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Aldeia circular e os correlatos da ocupação indígena na margem esquerda da Cachoeira de Santo Antônio

Resumo Este artigo discute a ocupação indígena de uma aldeia circular no século XV, a partir da forma de assentamento e da análise da cerâmica identificada no sítio arqueológico Novo Engenho Velho, localizado no alto rio Madeira. Esses componentes espaciais são analisados em relação aos padrões de assentamento conhecidos na Arqueologia. A análise técnico-funcional da cerâmica aponta para uma padronização na produção das vasilhas, e a variabilidade existente é atribuída às diferentes atividades e funções dos artefatos. Esses elementos têm sido pensados como correlatos dos produtores da cerâmica Jatuarana (Tradição Polícroma) e a deposição em uma aldeia circular traz implicações para os atuais modelos arqueológicos propostos para a Amazônia.

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2022-12-06T13:14:02Z

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Pessoa,Cliverson Zuse,Silvana Costa,Angislaine Freitas Kipnis,Renato Neves,Eduardo Góes

Tecnologias cerâmicas no alto rio Madeira: síntese, cronologia e perspectivas

Resumo A análise dos atributos que caracterizam as escolhas de pasta, técnicas de confecção, morfologias, acabamentos, queima e marcas de utilização, nas cadeias operatórias de confecção e uso dos artefatos cerâmicos, permitiu identificar ao menos cinco conjuntos tecnológicos distintos no alto rio Madeira, no período entre aproximadamente 3 mil anos antes do presente e o século XVIII da nossa era. Ao apresentar uma síntese da variabilidade tecnológica, pretende-se trazer reflexões sobre as classificações, o reconhecimento de tradições locais e regionais, as continuidades e mudanças nos conjuntos e os contextos arqueológicos. Tais dados possibilitam descrever as persistências e transformações culturais na longa trajetória de ocupação da região pelos povos que produziram cerâmicas.

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2022-12-06T13:14:02Z

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Zuse,Silvana Costa,Angislaine Freitas Pessoa,Cliverson Kipnis,Renato

A arqueologia do alto Madeira no contexto arqueológico da Amazônia

Resumo Este artigo faz um balanço dos dados atualmente disponíveis para a arqueologia da área a jusante das cachoeiras do alto rio Madeira. Trata-se de um segmento-chave do maior afluente do rio Amazonas, que possui suas áreas de cabeceira nos Andes Centrais: ele é formado pela junção de grandes rios que vêm da Bolívia e do Peru – Mamoré, Beni e Madre de Díos. Nossa análise comparativa indica que a arqueologia da área a jusante das cachoeiras do rio Madeira possui mais semelhanças com padrões observados na Amazônia central do que com a região de seus formadores. Por outro lado, o alto Madeira também denota elementos da diversidade cultural que caracterizam o seu entorno. Sendo assim, propomos que as cachoeiras do Madeira funcionaram como uma área de fronteira persistente ao longo do Holoceno tardio, conectando regiões com padrões culturais distintos na bacia amazônica.

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2022-12-06T13:14:02Z

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Neves,Eduardo Góes Watling,Jennifer Almeida,Fernando Ozorio de

Explorando problemas arqueológicos com técnicas físico-químicas: a trajetória do Grupo de Estudos Arqueométricos do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares, São Paulo, Brasil

Resumo O presente artigo traz uma revisão da principal literatura produzida pelo Grupo de Estudos Arqueométricos do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares, Comissão Nacional de Energia Nuclear, de São Paulo (IPEN-CNEN/SP), criado em 1997, como consequência de uma iniciativa internacional para motivar o uso de técnicas nucleares para caracterização de materiais arqueológicos. Desde aquele momento, e até hoje, o grupo tem desenvolvido parcerias com pesquisadores/as de diferentes regiões do Brasil e de outros países para oferecer subsídios à compreensão interdisciplinar das cadeias operatórias de produção da cerâmica. Além disso, também vem aportando dados para o estudo multielementar e mineralógico de depósitos arqueológicos. Ao descrever brevemente os princípios das técnicas empregadas e a síntese dos resultados obtidos para cada estudo de caso, o objetivo foi demonstrar a contribuição das análises físico-químicas para questões relacionadas a aspectos culturais, como escolhas tecnológicas compartilhadas, redes de trocas e interações sociais em diferentes períodos do passado.

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2022-12-06T13:14:02Z

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Munita,Casimiro S Batalla,Nicolás Costa,Angislaine Freitas Barros,Joanna F. Nogueira,André Luiz Carvalho,Patrícia R. Carvalho,Priscilla Ramos

Do ‘largão’ da terra ‘voluta’ à estreiteza da terra vendida: reflexões sobre territórios e comunidades quilombolas no norte de Mato Grosso do Sul

Resumo Neste artigo, os autores analisam as transformações ocorridas nas formas de acesso à terra por diferentes segmentos da sociedade nacional no norte do estado brasileiro de Mato Grosso do Sul. A discussão é realizada em torno do caso da comunidade quilombola Família Bispo, localizada no município de Sonora, região historicamente vinculada a uma área fronteiriça entre os territórios dos povos indígenas Bororo e Kayapó. O caso analisado é emblemático porque abrange indígenas, quilombolas e migrantes de outros estados da federação, todos envolvidos por relações de alianças e disputas, as quais têm como foco principal a posse e a propriedade da terra. A transformação do espaço, com anuência e participação de agentes do Estado nacional, resultou, segundo a expressão de um interlocutor, na expropriação dos territórios indígenas e quilombolas, pois o ‘largão’ da terra ‘voluta’ [devoluta] foi transformado em terra vendida, propriedade privada, regularizada com contratos e escrituras cartoriais.

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2022-12-06T13:14:02Z

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Oliveira,Jorge Eremites de Pereira,Levi Marques

Agência e contingência no acesso à terra e reprodução social camponesa no vale do rio Mearim, estado do Maranhão

Resumo Neste artigo, examinamos as trajetórias familiares de três lideranças rurais no vale do Mearim, que ilustram as principais formas de acesso e ocupação da terra protagonizadas pelo campesinato maranhense nos últimos 150 anos. A análise dessas trajetórias tomadas como alegorias permite apresentar as contingências vividas por este campesinato que, a despeito das interações desfavoráveis na estrutura social e sob o aparato legal do Estado brasileiro, agencia sua reprodução social, fundada na permanência na terra. Nos três casos estudados, frente a essas contingências, os processos de ação coletiva e a articulação política protagonizados pelos entrevistados representam descontinuidades entre gerações, com consequências distintas para as respectivas trajetórias familiares. Em apenas um dos casos, são mantidos práticas e discursos que expandiram a base agrária do grupo familiar, em contraste com as aparentes estagnação e contração observadas nos demais casos. A análise aponta a relevância da relação da unidade familiar com o mercado formal de terras, assim como das relações sociopolíticas estabelecidas para além do parentesco, para a definição das possibilidades do campesinato no rural contemporâneo.

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2022-12-06T13:14:02Z

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Porro,Roberto Porro,Noemi Sakiara Miyasaka

Os limites do diálogo intercultural em contextos de guerra interétnica e pluralismo jurídico: o caso dos Waorani e Tagaeri-Taromenane no Equador

Resumo Neste artigo, propomos um debate atual sobre o pensamento decolonial e a ‘tradução intercultural’ dos direitos humanos, dentro de um marco de reconhecimento dos direitos, do pluralismo jurídico e do neocolonialismo global. O objetivo é descrever os limites do diálogo intercultural em um contexto de judicialização de guerra interétnica tradicional entre povos indígenas de recente contato e em situações de isolamento voluntário na Amazônia equatoriana, território atravessado e exacerbado por atividades econômicas de mercado, promovidas por agentes e atores públicos e privados, nacionais e transnacionais. O artigo identifica padrões de poder que revelam a tensão entre o universalismo abstrato dos direitos humanos e as instituições da organização social tradicional dos povos indígenas Waorani e dos Tagaeri-Taromenane. A descrição das tensões e dos limites nos permite relativizar os diferentes significados do diálogo intercultural através do perspectivismo ameríndio e do pensamento decolonial.

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2022-12-06T13:14:02Z

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Araujo,Felipe Nascimento Parra,Diego Andrés

La damntopofanía en el arte rupestre venezolano o la antinomia lógica campesina/patrimonio cultural

Resumen A partir de datos acopiados mediante técnicas de investigación documental y de campo, y utilizando como unidades de análisis categorías conceptuales pretendidamente enmarcadas dentro de las teorías animistas, se presentan algunas premisas que intentan explicar las tramas de significación comunitaria sobre el arte rupestre en las regiones históricas venezolanas y su relación con la noción de patrimonio cultural. Se sugiere la posibilidad de que ciertas representaciones locales constituyan elementos antinómicos al concepto de patrimonio. A pesar de ello, se trataría de referentes que otorgan sentido al arte rupestre dentro del paisaje conceptualizado en el que se inserta, por tanto un elemento a considerar en su patrimonialización por, para, con y en las comunidades.

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2022-12-06T13:14:02Z

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Páez,Leonardo

Registros arqueobotânicos em um sambaqui amazônico: utilização de microalgas (Diatomáceas, Bacillariophyta) como indicadoras de alterações ambientais

Resumo Os registros das condições existentes durante a formação dos sítios arqueológicos foram obtidos a partir de pesquisas interdisciplinares. Inseridas no campo da arqueobotânica, as diatomáceas são microalgas capazes de indicar as condições pretéritas. Quando presentes nos solos arqueológicos, podem indicar cursos d’água próximos ao sítio ou inferir condições paleoambientais. Este artigo apresenta pioneiramente o registro de diatomáceas em toda a coluna bioantracológica de um sambaqui. Nesse sentido, amostras do Sambaqui Porto da Mina (Quatipuru, Pará, Brasil) foram analisadas ao longo da coluna sedimentar. As diatomáceas encontradas reforçam a ideia da permanência dos grupos sambaquieiros no local de construção por pelo menos 210 anos. As inferências ecológicas obtidas apontam que o assentamento estava em um ambiente geograficamente diverso, com entrada de água doce, salobra e marinha. Assim, a inclusão da análise das diatomáceas no contexto arqueológico representa uma técnica adicional para os estudos de reconstrução ambiental.

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2022-12-06T13:14:02Z

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Almeida,Pryscilla Denise Machado,Sauri Moreira Barros,Brenda Morales,Eduardo Antonio Canto,Paulo do Gaspar,Maria Dulce Ruivo,Maria de Lourdes Pinheiro Berrêdo,José Francisco

Respeitando diversidades, adiamos o fim do mundo

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2022-12-06T13:14:02Z

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Santos,Por Anderlany Aragão dos

Arte, Arqueologia e agência na Amazônia

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2022-12-06T13:14:02Z

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Oliveira,Erêndira Nobre,Emerson Barreto,Cristiana

A sintaxe dos corpos compósitos: agência e transformação na iconografia das tangas cerâmicas marajoara

Resumo Este artigo explora certos aspectos estilísticos e iconográficos das tangas cerâmicas marajoara, adentrando na seara da corporalidade, especialmente nas noções de composição, transformação e fabricação corporal. O recorte da categoria ‘tanga’ visa a destrinchar alguns dos aspectos relativos ao regime de figuração marajoara, sobretudo no que diz respeito às formas de materialização de princípios cosmológicos relacionados à fabricação, à composição e à transformabilidade dos corpos. Neste sentido, a iconografia destes objetos mostra corpos compósitos elaborados por meio da integração de uma miríade de seres e de suas partes anatômicas, assim como pelo uso de recursos gráficos que, possivelmente, indicam transformações corpóreas. Essa sintaxe dos corpos compósitos, desse modo, pode ser um ponto crucial para se pensar o papel das tangas e, com isso, sugere-se que elas fabricavam corpos e pessoas multicompostos.

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2022-12-06T13:14:02Z

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Silva,Emerson Nobre da

Os discos perfurados do período Tapajônico: análise tecnológica e questões contextuais

Resumo Objetos únicos na arqueologia amazônica, os discos perfurados da região do atual município de Santarém, Pará, foram confeccionados em matérias-primas variadas, porém os mais elaborados foram produzidos a partir de óxidos de ferro de granulação muito fina e homogênea. Tidos a priori como rodas de fusos, estes artefatos são comumente encontrados fragmentados nos sítios arqueológicos do período Tapajônico, iniciado por volta do século X até o presente. Decorados com traços muito finos, apresentam motivos gráficos não registrados nas cerâmicas tapajônicas. Debruçamo-nos sobre contextos arqueológicos de sítios estudados no município de Santarém, a partir do estudo de uma rica coleção de artefatos depositada na reserva técnica do Laboratório de Arqueologia da UFOPA (Coleção Juma Janaína), além de peças provenientes de outras coleções e publicações. Tendo como base a noção de cadeia operatória, a análise foca nos discos, nos processos envolvidos na aquisição da matéria-prima, na confecção, no uso, no descarte e na reciclagem desse material. Ao final, será demonstrado que ir além de estudos tipológicos permite avançar em dados tecnológicos, discutir questões contextuais, propor alternativas e revisões para interpretações embasadas em ideias pré-concebidas sobre o conhecimento tecnológico dos povos amazônicos do passado.

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2022-12-06T13:14:02Z

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Lima,Anderson Márcio Amaral Moraes,Claide de Paula Sá,Mayara dos Santos Ramos de

Revisitando os alter egos: figuras sobrepostas na iconografia Konduri e sua relação com o xamanismo

Resumo A noção de alter ego tem sido utilizada desde o começo do século passado para descrever um motivo caracterizado por uma figura sendo sobreposta por outra nas iconografias pré-coloniais do norte da América do Sul. Esse termo se refere também à sua interpretação baseada em analogias etnográficas de conceitos ameríndios. Este artigo rediscute os supostos alter egos a partir da análise iconográfica do estilo cerâmico Konduri (c. 1250-1650 AD). O estudo sistemático de um corpus com milhares de fragmentos e algumas vasilhas inteiras permitiu identificar três conjuntos com aves, cabeças de aves ou quadrúpedes sobre a cabeça de um antropomorfo ou zooantropomorfo. Sugere-se, a partir dos relatos etno-históricos e de informações etnográficas, que essas figuras podem ter agenciado observadores, conteúdos e contextos em rituais coletivos ou práticas xamânicas. Comparativamente, essas figuras exibem posturas e adornos similares aos relacionados ao tema visual dos antropomorfos sentados encontrados em vários outros estilos cerâmicos amazônicos, aludindo provavelmente a personagens-xamãs.

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2022-12-06T13:14:02Z

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Alves,Marcony Lopes

Corpo de barro, corpo de gente: metáforas na iconografia das urnas funerárias polícromas

Abstract Nos últimos anos, a Etnologia amazônica tem consolidado uma teoria do corpo que propõe uma concepção deste, entre os ameríndios, como uma matriz de relações e transformações entre seres e perspectivas distintas. Esta concepção é tida como um dos pilares da organização cosmopolítica destes povos e perpassa a produção de diferentes linguagens estéticas entre imagens, ritos, cantos, danças e artefatos. Com base nestas proposições, faremos um diálogo entre Arqueologia e Etnologia, analisando a linguagem iconográfica das urnas funerárias da Tradição Polícroma da Amazônia, no baixo e médio Solimões. Tais artefatos podem ser interpretados como corpos, compostos de referenciais humanos e animais bi e tridimensionais e cobertos de grafismos elaborados. Nossa proposta, neste artigo, é interpretar a iconografia destes objetos com base em seus elementos corporais, entre forma e ‘decoração’, discutindo como esses elementos podem trazer noções relativas à produção e à constituição de corpos e agentes sociais.

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2022-12-06T13:14:02Z

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Oliveira,Erêndira

Entre naturalismos y metáforas: el código icónico en la pintura corporal de las urnas funerarias de la fase Napo

Abstract En el presente artículo se expone un estudio iconográfico sobre los motivos figurativos que forman parte de la decoración pictórica de las urnas funerarias de la fase Napo (1118-1480 d.C.) perteneciente a la Tradición Polícroma Amazónica (TPA). Se propone que estos motivos se expresan mediante distintos niveles de ejecución artística, desde formas estilizadas hasta llegar a abstracciones metafóricas y sinecdóquicas respondiendo a distintos procesos de cognición. Estas imágenes han podido ser identificadas mediante el concepto de código icónico, que, a su vez, permite otorgar ciertas inferencias sobre su sistema ontológico, basado en una estética de seres metafóricos e híbridos en contraposición a figuraciones naturalistas, en las cuales resalta el ícono de la serpiente. Formas similares de representación artística, también se encuentran en sociedades amazónicas ecuatorianas del presente; por lo que, una perspectiva etnoarqueológica puede otorgar ciertas pautas interpretativas para una re-significación de estas figuraciones pictóricas intrínsecas a la fase Napo.

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2022-12-06T13:14:02Z

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Viteri,Tamia Alexandra

A paisagem e as cerâmicas arqueológicas na bacia Trombetas: uma discussão da Arqueologia Karaiwa e Wai Wai

Resumo Através da paisagem, dos sítios arqueológicos, das aldeias antigas, dos lugares com histórias do passado e da cerâmica arqueológica da bacia do rio Trombetas (Pará, Brasil), iniciamos uma discussão a partir de pontos de vista das arqueologias tradicional e indígena. Essa região é habitada por diversos povos indígenas, a maioria de origem Karib, tal como Wai Wai e Katxuyana. Tanto os objetos cerâmicos, em especial, os apliques zoomorfos Konduri, quanto os sítios, com grafismos rupestres e terra preta têm relação com histórias antigas, seja dos indígenas, seja de espíritos da natureza. A Arqueologia tradicional tende a lidar com a cultura material a partir de seus atributos formais e simbólicos, assim como sua referência cronológica, para reconstruir modos de vida de povos do passado. Já para os anciões indígenas, quando ouvidos, esses objetos e lugares trazem para superfície e para o presente aquilo que já foi ‘esquecido’ e ‘enterrado’ no passado.

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2022-12-06T13:14:02Z

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Jácome,Camila Wai,Jaime Xamen Wai

Pulupulu e warayumia: história e imagética do trocano do alto Xingu

Resumo Este artigo analisa as transformações históricas, visuais e cosmológicas de um raro ‘instrumento musical’ amazônico: o trocano, conhecido, respectivamente, como pulupulu e warayumia pelos Wauja e Kamayurá do alto Xingu. Historicamente produzido como um corpo artefatual da anaconda, esse ‘instrumento musical’ é central para a criação e a manutenção de um domínio de continuidade espaço-temporal entre o mundo dos espíritos aquáticos e a casa cerimonial da aldeia. Ausente da vida ritual xinguana por um período de 42 anos, o trocano foi feito, em 1998, pelos Kamayurá. Os Wauja, porém, não o fazem desde 1947. Embora entusiasmados com o retorno do trocano, os Wauja preferiram não incentivar a ideia de produzir, em sua própria aldeia, um objeto ritual tão poderoso e perigoso como esse. Pesava, então, sobre essa decisão o receio de não conseguirem alimentá-lo suficientemente. Esses fatos indicam duas coisas: que o trocano é, de fato, um objeto de ciclo ritual bastante longo e que modos mais sutis de embodiment dos poderes xamânicos da anaconda prevalecem no sistema de cultura material wauja. A principal hipótese desenvolvida neste artigo é que o trocano incorpora, por excelência, qualidades dos sistemas musical e gráfico, resultando, assim, em um hipercorpo de expressões sensoriais.

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2022-12-06T13:14:02Z

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Barcelos Neto,Aristoteles

Sobre urnas, lugares, seres e pessoas: materialidade e substâncias na constituição de um poço funerário Aristé

Resumo Na última década, uma série de escavações arqueológicas sistemáticas foi realizada pela equipe do Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá, produzindo um acervo muito rico e diversificado, que tem sido estudado e discutido por várias pessoas da equipe. Neste artigo, vou tomar como foco uma estrutura funerária que contém um conjunto de cerâmicas indígenas, algumas antropomorfas, oriundas de contextos arqueológicos cuidadosamente registrados, buscando explorar suas capacidades agentivas, e articulando suas propriedades materiais, aspectos estéticos e os próprios contextos de deposição. Partindo de uma perspectiva alimentada pela etnologia indígena da Amazônia, que tem salientado a potência da materialidade na relação com diversas gentes, procuro tecer narrativas que evidenciam o lugar do cuidado estético na produção destas peças para atrair olhares e produzir relações com quem as encontra. Para além da beleza, no entanto, minha proposta é explorar de que modos estas vasilhas e os demais materiais com os quais se conectam podem nos apontar uma série de relações que as pessoas que as produziram e utilizaram estavam criando e como as estavam usando entre outras pessoas, lugares e seres.

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2022-12-06T13:14:02Z

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Cabral,Mariana Petry

Do teso marajoara ao sambódromo: agência e resistência de objetos arqueológicos da Amazônia

Resumo Este artigo trata de objetos arqueológicos da Amazônia para além de seus contextos originais e, partindo de uma análise de seus atributos agentivos, introduz o conceito de objeto resistente. Considerando a agência de objetos e imagens marajoaras, procura entender quais são os atributos materiais e visuais que os tornam passíveis de ressignificação, através dos tempos e culturas, em variadas narrativas de construção de identidades. Entre aquilo que distinguimos como ‘tecnologias de encantamento’, destacamos a complexidade da organização de campos decorativos e motivos gráficos, assim como maneiras particulares de representar seres e seus corpos, tecnologias estas reaproveitadas e readaptadas em contextos ocidentais históricos e contemporâneos. Argumentamos que este exercício é necessário enquanto prática arqueológica, para melhor nos instrumentalizarmos no entendimento de onde reside a agência e resistência de certos artefatos arqueológicos e devolver o protagonismo às artes indígenas do passado que foram e continuam sendo reapropriadas ao longo do tempo, tanto em narrativas colonialistas como de resistência ou decoloniais.

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2022-12-06T13:14:02Z

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Barreto,Cristiana