana em Timor-Leste, analisando sua proposta educacional, cujas bases são buscadas na tradição filosófica. Ao final, discutem-se as condições e o alcance das contribuições que essa proposta pode trazer ao emergente processo civilizatório do país. Como fontes além da literatura filosófica educacional pertinente foram explorados os documentos oficiais do Estado e da Instituição Canossiana. O trabalho terá como resultado a apresentação de subsídios para a complementação, o aprimoramento a educação timorense.
2022-12-06T14:49:38Z
Ervinia Martins Brito
Jovens e adultos em processo de escolarização e as tecnologias digitais: quem usa, a favor de quem e para quê?
As tecnologias digitais compõem um cenário de mudanças em diversas esferas da sociedade. O objetivo deste trabalho foi investigar a presença de tais tecnologias na EJA (educação de jovens e adultos), por meio dos usos que estudantes dizem fazer dessas tecnologias e as possíveis relações desses usos com o processo de escolarização e as aprendizagens que vivenciam. Foram aplicados trinta questionários a jovens e adultos matriculados em salas de EJA de escolas públicas da região da Freguesia do Ó e Brasilândia, na zona noroeste de São Paulo, e realizadas entrevistas de profundidade com cinco dos sujeitos que responderam aos questionários. Os resultados indicam que a maior parte dos sujeitos utiliza as tecnologias digitais fora das escolas para se comunicarem, para se divertirem e aprenderem sobre temas relacionados a projetos pessoais e conteúdos culturais de seu interesse. Também é possível afirmar que a apropriação das tecnologias, explorando suas diversas possibilidades para a realização de projetos individuais ou coletivos, depende de saberes prévios aprendidos na escola. Sem estarem alfabetizados, por exemplo, a capacidade de navegação pela rede fica comprometida, e quanto mais escolarizados, mais os sujeitos da EJA se apropriam das tecnologias digitais. A partir das análises destes resultados são desenhadas recomendações de como os projetos de EJA, as escolas e as políticas públicas podem contribuir para a ampliação dos usos das tecnologias digitais, e para que estes usos auxiliem nos processos de aprendizagem ao longo da vida dos sujeitos da educação de jovens e adultos.
2022-12-06T14:49:38Z
Bianca Maria Santana de Brito
Freinet e Freire: processo pedagógico como trabalho humano
Esta tese é fruto de uma pesquisa bibliográfica que investigou os trabalhos pedagógicos de Célestin Freinet em suas atividades docentes e sua militância por uma educação popular no interior da França e de Paulo Freire em suas atividades de alfabetização de adultos na região nordeste do Brasil antes do golpe militar de 1964 , em seus trabalhos educacionais no exílio e em sua atuação como Secretário da Educação na cidade de São Paulo. Ambos desenvolveram sistemas próprios de educação, tendo como base a categoria trabalho e como objetivo a realização de uma Educação Popular. Freinet procurou desenvolver um modo de fazer educação primária de qualidade num meio pobre, a partir de uma concepção que colocava o educando no centro do trabalho educativo em todas as atividades escolares. Para tanto, produziu uma grande quantidade de diferentes técnicas pedagógicas, sempre focadas numa Educação do Trabalho, com resultados materiais e intelectuais úteis para a vida de cada um de seus alunos. Paulo Freire produziu metodologias e técnicas didáticas que, além de se apoiarem na importância do trabalho como atividade transformadora do mundo e produtora de cultura que ele codificava na palavra práxis tinham como objetivo conscientizar os educandos de sua condição de humanidade, proporcionando-lhes condições de construírem a própria libertação. Esta tese demonstra como um e outro, respeitadas as peculiaridades de seus trabalhos e dos contextos em que atuaram, ainda que se utilizando de nomenclaturas diferentes e lidando com sujeitos de idades completamente diversas, construíram práticas populares de ensino com base nos princípios de educação e trabalho, tendo como base para suas obras o processo pedagógico enquanto trabalho humano.
2022-12-06T14:49:38Z
Flávio Boleiz Junior
A cidade e o governo dos homens: sobre o lastro educacional da urbanidade contemporânea
A presente investigação teve como alvo analítico a aliança discursiva entre cidade e educação na atualidade, a partir de um tipo de problematização fundamentado no pensamento de Michel Foucault. Mais especificamente, foram mobilizadas as teorizações foucaultianas sobre representação, verdade, história e genealogia com o intuito de embasar os procedimentos de endereçamento às fontes eleitas. Para tanto, partiu-se da constatação de uma profusão de iniciativas voltadas ao fomento de medidas de cunho pedagógico/formativo nos mais diversos contextos e equipamentos urbanos contemporâneos, nos quais práticas educacionais são flagradas permeando variadas circunstâncias externas ao âmbito exclusivamente escolar. Destaca-se aí a proposta internacional de cidade educadora, a qual constitui a temática fulcral em análise neste estudo, sendo considerada um horizonte tão apregoado quanto fugidio de articulação entre determinadas formas de organização citadina e modos de existência possíveis aos seus habitantes. Com base na hipótese de que o lastro educacional de iniciativas dessa ordem não seria algo exclusivo do tempo presente, optou-se por perspectivar tal horizonte segundo um plano estratégico composto por outros modelos de cidade considerados ideais em diferentes momentos históricos. Assim, a primeira parte da investigação consiste na forja de um cenário analítico que se debruçou sobre alguns projetos urbanos ficcionais; dentre eles, quatro referências históricas receberam destaque: A República, de Platão; Utopia, de Thomas More; Cidade do Sol, de Tommaso Campanella; e Walden II, de Burrhus Frederic Skinner. Visou-se, então, esquadrinhar cada um desses modelos idealizados, adotando como vetor de leitura os arranjos educacionais a eles atinentes. Uma vez percorrido tal cenário e tendo em vista o que ele permitiu esboçar acerca das relações entre educação, modos de governar e processos de subjetivação, o problema urbano-educativo contemporâneo foi examinado mais detidamente. Em uma espécie de jogo de claro-escuro analítico, tratou-se ora de interpelar as racionalidades que o sustentam, ora de confrontá-lo com os ideais de cidade previamente analisados, de modo que, ao final, fosse possível posicioná-lo no bojo de um panorama complexo no qual se emaranham tanto linhas acirradas de governo das condutas, quanto irrupções heterotópicas imprevistas pelas idealizações que o promovem. Mediante tais ponderações críticas, pode-se admitir que a educação ocupa um lugar paradoxal no encontro entre a cidade e seus homens, sendo convocada, ao mesmo tempo, a afiançar o exercício da liberdade e a sujeitá-lo aos intentos do ordenamento urbano.
2022-12-06T14:49:38Z
Elisa Vieira
Azanha e a democratização do acesso ao ensino: 1967-1970
Este trabalho visa compreender a concepção de democratização do acesso ao ensino em José Mário Pires Azanha a partir dos vínculos entre ação política e elaboração conceitual. Em uma época marcada pela crença de que a escola pública é, sob todos os aspectos, um fracasso, um exame da obra teórica e do percurso político de Azanha pode se mostrar relevante para pensar e fomentar políticas públicas capazes de dar um significado à escolarização pública. Seus mais de 50 anos como professor e administrador público, sua atuação política e grande parte de sua obra foram dedicadas à defesa de uma concepção específica de democratização do ensino, e seus exercícios teóricos sobre o tema baseiam-se nas medidas que levou a cabo em sua passagem pela Secretaria da Educação do Estado de São Paulo durante a administração Ulhôa Cintra (1967-1970). Ao estudar a noção de democratização do ensino veiculada por Azanha e sua implantação, este trabalho lança luz sobre a delicada questão das políticas educacionais durante a ditadura militar brasileira (1964-1985). Mesmo num contexto de crescente cerceamento das liberdades políticas, o Estado adotou políticas visando democratizar o direito social à educação. Esta pesquisa procura matizar o papel dos inúmeros atores envolvidos nesse complexo cenário, que envolveu diferentes projetos pedagógicos e posicionamentos políticos entre um aparato fortemente repressivo e as diversas modalidades de resistência que se desenhavam ao longo do processo.
2022-12-06T14:49:38Z
Ariam José Ferreira de Castilho Cury
Leitura e escrita de professores: socialização e práticas profissionais
Levando em conta os processos de socialização familiar, escolar e profissional de um grupo de professores, este trabalho propõe examinar as repercussões de um programa de formação continuada nas práticas de ensino de docentes da Educação Básica, em particular, nas práticas de leitura e escrita. O referencial teórico do estudo vale-se de conceitos de Bourdieu, Lahire, Elias e Setton. Por meio do exame de diferentes arranjos das experiências socializadoras dos professores, o trabalho indaga sobre as possibilidades de transformação das práticas docentes, sobretudo, as relacionadas ao ensino da leitura e da escrita pelo fato de serem as que foram priorizadas e enfatizadas pelo referido programa de formação. O trabalho empírico, de cunho etnográfico, adotou como procedimentos metodológicos a observação participante e a entrevista semiestruturada. Oito professores (seis mulheres e dois homens) egressos do PEC-Municípios programa especial de formação de professores de modelo semipresencial que diplomou alguns milhares de professores em nível superior foram acompanhados. As análises desenvolvidas indicam que a transformação do habitus docente por meio de dispositivos de formação continuada só se faz possível mediante determinadas condições. Professores submetidos a outras experiências formativas similares, oferecidas pelas secretarias de educação e/ou buscadas pelos docentes em outros contextos, apresentam maior probabilidade de alterar suas práticas pedagógicas. Por outro lado, a força da experiência socializadora secundária pode funcionar como um fator que dificulta fortemente a mudança das práticas, favorecendo a manutenção de uma perspectiva tradicional do ensino. Igualmente, a falta de condições objetivas no contexto profissional acarreta conflitos entre crenças e disposições para agir por parte dos professores, resultando em práticas frustradas ou apropriações superficiais que funcionam como travas à transformação do habitus docente. Assim, a socialização profissional, diante das forças das socializações primárias e secundárias e das condições contextuais de trabalho, no máximo, pode enfraquecer certas disposições docentes contribuindo, desse modo, para a formação de um habitus pedagógico híbrido (Setton). A respeito das práticas de leitura e escrita dos professores, as análises revelam que as potencialidades do modelo de formação continuada em foco são limitadas para uma transformação de maior abrangência, uma vez que atingem tão somente as práticas de ler para estudar e de ler para fins de trabalho. A hipótese inicial de investigação relacionada a um possível fomento do gosto pela leitura e escrita por prazer nos professores cursistas, tendo como pano de fundo a simetria invertida, não foi confirmada. Tais práticas apareceram cerceadas, principalmente, pela falta de condições objetivas de cunho material e temporal. O exame dos processos que configuram o habitus dos professores ao longo da vida, nos vários espaços de socialização em que foram formados, confirmou os pressupostos das teorias da ação, porém, indicando a necessidade de novos aprofundamentos que possam conduzir a uma compreensão maior sobre os determinantes da prática pedagógica e suas relações com o capital cultural herdado do campo familiar e escolar. No nível micrológico em que as análises foram desenvolvidas, foi possível chegar a um resultado que vai ao encontro da tese da reprodução cultural de Bourdieu: professores que nutrem o gosto por ler e escrever são melhores docentes quanto ao estímulo do gosto pela leitura e escrita de seus alunos.
2022-12-06T14:49:38Z
Eliana Scaravelli Arnoldi
Políticas educacionais em Angola: desafios do direito à educação
Este estudo examina o modo como a política pública educacional vigente efetiva a educação como um direito fundamental previsto na Constituição da República de Angola e em tratados internacionais como a Declaração Universal dos Direitos Humanos. O fundamento deste exame se assenta no princípio de que no Estado Constitucional, a ação deste resume-se na proteção e na garantia dos direitos individuais e coletivos conducentes a conferir valor a dignidade humana. Por isso, à educação, como política pública social e tarefa do Estado, é-lhe conferida créditos, quando garante o acesso de todos à ela, e a garantia da qualidade da educação oferecida aos que acedem a escola. Contudo, o sistema de educação em Angola, em diferentes momentos históricos, não assentou a sua ação necessariamente no princípio do Estado Constitucional, apesar de, depois de 1975, a educação ter sido formalmente declarada um direito. Esse processo histórico construiu obstáculos à efetivação do direito. Com a LBSE (Lei 13/01) teve início a implementação da política educacional que visou ajustar a educação à opção de Estado Democrático de Direito no contexto da segunda República. Mas, essa lei não fundamenta a educação como um direito a efetivar. Todavia, a materialização da política no sistema de educação revela a presença de ações que respondem às premissas do direito à educação. Tendo esses elementos em consideração, definimos como objetivo do estudo a compreensão de como é articulada a política em educação, especificamente no seu conteúdo, na efetivação do acesso e do atendimento como garantia do direito à educação em Angola. O referido estudo sustentou-se na análise documental e em referentes bibliográficos. Na categoria de documentos, analisamos alguma legislação de cada período abordado no estudo, isso serviu para situar alguns ideais políticos formalmente vigentes nessas realidades. Acreditamos que a análise da educação e das políticas públicas que a sustentam precisam considerar o ambiente econômico, político e o quadro legislativo em que ela se insere. Pudemos compreender que os obstáculos à efetivação do direito à educação resultam de opções de políticas anteriores que o prejudicaram a favor do cumprimento de agendas de governo instituídos. A política de educação corrente acentua a sua ação em dar resposta às ideias que sustentam a mundialização da educação, estas baseiam-se essencialmente nos fundamentos gerais da agenda mundial da educação. Isso concorre para a homogeneização na concepção de políticas locais. Esta perspectiva reduz o foco da abordagem que se espera que lide com as questões concretas da realidade local visando a superação destes obstáculos históricos à efetivação do direito, por isso, demandando o alargamento da arena da definição da agenda educacional para a participação efetiva da sociedade civil e prescindindo do centralismo vigente dominado pela ação do governo e das agencias internacionais.
2022-12-06T14:49:38Z
Isaac Pedro Vieira Paxe
Por uma história econômica da escola: a carteira escolar como vetor de relações (São Paulo, 1874 -1914)
O estudo da materialidade da escola, no caso, a carteira escolar, evidencia como questões de ordem econômica e administrativa estão relacionadas à estrutura e ao funcionamento das instituições de ensino. Por isso, neste trabalho, investiga-se a emergência da escola como mercado consumidor, do Estado como comprador e da indústria de mobiliário escolar, em São Paulo, entre o fim do século XIX e início do século XX. Para tanto, as fontes utilizadas foram inventários de bens, ofícios e correspondências de diretores e professores solicitando material escolar (documentos produzidos no interior da escola); notas fiscais de compra e/ou importação, catálogos de fábricas de móveis escolares, almanaques, recibos de fornecedores (fontes vinculadas ao comércio e à indústria escolar); manuais e revistas pedagógicas que discutem a relação entre a carteira escolar e a saúde dos alunos, os fundamentos higiênicos, pedagógicos, antropométricos e ergonômicos do mobiliário escolar (documentos produzidos por especialistas); relatórios, lista e livros de almoxarifado (documentos provenientes da administração pública). A opção metodológica consistiu em tomar a carteira como fio condutor da análise, seguindo os rastros deixados na cultura material escolar, como artefato escolar e industrial; na história econômica, como mercadoria; na história conectada, como objeto que circula entre países e culturas. Tal procedimento mostrou que a indústria teve uma contribuição significativa na expansão e criação das condições físicas da escola elementar, moderna e de massa. Elucida também os desafios econômicos e administrativos do Estado, como prestador de serviço público, para suprir materialmente a escola e permitir a implantação da obrigatoriedade escolar. Como resultado, evidenciou-se que as carteiras escolares são vetores de relações pedagógicas, higiênicas, culturais e comerciais. Portanto, além de um objeto escolar, ela é também um artefato industrial mostrando que a história e a configuração da escola não se definem somente no interior dela, mas na relação com o mundo externo, em dimensões econômicas, políticas e sociais. Isso implica em que as políticas públicas e práticas administrativas voltadas para a escola na sua formulação e introdução não podem levar em conta somente as questões internas à instituição. A compreensão da e a interferência na cultura escolar demandam atenção também às relações extraescolares.
2022-12-06T14:49:38Z
Wiara Rosa Rios Alcântara
Movimentos e práticas epistêmicos e suas relações com a construção de argumentos nas aulas de ciências
Este trabalho tem como objetivo central compreender as possíveis relações entre os movimentos e práticas epistêmicos produzidos pelo professor e por alunos e a construção de argumentos. Apresentamos a análise das interações discursivas entre uma professora de ciências e alunos de sétimo ano do ensino fundamental ao longo de uma sequência didática intitulada O problema do costão rochoso. A metodologia foi feita a partir de uma abordagem qualitativa e envolveu a análise das transcrições das aulas registradas em vídeo. A sequência didática se baseou no modelo de teorias competitivas, em que são apresentadas hipóteses que podem sustentar uma afirmação. Além de escolher qual hipótese seria a adequada, os alunos deveriam também elaborar justificativas sobre as escolhas que fizeram. As análises realizadas abrangeram a identificação das relações entre tempo e práticas científicas escolares ou de exposição processual; identificação dos movimentos e práticas epistêmicos oriundos da interação entre professora e alunos; identificação do produto e processo argumentativos e análise comparativa dos discursos orais e escritos dos alunos durante a resolução do problema proposto. Foi possível constatar que as práticas epistêmicas muitas vezes especificam o movimento epistêmico evidenciando o objetivo a que ele se propõe, pois o mesmo movimento epistêmico pode estar relacionado a práticas epistêmicas diferentes. Na segunda parte da aula foram encontradas práticas epistêmicas referentes à construção de argumentos, as quais se relacionam principalmente à avaliação do argumento e à verificação da interpretação de dados/evidências. Os alunos de maneira geral, por meio das interações discursivas, e do papel mediador do professor, foram capazes de identificar os dados, organizar as informações e escolher uma das hipóteses, e produziram discursos orais e escritos, os quais apresentaram características bastante distintas em relação a estrutura e composição.
2022-12-06T14:49:38Z
Mariana Guelero do Valle
Os bens comuns intelectuais e a mercantilização
Esta tese investiga as relações entre os bens comuns intelectuais e a mercantilização, e os efeitos dessas relações, principalmente para o universo da educação. Seus objetivos centrais são: apresentar as principais teorias sobre bens comuns, e avaliá-las quanto à capacidade de detectar e equacionar essas relações, e quanto à adequação para abordar bens comuns intelectuais; analisar se bens comuns e mercantilização são incompatíveis, e até que ponto podem coexistir; verificando, em casos existentes de novos modelos de negócio que envolvem o compartilhamento de bens intelectuais, se a mercantilização pode surgir a partir de bens comuns intelectuais, e indicando, em caso positivo, se o saldo resultante de compartilhamento e mercantilização nesses diferentes modelos é socialmente positivo ou não. A análise da mercantilização é feita de uma perspectiva conceitual (baseada em Marx e Polanyi) e histórica, abordando a transição do feudalismo ao capitalismo (e sua relação com o cercamento dos bens comuns), a ascensão do neoliberalismo, e o avanço de mecanismos específicos de mercantilização de bens intelectuais (a propriedade intelectual e os sistemas de travas tecnológicas). A análise das teorias de bens comuns centra-se numa leitura crítica da corrente mais consolidada: a neoinstitucionalista, formada em torno dos trabalhos de Elinor Ostrom; avalia-se seus principais méritos (a refutação empírica da noção da tragédia dos comuns; e a identificação dos design principles frequentes em bens comuns longevos), pressupostos (como o individualismo metodológico e a teoria da escolha racional) e limitações (como pontos cegos em relação a poder e desigualdade, e a restrição à escala local). Discute-se ainda autores que apresentam abordagens alternativas, como aqueles mais próximos ao marxismo (e, em particular, Hardt & Negri), e as complementaridades e contrapontos que oferecem à corrente neoinstitucionalista, particularmente quanto às limitações nela identificadas. Em relação à aplicação dessas teorias a bens intelectuais, detecta-se a ampla influência da categorização econômica de bens (utilizada na corrente neoinstitucionalista), e argumenta-se pela necessidade de uma categorização mais dialética; recomenda-se ainda uma nova abordagem para o princípio das fronteiras. Discute-se as relações da educação com a mercantilização e os bens comuns, apontando os efeitos de ambos sobre as possibilidades de acesso e apropriação de bens intelectuais. Por fim, a tese apresenta e analisa cinco casos relacionados a novos modelos de negócio que envolvem compartilhamento de bens intelectuais. Conclui-se que em todos eles há a possibilidade de surgimento de mercantilização, de diversas formas, mas que o saldo resultante de mercantilização e compartilhamento varia; esses casos são, do melhor ao pior saldo: o crowdfunding (em que pode ocorrer mercantilização dos serviços de intermediação); o acesso aberto ouro (em que há mercantilização do espaço de publicação, que assume forma particularmente nociva nos periódicos predatórios); dois casos ligados à participação de empresas no desenvolvimento do software livre (o Android e os patches ck, em que os projetos podem ser direcionados na gestão e pelo custeio de modo a favorecer estrategias comerciais de empresas); e a publicidade comportamental online (em que ocorre uma mercantilização de segunda ordem: a da audiência).
2022-12-06T14:49:38Z
Miguel Said Vieira
A atividade pedagógica da educação física: a proposição dos objetos de ensino e o desenvolvimento das atividades da cultura corporal
A atividade pedagógica da Educação Física lida com as atividades da cultura corporal, tal qual o jogo, a luta, a dança, a mímica e a ginástica, que podem ser consideradas os objetos de ensino dessa disciplina. A tese defendida neste trabalho é que os objetos de ensino da Educação Física devem ser elaborados a partir da explicação e sistematização das dimensões genéricas que constituem as atividades da cultura corporal. O objetivo da pesquisa foi elaborar uma proposição sobre os objetos de ensino da Educação Física como uma expressão do processo histórico de desenvolvimento das atividades corporais. O trabalho fundamentou-se nos princípios teórico-metodológicos da Teoria Histórico-Cultural e do Materialismo Histórico e Dialético, notadamente no princípio referente à análise lógico-histórica dos fenômenos. Essa fundamentação nos permitiu investigar as condições necessárias para o surgimento das atividades da cultura corporal (sua gênese), bem como as relações essenciais que as constituem (sua estrutura). Destaca-se dessa investigação duas sínteses principais. A primeira delas refere-se às dimensões simultaneamente humanizadora e alienadora das atividades da cultura corporal, dimensões essas que se encontram sintetizadas no fenômeno Esporte como a mediação central que permitiu o desenvolvimento dessas atividades em nossa sociedade. A segunda síntese refere-se às proposições das relações essenciais da cultura corporal às quais denominamos de: criação de uma imagem artística com as ações corporais, controle da ação corporal do outro e domínio da própria ação corporal. Essas relações, sistematizadas em seus aspectos gerais, constituem-se nos objetos de ensino da Educação Física, passando a ser o principal critério pedagógico para a determinação dos conteúdos e modos de organização do ensino dessa disciplina em uma perspectiva histórica e cultural da formação humana. A elaboração da tese nos permite afirmar que a Educação Física deve ensinar essas relações gerais e essenciais, que se manifestam nas muitas e diferentes formas das atividades da cultura corporal e que expressam modos de ação e capacidades humano-genéricas desenvolvidas pela prática social. Essa conceituação da Educação Física permite que ela contribua para concretizar o objetivo geral do trabalho educativo escolar a partir da especificidade de suas atividades: a formação do pensamento teórico dos estudantes e professores.
2022-12-06T14:49:38Z
Carolina Picchetti Nascimento
A dialética dos conhecimentos pedagógicos dos conteúdos tecnológicos e suas contribuições para a ação docente e para o processo de aprendizagem apoiados por um ambiente virtual
Esta pesquisa investigou as contribuições do conhecimento pedagógico do conteúdo tecnológico para as competências docentes e para o processo de aprendizagem apoiado por ambiente virtual. Caracterizou-se como uma investigação qualitativa, de natureza descritivo-exploratória, em um contexto didático, com observação participante e abordagem netnográfica. Foi realizada na disciplina Ambientes de Aprendizagem Cooperativa Apoiados em Tecnologias da Internet: Novos Desafios, Novas Competências (EDM 5053), pertencente ao quadro de disciplinas da área de concentração da pósgraduação Didática, Teorias de Ensino e Práticas Escolares, da Faculdade de Educação da USP. Foram utilizadas técnicas qualitativas de coleta de dados (diário de bordo, formulários de avaliação processual, registros em chats, fóruns de discussão, entrevista e grupo focal). Os dados coletados foram analisados sob a perspectiva das categorias de autopoiese, metacognição e interação, relacionadas no horizonte interpretativo de um processo de ensinoaprendizagem, que dialogou com o modelo explicativo da ação docente Technological Pedagogical Content Knowledge (TPACK). Dentre as contribuições, destacou-se o entendimento de que os objetivos didáticos são alcançados na inter-relação com os estudantes e na relação dialética teoria e prática, e não pela mera presença de infraestrutura tecnológica disponível nas aulas. As propostas pedagógicas devem estar abertas ao diálogo, à criatividade e à negociação de sentidos para a construção cooperativa do pensamento autônomo e exercício da liberdade. A ação docente experiente representou uma variável que reiterou a exigência de metodologias e estratégias representadas também pelo modelo TPACK, isto é, a articulação dos diferentes saberes, com destaque para o conhecimento pedagógico de conteúdo tecnológico. Este se constituiu em um aspecto orientador de reflexões necessárias para elaboração de propostas pedagógicas, apoiadas por tecnologias digitais de informação e de comunicação (TDIC), ou seja, fundamentou a importância do conhecimento docente em diálogo com o conhecimento discente, na seleção das tecnologias, no estudo de suas melhores estratégias metodológicas, qual sua intencionalidade educativa, com vistas ao atendimento das expectativas de aprendizagem e demandas de conhecimentos específicos, articuladas aos conteúdos tecnológicos. A continuidade de pesquisas na área pode levar à compreensão aprofundada do tema e impulsionar a pedagogia apoiada por TDIC, com a finalidade de enriquecer experiências docentes e discentes.
2022-12-06T14:49:38Z
Rosária Helena Ruiz Nakashima
A pedagogia universitária e suas relações com as políticas institucionais para a formação de professores de educação superior
A pesquisa apresentada tem como objetivo geral analisar a Pedagogia Universitária e suas relações com as políticas institucionais para formação de professores da Educação Superior com vista à constituição de seu campo de conhecimento. A questão central observa como o campo de conhecimento da Pedagogia Universitária se constitui e se relaciona com as políticas institucionais para a formação de professores da Educação Superior. Como objetivos específicos, busca-se analisar as concepções de formação subjacentes aos programas e espaços formativos oferecidos pelas instituições; estudar a relação entre a formação e o desenvolvimento profissional docente; compreender as motivações e legitimidades que levam as instituições a oferecer esses programas e espaços formativos; e conhecer suas estrutura e organização. Privilegiamos a fecundidade do movimento e da mudança na apreensão do objeto de pesquisa com aproximação ao método dialético, realizando a análise de conteúdo a partir de Bardin (2011). Nossas abordagens epistemológica e metodológica nos conduziram a trabalhar com as categorias analíticas: Universidade, Pedagogia Universitária e Políticas de formação de professores para a Educação Superior, amalgamando-as com as categorias temáticas apreendidas do campo empírico: Política, Cotidiano e Espaço. Sustentando nosso estudo, recorremos às contribuições de Vázquez (2011), Kosik (1976), Santos, M. (2012a 2012b), Heller (2008), Bobbio (2000), Demo (1994), Veiga (2006, 2012), Cunha, M. I. (2006, 2010), Pimenta (1998), Almeida (2006, 2011, 2012), Almeida e Pimenta (2009) e Pimenta e Almeida (2011). Os dados revelaram que a Pedagogia Universitária é um campo de conhecimento profícuo e em expansão que contribui na proposição de políticas institucionais de formação de professores da Educação Superior, sobretudo quando se trata da formação pedagógica. Contudo, nesse cenário, as instituições desenvolvem a formação de professores através de ações, programas e espaços formativos tensionados pela ausência de políticas estatais contributivas para o delineamento do perfil do professor da Educação Superior. Nesses espaços e programas, a concepção de formação subjacente resvala na formação permanente e continuada vinculada ao desenvolvimento profissional docente. Porém, essas concepções convivem paritariamente com noções da formação tradicional e técnica, nas quais a didática aparece como o domínio de ferramentas para ensinar, além desta ser confundida com a pedagogia. As relações entre a formação e o desenvolvimento profissional docente ainda não são realidade concreta, nos programas e espaços formativos investigados, pois as instituições têm seus programas centrados nas necessidades institucionais e pouco contemplam as fases da carreira docente. As motivações e legitimidades desses programas estão relacionadas às demandas oriundas do contexto de mudanças, especialmente a expansão da Educação Superior. Ademais, as instituições se empenham em promover a participação do professor no estabelecimento desses programas estruturados e organizados, privilegiando a reflexão coletiva sobre as práticas desenvolvidas no cotidiano das instituições e no dia a dia da sala de aula.
2022-12-06T14:49:38Z
Alda Roberta Torres
Práticas de leitura no teatro de grupo: aproximações com a escola
Visando estabelecer pontos de contato entre leitura, teatro e educação, a presente pesquisa tem por objetivo investigar práticas de leitura envolvidas nos processos criativos de grupos de teatro, especificamente a Cia. Paidéia de Teatro (Cia. Jovem Paidéia) e a Cia. Antropofágica (PY). Essas duas companhias integram o atual teatro de grupo paulistano e foram contempladas pelo Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a cidade de São Paulo ao longo de algumas edições. Na primeira etapa da pesquisa, foram realizadas observações e entrevistas junto aos grupos teatrais em questão (pesquisa de campo). Ainda nessa etapa foi feito um levantamento no Acervo do Fomento ao Teatro da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo. A leitura dos projetos dos demais grupos de teatro contemplados pela lei forneceu maior compreensão das ações culturais decorrentes do programa, bem como do panorama teatral delineado por essa política pública. A busca pelo entendimento do funcionamento do programa e dos grupos fomentados, aliada aos estudos sobre leitura nos grupos de teatro (in locu), forneceu subsídios que sustentam uma de nossas hipóteses de pesquisa: a configuração de práticas culturais dentre elas, a relacionada à leitura advinda do Programa de Fomento ao Teatro. A partir da coleta de dados e do referencial teórico adotado, a figura do líder surge como fundamental na condução das práticas coletivas de leitura, cuja mediação, segundo a análise, fundamenta-se em formação literária, cultural e política ampla por parte dos diretores teatrais. Elementos como o improviso, o trabalho com o corpo, com a escuta, e a formação pela ação e pela experiência, entre outros aspectos, também trazem implicações às práticas de leitura. Por fim, nosso estudo está centrado na ideia de que as práticas teatrais de leitura desenvolvidas por grupo que mantêm, como integrantes em seus núcleos de formação, jovens em faixa etária escolar possam iluminar as práticas escolares de leitura.
2022-12-06T14:49:38Z
Mei Hua Soares
Os desafios de definir um bom professor e a herança das escolas alternativas paulistanas: perspectivas de coordenadoras pedagógicas e professoras do ensino fundamental I
Diante de diferentes qualificações usadas na descrição do que seja um bom professor do ensino básico, a presente pesquisa se propõe a analisar a maneira pela qual determinadas professoras e coordenadoras pedagógicas são capazes de identificá-lo na sua prática profissional. Foram investigadas, na literatura especializada, as teorias pedagógicas e psicológicas que regularam as concepções de docência escolhidas pelas escolas em diferentes momentos. Tendo em vista a atual hegemonia da chamada \"pedagogia das competências\" e sua definição do \"bom professor\" como \"professor competente\", este estudo buscou compreender a forma pela qual essas ideias são consideradas no contexto investigado. O estudo tomou como ponto de partida, para tanto, as ponderações de José Pires Azanha e a leitura desse autor de obras de Israel Scheffler, Ludwig Wittgenstein e de Alain (Émile Chartier). Como base empírica, foram escolhidas profissionais de escolas privadas da cidade de São Paulo, que, pelas suas trajetórias na história recente, são consideradas como referência. Trata-se de estabelecimentos que se originaram, direta ou indiretamente, das \"escolas alternativas\" dos anos 1970, procuradas por pais que se autoconsideravam intelectuais de esquerda e contrários à ditadura militar. Foram selecionadas escolas cujos projetos pedagógicos buscam se contrapor às chamadas escolas tradicionais, seja pela ambição por mudanças na relação professor-aluno, seja pelo destaque ao papel ativo dos estudantes. Realizou-se, nessas escolas, uma pesquisa de campo de caráter qualitativo, por meio de entrevistas semiestruturadas com as coordenadoras do Ensino Fundamental I e com as professoras por elas apontadas como \"boas professoras\". Nas entrevistas, foram identificados os referenciais teóricos e as influências que, desde o movimento da Escola Nova até o chamado construtivismo, norteiam tanto o trabalho das coordenadoras pedagógicas como o das professoras. Constatou-se que as \"boas professoras\" buscam preservar seus pontos de vista, mesmo diante de condições adversas colocadas pelo mercado competitivo e da inserção dessas escolas na lógica neoliberal e empresarial, em que discursos de competência e de excelência ganham primazia. Notou-se descrições amplas, difusas e de grande labilidade na definição do que professoras e coordenadoras consideram como \"bom professor\". As professoras, todavia, mostraram-se menos preocupadas com a coerência, conscientes da complexidade de seu ofício e do caráter retórico do uso das teorias. Na comparação entre as entrevistas das coordenadoras pedagógicas e das professoras, constatou-se que, em função de exigências diferentes e das posições diversas que ocupam nas organizações escolares, evidenciam-se algumas visões conflitantes e percepções opostas. No caso das coordenadoras, esses discursos contraditórios enaltecem simultaneamente, como característica do bom professor, a autonomia e a capacidade de submissão a uma pedagogia de resultados e aos controles avaliativos, com uma demanda do professor ser tradicional e inovador ao mesmo tempo.
2022-12-06T14:49:38Z
Patrícia Rossi Torralba Horta
A inserção de bebês na creche e a separação como operador simbólico
Este trabalho de pesquisa consiste num esforço teórico com foco de interesse na dinâmica subjetiva vivenciada por bebês em processo de estruturação psíquica ao serem defrontados com a primeira experiência escolar, tendo como referencial a conexão psicanálise e educação. O motivo que inspirou a investigação foi a busca por um pouco de entendimento em relação aos impasses vivenciados nessa passagem. O choro e a dificuldade experimentada pela mãe em confiar seu bebê a alguém desconhecido conferem à entrada da criança na creche um caráter traumático, pois representam uma separação, no discurso corriqueiramente utilizado. Para isso, encontrou-se suporte nas noções de constituição psíquica e de campo do Outro e nas operações lacanianas de alienação e separação que permitiram estabelecer um contraponto entre estruturação subjetiva e noção de desenvolvimento infantil. A partir dessa abordagem e da noção lacaniana de separação como uma operação fundante do psiquismo, foi possível propor uma leitura dos impasses que permeiam a inserção da criança no mundo público como mais uma vicissitude do vir a ser um sujeito.
2022-12-06T14:49:38Z
Andréia Aparecida Oliveira de Souza
Remuneração dos professores da rede privada de educação básica na cidade de São Paulo
O objeto de estudo desta pesquisa foi o perfil e a remuneração de docentes que atuaram até 2018 na rede privada de educação básica na cidade de São Paulo. Dado o crescimento do setor privado na educação básica na última década, o objetivo foi analisar as características dos docentes atuantes na iniciativa privada de ensino e sua remuneração, e investigar se houve alteração destes aspectos no período. No primeiro estágio da pesquisa, realizou-se uma análise da produção acadêmica cujo tema central foi a escola privada no Brasil. Foram encontradas produções acadêmicas nas áreas de Sociologia da Educação, Administração Escolar, Política e Economia da Educação e Economia. Posteriormente, buscaram-se trabalhos sobre remuneração de professores da educação básica e, a partir disso, lançou-se mão de uma revisão bibliográfica por meio de pesquisas no Catálogo de Teses e Dissertações da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e nas revistas da área de Educação de grande circulação nacional. Na análise dos dados da cidade de São Paulo, utilizou-se o Censo Escolar de 2007 a 2018, para examinar e apontar as mudanças ocorridas no setor privado dentro do período, levando em consideração as matrículas e os estabelecimentos para cada distrito da cidade de São Paulo e realizando o georreferenciamento desse crescimento. Por fim, o trabalho trouxe à tona a discussão sobre o perfil e a remuneração dos professores da rede privada no Brasil e na cidade de São Paulo, utilizando como fontes de dados o Censo Escolar, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad Contínua) e a Relação Anual de Informações Sociais (Rais). Concluiu-se que a rede privada de ensino na cidade de São Paulo é muito heterogênea em termos de demanda e oferta e, consequentemente, atraiu e contratou diferentes tipos de perfil de professores, o que também se refletiu em remunerações diversificadas. Mais especificamente sobre a remuneração dos professores do setor privado, em âmbito nacional e na cidade de São Paulo, os valores variaram, a depender de três fatores: a) jornada semanal; b) formação do professor; c) etapa educacional em que o professor leciona. Este último fator foi uma característica marcante na análise salarial do setor privado em contraposição ao setor público, pois esta diferença salarial está presente nas Convenções Coletivas de Trabalho que determinam o piso da categoria e nos dados de remuneração observados por meio da Rais. Para o piso da categoria na cidade de São Paulo, verificou-se que o aumento real foi muito pequeno em duas décadas de análise. Sobre os valores médios, houve aumento salarial para todos os professores da rede privada em todos os níveis, fruto do crescimento econômico observado no período. No entanto, constatou-se imensa heterogeneidade salarial nessa rede em vista dos altos coeficientes de variação e pelos valores de posição (quartis e mediana) calculados a partir dos dados coletados, confirmando a complexidade e diversidade do setor privado da educação básica.
2022-12-06T14:49:38Z
José Quibao Neto