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Breves apontamentos para a biografia do pintor João Eduardo Malheiro
<p>João Eduardo Malheiro nasceu no Porto, a 24 de Junho de 1821. Frequentou o curso de Filosofia da Universidade de Coimbra mas foi nas cidades italianas de Roma e Veneza que adquiriu a sua formação artística. Participou na exposição trienal da Academia Portuense de Belas Artes (1848) e no concurso para provimento do lugar de substituto da cadeira de Pintura Histórica da mesma Academia (1849), embora não tenha conseguido ser nomeado para o cargo. Em 1852, empregou-se na Alfândega do Porto, como aspirante de segunda classe, passando a dedicar-se à pintura somente nos tempos livres. Enviou os seus trabalhos às seguintes exposições: Exposição Industrial Portuense (1861); Exposição Internacional do Porto (1865); Exposição de Arqueologia e de Objetos Raros Naturais, Artísticos e Industriais (1867); Exposição Hortícola Internacional (1877). A sua pintura foi muito influenciada pelos mestres do paisagismo barroco veneziano dos séculos XVII e XVIII.</p>
A tratadística italiana e francesa: a confluência de influências na obra de um artista português do século XVIII
<p>A partir do século XVI, Portugal foi um dos países que absorveu uma quantidade significativa da produção dos principais centros europeus de edição. Com a internacionalização do gosto instaurado na corte de D. João V, no século XVIII, essa ação intensificou-se, conduzindo ao enriquecimento das coleções de informação veiculada pelo livro e pela estampa. Algumas destas fontes aportaram aos núcleos monásticos beneditinos do Entre Douro e Minho, pontos de passagem de frei José Vilaça, figura notável no panorama artístico bracarense. A sua biblioteca pessoal constitui um testemunho excecional, onde constam exemplares da tratadística italiana e francesa do início do século XVIII, fundamentais para a formação e informação do monge artista. Este soube interpretar as linguagens artísticas distintas, cruzá-las e plasmá-las de forma magistral nas obras criadas, evidenciando a excelência do seu génio criativo.</p>
Proprium sanctorum: o culto a suas relíquias e a seus relicários
<p>Este estudo visa entender o ideal da perfeição cristã primitiva por meio do culto dos santos mártires e a devoção a suas relíquias e relicários que marcou o cristianismo nos seus primórdios, ao buscar um modelo de santidade diferenciado dos cultos ditos pagãos. A Igreja orientava os fiéis a recorrerem pela oração a esses intercessores para a obtenção de graças. São considerados relíquias os corpos dos santos mártires, os objetos que lhes pertenceram ou tenham tocado seus restos mortais. No Brasil, o culto às relíquias desenvolveu-se no contexto da reforma tridentina, sob a influência dos missionários portugueses dos séculos XVI e início do XVII e, em Salvador, Bahia, por meio de bustos-relicários, sobretudo expostos no Mosteiro de São Bento, na Igreja de São Francisco e na antiga Igreja dos Jesuítas. Conclui-se que o estudo dos santos, de suas relíquias e relicários é importante para a compreensão dos vínculos estabelecidos pela Igreja entre os universos material e espiritual.</p>
2015
Francisco de Assis Portugal Guimarães
Nossa Senhora de Monserrate: a arte de uma igreja, patrimônio beneditino em Salvador / Bahia – Brasil
<p>A Igreja de Nossa Senhora de Monteserrat, pertencente ao patrimônio do Mosteiro de São Bento da Bahia, foi fundada pelos senhores da Torre de Garcia D’Avila na segunda metade do século XVI, tendo como projetista o arquiteto italiano Baccio de Filicaya; foi doada aos monges beneditinos pelo governador geral do Brasil, D. Francisco de Sousa na segunda metade desse século. O imóvel constituiu uma das igrejas anexas ou agregadas que em número de duas deviam estar anexadas aos mosteiros da Ordem no Brasil, conforme resoluções capitulares. Contudo, estas igrejas no Brasil não tiveram o mesmo significado econômico que em Portugal, sendo tratadas por vezes, como residências. Através do presente estudo pretende-se elencar componentes da arte daquela capela que remete à planta típica de muitas capelas rurais baianas. Destacamse os painéis de azulejos e o retábulo-mor, que integrados ao vocabulário decorativo dos espaços da nave e capela-mor configuram a identidade do secular espaço religioso.</p>
2015
Maria Hermínia Olivera Hernandez
As primeiras imagens do índio brasileiro no espaço europeu: a Adoração dos Reis Magos de Ulrich Apt o Antigo do retábulo de Santa Cruz de Augsburgo
<p>Os Descobrimentos implicaram o colapso de um mundo eurocêntrico e a construção de uma nova imagem da humanidade assente em diferentes conceções dos habitantes dos novos territórios. A iconografia do índio brasileiro remete para uma visão contraditória ao situar os indígenas do Novo Mundo nos extremos da escala ontológica. Algumas das representações do índio revelam um discurso evangelizador, crente nas utopias religiosas e na reconstrução da Igreja primitiva, apresentando-o como um ser primitivo, inocente e puro, não contaminado pelos vícios da civilização ocidental. Outras, pelo contrário, descrevem o indígena como bárbaro e selvagem, filosofia necessária para legitimar o imperialismo civilizador europeu. Ao contrário do que afirmam alguns autores, os relatos acerca do índio brasileiro tiveram repercussão na Europa. Entre outras, trataremos de uma obra de 1510 e conservada no Museu do Louvre, praticamente desconhecida, onde surge a figuração de um índio brasileiro como Rei Mago.</p>
“Son unas puercas todas las imágenes y unos pedazos de palo”: Manuel de Coito, escultor portugués acusado por blasfemias ante el Santo Oficio de la Inquisición. Buenos Aires, siglo XVII
<p>Este texto analiza la relación de la causa ante el Santo Oficio de la Inquisición contra el escultor portugués Manuel de Coito, que vivió en Buenos Aires en el siglo XVII. La fuente ha sido consultada en el Archivo Histórico de Madrid. El artículo refiere al Tribunal del Santo Oficio ante la blasfemia y la herejía, señala a las blasfemias contra la Virgen como tópico especial de las afrentas a la religión y las proposiciones y blasfemias atribuidas a Manuel de Coito. La presencia de artistas y artesanos de calidad en el espacio rioplatense fue escasa si la comparamos con las grandes ciudades y villas coloniales. Entre los más destacados artistas de Buenos Aires encontramos a este escultor oriundo de Porto, delatado por maltratar imágenes religiosas, lo que lo hizo sospechoso de judaísmo. Más allá de la verosimilitud de las imputaciones, se percibe la importancia de ciertas ideas y preconceptos y las modulaciones de la relación con las imágenes religiosas dentro del imaginario colonial.</p>
2015
Patricia Fogelman
O reflexo da arte internacional nos azulejos polícromos de Válega
<p>Iniciada a construção da Igreja Matriz de Válega em meados do século XVIII, só em 1779 se dá por concluída a nave do edifício, faltando ainda a capela-mor. Em 1787-1788, o templo é reduzido a cinzas, decorrendo obras de reconstrução já em 1813. É só no século XX que, sob o patrocínio de António Maria Augusto da Silva, são adquiridos os vitrais, feitos em Madrid, e encomendado à Fábrica Aleluia (Aveiro) o azulejamento da fachada, nave e baptistério. Este estudo incide essencialmente no revestimento azulejar (1958 a 1960), procurando responder a várias questões através da consulta da documentação, da leitura formal e das entrevistas efetuadas aos pintores intervenientes. Relativamente à documentação, destacam-se os desenhos inéditos realizados nas Oficinas de Escultura de Guilherme Ferreira-Thedim e na Fábrica Aleluia. Desta forma, foi possível constatar que a execução do esquema figurativo teve por base pinturas de artistas internacionais, sobretudo, italianos.</p>
2015
Sofia Nunes Vechina
Rodrigo Froilaz, esposo de Chamôa Gomes de Touges. Los fundadores de Santa Clara de Entre-os- Rios
<p>Rodrigo Froilaz es casi un desconocido para la historiografía portuguesa, no obstante pertenece a los Flaínez, una de las principales familias nobles de León. Su dilatada carrera política sirve de ejemplo para analizar el comportamiento de una parte de la nobleza leonesa tras la llegada al trono de Fernando III en 1230. Inicialmente, se opuso a la unión de León y Castilla, aunque pronto y ante las expectativas de expansión hacia el sur, sirvió a la monarquía, lo que le permitió aumentar su poder y patrimonio en León y Castilla; además, su matrimonio con Chamôa Gomes, fue una plataforma para participar en la política portuguesa y conseguir un importante patrimonio en este reino. Don Rodrigo Froilaz fundó junto a su esposa, Chamôa Gomes de Tougues, el primer monasterio de Clarisas de Portugal, Santa Clara de Entre-os-Rios.</p>
Capelas com planta centralizada no Nordeste do Brasil: entre a tradição portuguesa e a tratadística italiana
<p>Nosso objeto de estudo é constituído por quatro capelas localizadas nos estados da Bahia e Paraíba, edificadas entre o final do século XVI e o início do século XVIII. Estas capelas têm em comum as seguintes características: foram edificadas por iniciativa de particulares, estão situadas na área rural associadas a outras edificações, como uma casa senhorial ou um engenho de açúcar e, principalmente, foram concebidas sob o partido de planta centralizada. Devido a estas características formam um conjunto significativo na arquitetura religiosa brasileira e uma exceção, considerando o reduzido número de exemplares similares. No entanto, são poucos os estudos que lhes dedicaram alguma atenção, mas contribuíram ao apresentar hipóteses sobre os modelos de referência para concepção destas capelas. Tendo estes estudos como subsídio, nosso objetivo é verificar a pertinência das duas hipóteses sugeridas: associar a linguagem formal destas capelas a uma transferência de modelos oriundos da “tradição” portuguesa, ou associá-las a uma vertente “erudita” filiada à permanência da tratadística italiana em Portugal.</p>
A influência da tratadística européia na arte brasileira: o caso da Academia Imperial de Belas Artes do Rio de Janeiro
<p>O objetivo deste artigo é examinar a influência da tratadística européia – especialmente italiana – na Academia Imperial de Belas Artes do Rio de Janeiro, fazendo o recorte da fase inicial de sua história – na primeira metade do século XIX –, e tomando como objeto de estudo a formação de sua biblioteca – hoje pertencente ao Setor de Obras Raras do Museu D. João VI da Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro. A partir do Catálogo da Biblioteca (c. 1850), organizo as obras em temáticas genéricas, mas que são de interesse especial para a compreensão da importância da leitura e do manuseio destes livros, em grande parte ilustrados, na prática dos professores e na formação dos alunos da Academia. Desta maneira, é possível verificar a ênfase que era dada no ensino artístico ao estudo das obras da Antigüidade Clássica, dos tratados de caráter referencial da Renascença, das obras dos grandes mestres renascentistas e dos tratados técnicos de perspectiva e anatomia, evidenciando a importância da matriz italiana no pensamento artístico da Academia carioca, apesar da forte presença de professores franceses na primeira metade do século XIX.</p>
O restauro quinhentista da Igreja da Graça de Évora: influências teóricas de Alberti e um modelo formal no Tempio Malatestiano de Rimini
<p>As obras que converteram a Igreja de N. Sra. da Graça de Évora (c. 1534-41) em temple-of-glory destinado a D. João III (c.1534-42) parecem ter sido entendidas na sua época como uma espécie de restauro. Tal perspetiva permite questionar aqui a importância do De re aedificatoria (1486) de Leon Battista Alberti no mais vasto programa de requalificação urbana em que a obra se insere. Num momento em que a corte se revia no passado romano da cidade ambicionando elevá-la a capital do reino, tal projeto, assente na valorização de vestígios arqueológicos, parece seguir o trilho ideológico da renovatio urbis aberto em Roma quando Alberti se encontrava ao serviço do papa Nicolau V. O mesmo prisma permite sugerir ainda que o invulgar desenho da fachada da Graça se tenha inspirado noutro projecto de restauro realizado pelo próprio Alberti: o tempio desenhado para Sigismondo Malatesta, senhor de Rimini, tal como aparece representado na medalha comemorativa cunhada c. 1450.</p>
España ante el nacimiento de la Regeneração: la tentativa de una intervención militar (abril-julio de 1851)
<p>La Regeneração portuguesa estableció una profunda disimilitud en la evolución y modernización de los regímenes liberales en España y Portugal. El entendimiento entre los gobiernos moderado y cartista, hegemónicos en el poder en la década de los cuarenta, dio paso a una política de prevención por parte española, que siguió aplicando la estrategia de intervención frente al peligro revolucionario. El pronunciamiento militar capitaneado por Saldanha fue recibido por el ministerio de Bravo Murillo como un acto postrero de la oleada revolucionaria de 1848, con el riesgo añadido de la vecindad y de la interacción existente entre ambos países. El temor de ver establecido un gobierno radical en Portugal, como parecía indicar el inicial protagonismo de los setembristas, condujo al gobierno español a proyectar una intervención armada, para lo que trató de recabar el apoyo diplomático de las principales potencias europeas. La oposición del gobierno inglés y el carácter centrista con el que Saldanha dotó al movimiento regenerador – del que no fue ajena la presión de la Legación española en Lisboa, con Alcalá Galiano a la cabeza –, confirmado con la incorporación de Rodrigo da Fonseca y Fontes en el gobierno, consiguieron que la intervención militar no pasara del grado de tentativa.</p>
As relações luso-espanholas: do final da Primeira República ao Tratado de Amesterdão (1926 -1997)
<p>Neste artigo procura fazer-se uma síntese das relações políticas dos dois países ibéricos no período compreendido entre a implantação da República em Portugal (5 de Outubro de 1910) e o Tratado de Amesterdão (2 de Outubro de 1997). Ao longo de várias décadas, o relacionamento entre Portugal e Espanha conheceu momentos de aproximação (e até mesmo de cooperação e amizade) e momentos de forte tensão (que ressuscitaram velhos “fantasmas” iberistas e até anexionistas). Particularmente complexas foram as relações imediatamente a seguir à queda da Monarquia e durante o período em que Salazar e Franco estiveram, simultaneamente, à frente dos respectivos governos peninsulares. Arevolução de 25 de Abril de 1974 teve repercussões muito negativas no governo espanhol, situação que se agravou após o golpe de 11 de Março de 1975. Só após a morte de Franco (20 de Novembro de 1975) e do golpe militar, ocorrido no dia 25 desse mês em Lisboa, se criaram, finalmente, as condições para o estabelecimento de regimes verdadeiramente democráticos em Portugal e Espanha. A partir daí a normalização das relações peninsulares aconteceu com toda a naturalidade, situação que seria reforçada com a adesão dos dois países à CEE e, muito particularmente, com a via federalista que o Tratado de Amesterdão inequivocamente apontaria para o futuro da Europa.</p>
Cultura e cooperação: desafios e entraves à relação ibérica no contexto europeu
<p>Afronteira e a cooperação através das fronteiras apresentam-se na contemporaneidade como um dos eixos analíticos mais trabalhados quando pensamos a relação entre os Estados. Fortemente incentivada pelas políticas e mecanismos da União Europeia e pelos governos dos Estados ibéricos, a cooperação transfronteiriça na raia luso-espanhola, conhece desenvolvimentos significativos. Tem-se caracterizado por uma certa descontinuidade tanto no que respeita às zonas de aplicação, umas revelam maior dinamismo do que outras, como nos sectores de intervenção, mais dinâmico o sector económico, ambiental e de articulação territorial e menos o sector social e cultural. A cultura, que tem permanecido mais periférica nas preocupações dos agentes dinamizadores da cooperação, assume-se simultaneamente como o grande desafio e principal obstáculo à cooperação transfronteiriça, quando pensada a nível local. Propomo-nos neste artigo um duplo objectivo: tentar perceber de que forma a cultura se tem conseguido impor como uma das dimensões da cooperação transfronteiriça e dar atenção à forma como ela favorece ou dificulta o entendimento e desenvolvimento conjunto dos esforços tidos como necessários para uma verdadeira à cooperação através da fronteira. Para tratar estes objectivos, utilizamos as seguintes estratégias metodológicas: análise de documentos que regulam a cooperação transfronteiriça e análise do discurso directo das populações raianas. É a partir dos discursos que historicamente construíram a sua identidade local e nacional em contacto directo com a fronteira política e nas relações com o outro que mais facilmente se têm encontrado explicações para episódios de adesão e resistência a medidas europeias.</p>
2015
Maria de Fátima Amante
Los “petits pas” de la integración europea: la Agrupación Europea de Cooperación Territorial entre Galicia y la Región Norte de Portugal
<p>La creación de la Agrupación Europea de Cooperación Territorial Galicia-Norte de Portugal (GNP-AECT), en septiembre de 2008, representa un importante paso en el camino de la cooperación transfronteriza entre España y Portugal al constituir una nueva entidad, dotada de personalidad jurídica, con capacidad para actuar en ambos lados de la frontera. Surge así un nuevo instrumento de cooperación que permitirá acercar al ciudadano el proceso de integración europeo.</p>
População e Sociedade n.º 17
<p>Esta edição dá à estampa novos estudos sobre a história peninsular e o relacionamento dos dois países da Península Ibérica, desde os tempos medievos à contemporaneidade. As dimensões política, cultural, económica e populacional entrecruzam-se para elucidar atitudes e decisões que refletem as vivências de dois Estados e dois povos separados por um fronteira real e mental mas iniludivelmente unidos por laços que ora se estreitam ora se alargam, numa dinâmica histórica que sucessivamente se constrói e se problematiza.</p>
2012
Carlos Andrés González-Paz Luís Adão da Fonseca Vicente Álvarez Palenzuela Ignacio Chato Gonzalo Maria João Guardado Moreira Jorge Román Sónia E. Colantonio Pilar Zuluaga Maria José Blanco Vicente Fuster António José Queirós Maria de Fátima Amante Rafael García Pérez António José Queirós Carlos Andrés González-Paz Ignacio Chato Gonzalo Jorge Román Luís Adão da Fonseca Maria de Fátima Amante Maria João Guardado Moreira Maria José Blanco Pilar Zuluaga Sónia E. Colantonio Vicente Álvarez Palenzuela Vicente Fuster
Psicopatologia da maternidade e paternidade
<p>A maternidade/paternidade confere definitivamente o estatuto de adulto ao indivíduo, na medida em que testemunha a maturidade do seu corpo, e também, ao colocar um outro elemento da sociedade na sua total dependência, a maturidade do seu comportamento social. Na maior parte das culturas, é altamente valorizada dado que permite a preservação da espécie e a continuação de uma cultura específica (Kitzinger, 1978).</p>
2015
Bárbara Figueiredo
Eurico Figueiredo indagador
<p>Conheço Eurico Figueiredo há mais de quarenta anos e quase instantaneamente tornei-me seu amigo. Embora o nosso encontro na vida tivesse principiado pela acção política contra a ditadura, cedo detectei nele um homem multifacetado, com mais angústias do que certezas. Espírito eminentemente criador, Eurico Figueiredo tanto poderia ter sido artista plástico como homem politico fundador de regimes. Durante a crise académica de 1962, foi da sua cabeça que saíram as propostas mais arrojadas, como a da greve da fome, em que participou pessoalmente. Preso pela PIDE, deixou a ala radical da contestação estudantil sem estratego que conduzisse a luta política com eficácia. Há relatórios de diplomatas estrangeiros que referem o seu nome como um element chave do movimento estudantil que a ditadura temia.</p>
2015
Medeiros Ferreira
Lançamento do vinho “solar do prado”
<p>É com enorme prazer que me associo ao lançamento deste vinho. Pelo Douro, pelo vinho e sobretudo pelo Eurico. Conheço-o há cinquenta anos. Ou mais. Acho mesmo que sempre o conheci. Apesar de não parecer, ele é mais velho do que eu. Frequentava eu a escola primária e, depois, o liceu, em Vila Real, e o Eurico, com mais anos e mais vida, era um daqueles “mais velhos” que olhávamos com redobrada curiosidade. Quando ele saiu de Vila Real, para a Universidade, primeiro Coimbra, depois Lisboa, a seguir novamente Coimbra (desta vez por perseguição política), esperávamos por ele, nas férias, para nos trazer novidades. Do mundo. Da política. Da cultura. Dos livros. Das ideias. De coisas que não chegavam a Vila Real. Ou chegavam pouco.</p>
2015
António Barreto
8.ª foto: Eurico Figueiredo. Memórias de um fotógrafo ambulante (anos 40-90)
<p>– Tens uma cara porreira! Como te chamas? Estava no recreio do liceu, em Vila Real de Trás-os-Montes, no primeiro dia de aulas; e, quando vi em face de mim um tipo uns três ou quatro anos – pareceu-me – mais velho do que eu (eu tinha treze) com uma conversa daquele tipo – “Tens uma cara porreira! Como te chamas?” – confesso que fiquei completamente sem saber o que lhe dizer.</p>
2015
António Tavares-Teles