RCAAP Repository
Gender-differences in risk factors, symptom presentation and treatment associated with acute myocardial infarction
Introdução: O Enfarte Agudo do Miocárdio (EAM), apresenta um perfil clínico bem estabelecido, incluindo a sua maior prevalência no sexo masculino, os fatores de risco clássicos, e a sua apresentação sintomática aguda. Desta forma, EAM é historicamente considerado uma doença do sexo masculino. Estas circunstâncias podem interferir com o diagnóstico dos médicos através de um viés que pode originar subdiagnóstico e subtratamento nas mulheres, aumentando as diferenças verificadas entre os dois sexos. Objetivo: Avaliar as diferenças entre os fatores de risco, as características clínicas da apresentação e os tratamentos administrados a doentes do sexo masculino em comparação aos do sexo feminino, hospitalizados por EAM. Métodos: Estudo de coorte retrospectivo dos doentes internados entre 1.01.2019 e 31.12.2019 nos serviços de Medicina Interna de um hospital terciário, a avaliar as diferenças entre os géneros na prevalência dos fatores de risco, apresentação clínica e tratamento instaurado. Dados clínicos foram obtidos através dos registos clínicos eletrónicos do Centro Hospitalar. Resultados: Foram incluídos 107 doentes no estudo, dos quais 51 eram do sexo feminino. 47.1% das mulheres e 66.1% dos homens apresentavam história prévia de doença coronária (DC). A diferença foi significativa perante o tabagismo: apenas 13.7% do sexo feminino fumavam, enquanto 42.9% eram homens. Na apresentação inicial, 58.8% das mulheres e 78.6% dos homens apresentavam dor torácica típica. A angiografia coronária foi realizada em 70.0% das mulheres e 84.3% dos homens. Conclusões: As mulheres apresentaram menor número de eventos relacionados com DC prévia (p-value=0.047). De igual modo, uma minoria dos fumadores eram do sexo feminino. A apresentação inicial do enfarte agudo do miocárdio difere entre os dois sexos: as mulheres apresentaram menos frequentemente uma dor torácica típica (p-value=0.026). Adicionalmente, são submetidas com menos frequência a coronariografia (p-value=0.033).
Enterocolite necrosante no recém-nascido de termo e pré-termo tardio : análise de pequena série
A enterocolite necrosante (ECN) constitui a emergência gastrointestinal mais comum do período neonatal, estando associada a elevadas taxas de mortalidade e morbilidade. Os recém-nascidos em maior risco para o desenvolvimento desta doença são os grandes prematuros, representando cerca de 90% dos casos. Os restantes 10% ocorrem em recém-nascidos de termo e peritermo, constituindo, portanto, uma entidade mais rara. Nesta população, ao contrário dos recém-nascidos prematuros, associam-se frequentemente comorbilidades de base que tornam estes recém-nascidos mais suscetíveis ao desenvolvimento de ECN. As manifestações da doença, marcha diagnóstica e tratamento são sobreponíveis entre recém-nascidos prematuros e de termo. O diagnóstico é dificultado pela reduzida especificidade das manifestações da doença, sendo as radiografias seriadas de abdómen o meio complementar de diagnóstico goldstandard, com ou sem recurso à ecografia abdominal. O tratamento médico inclui a instituição de antibioterapia empírica de largo-espetro, pausa alimentar, nutrição parentérica e sonda nasogástrica para descompressão abdominal, sendo muitas vezes necessária intervenção cirúrgica. Além da prevenção da própria prematuridade e da evicção do uso de antibioterapia de largo espectro, a prevenção da doença passa pela administração de leite materno, sendo a maturação fetal com corticoterapia pré-natal e a administração de probióticos possíveis estratégias preventivas a adotar. Neste trabalho apresentam-se três casos clínicos de recém-nascidos de termo e pré-termo tardio, com idades gestacionais entre as 36 e as 38 semanas, que foram tratados num serviço de neonatologia de nível terciário. São casos exemplificativos de ECN em idades gestacionais avançadas, ilustrando as manifestações clínicas associadas à doença, a marcha diagnóstica realizada, os tratamentos a que foram submetidos, e os possíveis fatores de risco associados a esta população.
Existir através do retrato: a arte de desenhar do exterior para o interior
The recognition of the portrait story as a source of identity, and the personal and social connection we have with it is something that has accompanied us since the beginning of drawing. The relationship we establish with each other and the way we communicate starts mostly through the face and consequently this leads to the systematic representation of it in all forms. We have a trend of see faces and facial expressions everywhere and the development of portraiture and all artistic means that involve it throughout history is due to this same compulsive representation. The present investigation aims to understand how the portrait is inserted in our society and how it changes over time, focusing the main approach on the art of hyperrealism and its support from photography as an auxiliary means for its development. During this research, it was possible to understand and deeply approach the appearance of photography as a transforming element in the artistic world. All forms of art such as painting and drawing suffered the consequences by the emergence of such technology. However, at the same time that photography weakened plastic artists by becoming a kind of substitute for portrait drawing, it later became a strong ally of them. Subsequently, a practical work will be carried out around this research, elaborating several portrait drawings directed to a hyper realistic language, always in the support of photography, with the objective of deconstructing and remaking the components that constitute them, in search for a more plastic and singular record through a personal interpretation and looking away from an absolute photographic reality. In this practical work it will be analyzed and understood how it can be inserted in the hyperrealist aspect and compared with the photographic record, with the objective of promoting the personal and unique record of the artist.
Recent insights into autoimmune gastritis in childhood : an integrated review of an underestimated condition
A gastrite autoimune (GAI) é uma entidade nosológica bem caracterizada na população adulta. Embora tenha sido tradicionalmente considerada uma patologia que atinge predominantemente mulheres de idade avançada, estudos clínicos recentes reconhecem esta entidade clínica em doentes pediátricos. É uma doença rara na população pediátrica e frequentemente negligenciada na marcha diagnóstica com atraso no diagnóstico. No entanto, até ao momento, poucos estudos foram elaborados com o intuito de investigar a apresentação clínica, laboratorial e histopatológica em crianças, e ainda são escassos os estudos publicados reportando de forma integrada a literatura sobre AIG na idade pediátrica. OBJETIVOS: Este trabalho teve como objetivo rever a informação disponível sobre a AIG como entidade clínica, para posteriormente analisar e integrar com as informações existentes sobre AIG em séries pediátricas, com particular ênfase na apresentação e especificidades da população pediátrica. MÉTODOS: Por forma a concretizar esta revisão narrativa foram utilizados os motores de busca da PubMed, Mendeley e Cochrane Library. Posteriormente, foi compilada informação de relatos de casos, séries de casos, estudos transversais e estudos retrospetivos a literatura existente realizados em crianças com diagnóstico histológico de AIG avaliando dados demográficos, correlações clínicas, perfil laboratorial e características histopatológicas.CONCLUSÕES: A apresentação clínica de AIG é muito variada na idade pediátrica, sendo anemia ferropénica a principal manifestação reportada. O quadro clínico muitas vezes inespecífico contribui para o atraso diagnóstico reportado em crianças. O perfil laboratorial, achados endoscópicos e histológicos são sobreponíveis aqueles reportados no adulto. Dada a morbilidade a longo prazo associada à AIG, salienta-se a importância do seu reconhecimento e rastreio precoce, bem como do seguimento a longo-termo em populações-alvo.
Impacto psicossocial da experiência de cancro em adolescentes sobreviventes
Introdução: A taxa de sobrevivência de cancro pediátrico tem crescido nas últimas décadas, levando consequentemente ao aumento de efeitos secundários tardios, nomeadamente físicos (cardiotoxicidade, lesões de órgão alvo, osteoporose), psiquiátricos (depressão, ansiedade, stress pós-traumático) e cognitivos. A adolescência é uma fase de transição com dificuldades psicossociais específicas, podendo estas ser agravadas pelos desafios que a experiência de cancro apresenta, como tal é importante compreendê-la melhor. Objetivos: Perceber qual o impacto psicossocial da experiência de cancro em adolescentes (10 a 19 anos) que tiveram a doença. Identificar as necessidades dos adolescentes no processo de sobrevivência e as medidas que melhorem o acompanhamento dos mesmos. Métodos: Foi realizada uma revisão sistemática da literatura, através da pesquisa de palavras-chave que incluem ‘childhood cancer’, ‘adolescent survivors of cancer’, ‘psychological outcomes’ e ‘social outcomes’ nas bases de dados MEDLINE (PubMed), PMC (PubMed Central) e ScienceDirect (Elsevier). Resultados: Identificou-se um comprometimento no domínio cognitivo, com alteração principalmente da velocidade de processamento, e ao nível das capacidades sociais. No domínio psicossocial a literatura não é consensual, existindo estudos em que os sobreviventes apresentam mais sintomas de sofrimento psicológico do que a população em geral. Por outro lado, outros não identificam diferenças significativas entre os dois grupos e alguns referem ainda um melhor bem-estar psicológico. Os sobreviventes apresentavam uma taxa significativa de comportamentos de risco, sendo semelhante ou ligeiramente inferior à população em geral. Conclusões: Apesar da maioria dos sobreviventes não apresentarem problemas de saúde mental, existe um pequeno grupo com maior vulnerabilidade ao sofrimento psicológico. A sua identificação precoce permite um acompanhamento adequado e uma minimização das consequências negativas da experiência de cancro
Effectiveness of a lifestyle weight-loss intervention targeting inactive former elite athletes: the Champ4Life randomised controlled trial
Objectives: Many athletes struggle in managing the end of their career, often gaining weight and adopting unhealthy lifestyles. Lifestyle programmes targeting former athletes who have gained substantial fat mass (FM) postsports career are lacking. We studied the effects of the Champ4Life programme on body composition and other health-related outcomes in former elite athletes with overweight or obesity. Methods: Ninety-four former athletes(42.4±7.3 y, 34.0% female) were recruited and randomly assigned to either an intervention group (IG; n=49) or a control group (CG; n=45). The IG attended 12 educational sessions addressing physical activity, weight management and nutrition. They also had a nutrition appointment aimed to prescribe a moderate caloric deficit(~300-500 kcal/day). Dual-energy X-ray absorptiometry was used to assess body composition. The Short-Form Health Survey-36 questionnaire was used to measure general health-related quality of life. Blood samples were collected to assess cardiometabolic health parameters. Results: At 12 months, the IG lost more weight (estimated difference (ED)=-5.3 kg; -6.9 to -3.8), total FM (ED=-4.1 kg; -5.4 to -2.8) and abdominal FM (ED=-0.49 kg; -0.64 to -0.33) than did the CG (p's<0.001). Cardiometabolic health markers also improved significantly (p<0.05) more in the IG at 12 months (insulin (ED=-4.9 μU/mL;-8.0 to -1.8); homoeostatic model assessment (ED=-1.2; -2.1 to -0.4); total cholesterol (ED=-21.8 mg/dL; -35.4 to -8.2); low-density lipoprotein (ED=18.2 mg/dL;-29.2 to -7.1)), as did quality-of-life dimensions (physical functioning (ED=11.7; 6.5 to 16.9); physical role (ED=17.6; 2.1 to 33.0); general health (ED=19.4; 11.4 to 27.4); vitality (ED=13.3; 5.3 to 21.3) and mental health (ED=12.3; 4.1 to 20.6)). Conclusions: The Champ4Life programme was effective in substantially reducing total and abdominal FM while preserving fat-free mass and improving health-related markers. These findings will enable evidence-based decisions when implementing lifestyle interventions targeting retired elite athletes.
2022
Silva, Analiza M Nunes, Catarina L. Jesus, Filipe Francisco, Ruben Matias, Catarina N. Cardoso, Miguel Santos, Inês Carraça, Eliana V. Finlayson, Graham Silva, Marlene N. Dickinson, Stephanie Allison, David Minderico, Cláudia Martins, Paulo Jorge Sardinha, Luís B.
Evidence-based digital tools for weight loss maintenance: the NoHoW project
Background: Effective interventions and commercial programmes for weight loss (WL) are widely available, but most people regain weight. Few effective WL maintenance (WLM) solutions exist. The most promising evidence-based behaviour change techniques for WLM are self-monitoring, goal setting, action planning and control, building self-efficacy, and techniques that promote autonomous motivation (e.g., provide choice). Stress management and emotion regulation techniques show potential for prevention of relapse and weight regain. Digital technologies (including networked-wireless tracking technologies, online tools and smartphone apps, multimedia resources, and internet-based support) offer attractive tools for teaching and supporting long-term behaviour change techniques. However, many digital offerings for weight management tend not to include evidence-based content and the evidence base is still limited. The Project: First, the project examined why, when, and how many European citizens make WL and WLM attempts and how successful they are. Second, the project employed the most up-to-date behavioural science research to develop a digital toolkit for WLM based on 2 key conditions, i.e., self-management (self-regulation and motivation) of behaviour and self-management of emotional responses for WLM. Then, the NoHoW trial tested the efficacy of this digital toolkit in adults who achieved clinically significant (≥5%) WL in the previous 12 months (initial BMI ≥25). The primary outcome was change in weight (kg) at 12 months from baseline. Secondary outcomes included biological, psychological, and behavioural moderators and mediators of long-term energy balance (EB) behaviours, and user experience, acceptability, and cost-effectiveness. Impact: The project will directly feed results from studies on European consumer behaviour, design and evaluation of digital toolkits self-management of EB behaviours into development of new products and services for WLM and digital health. The project has developed a framework and digital architecture for interventions in the context of EB tracking and will generate results that will help inform the next generation of personalised interventions for effective self-management of weight and health.
2021
Stubbs, R. James Duarte, Cristiana Palmeira, António Labisa Sniehotta, Falko F. Horgan, Graham Larsen, Sofus C. Marques, Marta M. Evans, Elizabeth H. Ermes, Miikka Harjumaa, Marja Turicchi, Jake O’Driscoll, Ruari Scott, Sarah E. Pearson, Beth Ramsey, Lauren Mattila, Elina Matos, Marcela Sacher, Paul Woodward, Euan Mikkelsen, Marie-Louise Sainsbury, Kirby Santos, Inês Encantado, Jorge Stalker, Carol Teixeira, Pedro J. Heitmann, Berit Lilienthal
The H2020 “NoHoW project”: a position statement on behavioural approaches to longer-term weight management
There is substantial evidence documenting the effects of behavioural interventions on weight loss (WL). However, behavioural approaches to initial WL are followed by some degree of longer-term weight regain, and large trials focusing on evidence-based approaches to weight loss maintenance (WLM) have generally only demonstrated small beneficial effects. The current state-of-the-art in behavioural interventions for WL and WLM raises questions of (i) how we define the relationship between WL and WLM, (ii) how energy balance (EB) systems respond to WL and influence behaviours that primarily drive weight regain, (iii) how intervention content, mode of delivery and intensity should be targeted to keep weight off, (iv) which mechanisms of action in complex interventions may prevent weight regain and (v) how to design studies and interventions to maximise effective longer-term weight management. In considering these issues a writing team within the NoHoW Consortium was convened to elaborate a position statement, and behaviour change and obesity experts were invited to discuss these positions and to refine them. At present the evidence suggests that developing the skills to self-manage EB behaviours leads to more effective WLM. However, the effects of behaviour change interventions for WL and WLM are still relatively modest and our understanding of the factors that disrupt and undermine self-management of eating and physical activity is limited. These factors include physiological resistance to weight loss, gradual compensatory changes in eating and physical activity and reactive processes related to stress, emotions, rewards and desires that meet psychological needs. Better matching of evidence-based intervention content to quantitatively tracked EB behaviours and the specific needs of individuals may improve outcomes. Improving objective longitudinal tracking of energy intake and energy expenditure over time would provide a quantitative framework in which to understand the dynamics of behaviour change, mechanisms of action of behaviour change interventions and user engagement with intervention components to potentially improve weight management intervention design and evaluation.
2021
Stubbs, R. James Duarte, Cristiana O’Driscoll, Ruairi Turicchi, Jake Kwasnicka, Dominika Sniehotta, Falko F. Marques, Marta M. Horgan, Graham Larsen, Sofus Palmeira, António Labisa Santos, Inês Teixeira, Pedro J. Halford, Jason Heitmann, Berit Lilienthal
Excreted Trypanosoma brucei proteins inhibit Plasmodium hepatic infection
Malaria, a disease caused by Plasmodium parasites, remains a major threat to public health globally. It is the most common disease in patients with sleeping sickness, another parasitic illness, caused by Trypanosoma brucei. We have previously shown that a T. brucei infection impairs a secondary P. berghei liver infection and decreases malaria severity in mice. However, whether this effect requires an active trypanosome infection remained unknown. Here, we show that Plasmodium liver infection can also be inhibited by the serum of a mouse previously infected by T. brucei and by total protein lysates of this kinetoplastid. Biochemical characterisation showed that the anti-Plasmodium activity of the total T. brucei lysates depends on its protein fraction, but is independent of the abundant variant surface glycoprotein. Finally, we found that the protein(s) responsible for the inhibition of Plasmodium infection is/are present within a fraction of ~350 proteins that are excreted to the bloodstream of the host. We conclude that the defence mechanism developed by trypanosomes against Plasmodium relies on protein excretion. This study opens the door to the identification of novel antiplasmodial intervention strategies.
2021
Temporão, Adriana Sanches-Vaz, Margarida Luís, Rafael Nunes-Cabaço, Helena Smith, Terry K. Prudêncio, Miguel Figueiredo, Luisa M.
Uma biografia breve da enguia: do Mar dos Sargaços à Feira de São Mateus em Viseu, passando pela ria de Aveiro
As enguias – consideramos a enguia europeia: Anguilla anguilla – são peixes que, em certos aspetos, permanecem ainda hoje misteriosos. O seu nascimento ocorre no longínquo Mar dos Sargaços, sendo arrastadas, pela Corrente do Golfo, através do Atlântico, durante cerca de três anos, até ao litoral europeu. Aqui, migram para os rios e estuários, adaptando-se, muito rapidamente, à vida em água doce. As enguias sofrem metamorfoses, crescem e continuam o seu percurso através de rios, ribeiros e riachos até encontrarem um lar com suficiente comida, onde permanecerão até chegarem a uma idade entre 12 e 24 anos. Depois regressam ao seu lugar de origem para se reproduzirem. Em Portugal é muito antiga a pesca de enguias na ria de Aveiro, assim como o seu aproveitamento para consumo humano. Desde o início dos anos 1940 foi estabelecida na Murtosa a fábrica de conservas COMUR, que privilegiava a conservação de enguias em escabeche. As enguias de escabeche consumidas desde o século XIX na Feira de São Mateus, em Viseu, chegavam da Murtosa em barricas de madeira. Hoje, essas barricas deram lugar a outras de folha de flandres e as enguias da fábrica de conservas, em vez de virem da Ria de Aveiro, são adquiridas noutros países que as cultivam em cativeiro. Sendo uma espécie ameaçada de extinção, são, na Ria, cada vez mais raras. A enguia ainda é, porém, um peixe popular nesta região, inspirando uma série de receitas como, a caldeirada de enguias, a canja de enguias, as enguias à pescador e as enguias de escabeche, que estão documentadas em receituários antigos e modernos. Foi a receita das enguias de escabeche que celebrizou as enguias da Murtosa, sendo as mulheres que fritavam o peixe, as chamadas “fritadeiras” da Murtosa, credoras dessa fama. O peixe, depois de frito, era conservado em molho de escabeche, feito com vinagre, sendo acondicionado e vendido na Feira de São Mateus, em Viseu, e noutras feiras do Centro do país, onde era bastante apreciado. A tradição mantém-se nos dias de hoje.
Relação entre o tabagismo dos pais e o consumo de tabaco dos filhos : implicações para a prevenção
Introdução: Para se tomarem medidas de prevenção do consumo de tabaco eficazes, é necessário conhecer em detalhe quando, onde e porque se começa a fumar. O tabagismo dos pais, bem como as suas atitudes em relação ao tabaco, têm sido associados de uma forma constante com o tabagismo dos jovens. Objectivos: O principal objectivo desta investigação é determinar a relação entre o consumo de tabaco dos pais/mães e o dos filhos e a relação entre o consumo de tabaco dos pais/mães no domicílio e o dos filhos. Metodologia: Para atingir estes objectivos realizou-se no final do ano lectivo de 2002/2003 um estudo do tipo observacional analítico transversal a uma amostra de 1.141 alunos de 7 escolas EB 2,3 de Braga. Para atingir o primeiro objectivo comparou-se a prevalência do tabagismo em filhos de pais/mães fumadores e filhos de não fumadores através do X2. Para atingir o segundo objectivo comparou-se, através de uma análise do X2, a prevalência de alunos fumadores nos seguintes grupos: filhos de pais não fumadores; filhos de pais/mães fumadores que não fumam em casa; filhos de fumadores/as que fumam ocasionalmente em casa e filhos de fumadores/as que fumam diariamente no domicílio. Resultados: A percentagem de alunos fumadores diários e semanais é maior no grupo de alunos cujos pais fumam (respectivamente 5,2 e 5,7%) do que no grupo de alunos filhos de pais que não fumam (respectivamente 3,3 e 2,0%), sendo as diferenças estatisticamente significativas (p=0,004). Constata-se que a percentagem de alunos fumadores diários é maior no grupo de alunos cujas mães fumam (8,7%) do que no grupo de alunos filhos de mães que não fumam (3,1%), sendo as diferenças estatisticamente significativas (p=0,006). Verifica-se ainda que a percentagem de alunos fumadores é maior no grupo cujos pais fumam diária ou ocasionalmente em casa, sendo as diferenças estatisticamente significativas no caso do pai. Conclusões: Os dados do estudo permitem concluir que o consumo de tabaco pelos pais e pelas mães, particularmente no domicílio, é um factor microssocial de risco relacionado com o consumo de tabaco pelos filhos. Fumar no domicílio é também uma forma de maltratar as crianças pois é hoje reconhecida a toxicidade do fumo ambiental do tabaco na saúde, em particular das crianças e dos asmáticos.
Mutação urbana na Lisboa medieval: das taifas a D. Dinis
O que resta da Lisboa islâmica e dos primeiros reis de Portugal? Que aconteceu na cidade após a alteração de poder entre cristãos e muçulmanos? Que impacto teve a cidade medieval na cidade posterior? Como se metamorfoseou na Lisboa que hoje conhecemos? “Mutação Urbana na Lisboa Medieval: Das Taifas a D. Dinis” propõe-se responder a estas perguntas, apresentando propostas concretas sobre a evolução da cidade numa reflexão suportada por mais de uma centena de mapas e ilustrações. Com uma metodologia multidisciplinar, faz-se pleno uso não só do imenso potencial oferecido pelos recentes dados arqueológicos, mas também da cartografia histórica e da produção artística sobre a cidade pós-medieval. A investigação foi ainda complementada por uma extensa pesquisa bibliográfica e documental, que levou à extracção de informação de centenas de documentos medievais. As hipóteses aqui formuladas fundam-se, assim, numa pesquisa inovadora, ampla e fundamentada. A transição entre o domínio político islâmico e o cristão é um momento de charneira, em que as suas continuidades e rupturas marcam decisivamente a forma urbana da cidade medieval, génese da Lisboa moderna. Desvelando este período, tempo e espaço cruzam-se numa obra que permite observar, acompanhar e compreender a ancestral cidade da foz do Tejo. O urbanismo da Lisboa medieval marcou a imagem de toda a cidade, até meados do século XVIII, sendo então parcialmente reconfigurada com as remodelações pombalinas. Neste livro, demonstra-se que foi na época medieval que se estabeleceu, definitivamente, a direcção ocidental do seu futuro crescimento urbano e que se implantou o centro comercial e social na Ribeira, revelando a intensa vocação marítima da cidade medieval, factores primordiais para a Lisboa das épocas posteriores.
As competências para o trabalho remoto numa amostra recolhida em Portugal
O trabalho remoto é um tema alvo de estudo e debate desde que começou a ser colocado em prática, há cerca de quarenta anos. Um dos aspetos mais debatidos dentro do tema do trabalho remoto diz respeito aos benefícios e desafios percecionados tanto pelos trabalhadores, como pelas organizações, neste contexto específico de trabalho. Esta discussão permanece acesa em 2021, particularmente devido à pandemia. Tal acontece porque, para dar resposta ao confinamento obrigatório, a solução adotada por muitas organizações como forma de não perderem a capacidade produtiva foi o trabalho remoto. Esta conjuntura exigiu uma adaptação rápida e inesperada por parte de todos os elementos organizacionais e, nesse sentido, torna-se crítico continuar a investigar sobre o tema na atualidade. Dessa forma, o presente estudo foca-se na relação entre o trabalho remoto e as competências comportamentais, pois tem como base a premissa de que, para maximizar os benefícios e minimizar os desafios, é importante que os trabalhadores possuam as competências adequadas para serem bem-sucedidos no trabalho remoto. Partindo de um estudo realizado pela SHL (2020), que identificou as nove competências-chave para o trabalho remoto, o objetivo da presente investigação é perceber em que medida essas nove competências estão presentes numa amostra recolhida em Portugal. Através da análise dos resultados obtidos na resposta ao questionário RemoteWorkQ – instrumento desenvolvido pela SHL que se baseia na autoperceção dos participantes relativamente ao seu desempenho em trabalho remoto – são obtidas informações acerca do nível em que os participantes possuem as nove competências, dividindo-se em baixo, médio e alto. Verifica-se que a amostra recolhida em Portugal tem necessidades de desenvolvimento na maioria das competências analisadas, o que sugere existir uma carência de experiência, mas também de formação, neste contexto em específico. Além disso, os resultados decorrentes da técnica de análise estatística qui-quadrado revelam que os participantes de faixas etárias mais avançadas (36 a 45 anos e 46 ou mais anos) consideram possuir maior número de competências para trabalhar remotamente, acabando por desconstruir muitos estereótipos acerca da adaptação das gerações mais velhas às tecnologias e à mudança.
Adipose tissue-associated cancer risk: is it the fat around the liver, or the fat inside the liver?
The association between obesity and cancer risk has been extensively characterized. In a prospective study of more than 900,000 adults free of cancer at enrollment and observed during a 16-year follow-up, Calle et al. were able to calculate the risk of mortality for cancer at different sites in relation to body mass index (BMI), as well as the proportion of all deaths from cancer attributable to overweight and obesity. In both men and women, a high BMI increased the risk of cancer, and for several cancers the risk appeared to increase in a BMI-dependent manner. The authors concluded that overweight and obesity in the adult US population could account for 14% of all cancer deaths in men and 20% of those in women. Notably, cancer at liver site was recorded as one of the sites at higher risk, particularly in men. These data were confirmed by analysis of cancer incidence rates in 221 databases, including nearly 300,000 cases of cancer at different sites, with obesity accounting for a variable population attributable fraction of all cancers.
2019
Marchesini, Giulio Petroni, Maria Letizia Cortez-Pinto, Helena
Revisão sistematizada de intervenções em perturbação de stress pós-traumático após agressão sexual em adultos
A Perturbação de Stress Pós-Traumático (PSPT) é uma doença mental que tem um impacto muito profundo na vida do indivíduo em todas as áreas da sua vida. Surge após viver, observar ou tomar conhecimento de um evento traumático, incluindo agressão sexual. Apesar de existir bastante literatura e diversas revisões sistemáticas acerca da PSPT, não existe nenhuma em que o trauma desencadeador seja exclusivamente a agressão sexual. Nesse sentido surge esta revisão sistematizada que procura identificar as intervenções psicológicas eficazes no tratamento de PSPT após agressão sexual na população adulta. Foi realizada uma pesquisa sistemática nas bases de dados EBSCo, SIBUL, Web of Science, Scopus, ScIELO, PubMed, com limitação entre 2015 e 2021. Foram estabelecidos como critérios de inclusão: indivíduos com mais de 18 anos e alvo de intervenção em PSPT após agressão sexual, metodologia de intervenção clara e explícita, resultados quantitativos, com avaliação pré, pós-intervenção e em follow-up, de forma a permitir avaliar a eficácia da intervenção. Foram incluídos 10 artigos na revisão sistematizada. Foi possível identificar seis intervenções distintas: exposição prolongada, dessensibilização e reprocessamento por movimentos oculares (EMDR), terapia focada na emoção, terapia cognitivo-comportamental, treino de neurofeedback e treino de competências. Todas se revelaram eficazes na redução da sintomatologia de PSPT e outras perturbações como depressão e ansiedade. Concluímos, por isso, que as intervenções para PSPT após agressão sexual têm um papel importante na redução da sintomatologia psicopatológica e na recuperação do trauma de agressão sexual.
Tornar-se pai durante a pandemia : vivências no contexto de um stressor multissistémico
A transição para a parentalidade é a uma fase importante do ciclo de vida familiar, com vários desafios associados, bem conhecidos na literatura. Com a pandemia COVID-19, os novos pais viram o stress inerente à parentalidade associado a preocupações específicas desencadeadas pelo contexto pandémico. Particularmente, este contexto adverso teve implicações na vivência da paternidade, com muitos pais a serem afastados de eventos de transição importantes, como consultas e ecografias ou mesmo o parto. Ainda pouco se sabe acerca das consequências da pandemia na parentalidade e, em específico, na transição para a paternidade. O presente estudo qualitativo explorou as perceções paternas do impacto da pandemia na vivência da transição para a parentalidade. Foram realizadas entrevistas individuais semiestruturadas a 12 homens que se tinham tornado pais durante a pandemia, em Portugal. Efetuou-se uma análise temática dos dados, com recurso ao software NVivo®, tendo emergido quatro categorias principais: Fases de Transição, Tornar-se Pai, Impacto da Pandemia e Adaptação à Transição. Os dados apoiaram a ideia de que a paternidade é um processo construído e vivenciado de forma individual, com influência de fatores multissistémicos e marcado por várias fases. Os participantes identificaram principalmente aspetos negativos da pandemia e do seu impacto na transição para a parentalidade, nomeadamente, perceções de impotência e injustiça causadas pelo afastamento das consultas, ecografias e, por vezes, parto e internamento pós-parto, bem como o afastamento da família. Contudo, os participantes também identificaram aspetos positivos como, por exemplo, a nível parental, o maior envolvimento e disponibilidade durante todas as fases de transição para a parentalidade, proporcionados por medidas laborais como o teletrabalho ou mesmo o lay-off que permitiram aos pais estar mais tempo em casa. Apesar dos fatores de stress, os pais procuraram adaptar-se, por exemplo, através da criação de novos rituais, o que contribuiu para a adaptação positiva à transição. Os resultados foram discutidos à luz da perspetiva sistémica, tendo-se ainda refletido acerca das implicações dos resultados para a prática e para a investigação na área da família. Este estudo teve um caráter inovador, trazendo novos conhecimentos sobre uma realidade atual e ainda pouco estudada e respondendo a importantes lacunas nesta área e neste contexto adverso particular.
O Neolítico Médio no sul de Portugal. O Sítio da Moita do Ourives (Benavente), no quadro do povoamento do 5º e 4º milénios AC
O objectivo principal deste trabalho é a definição de uma etapa pouco conhecida na Pré-História do Ocidente Peninsular, o Neolítico médio. Esta análise, parte do momento final do Neolítico antigo até à fase plena do Neolítico médio, englobando um espaço cronológico que tem início na segunda metade do 5º milénio finalizando no terceiro quartel do 4º milénio cal BC. Pretendeu-se, através da evidência empírica disponível e do estudo integral da ocupação do Neolítico médio da Moita do Ourives (Benavente), caracterizar os espaços de habitat das comunidades deste momento crono-cultural, reflectindo acerca do seu lugar na dinâmica do processo de Neolitização, no Centro e Sul do actual território português. Em simultâneo, procurou-se detectar a existência de mudanças e/ou continuidades relativamente aos primeiros grupos neolíticos, quer a nível social, na cultura material, na economia, nas estratégias de exploração do espaço e comportamento simbólico. Em contraste com as dinâmicas das primeiras fases do processo de Neolitização, caracterizadas por identidades culturais bem vincadas, o Neolítico médio no Ocidente Peninsular parece caracterizar-se por um momento de grande “coerência social”, materializada nos espólios domésticos e funerários - bastante uniformes - que são transversais a um amplo território. Com uma forte dinâmica de circulação, os grupos humanos deste período exploram distintos contextos geomorfológicos e ecossistemas, adaptando as suas práticas de subsistência, de cariz agro-pastoril e cinegético, à tipologia funcional das distintas ocupações domésticas, geralmente de curta duração.
Internacionalização semi-automática de software
Num mercado cada vez mais global e competitivo, as empresas de desenvolvimento de software são pressionadas para melhorar a sua eficiência e eficácia, diminuindo o tempo e custos associados aos seus processos internos, em especial os que incluem passos repetitivos. O projeto subjacente a este relatório foi realizado na empresa TrustSystems, com o principal objetivo de desenvolver um software, chamado EasyLang, para automatizar, tanto quanto possível, as transformações necessárias ao código fonte de programas que tenham sido desenvolvidos com suporte apenas para uma língua na sua interface de utilizador, para que passem a suportar múltiplas línguas. Neste relatório são apresentados os tópicos centrais para este projeto, que são a internacionalização (i18n), a localização (L10n) e a tradução automática (TA), é feita uma análise de vários softwares disponíveis no mercado e que se aproximam das funcionalidades pretendidas para o EasyLang, e e feita uma descrição detalhada do desenho e implementação do EasyLang, incluindo uma analise de várias Application Programming Interface (interface de programação de aplicações)s (APIs) de Tradução Automática (TA) que serviu de suporte a escolha da API integrada no EasyLang. Este projeto reveste-se de grande relevância, uma vez que da um passo no sentido de promover o multilinguismo e a igualdade no acesso a informação por parte de utilizadores com línguas maternas diversas.
As literaturas portuguesa e búlgara numa perspectiva comparatista e outros estudos
Na sequência do livro intitulado Ficção em Língua Portuguesa. Ensaios, editado com a chancela de Roma Editora, em 2010, o presente volume reúne dez estudos, três dos quais publicados em livros nos quais são contempladas narrativas de Afonso Cruz, José Cardoso Pires e Ana Teresa Pereira. Os restantes sete foram apresentados, em forma de conferências e comunicações, em congressos e colóquios nacionais e internacionais. Estes encontros científicos, organizados por departamentos académicos, tiveram lugar, entre 2006 e 2015, nas Universidades de Lisboa, Porto, Sófia, ELTE de Budapeste, Mato Grosso do Sul e Lublin. Dada a especificidade dos eventos em que se integraram, os estudos incidem sobre a ficção de escritores de língua portuguesa, como Arnaldo Saraiva, Gonçalo M. Tavares, José Saramago, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Rubem Fonseca e Mia Couto, entre outros. Os géneros privilegiados são o romance, o conto, a crónica e a estória, consubstanciando-se a metodologia adoptada em análises textuais de componentes temáticas, estruturais e pragmáticas. São incluídas ainda cinco recensões críticas, uma a um livro de narrativas breves e quatro a trabalhos de índole literária, linguística, histórica e cultural, de investigadores portugueses e estrangeiros.
A inserção de Portugal nas redes transeuropeias e na Europa. A construção da cidadania europeia em Geografia, 11º ano
O ensino de Geografia ocorre em um contexto que demanda à Educação, o desenvolvimento das competências que caracterizam a formação cidadã. Desde a adesão de Portugal a União Europeia, considera-se o carácter transnacional da cidadania e no estudo das temáticas de Geografia, constroem-se competências ao conhecer e compreender as interrelações desde o território local e contexto conhecido, de forma interescalar e multiescalar. Esta investigação desenvolveu-se numa abordagem qualitativa, com recurso a algumas análises quantitativas consoante a natureza dos dados ou da informação a transmitir; pautou-se pelas reflexões teóricas sobre a relevância do estudo do território local para o desenvolvimento do raciocínio geográfico; no entendimento que a formação cidadã deve ocorrer a partir de processos vivenciais e no contributo dos conhecimentos subsunçores dos alunos, conforme a Teoria da Assimilação da Aprendizagem e da Retenção Significativas, de David Ausubel. A prática letiva desenvolveu-se numa turma de 11º ano, da Escola Básica e Secundária Alfredo da Silva, no Barreiro, com incidência no tema A população, como se movimenta e como comunica e do tema A integração de Portugal na União Europeia: novos desafios, novas oportunidades. Os resultados da investigação evidenciam o potencial formativo da Geografia para o fortalecimento da cidadania territorial europeia e confirmam a relação complementar positiva entre o desenvolvimento do raciocínio geográfico e a construção de aprendizagens significativas, quando o recurso é o território local. Fez-se necessário conhecer e considerar os contextos cognitivos, espaciais e sociais da prática letiva para contornar as dificuldades em despertar a predisposição do aluno para as aprendizagens e para a construção de uma identidade multiescalar.