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A Psiquiatria e os Beatles: A Visão de Lennon Acerca da Depressão Psicótica
Introdução: A doença mental e toda a sua envolvência não são estranhos à arte. Na música popular, encontram-se inúmeros exemplos de formulações e imagens que contribuem para incrementar o conhecimento sobre as vivências internas. A tradução dessas experiências subjectivas apresenta grande valor para o conhecimento psiquiátrico, cuja base assenta no movimento empático como meio de exploração de estados patológicos. Os Beatles, grupo inglês de grande expressão, apresentam nas suas letras particularidades psicopatológicas. A canção She Said She Said aparece como especialmente rica nesse aspecto. Objectivos: Pretendemos discutir a presença de expressão psicopatológica quer no conjunto musical do grupo quer numa canção em particular, She Said She Said. Propomos que esta canção possa ser observada como uma representação de um estado de depressão psicótica. Métodos: Utilizámos conceitos fenomenológicos e psicopatologia descritiva para analisar o conteúdo lírico da canção, fazendo uma breve revisão dos elementos psicopatológicos encontrados na obra dos Beatles. Resultados e Conclusões: Nas letras das canções dos Beatles, encontram-se passagens que podem ser observadas e tratadas como estados psicopatológicos. She Said She Said é um exemplo particularmente rico em noções psicopatológicas, nomeadamente a constelação depressiva ou os fenómenos psicóticos e de despersonalização.
Adoecer por (com)paixão: um caso de Delírio de Cotard
Introdução: o delírio de Cotard corresponde a um subtipo de delírio depressivo pouco frequente e que ocorre mais frequentemente em indivíduos idosos e do sexo feminino. Objectivos: reportar um caso de Delírio de Cotard elaborando uma revisão sobre o tema e características clínicas. Métodos: apresentação de um caso clínico sobre Delírio de Cotard bem como uma discussão do tema e suas características clínicas. Resultados e Conclusões: o caso clínico corresponde a uma mulher de 80 anos de idade com desenvolvimento de um quadro depressivo major e que foi internada no contexto de sintomatologia psicótica bem como sintomas depressivos graves. Durante o seu internamento foi medicada com sertralina, mirtazapina e risperidona com total esbatimento da sintomatologia psicótica e depressiva. O correto diagnóstico da Depressão Psicótica e a sua diferenciação de outros quadros psicopatologicamente semelhantes são essenciais para uma abordagem e tratamento adequados.
2021
Mota, Diana Malheiro Marques dos Santos, Mário Venâncio, Ângela Monteiro, Lima Ribeiro, Lúcia
Toxicidade Multissistémica por Lítio: a propósito de um Caso Clínico
Introdução: O carbonato de lítio é utilizado como medicamento de escolha no tratamento da doença bipolar mas, dado o seu estreito intervalo terapêutico, necessita de monitorização regular da litemia e do aparecimento de eventuais sintomas e sinais de toxicidade. Objectivos: Ilustrar a complexidade do diagnóstico e abordagem da toxicidade causada por tratamento prolongado com Lítio. Métodos: Apresentação de um caso clínico e revisão da literatura. Resultados: Os autores apresentam o caso de uma mulher, de 53 anos de idade, portadora de doença bipolar, medicada desde há 28 anos com carbonato de lítio na dose 600 mg/dia, que abandonou o seguimento clínico 8 anos antes, mantendo a toma da medicação, sem qualquer tipo de monitorização. Recorre ao serviço de urgência por um quadro de desorientação, discurso incoerente, ataxia e tremores. Dos exames complementares realizados salienta-se uma litemia de 4,07mmol/L, configurando uma emergência médica. Conclusão: O tratamento com lítio, sem a monitorização clínica e laboratorial, pode conduzir a toxicidade multissistémica grave, eventualmente fatal.
2020
Nunes, Juliana Brigadeiro, Diana Potlog, Nádia Neves, Paula Vedes, Joana Pissarra da Costa, António
Risco de Suicídio e Síndrome de Desmoralização no Doente Oncológico
Introdução: Uma doença crónica ou debilitante da saúde física constitui um fator de risco de suicídio. Assim, o diagnóstico de uma doença oncológica pode estar associado a um aumento do risco de suicídio, na medida em que se constitui como um importante fator de stress, causador de sofrimento físico e psicológico. Objetivos e Métodos: Foi realizada revisão clássica da literatura com pesquisa nas bases de dados PubMed, National Guideline of Clearinghouse, The Cochrane Library, Organização Mundial de Saúde e em obras literárias de relevância clínica da especialidade e referências bibliográficas, bem como se procedeu à consulta detalhada do processo clínico de um doente. Resultados e Conclusões: A Síndrome de Desmoralização é definida como um cluster de sintomas referidos como sentimentos de impotência, falta de esperança, isolamento e desespero em que o doente se considera indefeso e para além de qualquer ajuda, com falência de estratégias de adaptação a perturbações do meio, quer internas quer externas, e associa-se frequentemente a uma vontade expressa de morrer, sendo considerada por alguns autores como o maior fator preditivo para a presença de ideação suicida.
2020
Carvalhão, Teresa Cagigal, César Viana, Margarida Cabral, Ana Sofia
Esquemas Mal Adaptativos Precoces e Psicopatologia No Adulto – Revisão Transdiagnóstica E Utilidade Terapêutica
Introdução: Os esquemas mal adaptativos precoces (EMP) são definidos como padrões cognitivos disfuncionais que emergem de experiências traumáticas e de necessidades básicas não satisfeitas durante a infância, consistindo em memórias, emoções, cognições e sensações físicas que influenciam o pensamento e o comportamento, de forma disfuncional, desempenhando um papel na psicopatologia. Objetivos: Os autores pretendem rever a relação entre esquemas mal adaptativos precoces e psicopatologia no adulto numa perspetiva transdiagnóstica, bem como a sua utilidade terapêutica. Métodos: Foi efetuada uma revisão não sistemática da literatura a partir da base de dados Pubmed/Medline com as palavras-chave “maladaptive schemas” e “psychopathology”, tendo sido escolhidos os artigos que relevassem para o objeto do estudo. Foram, de igual modo, procuradas referências bibliográficas adicionais que surgissem citadas nos artigos ou trabalhos obtidos. Resultados: Encontraram-se vários estudos que procuraram investigar a existência e a importância dos EMP em diversas patologias. Verificou-se que os EMP eram mais evidentes na maioria das patologias estudadas, quando comparadas com os controlos: psicose (de um modo geral), perturbações do humor, perturbação obsessivo-compulsiva, perturbações de ansiedade (exceto na perturbação de ansiedade generalizada) e perturbações do comportamento alimentar. Discussão e Conclusões: Os esquemas mal adaptativos precoces são relevantes em várias perturbações mentais, uma vez que se constituem como fatores de vulnerabilidade e de manutenção de psicopatologia. O seu (re)conhecimento poderá ser útil nas mais diversas perturbações mentais. Contudo, serão necessários estudos mais robustos que permitam a extrapolação de conclusões, mais consistentes, sobre o potencial benefício terapêutico da Terapia Focada nos Esquemas nas perturbações psiquiátricas, para reforçar a (ainda) limitada evidência atual.
Riscos Psicossociais em Trabalhadores de Uma Unidade Local de Saúde no Alentejo
Introdução: A forma como as organizações são geridas e o modo como é organizado o trabalho e os sistemas de trabalho, pode causar stresse e/ou outra exposição a factores de risco psicossocial nos profissionais. Os Serviços de Saúde são dos sectores de atividade mais expostos, sendo o stresse e a violência alguns dos mais importantes. Estes factores de risco acarretam importantes consequências tanto ao nível individual, como institucional e social, afetando de forma direta a saúde física e mental dos profissionais atingidos e prejudicando o seu desempenho e a qualidade dos cuidados prestados. Objectivos: Caracterizar a presença de factores de risco psicossocial, determinar o risco e correlacioná-lo com variáveis sócio-demográficas em trabalhadores de uma Unidade Local de Saúde do Alentejo. Métodos: Neste trabalho, o Copenhagen Psychosocial Questionnaire, versão II (COPSOQ-II) foi utilizado para avaliar os riscos psicossociais de um universo geral de profissionais de saúde de uma unidade de saúde de média dimensão, na região do Alentejo, que abrange cuidados de saúde primários e hospitalares. O COPSOQ é baseado num modelo de exigência e controlo que tenta explicar o stresse como consequência das elevadas exigências no trabalho e de um baixo apoio social. Resultados e Conclusões: Neste estudo foi encontrado risco elevado para a saúde dos trabalhadores, no sub-grupo dos médicos, na dimensão “insegurança no trabalho”. No caso dos restantes trabalhadores, a estratificação do risco para a saúde resultou numa situação intermédia para enfermeiros, assistentes técnicos e outros técnicos superiores. Os assistentes operacionais e os trabalhadores da gestão foram as categorias onde o risco foi considerado mais favorável. Observaram-se também diferenças estatisticamente significativas, e merecedoras de replicação, o maior risco para a saúde dos trabalhadores dos cuidados hospitalares na dimensão ritmo de trabalho (t(124)=2,71), exigências emocionais (t(124=2,18) e confiança vertical (t(116)=2,36); o maior risco nos trabalhadores do sexo masculino na dimensão exigências cognitivas (t(136)=2,71), influência no trabalho (t(136)=2,32), previsibilidade (t(132)=2,08), transparência t(132)=2,74), conflitos no trabalho (t(132)=2,73), significado do trabalho (t(134)=3,31), compromisso com o trabalho (t(134)=2,44) e comportamentos ofensivos (t(132)=2,16); e o maior risco nas trabalhadoras na dimensão burnout (t(132)=2,16). Estes resultados devem merecer a nossa preocupação se desejamos diminuir a exposição dos trabalhadores desta instituição a estes factores de risco, sendo desejável o seu estudo sistematizado no universo das unidades de saúde do nosso país.
2020
Moura, Pedro Alves de de Moura, Teresa Rodrigues Ruivo, Rui
Os Sistemas de Classificação em Psiquiatria em Fase de Crise? Foco no DSM-5
A história das classificações psiquiátricas norte-americanas ilustra o percurso classificatório que se iniciou nos anos 60 a partir do caos em que estava imersa a questão do diagnóstico. Os dois primeiros sistemas (DSM-I e DSM-II) estavam influenciados pela escola psicoanalítica. Após a introdução do DSM-III em 1980 emergiu o paradigma neo-Kraepeliniano e o modelo médico de doença. Apesar de ter introduzido um maior rigor na definição e descrição das entidades nosológicas, revelou as suas limitações em termos da validade. As criticas a este paradigma levaram à argumentação de que o sistema classificativo mostrava sintomas de crise num sentido Kuhniano e, por este motivo poderia ter chegado o momento de uma revolução paradigmática. A revisão do DSM-IV e a implementação do DSM-5 em 2013 mostraram que este objectivo é, por enquanto, inalcançável. O resultado final é um sistema “híbrido” que já demonstrou a sua vulnerabilidade tal o nível de crítica e refutação em curso.
Equipa de Intervenção Comunitária em Saúde Mental - A Realidade de um Hospital Geral
Introdução: O Modelo Comunitário de Saúde Mental advoga que a prestação de cuidados de saúde deve ser promovida em locais mais acessíveis aos doentes, assegurando-se uma oferta preventiva, terapêutica e reabilitativa. Este estudo incidiu sobre o programa de visitas domiciliárias da Equipa Comunitária de Ponte de Lima. Objetivos: A investigação teve como principal objetivo perceber se existem diferenças entre o número de internamentos e o número de dias de internamento antes e após a integração dos doentes no programa de visitas domiciliárias; pretendeu ainda verificar a existência de correlação entre estas variáveis e a frequência das visitas e realizar uma caraterização sociodemográfica e clínica da população-alvo. Métodos: Estudo observacional, analítico, transversal e retrospetivo. A população-alvo foi constituída pelos doentes que integraram o programa de visitas domiciliárias, desde janeiro de 2015 até dezembro de 2017. As variáveis foram obtidas pela consulta dos processos clínicos dos doentes. A análise estatística efetuou-se com recurso ao programa Statistical Package for the Social Sciences - versão 22 - para Windows (IMB Corp. Released 2013). Resultados: Obteve-se um n final de 171 participantes. A maioria tinha 70 ou mais anos e habitava em lares, centros sociais, paroquiais e comunitários. Verificou-se um predomínio de doentes do sexo feminino, solteiros e reformados. O quadro demencial foi a patologia psiquiátrica mais comummente reportada. Em todos os participantes, após o início do programa, verificou-se uma redução significativa do número total de internamentos e de dias de internamento. Os doentes sem internamentos, depois da integração no programa, foram visitados com maior regularidade pela equipa do que aqueles com pelo menos um internamento. Nos doentes internados após a incorporação no programa, constatou-se uma correlação positiva forte e significativa entre o número de dias de internamento e o tempo decorrido entre as visitas. Conclusões: A equipa de investigação pretende contribuir para uma reflexão organizacional dos vários serviços de Psiquiatria do país.
2020
Fornelos, Antónia Martins, Mariana Felizardo, Miguel Roque, Marta Pina, Paula
Comparative analysis and validation of the Portuguese version of the Interpersonal Reactivity Index
Introduction: Empathy has received greater attention in research with the creation of an Interpersonal Reactivity Index, designed to measure this factor through a multidimensional approach. The Interpersonal Reactivity Index is assessed using a 28-item self-reported questionnaire with four seven-item scales. The index and the questionnaire have been translated into many languages, namely Portuguese. Objective: The present study aims to develop, translate and validate the Interpersonal Reactivity Index for the Portuguese language. Moreover, it compares the original four-factor model with several modified models in the literature. Methods: A sample (n=275) was analysed using Confirmatory Factor Analysis. The original model was contrasted with modified models, reporting internal consistency statistics and their fit indices. The same structure was found in the sample with good fit indices. Results: The internal reliability of the Interpersonal Reactivity Index was not excellent (<0.90), but it is in line with the literature. Conclusions: The comparison with other modified versions of the Interpersonal Reactivity Index’s latent factor structure revealed two models with better fits than the original version, and the potential for a shortened version of the Interpersonal Reactivity Index. The latter is a valid instrument to measure empathy in the Portuguese population, in line with previous findings, namely with a previous validation into Portuguese. However, some changes to the original latent structure provide a better data fit than the original one.
2020
Manarte, Lucas Francisco Andrade, António Ramos
Caracterização das tentativas de suicídio no Serviço de Urgência do Hospital Sousa Martins, Unidade Local de Saúde da Guarda, EPE
Introdução: O suicídio é um complexo problema de saúde pública, resultante da interação entre fatores biológicos, psicológicos e socioculturais. Suicidam-se anualmente, em todo o mundo, segundo a Organização Mundial de Saúde, cerca de um milhão de indivíduos, o que corresponde a metade de todas as mortes violentas registadas, tendo esse número tendência a aumentar. A tentativa de suicídio é definida como um ato levado a cabo por um indivíduo que visa a sua morte, mas que, por razões diversas, geralmente alheias ao indivíduo, resulta frustrado. O fator de predição mais importante do suicídio é a tentativa de suicídio. Considera-se que, por cada pessoa que se suicida, 20 ou mais cometem uma tentativa de suicídio. Objetivos: Analisar o perfil do doente que recorre ao Serviço de Urgência do Hospital Sousa Martins, ULS da Guarda, E.P.E., por tentativa de suicídio. Métodos: Estudo, de carácter retrospetivo, do período compreendido entre 1 de janeiro de 2010 e 31 de dezembro de 2014. Executámos o levantamento estatístico e análise dos dados dos processos clínicos dos indivíduos maiores de 18 anos que recorreram ao Serviço de Urgência do Hospital Sousa Martins, ULS da Guarda, E.P.E., para os quais foi presumido, antes da avaliação clínica, um evento de tentativa de suicídio. Resultados e Conclusões: Concluímos que o perfil típico do indivíduo que recorre por tentativa de suicídio, ao Serviço de Urgência estudado, é ser do sexo feminino, estar no início da meia-idade (por volta dos 45 anos), ser casado/a, ter antecedentes de perturbação depressiva, utilizar como método da tentativa a ingestão medicamentosa e apontar como motivo desencadeante a existência de problemas relacionais. Além disto, estes indivíduos tendem a recorrer ao Serviço de Urgência, principalmente, nas últimas oito horas do dia.
2021
Santos, Mário J. Nunes, Juliana Ferreira, Dário Pissarra da Costa, António
Disfunção Sexual na Prática Psiquiátrica – Uma Revisão
Introdução: A função sexual é considerada uma parte importante da experiência humana e um fator determinante de qualidade de vida. Tendo isto em consideração, em Psiquiatria esta tem sido uma temática que tem preocupado aqueles que se ocupam não só do bem-estar físico, mas também psicológico e emocional dos seus pacientes, sendo que a disfunção sexual (DS) afeta uma percentagem significativa dos doentes mentais. Objetivos: Analisar a associação entre DS e as principais doenças psiquiátricas, tal como as várias componentes da função sexual que podem estar alteradas nestes pacientes e as suas possíveis causas, e por último investigar as diferentes abordagens terapêuticas da DS na prática psiquiátrica. Métodos: Foi efetuada uma revisão não sistemática da literatura através de uma pesquisa na base de dados PubMed/Medline utilizando as palavras-chave “mental disorders”, “psychiatric disorders”, “sexual disorders”, “sexual dysfunction”, “psychotropics”, “antidepressants” e “antipsychotics”. Os artigos foram posteriormente selecionados tendo em conta a sua relevância para o objeto de estudo. Resultados: De acordo com a literatura científica, a DS é mais frequente nos indivíduos com doença mental relativamente à população geral. Esta tem sido reportada em 30 a 60% dos pacientes com esquizofrenia medicados com antipsicóticos, em 70% dos doentes com depressão medicados com antidepressivos e em até 80% dos indivíduos que sofrem de perturbações ansiosas. Os problemas sexuais frequentemente associados à doença psiquiátrica e ao seu tratamento incluem a diminuição do desejo sexual, dificuldades ao nível da excitação, dificuldade em atingir o orgasmo ou anorgasmia no sexo feminino e disfunção erétil e problemas ao nível da ejaculação no sexo masculino. Estudos indicam que a DS presente nestes doentes poderá ser devida não só às relações interpessoais e ao meio que envolve os indivíduos, mas também à própria influência da psicopatologia na função sexual e à ação dos psicofármacos escolhidos para o tratamento. A DS associada ao uso dos psicotrópicos tem ainda como consequência grave a diminuição da adesão terapêutica ou até mesmo o total abandono do seguimento psiquiátrico. Conclusões: A DS tem um impacto importante na saúde mental e na qualidade de vida de muitos dos pacientes afetos de doença psiquiátrica. É portanto essencial que o clínico esteja atento a este fenómeno e às suas possíveis implicações, tomando uma atitude informada e optando pela abordagem mais adequada. Esta abordagem permitirá evitar ou, pelo menos, minorar o impacto da doença mental e dos psicotrópicos na função sexual e assim assegurar uma boa adesão terapêutica e uma melhoria da qualidade de vida destes pacientes.
2021
Marinho, Guadalupe Maria da Silva Costa Almeida, Diogo
Comunicação de más notícias na prática clínica - O Papel da Psiquiatria de Ligação
Introdução: Da literatura surgem dados sugestivos de que os médicos apresentam dificuldades importantes na comunicação de más notícias, o que influencia negativamente o prognóstico clínico e conduz a situações de litígio. Os pedidos de colaboração efetuados, nesse âmbito, à Psiquatria de Ligação, refletem essas dificuldades, permitindo que o médico permaneça distanciado dos aspetos psicossociais da relação com o doente e dos sentimentos de impotência face a prognósticos desfavoráveis. Objetivos: Realizar uma revisão da literatura, no campo da comunicação médico-doente, com foco na comunicação de más notícias, e refletir sobre o contributo da Psiquiatria de Ligação nessa interação. Métodos: Realizámos uma revisão não sistemática e análise crítica da literatura no campo da comunicação médico-doente, com recurso às bases de dados online Pubmed e Scielo e sem limite temporal definido. Selecionámos os estudos com maior foco na comunicação de más notícias e que incluíam programas de treino especificamente desenhados para melhorar as competências comunicacionais dos médicos nessa interação. Resultados e Conclusões: As dificuldades identificadas na comunicação de más notícias pelo médico parecem resultar de uma formação académica pré e pós-graduada insuficiente, de limitações profissionais, como a escassez de tempo, e de dificuldades em lidar com os aspetos psicológicos do doente. Os programas de treino desenvolvidos nesta área, apesar de incrementarem os níveis de confiança, carecem de validação científica rigorosa e estão pouco difundidos na formação médica. Perspetivamos que a Psiquiatria de Ligação deva ter um papel na alteração dessa realidade, mediante o desenvolvimento de programas bem estruturados, que combinem diferentes metodologias e examinem a satisfação dos intervenientes e os resultados a longo prazo.
2021
Coutinho, Ana Sofia Ribeiro, Lúcia
Desafios na Abordagem Terapêutica da Psicose após Acidente Vascular Cerebral: Relato de Um Caso Clínico
Introdução: Cerca de 5% dos doentes com acidente vascular cerebral apresentam sintomas psicóticos, no entanto, não existem guidelines específicas para o seu tratamento. Objetivos: Relatar a abordagem terapêutica de um caso de psicose pós-AVC, que exigiu vários ajustes devido à resistência dos sintomas e aos efeitos adversos da medicação. Métodos: Descrevemos detalhadamente o quadro clínico com ênfase nos sintomas psiquiátricos e destacamos alguns desafios na abordagem psicofarmacológica. Adicionalmente, foi realizada uma revisão da literatura sobre o tema. Resultados e Conclusões: Relatamos o caso de um doente de 79 anos com psicose pós-AVC manifestada por Síndrome de Othello. A estabilidade clínica foi alcançada através da combinação de antipsicóticos em baixa dose com ácido valpróico.
2021
Sequeira, Ana Sofia Caetano Silva, Ricardo
Prevalência e fatores de risco das Perturbações do Comportamento Alimentar, em adolescentes dos 12 aos 18 anos, no Concelho de Manteigas
Introdução: A rápida alteração no tamanho e forma corporais na adolescência, assim como a maior vulnerabilidade às influências socioculturais, podem levar ao desenvolvimento de insatisfação com a imagem corporal, fator de risco para perturbações do comportamento alimentar. Objectivos: O objetivo deste estudo foi determinar a prevalência das perturbações do comportamento alimentar, procurando relacionar com eventuais fatores de risco. Métodos: Participaram 107 estudantes, dos quais 59,8% do sexo feminino, com média de idade de 14,4 anos (DP = 1,82). Os dados foram recolhidos através de um protocolo de investigação online constituído por cinco questionários: (a) sociodemográfico, (b) comportamentos alimentares, (c) suscetibilidade às pressões socioculturais e interiorização do ideal de beleza, (d) vinculação aos pais e pares e (e) perturbação de comportamentos e atitudes alimentares. Resultados e Conclusões: Foi detetado 1 caso de perturbação do comportamento alimentar sem outra especificação e 1 possível caso de bulimia nervosa. Após estratificação por níveis de risco, observou-se que o grupo de maior risco apresentou um índice de massa corporal mais elevado, níveis de conhecimento e interiorização das influências socioculturais mais elevados e menor qualidade das relações de vinculação com os pais. Os preditores de risco mais significativos foram: sexo feminino, interiorização dos ideais socioculturais de beleza e a relação de vinculação com a mãe. Desta forma, deve ser apostado desde cedo em programas de prevenção focados na promoção de uma imagem corporal positiva e intervir nos principais contextos de socialização dos adolescentes (escola e família). Palavras-Chave: Prevalência; Fatores de risco; Perturbações do Comportamento Alimentar; Adolescentes; Vinculação.
2021
Sebastião, Joana RIta Sampaio, Daniel Barbosa, Maria Raquel
Remissão de um quadro de mutismo após 38 anos – um estudo de caso
Introdução: As perturbações conversivas são condições somáticas sem base fisiopatológica identificada e a probabilidade de resolução do quadro clínico diminui com o aumento do tempo de evolução. Objectivos: Pretendemos reportar um caso de mutismo conversivo que remitiu ao fim de 38 anos e rever de modo resumido a literatura científica sobre esta entidade nosológica. Métodos: Informação clínica obtida em entrevista e consulta de processo clínico. Revisão bibliográfica na plataforma Pubmed, de artigos em inglês utilizando as expressões “mutism”, “conversion disorder”, “functional disorder” e “aphonia”. Resultados e Conclusões: Relativamente ao mutismo conversivo, a literatura sugere a existência de uma disfunção na conectividade entre as vias relacionadas com a linguagem e as vias responsáveis pela regulação da ansiedade. O caso apresentado por nós é raro e atípico no que diz respeito à sua remissão, tendo em conta o tempo de evolução.
2021
Jesus, Catarina Duque, Ricardo Aleixo, Amélia Neves, António Cruz
Editorial
Caro leitor, Neste novo número da Psilogos que temos agora o prazer de lhe fazer chegar, poderá encontrar uma série de artigos originais, revisões e discussão de casos clínicos que consideramos de enorme interesse para a prática clínica e para a organização da prestação de cuidados em Saúde Mental. A abrir este número, Caldas de Almeida e colaboradores apresentam o estudo que realizaram e em que foi avaliado o impacto da crise económica na Saúde Mental dos Portugueses, assim como as suas implicações a nível político, apresentando de seguida uma série de recomendações. Em três artigos originais que poderá ler de seguida, são abordadas questões relacionadas com o funcionamento e dinâmica dos Serviços. Em conjunto com outros colegas do Departamento de Psiquiatria do Tâmega e Sousa e da Unidade Local de Saúde de Matosinhos, Teresa Sousa Ferreira relata um trabalho de investigação em que foi avaliada a prevalência de burnout a nível dos Cuidados de Saúde Primários, nesta Unidade Local de Saúde; um grupo de colegas do Departa- mento de Psiquiatria e Saúde Mental do Centro Hospitalar de Tâmega e Sousa, encabeçados por Tânia Abreu, descreve o impacto que a criação de uma Equipa de Internamento teve na melhoria de funcionamento do Serviço; finalmente Pedro Oliveira e outros colegas do Centro Hospitalar Universitário de Coimbra apresentam uma caracterização sócio-demográfica e clínica de jovens adultos internados no Serviço de Psiquiatria deste Centro Hospitalar. Em artigos de revisão poderá ver abordados temas como a existência de déficites cognitivos na depressão, num artigo redigido por Joana Ribeiro e seus colegas do Centro Hospitalar Universitário de Coimbra e da Faculdade de Psicologia de Coimbra; a abordagem cognitivo-comportamental do craving por chocolate num artigo da autoria de Ana Luísa Almada e colegas; e finalmente a relação entre produtos fermentados, microbiota e saúde mental abordada por Mónica Martinho. Para finalizar publicamos ainda dois casos clínicos. No primeiro, da autoria de Catarina da Costa Campos e Joana Mesquita, é descrito um caso compatível com o diagnóstico de Síndrome de Ganser, cuja conceptualização é ainda alvo de discussão. No segundo artigo, Ricardo Teixeira Ribeiro e um grupo de colegas do Serviço de Psiquiatria do Hospital de Braga, descrevem quatro casos de delírio de infestação acompanhados no Serviço e apresentam uma revisão crítica do conceito, com base numa revisão da literatura. Trata-se de um número recheado de excelentes artigos, que seguramente o irão enriquecer. Para finalizar, aqui vai o nosso agradecimento a todos aqueles que em cada número, como autores, revisores ou corpo editorial, contribuem para a qualidade da revista que nos orgulhamos de publicar.
Encontros Científicos
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Editorial
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Desafios na adopção de medidas públicas para a redução do consumo de álcool em jovens
Introdução: O consumo de álcool é um dos factores de risco mais importantes para a carga global de doença, sendo que o nível de consumo que minimiza o impacto na saúde é a abstinência. Em Portugal, cerca de metade dos adolescentes com 15 anos consumiram álcool nos últimos 12 meses. O seu consumo durante a adolescência está associado a disrupção dos processos maturativos cerebrais, tendo um impacto deletério em funções neurocognitivas e comportamento. Por outro lado, quanto mais precoce for o início do consumo, maior o risco de dependência futura. Assim, o controlo do consumo de álcool em jovens através de medidas públicas é fundamental. Objectivos: O presente artigo pretende rever diferentes políticas e intervenções para o controlo do consumo de álcool em jovens, analisando simultaneamente os factores que devem ser considerados para a efectiva adopção dessas medidas. Métodos: Revisão não sistemática da literatura, utilizando a base de dados médica Pubmed, e o motor de busca Google Scholar para obtenção de literatura relevante para o objectivo do presente estudo. Resultados e conclusões: Existe já evidência da efectividade de um conjunto de medidas para a redução do consumo de álcool em jovens. Contudo, a percepção de nocividade do álcool e da normatividade do consumo na adolescência, assim como a influência dos produtores de álcool na sociedade são barreiras importantes à implementação destas medidas. No presente artigo são elencadas várias medidas para que a adopção de políticas públicas seja efectiva, incluindo o envolvimento da sociedade civil, a promoção da actividade de organizações não governamentais, e a negociação com os produtores de álcool, entre outras. A existência de um amplo consenso a nível nacional e internacional, com ações conjuntas e consertadas, é indispensável para a adopção de medidas públicas para a redução do consumo de álcool em jovens.
Perturbações Psiquiátricas num Internamento de Neurologia
Objetivos: O presente estudo teve como objetivo avaliar a presença de patologia psiquiátrica em doentes internados num serviço de Neurologia e em que medida a patologia psiquiátrica poderá ter sido a causa do internamento. Pretendeu-se também perceber a intervenção do neurologista ao nível da patologia psiquiátrica. Métodos: Estudo retrospetivo dos doentes internados no serviço de Neurologia do Centro Hospitalar Universitário de São João, E.P.E. num período de sete meses. A colheita de dados clínicos foi feita a partir do processo e dos relatórios de alta. A análise de dados foi realizada com recurso ao Statistical Package for the Social Sciences(SPSS, versão 21.0; IBM). Resultados: Obtivemos uma amostra de 373 doentes, com idade média de 52,64 anos, 57% do sexo feminino. 37% da amostra apresentava antecedentes de patologia psiquiátrica. A média de dias de internamento foi de 11,7. Foi encontrada uma relação estatisticamente significativa entre a existência de antecedentes psiquiátricos e duração de internamento.A patologia funcional foi responsável por 5,9% dos internamentos. Em 11,3% dos doentes, foi diagnosticada uma perturbação psiquiátrica de novo. Conclusões: A patologia psiquiátrica foi responsável por, pelo menos, 5,9% dos internamentos no serviço de Neurologia. A comorbilidade psiquiátrica pode ter também influência na duração do internamento. Será necessário estudar amostras maiores e perceber cada vez melhor como fazer um diagnóstico diferencial mais eficiente no primeiro contacto com o doente que possa evitar o internamento.