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OBJETOS DE ENSINO NOS MUSEUS ESCOLARES: OS USOS PEDAGÓGICOS DAS “CABEÇAS ÉTNICAS” E O DISCURSO SOBRE OS TIPOS RACIAIS NA HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO (1900-1930)
Os museus escolares, aplicando o método intuitivo ou Lições de Coisas, transpondo a pedagogia do ouvir para o do olhar, visavam auxiliar o professor no ensino escolar por meio de objetos naturais, pedagógicos ou réplicas. Em levantamento realizado em museus localizados em espaços escolares na Região Metropolitana de Porto Alegreverificou-se em dois acervos de escolas privadas a presença de bustos de gesso, representações dos diferentes tipos humanos. A partir deste dado empírico, algumas inquietações surgem em relação aos usos pedagógicos destas cabeças étnicas e de como eram utilizadas em relação ao método intuitivo. No momento do surgimento dos museus escolares no interior das escolas normais, teorias estavam povoando as discussões dos intelectuais da educação. Postulavam sobre a existência de diferentes tipos humanos, cuja determinação se comprovava pela relação ou ação de vários genes na espécie. Estas discussões contribuíram para o fortalecimento de uma interpretação sobre a existência de uma raça ideal, desejada à sociedade e justificada sob os prismas científico-biológicos, onde os comportamentos humanos passam a ser gradativamente encarados como resultado imediato de leis naturais e biológicas. O objetivo deste trabalho é mapear os museus escolares que possuem estes bustos, permitindo a verificação e análise da utilização destes no ensino, e suas possíveis relações com o método intuitivo. Este estudo supõe que as cabeças eram utilizadas com vistas a aproximar os alunos dos tipos raciais, cuja caracterização embasava-se nas teorias científicas do contexto, a partir do método intuitivo.
2014
Contri Paz, Felipe Rodrigo
“BONS MODOS À MESA”: A INSERÇÃO DA ELITE ARACATIENSE NO PROCESSO CIVILIZADOR CAPITALISTA ATRAVÉS DOS OBJETOS DE MESA E COZINHA (1850 - 1890)
O estudo em tela analisa a inserção das elites aracatienses no chamado processo civilizador capitalista a partir da cultura material, representada nos conjuntos de chá e aparelhos de jantar de origem europeia e consumidos pelas referidas classes entre os anos de 1850 a 1890, na cidade de Aracati, situada no litorallestecearense. Consideramos que a cultura material constitui uma significativa fonte de estudo para entendermos como se deu a inserção do referido grupo no processo civilizador capitalista. O conceito de tradução é o primeiro a orientar nosso estudo. Este significa as leituras, ou releituras feitas sobre ideias, técnicas, e a produção material. O segundo conceito é o de processo civilizador capitalista significando as experiências civilizadoras e capitalistas forjadas, ao mesmo tempo e de forma complementar, pela mundialização do capitalismo. As fontes utilizadas nesta pesquisa foram: peças da coleção, termo de propriedade e catálogos do Museu Jaguaribano, na cidade de Aracati. A metodologia utilizada foi o diálogo entre as fontes buscando entender tal processo e a influência deste nos hábitos e costumes locais.
2014
Gomes Bezerra, Ana Paula
O GRUPO DE VANGUARDA CULTURAL: ARTE E POLÍTICA NOS ANOS 1960
Durante os anos 1960, as esquerdas buscaram uma convergência entre arte e política, gerando as experiências da chamada arte engajada, da qual a mais significativa foi o Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes. Essas iniciativas buscavam produzir uma arte que expressasse aqueles problemas considerados fundamentais para o desenvolvimento do país. Tratava-se de incentivar uma arte popular, destinada ao povo, ou seja, àqueles grupos sociais que poderiam levar à frente as reformas necessárias. Em Santa Maria, o Grupo de Vanguarda Cultural (GVC) representou essa estratégia, ao produzir peças de teatro, poesia e exposições artísticas, além da publicação de uma revista cultural, produções que buscavam também uma inserção política. O grupo foi criado em 1964 e durou até 1966. Apesar da curta existência, teve uma produção intensa e marcante na cidade, se constituindo em uma das formas possíveis de resistência à Ditadura Civil-Militar. Este artigo busca compreender a formação, os objetivos e a trajetória desse grupo, bem como o esgotamento de sua estratégia, dentro do contexto político e cultural dos anos 1960. Para essa pesquisa, utilizou-se artigos publicados no jornal A Razão, relatórios das gestões da União Santamariense dos Estudantes, entrevistas com ex-integrantes do GVC, além das atas, folhetos e as edições da revista do grupo.
2014
da Fonseca Capssa Lima, Mateus
UM NOVO “1984”? O PROJETO RENAPE E AS DISCUSSÕES TECNOPOLÍTICAS NO CAMPO DA INFORMÁTICA BRASILEIRA DURANTE OS GOVERNOS MILITARES NA DÉCADA DE 1970
Embora os primeiros computadores tenham chegado ao país em fins dos anos 1950, foi a partir da década de 1970 que se disseminaram na sociedade brasileira – Estado, universidades e grandes empresas fortemente investiram na incorporação e desenvolvimento destes artefatos tecnológicos. No entanto, os possíveis usos sociais destas máquinas, no contexto do autoritarismo desenvolvimentista, não eram objetos de consenso e revelavam de certo modo, as posições dos grupos sociais que buscavam influenciar os rumos da Informática brasileira à época. Esta questão foi perceptível no projeto RENAPE – Registro Nacional de Pessoas Naturais –, uma tentativa dos governos militares durante os anos 1970 de criar uma grande base de dados cadastrais informatizada e unificada dos cidadãos brasileiros. Comunidade técnico-científica, políticos e mesmo setores burocráticos mobilizaram-se, através de suas expertises e posições políticas, contra a viabilidade do projeto, visto por alguns como indesejável controle dos cidadãos, semelhante ao descrito na obra “1984” de George Orwell. Assim, nossa pesquisa intenta recuperar este debate, especialmente ocorrido durante o governo Geisel, influenciado pelo ambiente de abertura política “lenta e gradual” e de forte nacionalismo tecnológico.
2014
Vianna, Marcelo
SOBRE PACIFICAÇÃO E REORGANIZAÇÃO: A GUARDA NACIONAL E A PROVÍNCIA DO RIO GRANDE DO SUL APÓS A REVOLUÇÃO FARROUPILHA
A consolidação e a manutenção de certa ordem nas fronteiras após a guerra civil farroupilha teve como protagonista a ação de distribuição dos comandos de fronteira e dos comandos superiores de guardas nacionais. A análise desse processo é fundamental e revela a abertura de lugares de poder nos quais potentados locais disputavam influência e legitimidade. No extremo sul do Império do Brasil o processo de construção do Estado está, sobretudo, acompanhado por questões relativas ao espaço platino no qual a região se inseria. As conjunturas de paz e guerra deste espaço faziam com que grande parcela do cotidiano de pessoas que ali moravam fosse tomada por preocupações e sentimentos relativos não só à construção do Estado brasileiro, mas também, com alguma ênfase, ao nascimento e consolidação das nações argentina e uruguaia. Neste sentido, este trabalho pretende retomar as relações entre as guerras, as forças armadas e a consolidação do Estado a partir de seus atores. Inserindo-se em tendências renovadas dos estudos militares, na retomada dos estudos de elites no Brasil e tomando para si a percepção de certa preponderância dos espaços de poder intermediários como importante chave de entendimento para os processos históricos, esse trabalho analisa o fortalecimento e a centralização do Império do Brasil, investigando o contexto a partir da trajetória de indivíduos (e, assim, de suas escolhas).
2014
Mugge, Miquéias Henrique
O ASSOCIATIVISMO NA AMÉRICA LATINA: POSSIBILIDADES DE UM ESTUDO COMPARADO
Este trabalho tem o intento de apresentar uma breve discussão acerca das pesquisas realizadas sobre o associativismo na América Latina, sobretudo nas Ciências Sociais. Percebe-se que alguns aspectos relacionados ao tema, têm merecido maior destaque dos pesquisadores, inclusive dos historiadores, como por exemplo, as vinculações políticas e as perspectivas ideológicas das instituições. Com o estudo feito sobre o associativismo no Rio Grande do Sul, mesmo num estudo de caso (SANTOS, 2013), foi possível identificar poucas abordagens relacionadas com as influências socioculturais destas entidades, bem como, das figuras associativas que promoveram estratégias de legitimação de um determinado grupo, ou angariaram reconhecimento público, tanto na sociedade urbana quanto na sociedade rural, a partir da associação. Neste artigo, pretende-se voltar o olhar para os estudos destas instituições, procurando analisar as outras formas de vínculo social, tão complexas e pertinentes ao tema, como: a(s) família(s), a(s) amizade(s) e o(s) negócio(s). O aporte teórico metodológico da comparação na História nos permite não apenas averiguar como também analisar os processos de constituição e desenvolvimento do fenômeno escolhido. As perspectivas apontadas, sobre o associativismo cultural, podem ser perseguidas a partir da comparação, buscando problematizar e compreender as relações destas organizações, até então pouco perceptíveis, contribuindo e ampliando a historiografia.
2014
Santos, Alba Cristina dos
“AO SUL DO BISPADO DO RIO DE JANEIRO”: NOTAS SOBRE A EXPANSÃO DA IGREJA CATÓLICA NA AMÉRICA MERIDIONAL (RIO GRANDE DE SÃO PEDRO, SÉCULO XVIII)
Este artigo tem por finalidade apresentar a estruturação e expansão da Igreja Católica na América Meridional no que concerne aos domínios do Império Português na região conhecida como Sul do Bispado do Rio de Janeiro, futuro Rio Grande de São Pedro, no século XVIII. Esta expansão se dava a partir de um projeto reformador da Igreja Católica, levado a cabo pelo Bispado do Rio de Janeiro, o qual visava disciplinar os comportamentos de variados tipos humanos como índios, escravos e luso-brasileiros, distribuídos por um vasto território. Este projeto disciplinar era estipulado de acordo com as leis eclesiásticas previstas nas Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia de 1707, organizadas por Dom Sebastião Da Vide. Este conjunto de livros, em suma, firmou o Padroado Régio na América Portuguesa e, a partir dele, a Igreja se organizou de modo a acompanhar a vida social, do nascimento até a morte, nas diversas Freguesias e Capelas, fundadas ao longo de todo o século XVIII, no Rio Grande de São Pedro. Analisa, com base na documentação eclesiástica como livro de pastorais e livros de batismos, a forma pela qual a Igreja tentava construir um discurso jurídico, em seu contexto de expansão, capaz de ordenar socialmente as populações em estados de direito de acordo com as leis eclesiásticas, as leis do reino de Portugal e com o direito costumeiro.
2014
Ribeiro, Max
LA CRUZ: ENTRE A ESTÂNCIA E A REDUÇÃO
O artigo trata das relações existentes entre as estâncias missioneiras e as reduções jesuíticas. As relações sociais, econômicas e políticas foram determinantes para aproximar e distanciar as reduções, estâncias e outros grupos não reduzidos. Muitas vezes a disparidade daquelas relações levou aqueles povos a dissensos e conflitos. Portanto, é importante entender como se davam os relacionamentos internos e externos aos seus espaços. Pretende-se compreender como se davam estas relações entre a estância de La Cruz, no lado oriental do rio Uruguai – localizada na fronteira oeste do atual Estado do Rio Grande do Sul, Brasil; e a redução de La Cruz, do lado ocidental do mesmo rio – localizada na fronteira leste da atual Província de Corrientes, Argentina, no período de 1629 a 1750. As relações entre o povo da Cruz com grupos indígenas como os povos dos charruas e dos minuanos no espaço alegadamente pertencente à Coroa Espanhola.
2014
Serres, Helenize
A AGENCY INDÍGENA NA PAMPA BONAERENSE: O CASO DAS MISSÕES DE PAMPAS E SERRANOS
O presente trabalho se propõe a analisar a formação e curto espaço de existência de três missões erguidas por padres jesuítas na pampa bonaerense no século XVIII. Estas reduções se encontravam em um território de fronteira, ou seja, uma localidade que estava fora da jurisdição da Coroa Espanhola e ali viviam índios independentes. Dessa forma, esta fronteira não se reduzia ao isolamento entre dois mundos, ou ainda, a demarcação da dicotomia branco e índio, bem pelo contrário, este local era uma “zona de contato” (PRATT, 1999). A vista disso estudaremos o tema das missões jesuíticas a partir do viés indígena, apresentaremos os índios dos “bastidores para o palco” (ALMEIDA, 2010). A metodologia para este trabalho será de leitura da literatura de referência e da pesquisa em fontes primárias, especialmente nos documentos produzidos pelos jesuítas. Elas serão analisadas com base nos aportes teóricos atuais que sugerem a pertinência darmos relevância a agency indígena.
2014
Silva, Juliana Aparecida Camilo da
“EN EL CORAZÓN DE SUS CONCIUDADANOS”: A REVOLUÇÃO DE MAIO E A TRAJETÓRIA DE SEUS LÍDERES NA PRODUÇÃO DO HISTORIADOR JESUÍTA GUILLERMO FURLONG
O presente trabalho tem por objetivo apresentar o tema de meu projeto de Dissertação, orientado pela Profª Drª Eliane Cristina Deckmann Fleck, e que propõe analisar as obras Belgrano: el santo de la espada y de la pluma (1974) e Cornelio Saavedra: padre de la patria argentina (1979), de Guillermo Furlong SJ, inserindo-as em seus respectivos contextos de produção e vinculando-as a um processo de construção de uma memória sobre a Revolução de Maio, ocorrida em 1810, na Argentina. Sendo este meu primeiro semestre de inserção no PPG em História da Unisinos, enfocarei, neste texto, a trajetória do historiador argentino, bem como suas relações com a historiografia leiga da época e suas motivações para a escrita das biografias que tem como tema os próceres da Revolução de Maio.
2014
Schossler, Mariana
POLÍTICA E COMÉRCIO: A ATUAÇÃO DE ANTÔNIO VICENTE DA FONTOURA AO LONGO DA REVOLUÇÃO FARROUPILHA (1835 -1845)
Este trabalho se propôs averiguar a atuação de Antonio Vicente da Fontoura, durante a Revolução Farroupilha (1835 – 1845), os postos assumidos por este comerciante ao longo do conflito, e seu retorno a politica local de Cachoeira após a Revolta. A pesquisa vem sendo desenvolvida com base em bibliografias envolvendo a temática, jornais de época e documentos (correspondências) que nos ajudem a “rastrear” as ações do personagem. Veremos neste artigo como Vicente da Fontoura, comerciante da região de Cachoeira, inseriu-se à Revolução Farroupilha seja ela por sua posição econômico-social, pelo interesse dos Farroupilhas, ou por possuir interesses pessoais na participação do conflito. Atualmente como Mestrando do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Santa Maria (PPGH-UFSM), Bolsista FAPERGS/CAPES, continuo pesquisando Antonio Vicente da Fontoura juntamente com Domingos José de Almeida, averiguando a atuação comercial destes na Fronteira Platina entre 1830 a 1850. Meu orientador é o Professor Doutor José Iran Ribeiro.
2014
Campos, Cristiano Soares
NEGÓCIOS DE FAMÍLIA: NOTAS SOBRE O CAPITAL ECONÔMICO FAMILIAR DE UM GOVERNADOR REPUBLICANO (RIO GRANDE DO SUL, SÉCULO XIX)
Este artigo trata de alguns aspectos da trajetória do líder republicano Júlio Prates de Castilhos a partir da análise da dinâmica econômica de sua família ao longo da segunda metade do século XIX. Objetiva analisar a relação entre a construção do capital econômico familiar com a formação da carreira político-profissional de Júlio de Castilhos. Partindo da análise qualitativa de inventários e correspondências familiares, investiga os investimentos e atividades econômicas da família Castilhos e evidencia a centralidade dos negócios pecuários e comércio de muares na construção do capital econômico familiar. Demonstra a vinculação e dependência da formação superior de Júlio de Castilhos aos negócios familiares, uma vez que o capital que financiou seus estudos provinha de rendimentos gerados por meio das atividades econômicas de sua família. Demonstra também que, mesmo residindo na capital do estado e desempenhando atividade de advogado, jornalista e político, Júlio de Castilhos manteve vinculação com negócios da família, seja pela manutenção dos bens herdados, seja através de investimentos em atividades pecuárias.
2014
Martiny, Carina
TURISMO, RELAÇÕES DE TRABALHO E A REORGANIZAÇÃO DO ESPAÇO RURAL
Problematiza-se por meio de um estudo de caso, a agricultura familiar em relação aos projetos de turismo do Vale dos Vinhedos- RS através da análise de narrativas dos seus atores sociais e de dados históricos. Por meio de entrevistas individuais de história de vida e análise documental, ambas de caráter preliminar, percebe-se que nos últimos anos os empreendimentos vitivinicultores, hoteleiros e gastronômicos da região tendem a constituir-se de modo a abarcar o trabalho do agricultor familiar, que deixa sua pequena propriedade para se tornar um assalariado de um espaço recentemente urbanizado ou, quando muito, passam a serem fornecedores de uma matéria prima altamente desvalorizada pelo empreendedor. Neste processo histórico, enfatiza-se a ausência dos projetos de turismo desenvolvidos por parte da iniciativa pública e, ao mesmo tempo, uma lacuna na inclusão da agricultura familiar com os empreendimentos turísticos privados, que passaram a dominar as relações de trabalho da região, já que uma minoria destes trabalhadores tiveram condições de consolidar-se na agroindústria. Constata-se que, embora o Vale dos Vinhedos seja um roteiro turístico aparentemente constituído, a agricultura familiar tem sido sucumbida através da falta de legitimidade, historicamente estabelecida, do seu trabalho em relação com o mercado turístico, desfazendo assim, a prerrogativa das iniciativas do turismo também enquanto fenômeno social. Analisado de modo crítico a transformação histórica dos arranjos sociais, sugere-se que houve uma reorganização em função da conjuntura de um mercado voltado ao turismo, o que embasa as premissas de dominância do empresariado na região, bem como, da consequente desvalorização do trabalhador rural, o que nada mais é que a própria observação local da maturação de um modelo capitalístico inscrito globalmente.
2014
Silveira, Marco Antônio Negri da Salvagni, Julice
MONGE JOÃO MARIA NA TRADIÇÃO RELIGIOSA POPULAR DO PLANALTO MERIDIONAL DO BRASIL
O presente projeto de pesquisa vem sendo desenvolvido junto ao Programa de Pós Graduação em História da Universidade Federal de Pelotas e tem por objetivo reconstruir o processo histórico de uma das mais marcantes e duradouras devoções populares surgidas nas Américas: a crença no Monge João Maria. Iniciada na década de 1840 a partir da peregrinação do italiano João Maria de Agostini por vários países do continente americano, desde então a devoção vem sendo ressignificada pelas pessoas em um processo criativo e autônomo, servindo há mais de um século como elemento identitário e que estrutura a sociabilidade. Atingindo um vasto território que inclui pontos dos estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, com repercussões no norte da Argentina, a devoção configurou-se como verdadeiro patrimônio cultural e imaterial de pessoas que têm no monge um de seus principais santos. Além da pesquisa histórica propriamente dita, desejamos realizar um mapeamento dos locais de memória atualmente associados à devoção ao Monge João Maria. Este Mapa da Devoção será apresentado aos órgãos oficiais na tentativa de obter seu reconhecimento como patrimônio imaterial das populações, a fim de contribuir para a preservação de locais e crenças.
2014
Karsburg, Alexandre
BIOGRAFIA E SUA ESCRITA: A TRAJETÓRIA POLÍTICA DE FERNANDO DO Ó (1930-1940)
A trajetória de Fernando Souza do Ó, importante liderança espírita da cidade de Santa Maria no processo de organização do movimento espírita local, ao assumir a função de “propagador” da doutrina no município no contexto de 1930 a 1940, permite evidenciar os conflitos e concorrências existentes no campo religioso na Cidade de Santa Maria. Nesse sentido, em nosso estudo, partimos da preocupação de como suas ideias representaram uma estratégia de inserção para o movimento espírita na cidade de Santa Maria, e para tanto, recorremos ao conjunto de escritos do autor veiculados na imprensa leiga (Diário do Interior). Nessa lógica, o presente artigo propõe-se a discutir, tendo por referência conceitos de Campo religioso de Pierre Bourdieu e representações de Roger Chartier, questões de trajetória e biografia do personagem, de modo a refletir sobre as dificuldades empíricas acerca da produção de conhecimento histórico a partir do indivíduo. Assim, busca-se evidenciar de que forma as escolhas individuais, os projetos e lutas politicas que permitem a observação de processos, relações no fluxo temporal, trazendo o sujeito na sua historicidade, a sua compreensão de si e do mundo, possibilitando a inferência do movimento espírita em sua dimensão holística ao trazer à tona o conjunto de práticas e ideias presentes no seu interior de modo relacional ao contexto político em que se insere.
2014
Mattos, Renan Santos
NOS CAMINHOS DA MÚSICA E DA HISTÓRIA: UMA REFLEXÃO SOBRE A TRAJETÓRIA DO MAESTRO JOAQUIM JOSÉ DE MENDANHA NO RIO GRANDE DO SUL DO SÉCULO XIX
O Rio Grande do Sul do século XIX traz em sua história, personagens, trajetórias e acontecimentos primorosos para a compreensão de importantes aspectos das construções sociais existentes ao longo dos séculos, bem como de um Brasil em constante formação. Neste trabalho, direcionaremos o nosso enfoque para a figura do mulato Joaquim José de Mendanha e sua atuação no período Imperial, onde dentre os diferentes frutos resultantes de sua passagem pela região sul, destaca-se um dos símbolos oficiais de um estado: a composição da música do Hino Rio-Grandense. Participando ativamente de bandas e orquestras, Mendanha ainda dirigiu coros de Igrejas de Porto Alegre e fundou algumas sociedades musicais, deixando registrado através de suas ações, o seu envolvimento e a sua contribuição cultural para com o Rio Grande do Sul do XIX. Assim, buscando uma breve reflexão sobre a atuação e os espaços de circulação desse personagem, e destacando o fato do mesmo ser mulato, objetivamos investigar alguns dos caminhos percorridos por Mendanha nesse período. Trazendo apontamentos iniciais sobre a história desse Maestro, pretende-se partindo de fontes bibliográficas e documentais, evidenciar através desta trajetória alguns dos limites e possibilidades de ascensão social encontrado por mulatos no Brasil Oitocentista.
2014
Marques, Letícia Rosa
JOÃO SIMÕES LOPES NETO, UM INTELECTUAL PERIFÉRICO
O presente artigo procura traçar a trajetória do escritor João Simões Lopes Neto (1865-1916) visando inseri-lo na categoria de intelectual. O escritor talentoso, o profícuo dramaturgo, o inventivo empreendedor, manteve durante toda a vida adulta a atividade de jornalista como trabalho principal. Sua produção em periódicos de sua cidade, Pelotas, foi permeada por opiniões firmes, ações de ponta, o que fez com que ocupasse uma posição arrojada para a época em que viveu. Embora tratasse preponderantemente de assuntos locais, Simões Lopes Neto discutia temas universais com desenvoltura. A condição de grande distância em relação ao centro cultural de então, o Rio de Janeiro, pode ser considerada como um entrave para que seu trabalho fosse reconhecido em toda sua dimensão, ainda que mantivesse contato com pensadores de projeção nacional.
2014
Netto, Heloisa Sousa Pinto
A TRAJETÓRIA DE MANSUETO BERNARDI E OTHELO ROSA NO CONTEXTO DA ALIANÇA LIBERAL: ALINHAMENTOS E TENSÕES
O objetivo deste artigo é mostrar como as alianças estabelecidas no final dos anos 1920 entre as elites políticas do estado eram frágeis e escondiam tensões, mais ou menos, sentidas nas injunções entre os aliancistas. Para isto, serão analisados os casos de dois agentes políticos e intelectuais: Mansueto Bernardi e Othelo Rosa. No final dos anos 1920, o Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul teve o ingresso de nomes reconhecidos no cenário político e cultural de Porto Alegre, cuja atuação foi importante no contexto da Aliança Liberal e da união das elites políticas e intelectuais do estado. Entre os quais se destacam o diretor da “Revista do Globo”, Mansueto Bernardi, e o diretor de “A Federação”, Othelo Rosa. O primeiro foi o redator do “Manifesto dos Intelectuais” gaúchos em apoio à Revolução de 1930, e o segundo desempenhou papel importante na condição de chefe da folha republicana no front de defesa da campanha de Getúlio Vargas à Presidência da República. Entretanto, a Revolução de 30 trouxe diferentes encaminhamentos às trajetórias desses agentes.
2014
Martins, Jefferson Teles
OS HERÓIS COMO EXEMPLOS MORAIS: AS NARRATIVAS BIOGRÁFICAS ESCRITAS POR VALENTIM BENÍCIO DA SILVA ATRAVÉS DA LINHA EDITORIAL DA BIBLIOTECA MILITAR
O artigo visa analisar as biografias produzidas por Valentim Benício da Silva através da linha editorial da Biblioteca Militar. Duas temáticas serão abordadas: as narrativas biográficas e o anticomunismo no Exército, partindo dos discursos presentes na historiografia produzidas pelo o Exército durante o Estado Novo, relacionando-os com outras fontes produzidas pelos militares, relatórios dos Ministros da Guerra, revistas militares, etc. Na primeira parte, busco demonstrar as concepções históricas presentes na historiografia de Valentim Benício da Silva e de outros escritores da editora do Exército. Demonstro que as narrativas biográficas possuíam um caráter moralizante, o herói era representado como indivíduo exemplar, modelo de contemplação e identificação. Na segunda parte, tratarei das duas conceituações binárias presentes nos discursos do Exército e da Biblioteca Militar, o herói e o não herói. Ambos os conceitos serviam como estratégias políticas complementares, que visavam exemplificar através da história e do passado, a função dos soldados na sociedade, que era o afastamento da política, defesa do governo e uma conduta legalista no interior do Exército. Ao mesmo tempo, que se reforça o exemplo dos heróis como indivíduos legalistas, que apesar de todos os sacrifícios da carreira militar, nunca traíram a instituição castrense por motivos políticos. Uma produção anticomunista buscou representar os membros da Aliança Nacional Libertadora como traidores do Exército.
2014
Roatt de Oliveira, Priscila
O SOFRIMENTO COMO CATEGORIA DE PERTENCIMENTO NO FOTOJORNALISMO: O OLHAR ESTIGMATIZANTE SOBRE O SERTANEJO NAS FOTORREPORTAGENS DE O CRUZEIRO (1946-1951).
O presente artigo parte de pesquisa de mestrado, a qual busca identificar por meio das fotorreportagens de Pierre Verger um outro olhar na revista O Cruzeiro (1946-1951) acerca da figura do sertanejo. Aqui, pretendemos explorar a construção de uma certa linguagem visual presente nas páginas da revista, que pareceu construir um discurso estigmatizador de sofrimento em torno do tema. A fim de compreender o momento de formação da identidade visual do periódico, se faz necessário analisar e criticar as diferentes linguagens visuais em diálogo, não apenas a de Pierre Verger. Por meio de uma análise qualitativa de fotorreportagens, sendo estas pertencentes ao período de análise (qual seja, o do primeiro contrato de Pierre Verger com a revista), buscaremos mostrar o processo de constituição de um certo discurso visual veiculado no fotojornalismo de O Cruzeiro que associa o sofredor a uma categoria de pertencimento. As fotorreportagens parecem apontar para a estratégia de representação do sertanejo (ainda hoje utilizada) acerca de sua miséria, de seu incipiente habitat, bem como de seu atraso frente ao Brasil considerado moderno, através de um olhar vitimizador e estigmatizante.
2014
Costa, Ialê Menezes Leite